EXILADOS

POR

AMOR

Psicografia de Sandra Carneiro
Esprito de Lcius

OBS: Os direitos desta obra foram doados s obras assistenciais do Grupo
Cristo Assistencial Casa do Po XXXI, Atibaia, SP.

As pessoas que leram esta obra digitalizadas podem fazer uma contribuio 
diretamente visitando: http://www.vivaluz.com.br/vivaluz/casa-do-pao.html 


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Pesquisa liderada por James Hansen, da NASA, publicada em outubro 
de 2006 na revista PNAS (da Academia Nacional de Cincias dos EUA), 
constata que nas ltimas trs dcadas a Terra esquentou mais do que em 
toda a era industrial. O aumento foi de 0,2C por dcada, uma acelerao 
sem precedentes que pe fim  esperana de estabilizao do clima. 

O pesquisador afirma que, se o aquecimento alcanar mais 2C ou 
3C, provavelmente veremos mudanas que tornaro a Terra um planeta 
diferente do que conhecemos hoje. A ltima vez que ela esteve to quente 
foi no Plioceno, h 3 milhes de anos, quando o nvel do mar era 25 metros 
mais alto que hoje. 

J o Relatrio Stern, comandado por Nicholas Stern (ex-economistachefe 
do Banco Mundial), divulgado em outubro de 2006, mostra que as 
evidncias cientficas do aquecimento global so impressionantes e decisivas. 


Segundo o relatrio, a elevao da temperatura global e o conseqente 
aumento do nvel do mar, devido  expanso do oceano e ao derretimento de 
geleiras de terra firme, podero causar inundaes que obrigaro at 100 
milhes de pessoas a abandonarem regies costeiras. No outro extremo, o 
aumento das secas em determinados pases tambm poder criar milhes 
daquilo que o estudo chama de refugiados do clima. 

O primeiro-ministro britnico Tony Blair, que encomendou o relatrio, 
afirmou: "Este desastre no vai acontecer em um distante futuro de fico 
cientfica, mas ainda durante a atual gerao". 

A cincia apenas comprova, dia a dia, o que diversos textos bblicos, 
profecias e mensagens medinicas j alertaram quanto s calamidades que 
se abatero sobre a Terra, trazendo dias de tormento e perplexidade: 

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"Porque haver ento grande aflio, como nunca houve desde o 
princpio do mundo at agora, tampouco h de haver" (Mateus, 24:21) 

"E, logo depois da aflio daqueles dias, o sol escurecer, e a lua no 
dar a sua luz e as estrelas cairo do cu, e as potncias dos cus sero 
abaladas" (Mateus, 24:29) 

"Eu vi um novo cu e uma nova terra, porque o primeiro cu e a primeira 
terra desapareceram, e o mar j  no existia" (Apocalipse, 21:1) 

"Os perodos de expurgo esto tambm prescritos nesse planejamento 
imenso. Quando os orbes se aproximam desses perodos, entram em uma 
fase de transio durante a qual aumenta enormemente a intensidade fsica 
e emocional da vida dos espritos encarnados ali, quase sempre de baixo 
teor vibratrio, vibrao essa que se projeta maleficamente na aura prpria 
do orbe e nos planos espirituais que lhe so adjacentes; produz-se uma onda 
de magnetismo deletrio que erige um processo, quase sempre violento e 
drstico, de purificao geral. Estamos agora, em pleno regime dum perodo 
desses" (Trecho de mensagem medinica, extrado do livro Exilados da 
Capela, de Edgard Armond - Editora Aliana) 

"Ele era a luz dos homens, a luz resplandeceu nas trevas e as trevas 
no a receberam" (Joo, 1:4-5) 

Compreendemos, portanto, diante dos acontecimentos que envolvem 
nosso mundo, que  imprescindvel despertar. Jesus continua com seus amorosos 
braos abertos, a esperar por ns, pela nossa deciso de segui-lo e 
am-lo, resgatando nossas almas e construindo definitivamente um futuro de 
glria. 

No nos demoremos mais; no desperdicemos o precioso tempo, a 
grande oportunidade que Deus nos oferece, aqui e agora. 

Est em nossas mos, amigo leitor, a deciso de partilharmos com o 
Mestre Divino a construo do Reino de Deus sobre a Terra, poupando-nos 
de maiores dores e sofrimentos. Ele nos quer ao seu lado, mas para isso  
preciso combater em ns aquilo que nos afasta do Criador e de suas leis perfeitas, 
que o Bom Pastor veio exemplificar. 

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 preciso transcender o momento presente e enxergar, um pouco mais 

alm, nossa origem divina e nossa destinao gloriosa. 

Lucius 

1. Parte 

H muitos milnios, um dos orbes do sistema da estrela 
Capela, na Constelao do Cocheiro, localizado a cerca de 
42 anos-luz da Terra, atravessava importante momento de 
transformao, passando da posio de mundo de expiaes 
e provas para a de mundo de regenerao. 

Atravs de incessantes esforos evolutivos, o povo atingira 
um novo estgio para o orbe, que no mais poderia abrigar 
aqueles que insistiam em opor-se ao bem e  luz. Esses 
espritos rebeldes e recalcitrantes no mal-milhes deles - 
foram ento, por deciso de entidades elevadas que 
dirigem o Cosmo, exilados de seu mundo e enviados para a 
Terra, um orbe primitivo e em incio de desenvolvimento. 

Na Terra, essas almas que haviam recusado 
render-se diante do Criador do Universo teriam nova 
oportunidade -atravs da dor e do sofrimento a que 
seriam submetias pelas condies naturais do planeta 
em formao -de lapidar seus sentimentos e, finalmente, 
aceitar sua destinao gloriosa, no caminho para Deus 

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CAPTULO 1 

No bastasse aquele corre-corre a que se habituara, Ernesto assumia ainda 
mais atividades. Constantemente, a famlia reclamava-lhe a presena; 
Elvira pedia toda manh: 

-Volte mais cedo hoje. Seria possvel, querido? Os meninos tm sentido 
muito a sua falta e eu tambm... 

-Como voc choraminga, Elvira! Temos estado juntos todos os finais de 
semana; tenho procurado dar maior ateno aos nossos filhos. 

- Seja honesto consigo prprio, querido! Seus finais de semana so sempre 
ocupados com reunies de negcios, seja com o pessoal do escritrio ou 
com o pessoal do laboratrio; estamos sempre cercados de outras pessoas! 
Seus filhos sentem falta de voc, querido, da sua companhia! 
Ernesto beijava-lhe a mo e sorria, sem dizer nada. Descia pelo elevador 
expresso, direto para o carro areo, e seguia para a fundao que presidia. 
Ele estava completamente absorvido pela inquieta aspirao de encontrar 
um modo de extinguir o maior sofrimento humano: a morte. 

Esse era o objetivo final de suas pesquisas e experimentos. Mdico brilhante 
e bem-sucedido, h muito trocara o jaleco branco dos hospitais pelo 
pesado avental do laboratrio que o protegia das radiaes. No atendia 
mais os pacientes sofredores, e sim participava de interminveis reunies 
com os pesquisadores e acionistas da organizao. 

Desde que obtivera sucesso com a clonagem de seres humanos, os convites 
se somavam em sua mesa e em seu aparelho de intercomunicao; ele 
j nem os atendia mais. No entanto, foi do centro de pesquisas em que trabalhava 
que recebeu o convite mais tentador: realizar toda e qualquer experincia 
com a clonagem humana, sem limites de recursos e com proteo legal 
de um squito de advogados bem-sucedidos e at mesmo de juzes, para 
no ser incomodado pelas instituies que protestavam em oposio aos 
experimentos que utilizavam embries humanos, entre outros. 

Na noite em que acertou os ltimos detalhes da nova empreitada, chegou 
em casa eufrico. 

- Prepare-se, Elvira, vamos comemorar. 
-E o que aconteceu de to especial? 
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- Eu consegui, Elvira, finalmente consegui! 
-O que, Ernesto? Vai comear outra experincia? 
-Muitas, minha querida! De fato, vou presidir a maior organizao de 
pesquisas mdicas do mundo! Sem restries e com total liberdade para 
expandir minhas experincias ao infinito. 

Ela empalideceu e sentiu fugir-lhe o sangue da face. Apoiou-se no primeiro 
mvel que tinha  frente, quase a desfalecer. Ernesto socorreu-a: 

-O que foi? O que est sentindo? 

Elvira no podia falar. Auxiliada pelo esposo, sentou-se no sof e apoiou 
a cabea nos joelhos. Ernesto fez-lhe algumas massagens na nuca e ela recobrou 
a cor. 

-O que aconteceu? No v me dizer que est grvida outra vez. 

Sria, ela fitou-o fundo nos olhos e respondeu: 

-Voc sabe o que penso sobre suas atuais atividades, Ernesto. Jamais 

concordei com elas e jamais haverei de concordar, nem que viva mil anos. 
S Deus tem poder sobre a vida e a morte. Suas experincias com clonagem 
j foram contra a minha vontade. Mas agora  muito pior: sei de suas intenes. 
Quantos embries sero utilizados para tentar impedir o acontecimento 
absolutamente inevitvel para todo homem? Afinal, por que a 
morte o assusta tanto, Ernesto? 

- Do que voc est falando? A morte no me assusta em nada. 
- Como no? Por que deseja impedi-la a qualquer custo? A morte no  
ruim, Ernesto,  apenas uma mudana de estado energtico. Voc sabe que a 
alma continua vivendo... 
-L vem voc outra vez com essas estrias de faz-de-conta. Eu  que deveria 
estar cobrando. Voc deixa de me apoiar, a mim, o mais reconhecido 
pesquisador cientfico da atualidade, aclamado pela imprensa e por toda a 
classe mdica como o maior realizador do sculo, homenageado pelo mundo 
inteiro por aquilo que conquistei. Nem sequer me acompanha aos eventos de 
que participo, onde usualmente sou prestigiado e aguardado. E por qu? 
Para ir a essas suas reunies msticas. 

Agora o olhar de Elvira se tornara triste e lgrimas se formavam em seus 
lindos olhos castanhos. Ela encarou o marido com extremada ternura e disse: 


- Ernesto, Ernesto, voc brinca com fogo; sabe muito bem do que eu 
participo. Foi voc mesmo que me levou l. 
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- Mas foi h muito tempo e j mudei de opinio, evolu! No creio mais 
em nada daquilo. 
- Como pode dizer isso? O que foi que cegou voc, querido? O que aconteceu 
com aquele jovem sonhador que conheci, cheio de esperana e 
vontade de mudar o mundo? 
-E voc quer mudana maior do que dominar a morte? Ter poder sobre 
ela? 
Ignorando o que o marido dizia, Elvira prosseguiu: 

-Eu me lembro bem da indiferena que sentia quando entramos naquele 
ncleo de estudos pela primeira vez. Havia estudado quase todas as religies 
e nenhuma delas me atraa. No havia encontrado nada que me respondesse 
s indagaes mais profundas da alma. Ento voc me convenceu, com seu 
habitual entusiasmo, sua persistncia em argumentar... 
J conversamos sobre isso antes. Agora preciso me deitar porque tenho 
obrigaes me aguardando amanh. De novo ela o ignorou: 

- Mas quando entrei naquela pequena sala, senti algo especial. Sei que 
abri minha alma  verdade e ela me iluminou a conscincia. 
-J basta, Elvira. Chega! 

- Nunca mais fui a mesma pessoa, Ernesto. A paz que me envolve  enorme. 
Sei que a morte  apenas uma transformao pela qual passamos e, 
muito embora nos separe temporria e fisicamente daqueles a quem amamos, 
continuamos a nos encontrar em sonhos, em esprito, enfim... 
-Boa noite, Elvira. Essa conversa j me aborreceu! 

Ernesto virou as costas e, deixando a mulher com as ltimas palavras a 
lhe morrerem na garganta, sumiu no longo corredor que terminava no quarto 
do casal. 

Elvira viu com profunda tristeza o marido sair da sala. Limpou as lgrimas 
que agora lhe desciam pela face, juntou as mos e chorou amargamente 
por algum tempo. Alheia, no percebeu que o filho de quinze anos a observava. 
Foi somente quando sentiu sua mo carinhosa a tocar-lhe os cabelos 
que ergueu o rosto, banhado pelo pranto: 

-No chore, me, no vai adiantar. Ele est completamente cego. Pensa 
que pode brincar de Deus... 

- No fale assim, Henrique. 
-Mas  verdade. Voc sabe que  verdade. Ele est enlouquecendo! 
- Ele conquistou muitas coisas... 
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-E isso o fez pensar que pode avanar mais e mais, sem parar? Me, ele 
j foi longe demais, voc sabe disso. Fomos avisados. Se no mudar, nada 
poder ajud-lo. 

Abraando-se ao jovem, Elvira disse entre soluos: 

-Temos de fazer algo, filho, precisamos ajud-lo! 

- Me, acalme-se. Sei o quanto o ama e eu tambm, mas no temos foras 
para lutar contra sua crena cega! 
- Deve haver alguma forma de toc-lo; afinal, ele j acreditou tanto nas 
coisas boas, em Deus, no bem! Deve haver um jeito de faz-lo reencontrar-
se com a verdade, com o amor, com o equilbrio... 
Henrique abraou-a forte, depois a segurou pelas faces e disse: 
-Dona Elvira, voc nunca desiste dele, no ? 


-Enquanto eu puder lutar... 
-H quantos sculos ser que vocs esto juntos, me? 
- H pelo menos cinco, disso eu tenho certeza. 
-Cinco sculos! 
-Seu pai  um homem que tem princpios... 
-Mae, no tente atenuar os defeitos dele;  claro que tem suas qualidades, 
porm o orgulho o cega cada vez mais. Infelizmente ele acha que pode 
tudo! Alm disso, voc percebe como a cada dia mais se afasta de ns? 
Elvira concordou com a cabea e o filho continuou: 

- S parece satisfeito quando est sob os holofotes, diante do pblico, 
sendo aplaudido e elogiado. 

-Ele  um homem to inteligente, Henrique... 

-E de que isso tem adiantado, me? Eu acho at que o est prejudican


do... 
Enlaando suas mos nas do filho, Elvira silenciou entristecida. 

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CAPTULO 2 

Os dias iam passando e Ernesto cada vez se afastava mais do ambiente 
familiar. Primeiro, comeou a acordar bem cedo e sair antes que a famlia 
estivesse em p. Do mesmo modo,  noite retornava muito tarde, evitando 
encontrar a esposa. Elvira mais e mais se preocupava com a conduta do marido. 
Ele j estivera distante em outros momentos. Quando prestes a obter 
sucesso com a clonagem humana, ficara duas semanas no laboratrio trabalhando 
dia e noite. Mas ao menos se comunicava de vez em quando, dando 
notcias. Agora parecia que algo estava diferente; era como se Ernesto no 
quisesse contato com ela. 

Na semana seguinte, ausentou-se de casa durante seis dias. Elvira no 
agentou, fez o que detestava fazer: arrumou-se e foi at o laboratrio. 

Ferdinando, o assistente, entrou na sala de testes e disse prximo ao ouvido 
de Ernesto: 

-Sua esposa est a fora. 
Sem tirar os olhos do que fazia, o cientista respondeu: 
- Mande-a embora, diga que estou muito ocupado e que falo com ela  
noite. 
-Acho melhor atend-la. Tentei dizer que voc estava muito ocupado, 
mas ela insistiu em v-lo de qualquer modo. No consegui dissuadi-la. Voc 
conhece sua esposa melhor do que qualquer um. Elvira  muito decidida; 
quando coloca alguma coisa na cabea, ningum tira. s vezes, nem mesmo 
voc! 

-Pois v at l e diga que estou ocupado -se quiser, que espere. 

Ferdinando transmitiu o recado. Entretanto, no convenceu Elvira a ir 
embora. Ela insistiu: 

-Eu espero o tempo que for necessrio. Uma hora ele ter de sair de l 
para comer, ir ao banheiro... No  possvel que passe todo o tempo dentro 
da sala de testes... 

- Ernesto est muito envolvido com sua pesquisa. Tem certeza de que 
em breve encontrar a chave que abrir os conhecimentos para derrotar a 
morte. 
-Voc sabe que isso  impossvel! 

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-No, eu no sei. Se ele foi capaz de clonar com sucesso um ser humano, 
quem sabe do que mais aquela mente brilhante  capaz? E no sou s eu que 
aposto em Ernesto. Os acionistas da indstria farmacutica que controla a 
fundao esto investindo milhes, talvez bilhes, nessas experincias. Eles 
tambm acreditam. 

- E quanto vo lucrar com o remdio que acabar com a morte? Ora, voc 
bem sabe como so esses homens de negcios: insensveis e ambiciosos. 
S pensam no dinheiro e mais nada. No pode ser assim, Ferdinando. E a 
tica? 
- Que tica, Elvira? As pessoas esto morrendo e querem deixar de morrer. 
Voc imagina um produto que venda mais do que este? Se Ernesto conseguir 
seu intento, ser o homem mais poderoso do mundo. Todos se curvaro 
diante dele. 
- Os donos do negcio, sim,  que sero ainda mais poderosos. 
-E o que voc acha que Ernesto ? 
Elvira espantou-se com a pergunta. Refletiu por alguns instantes, tentando 
entender a que Ferdinando se referia; depois respondeu: 

- Um mdico, cientista e pesquisador. Ferdinando sorriu, irnico: 
- Vejo que desconhece seu marido, minha prima. Ligeiramente impaciente 
com as sucessivas ironias do rapaz, ela indagou: 
-Se voc o conhece tanto assim, o que sabe mais do que eu? 

- Ernesto tornou-se importante acionista da indstria que controla a fundao. 
- Como assim? E onde ele arranjou dinheiro? 
-Minha ingnua priminha, Ernesto associou-se ao negcio autorizando a 
utilizao de todos os resultados de cada etapa das pesquisas, como bem 
quiserem os demais investidores. 

Ela empalideceu e silenciou. Ferdinando esperou por uma resposta, mas 
Elvira se calou. Recostou-se no confortvel sof da sala do marido e, depois 
de longa pausa, reafirmou: 

-Vou ficar at que ele retorne. Uma hora isso tem de acontecer. 
Satisfeito com o que causara, Ferdinando saiu. 
Elvira aguardou horas, sentada ou andando de um lado para outro da sala. 
Foi vrias vezes at o corredor, sem ver sinal de Ernesto. Por fim, adormeceu 
no sof. Nem percebeu por quanto tempo dormiu. Despertou ouvindo 
vozes no corredor, vozes que sussurravam: 

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-Traga-me mais esta, vou precisar. 

-Ela est no quinto ms de gestao,  perigoso. 

-No se preocupe, Ernesto sabe o que est fazendo. J fez isso antes. Ela 
no quer a criana, quer? 

-So gmeos. 

Tanto melhor. Assim ganhamos tempo. 

-Insisto que  arriscado; vamos esperar que chegue outra no comeo da 
gestao. 

-Nem pensar. Precisamos de material para continuar os testes. 

Est bem, mas a responsabilidade  toda sua. 

- E nossa. No adianta esquivar-se, pois  responsvel tambm. 
Elvira conhecia uma daquelas vozes, mesmo sussurrada: era Ferdinando. 
Ao notar que vinham em sua direo, desesperou-se. No podia deix-los 
saber que ouvira tudo. Ainda que totalmente atordoada com o que acabara 
de escutar, ela tentava pensar e pedia baixinho: 

Meu Deus, por favor, me ajude. No permita que me descubram aqui, 
por favor, me ajude. 

Agachou-se atrs do sof e ficou imvel. Algum tocou na maaneta da 
porta, e j ia abri-la, quando Elvira viu sua bolsa em cima da mesa do marido. 
Num mpeto, saltou por sobre o sof e deitou-se, fingindo dormir. Rapidamente, 
enquanto Ferdinando acendia a luz da sala, fez alguns exerccios 
de relaxamento e controle mental que conhecia muito bem e num segundo 
atingiu um estado semelhante ao de sono profundo. 

Ao acender a luz, Ferdinando viu a prima. Desconfiado, aproximou-se 
cauteloso, buscando sinais de que ela realmente adormecera. Ao chegar bem 
perto, convenceu-se de que dormia como um beb. Pegou sua bolsa na mesa 
e vasculhou-a. Olhou o intercomunicador e verificou se havia feito ou recebido 
alguma ligao. Tudo estava tranqilo. Elvira devia estar dormindo h 
muito tempo, pensou ele; afinal, j era quase manh. 

Sentou-se perto da prima e sacudiu-a sem d: 

- Elvira, acorde, acorde! V dormir em casa! 
Elvira fez que despertava lentamente e sentou-se. Ele ento a levantou, 
colocou a bolsa em seus braos e disse: 

- Vamos, tem de ir para casa. Ernesto no volta to cedo para esta sala. 
Est atolado em afazeres e vai passar o resto do dia trabalhando. 
E, puxando a prima pelo brao, finalizou: 

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-Meu motorista vai lev-la para casa. 

Mas, meu carro... 

-Ele leva mais tarde para voc. 

Elvira acatou e entrou no elevador. As portas estavam se fechando, 
quando Ferdinando as segurou e disse: 

- No venha mais ao centro de pesquisas, Elvira. Agora Ernesto  um 
homem importante demais para ficar perdendo tempo com uma mulher que 
no o apoia. Se mudar de idia quanto s experincias, me avise; caso contrrio, 
deixe-o trabalhar em paz. 
Ele soltou as portas, que se fecharam, barulhentas. Enquanto o elevador 
descia, Elvira sentia todo o corpo tremer. No entanto, dominou-se, ciente de 
que o prdio era controlado por circuito interno de televiso. 

O retorno para casa foi longo e doloroso. Somente quando o motorista 
do primo sumiu na esquina foi que ela, entrando em casa, se entregou a sentido 
pranto, aliviando a dor que a sufocava. 

CAPTULO 3 

Elvira entrou em casa e, mal podendo andar, foi direto para seu quarto. 
Fechou a porta atrs de si e sentou-se na cama, tentando colocar alguma 
ordem na mente agitada. Ficou quieta por alguns instantes, depois se levantou, 
foi at a janela e observou o novo dia que raiava. No horizonte a gigantesca 
Capela despontava radiante, acompanhada por outra estrela menor, 
orbitando ao seu redor. Elvira, ento, respirou fundo e ergueu os olhos ao 
firmamento, suplicando: 

- Deus misericordioso e cheio de bondade, agradeo a beleza deste dia 
que comea, e lembra ao meu corao que a sua generosidade tambm se 
renova a cada instante. Sei que posso contar sempre com o seu amparo e a 
sua luz, Criador de amor; por isso rogo neste momento que venha em meu 
auxlio. Ampare meu querido Ernesto, Pai eterno, ajude-o Senhor da vida, 
tenha misericrdia, Senhor! 
Sua voz sumiu, cortada pela angstia e pela dor. Nesse momento, suave 
melodia se fez ouvir no quarto da bela mulher, enquanto intensa luz tomava 

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#
conta do cmodo confortvel. Uma figura iluminada se fez visvel; envolvendo 
Elvira com emanaes de amor e paz, falou: 

- No se angustie tanto, irm. De que adiantar ficar assim desesperada? 
Acha que poder auxiliar Ernesto nessas condies? 
Elvira, sem tirar os olhos da luminosa figura, chorou por alguns instantes. 
Depois, cercada pela energia restauradora daquele ser que a visitava, 
acalmou-se e, refeita, agradeceu: 

-Obrigada pelo seu socorro, querido amigo. O que seria de mim sem a 
sua companhia constante? 

-Sabe que trabalhamos juntos, Elvira, e que igualmente tenho por voc 
elevado apreo. Agora peo que se mantenha serena; de nada adiantar alimentar 
o desespero. 
-Tem toda a razo, meu bom Jonef.  que fiquei to chocada com o que 
ouvi naquele laboratrio... No esperava que Ernesto estivesse envolvido 
desse modo... 

-Tem certeza, Elvira? Acho que bem no fundo voc sabia. O que realmente 
queria era confirmar... 
Ela assentiu: 

- Acho que tem razo. Eu tenho esse pressentimento, esse medo a me 
rondar como uma sombra escura. Sinto que a cada dia Ernesto se distancia 
mais do bem e da luz; e isso h muito tempo. 
- Voc est consciente de que fez tudo ao seu alcance para ajud-lo? 
- Sim, porm no foi o bastante. No consegui inspir-lo como deveria... 
- Apazige seu corao, minha irm. Ernesto teve oportunidades abundantes 
na presente existncia. Tudo foi cuidadosamente preparado: sua mente 
brilhante foi contida pela pobreza e pelas dificuldades; a aspereza da infncia 
e da adolescncia associou-se  sua lucidez mental e  sua sensibilidade 
para fazer com que ele dobrasse um pouco seu tremendo orgulho. Depois, 
a paixo por voc e o casamento ainda muito jovem vieram proteg-lo 
de outros tantos enganos... Sua companhia dedicada e amorosa o preservou 
at onde foi possvel, bem como a chegada dos filhos, espritos to queridos. 
Vocs todos reunidos o envolveram em afeto e carinho, para toc-lo nas fibras 
mais profundas e ajud-lo a reconhecer o que de fato tem valor. Mas 
nem com todo o esforo que voc e seus filhos empreenderam, aliado  dedicao 
de nossas equipes espirituais, foi possvel afast-lo daquilo que tem 
dentro de si; Ernesto s poder vencer o orgulho que o ofusca, experincia 
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aps experincia, se efetivamente abrir a alma a Deus e se render  sua 
grandeza e ao seu amor. Enquanto no se reconhecer como criatura limitada, 
dependente do Criador, ele viver iludido e emaranhado em suas mentiras 
interiores, em suas iluses, dando abertura para que sua inteligncia impressionante 
o afunde ainda mais no lodo do orgulho e da prtica do mal. 

E ajoelhando-se respeitoso diante de Elvira, que sentada  beira da cama 
o ouvia em atento silncio, o amigo espiritual prosseguiu: 

-Receio que pouco se poder fazer por ele agora, Elvira. Os pesados 
compromissos que est assumindo com seus atos nefastos extinguiram de 
vez a luz que ainda restava acesa em sua conscincia. Ernesto mergulhou 
nas trevas do prprio corao.  noite escura para nosso amigo e melhor 
ser que abandone o corpo fsico o mais breve possvel, para que cesse o 
mal que tem causado a tantos espritos que tentam regressar ao nosso mundo. 


Elvira balanou a cabea, concordando com o amigo. E levando as duas 
mos ao rosto, em longo suspiro, perguntou: 

-Quanto tempo ele ter? 

-Muito pouco, Elvira. Ter de deixar o corpo imediatamente. 
-Ainda hoje? 
-Ser o melhor. Ele no pode realizar o aborto que planeja fazer esta 
noite. As almas que ameaa deter precisam regressar ao orbe; so espritos 
de luz que chegam ao lar difcil para ajudar antiga companheira. Ernesto no 
pode interromper aquela gestao. 

- Eu compreendo. Gostaria de estar presente... 
- Poupe-se, minha irm. Ore por ele aqui mesmo, durante o dia de hoje. 
Sustente-o com seu amor, como sempre fez. 
-E o que ser dele depois? Quando poderei reencontr-lo? Jonef, amoroso, 
disse: 

- Muitos lhe agradecem alegres pelo trabalho que vem realizando, Elvira. 
Voc tem servido ao bem com devotamento e abnegao... Gostaria de 
poder ajud-la mais com Ernesto; todavia, nada se pode fazer sem que ele 
queira. 
- Eu sei, Jonef. Sei quanto auxlio ele tem recebido e as muitas oportunidades 
que tem desperdiado. Muito me empenhei em ajud-lo, mas tambm 
meus esforos foram em vo... Ernesto ter de recomear e sabe-se l 
em que condies... 
16 


#
Jonef fitou Elvira com extremado e paternal carinho e afirmou: 

- Deus jamais nos abandona. Um dia, Ernesto haver de compreender a 
grandeza e o amor de Deus e retornar aos braos do Criador. 
O gigantesco sol que iluminava o orbe brilhava ento com toda a intensidade 
e Jonef despediu-se: 

-Preciso partir. 

Elvira, apesar do corao magoado pela dolorosa situao do companheiro, 
sorriu e agradeceu: 

-Uma vez mais, Jonef, obrigada pelo socorro e pelo amparo to amorosos. 


Jonef desapareceu de sua vista e ela, resignada, permaneceu em orao 
pelo marido que tanto amava. 

Enquanto isso, no laboratrio da fundao, Ernesto se preparava para 
dar seqncia a suas atividades criminosas. Ao ver o sol se erguendo imponente 
no horizonte, resolveu subir at a cobertura do prdio para contemplar 

o belo dia que surgia. Antes, porm, procurou por Ferdinando e pediu que 
providenciasse um refresco e frutas. O assistente trouxe pessoalmente a 
bandeja: 
- Aqui est, Ernesto. No seria bom voc descansar um pouco, para depois 
seguirmos com a agenda de hoje? Parece cansado. 
- No quero parar agora, Ferdinando. Sinto que algo est prestes a acontecer 
e quero que acontea logo! 

Ferdinando sorriu discretamente e disse, ao fechar a porta atrs de si: 

-Voc  quem sabe, Ernesto. Se precisar de mim, estarei por perto. 

Ernesto tomou a bandeja nas mos e subiu. Acomodou-se no conforto 
do espaoso sof que ficava no centro da cobertura e, concentrando-se no 
grande e pesado teto de vidro, abriu-o usando apenas o pensamento. O frescor 
da manh dominou seu rosto e seu corpo, dando-lhe uma sensao de 
satisfao e bem-estar. Naquele momento, sentia-se imensamente poderoso. 
Sorveu o suco devagar e saboreou as frutas, uma a uma, enquanto planejava 
os prximos passos que deveria dar para atingir o sucesso com seus experimentos. 


Ainda estava longe da resposta que desejava, mas sabia que poderia obt-
la; afinal, j alcanara tantos outros sucessos... A uma ordem de sua mente, 
os objetos se movimentavam at onde ele desejasse. Sua fora mental era 
enorme, e ele praticara sem cessar. Agora, com os conhecimentos que ad


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#
quirira, no s em relao  medicina, como tambm  manipulao da energia, 
Ernesto se dedicava arduamente a desvendar os mistrios da energia 
condensada; sabia que por esse caminho haveria de descobrir o princpio da 
vida e, ento, poderia control-la, como fazia com os objetos, e mesmo com 
as pessoas de mente um pouco mais fraca, atravs da telepatia. Nada o deteria; 
seu poder seria ilimitado. Seus conhecimentos eram vastssimos e ele se 
orgulhava deles. Dedicara anos a fio a estudar, a experimentar o que aprendia 
e a usar a intuio na consecuo de seus objetivos. Estava satisfeito 
com o andamento de seus projetos. Entretanto, bem no fundo, algo o incomodava, 
sem que se desse conta. 

Ao observar a imensido do armamento, ele pensou em Elvira. Forte aperto 
no peito o assaltou. Levantou-se enrgico e expulsou do pensamento a 
delicada figura da esposa, dizendo em voz alta: 

- No  hora para sentimentalismos! 
Ao levantar-se, porm, sentiu intensa dor, agora no peito e na cabea. 
De sbito, violenta tontura o fez sentar-se de novo na poltrona. Ernesto no 
compreendia o que se passava. Nunca sentira aquele mal-estar. Lutou para 
se levantar, mas no teve foras e permaneceu sentado, quase deitado, com 

o rosto voltado para o cu. 
O sol vibrante banhava-lhe a face e ele mal podia mover-se. Apenas respirava, 
e com dificuldade. Queria gritar, mas no conseguia. Esforava-se 
para se levantar, e o corpo o desobedecia. Num impulso inimaginvel, procurou 
dominar o pavor que sentia, diante de situao to inesperada, e acal-
mar-se para raciocinar e compreender o que estava ocorrendo. Tampouco a 
mente o obedecia. Ele, ento, pensou em Ferdinando, desejando cham-lo. 

Decorridos alguns instantes, notou que algo encobria o sol, sombreando 
seu rosto. Percebeu que a sombra se aproximava, e viu que era Ferdinando. 
Num supremo esforo, tentou comunicar-se mentalmente com o assessor: 

-Ferdinando, ajude-me. Algo est acontecendo. No consigo me mover, 
tenho uma dor intensa no peito e... 

-Na cabea. - completou Ferdinando, aproximando-se mais de Ernesto 
- Eu sei, o veneno causa essa sensao. E tambm a morte lenta e dolorosa. 
Ernesto arregalou os olhos, apavorado, e continuou a comunicar-se mentalmente 
com Ferdinando: 
-Do que est falando? 

18 


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Sentando-se no espaoso sof, bem ao lado do cientista, o assistente 
prosseguiu: 

-Poupe suas derradeiras energias. No h nada que possa fazer. O veneno 
bloqueia sua capacidade mental e energtica; no adianta tentar comunicar-
se com ningum, nem mesmo com Elvira - alis, principalmente com 
Elvira. Sinto-lhe a presena aqui hoje, claramente, mas ela no poder mais 
interferir nos acontecimentos... Interessante... 

Ernesto no conseguia articular sequer um pensamento completo. A dor 
aumentava, dominando seu corpo inteiro. Incapaz de pensar, ele olhava Ferdinando, 
estupefato. E este confessou: 

- H muito venho planejando livrar-me de voc. S precisava que confiasse 
em mim o suficiente para me transmitir todos os seus conhecimentos. 
Agora que j tenho acesso a quase tudo, no preciso mais de voc. Vou terminar 
suas pesquisas, obter o resultado e receber todos os louros, que de 
fato mereo. Se no fosse por mim, voc jamais teria realizado a clonagem, 
muito menos chegado at aqui. O servio sujo quer que eu faa, e os resultados 
ficam sempre exclusivamente com voc -ou melhor, ficavam. 
Usando a fora da mente em Ernesto, o assessor o fez erguer-se lentamente 
no ar e volitar at alcanar o parapeito do prdio. Ento, ergueu-se do 
sof e, mantendo a concentrao inalterada, caminhou lentamente at onde 
estava o mdico e disse: 

- Eu assumo daqui por diante. Adeus, Ernesto. 
Foi sem nenhuma resistncia que Ferdinando empurrou o corpo imobilizado 
de Ernesto prdio abaixo. 

CAPTULO 4 

Elvira ainda estava em seu quarto, meditando e orando, quando Henrique 
bateu  porta: 

-Me, venha depressa. 

Embora totalmente preparada, Elvira sentiu sumir-lhe o sangue do corpo. 
Seu corao batia descompassado; suas mos suavam e sua boca estava 
seca. Mesmo assim, levantou-se devagar e atendeu ao chamado: 

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#
- O que foi, meu filho? 
- E da fundao. Pediram que fosse depressa at l. Parece que algo muito 
srio ocorreu com papai. 
-Acalme-se, meu filho. Lembremos que a Providncia Divina jamais 
nos desampara. 
- Por que est falando assim? Sabe de alguma coisa? Elvira o olhou fixamente 
e no respondeu. O jovem, que 
conhecia bem a me, disse entristecido: 

- Voc j sabe o que est acontecendo, no ? Foi avisada, me? 
- Hoje pela manh. 
- E o que houve com ele? 
- Tenha f em Deus, Henrique. Ele nunca nos abandona. 
Mesmo quando o momento  difcil, de dor, de sofrimento, continua 
querendo o melhor para ns. Voc sabe disso, no ? Precisamos estar confiantes 
e unidos, mais do que nunca, filho. Seus irmos ainda no tm capacidade 
de compreender como voc e precisaro de nosso apoio. 

Henrique fitou a me, preocupado, e uma vez mais questionou: 

- Mas, afinal, qual  o problema? 
- No sei maiores detalhes, filho. Apenas fui informada de que seu pai 
teria de deixar a encarnao prematuramente, por no ser mais possvel sua 
permanncia no corpo denso. Suas escolhas esto prejudicando muitas vidas 
e a espiritualidade superior no teve alternativa, seno permitir que se encerrasse 
esta oportunidade a ele concedida. 
Henrique suspirou, desolado: 

- Que tristeza, me! Sabemos o quanto ele pediu para voltar, o quanto 
prometeu que se esforaria para acertar desta vez. Quanto tempo foi preciso 
para que todos ns pudssemos estar juntos de novo!... Especialmente voc, 
me. 
Elvira o encarou com doura e disse: 

- Deus respeita nossas escolhas, filho; embora tudo tenha limite, quando 
estas vo contra as suas leis perfeitas. Seu pai falhou, porm ter nova oportunidade... 
-Sabe-se l quando... 
- Vamos acreditar, Henrique, confiemos em Deus. Nesse instante, Felipe, 
o filho mais velho, bateu  porta desesperado: 
- Me, venha depressa! Aconteceu uma desgraa! O papai, ele... 
20 


#
Imediatamente Elvira abriu a porta e abraou o filho, que tremia: 

- Uma desgraa, me! Ele morreu! 
Elvira continuou enlaada ao filho, enquanto pesadas lgrimas lhe desciam 
pela face. Henrique abraou-se aos dois e chorou com eles. Assim 
permaneceram longo tempo, at que todos se acalmassem. Ento, Elvira 
limpou os olhos midos e vermelhos e pediu: 

- Fique aqui, Felipe, e espere pelo seu irmo, que em breve chegar. Ainda 
 muito pequeno e precisa que cuide dele... 
Felipe no deixou a me terminar: 

- No, quero ir com voc. Quero ver meu pai... Elvira segurou carinhosamente 
a face do filho ao dizer: 
- Seu pai j no est conosco. O que se pode ver  apenas a vestimenta 
fsica, material, que ele usou no tempo que esteve entre ns. Seu pai est 
agora em outra dimenso, iniciando uma nova fase em sua existncia... No 
h nada para voc ver. Fique aqui. 
- S se o Henrique ficar tambm. 
Elvira olhou suplicante para Henrique, que perguntou: -Pode mesmo ir 
sozinha, me? Vai ficar bem? Eu posso ficar com o Felipe e o Lucas, mas 
seria bom se voc fosse com algum... 

- Eu no estarei sozinha, pode ficar tranqilo. Enquanto conversava com 
os filhos, Elvira viu a figura amiga de Jonef, que se mantinha a certa distncia, 
respeitoso. 
Henrique assentiu com a cabea, entendendo que a me estava em companhia 
espiritual que a ampararia naquela hora. 

Elvira saiu depressa. Assim que chegou ao prdio do centro de pesquisas, 
teve de enfrentar o assdio dos reprteres que se aglomeravam atrs de 
um cordo de isolamento. Ela se identificou e conseguiu andar at onde estavam 
alguns funcionrios da instituio, junto com policiais e investigadores. 
Um dos funcionrios logo a identificou: 

-Elvira, eu sinto muito. Estamos todos comovidos. Sabamos que doutor 
Ernesto estava sob forte presso, mas jamais poderamos imaginar que fosse 
capaz de fazer algo assim... 

-E o que houve, Marcelo? 
-Ainda no sabe, Elvira? 
- S sei que ele est morto. 
- No sabe como aconteceu? 
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#
- Por favor, conte-me. Como foi? 
- Doutor Ernesto atirou-se da cobertura do prdio; ele se suicidou. 
Elvira sentiu as pernas fraquejarem. Confiava profundamente em Deus, 
mas aquela notcia a tomara de assalto. 

-Tem certeza, Marcelo? Como sabe? 

-Ele estava sozinho na cobertura; as cmaras de segurana no registra


ram mais ningum subindo. 
-No poderia ter sido um acidente? Ser que ele no se distraiu, pensando 
em suas experincias, e caiu? 

- Tudo indica que no, Elvira. Sei que  muito difcil aceitar... Especialmente 
de algum to confiante e seguro como doutor Ernesto. 
- Por isso mesmo, Marcelo. No posso imaginar Ernesto, empolgado 
como estava com seus experimentos, dando fim  vida, quanto se sentia to 
perto de concretizar seus planos... 
-  mesmo sem sentido, mas foi o que disseram os primeiros policiais. 
Elvira despediu-se e foi  procura do investigador responsvel. 
- Seu marido foi levado ao hospital. 
-Vo fazer autpsia? 
-Vai ser difcil, senhora. Esto tentando. 
- Qual a provvel causa? 
-Ainda no sabemos; mas presumimos ser suicdio. 
- No  possvel! Tenho certeza de que isso no aconteceu! 
- Seu depoimento ser importante para ns; logo que estiver mais calma, 
poderemos conversar - concluiu o investigador, atendendo ao chamado de 
alguns colegas que o requisitavam. 
Elvira afastou-se do aglomerado e foi para o hospital. No caminho meditava 
e conversava mentalmente com seu amigo e protetor, que insistia em 
dizer-lhe: 

- Fique tranqila, Elvira. Esse crime ele no cometeu. 
Os dias que se seguiram foram de intensa dor para Elvira e seus familiares. 
Todos suportaram interrogatrios interminveis, em meio ao doloroso 
sepultamento do chefe da famlia. Elvira era assediada por amigos, curiosos, 
parentes e admiradores do marido, que queriam detalhes sobre o falecimento 
e as investigaes. Sentia-se atordoada e cansada. Em meio a tamanho tumulto, 
tinha pouco tempo para estar consigo prpria e refletir sobre o ocor


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rido - e, principalmente, para orar pelo marido. Isso era o que mais a entristecia. 


Enfim, depois de algumas semanas, o ambiente comeou a se acalmar e 
no final do segundo ms Elvira experimentou relativo alvio. Aps refazer-
se fsica, emocional e espiritualmente, passou a pedir a Deus pelo companheiro, 
a quem amava com desvelo. Sabia que sua situao no mundo espiritual 
seria difcil e queria ajudar em tudo o que lhe fosse possvel. 

Em uma noite calma, seu fiel amigo espiritual Jonef veio falar-lhe, durante 
o sono. Desprendida do corpo fsico, recebeu-o ansiosa: 

- Meu amigo, como  bom v-lo! Tem notcias de Ernesto? Preciso muito 
estar com ele! 
O amigo, contudo, estava srio. 

- No creio ser este o melhor momento para v-lo, Elvira. Ele no passa 
bem e voc ainda est abalada. Descanse, serene seu corao e, em ocasio 
oportuna, poder encontr-lo. 
- Esteve com ele? 
-Eu o vi. 
-Onde ele est? 
-No momento certo saber, Elvira. Agora descanse. Seus filhos precisam 
muito de voc. 
Impondo as mos sobre o corpo fsico de Elvira, que permanecia igualmente 
inquieto na cama, Jonef procurou auxiliar a amiga a refazer-se. Em 
alguns instantes, ela dormia profunda e mansamente. 

CAPTULO 5 

Enquanto dormia, Ferdinando debatia-se, agitado: -V embora! Livrei-
me de voc, o que ainda faz aqui? Suma, vamos! 

De um salto, sentou-se na cama, apavorado. Tomando conscincia de 
que acabava de acordar e pensando que tivera um pesadelo terrvel, levantou-
se e caminhou at a janela. Entreabriu a elegante cortina e observou a 
cidade a seus ps. Poucos eram os transeuntes e veculos que se moviam. 
Tudo estava calmo. 

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#
A cidade era de uma beleza estonteante. Apesar dos recursos tecnolgicos 
de que dispunha - permitindo, por exemplo, que os veculos se movessem 
sem tocar o solo e alcanarem rapidamente o destino desejado -, a movimentao 
era organizada e sincronizada. Os condutores educados e cuidadosos 
dirigiam sempre com muita gentileza e cortesia, ao menos na grande 
maioria. O combustvel utilizado era a energia solar armazenada, o que garantia 
que o ar se mantivesse limpo e puro. As ruas eram bem cuidadas, 
limpas e arborizadas. Tudo evidenciava as transformaes que se vinham 
acentuando naquele belo e rico mundo. 

Ferdinando respirou longamente, sentindo o aroma delicado no ar da 
madrugada. Depois, voltou a se deitar e disse a si mesmo, como para se 
convencer: 

-Preciso descansar. Foi s um pesadelo. Se bem que se repita quase toda 
noite,  apenas um sonho. 
Quando se deitava, procurando a melhor posio no travesseiro, algum 

o espreitava, atento: 
-Pode tentar se enganar quanto quiser, meu caro, mas no vou deix-lo 
em paz at acabar com sua vida! Confiei em voc, Ferdinando; confiei-lhe 
meus mais preciosos segredos e voc, o que fez? Destruiu-me. Eu estava to 
perto... Mas voc me paga! Vai se ver comigo. No sossego enquanto no o 
destruir tambm. 
Ferdinando se remexia na cama, sem conciliar o sono. Embora no escutasse 
Ernesto, que em esprito estava agarrado fortemente ao seu pescoo, 
registrava-lhe as palavras, pois no conseguia relaxar. Virava-se de um lado 
para o outro, inquieto, sentindo faltar-lhe o ar. 

Noite aps noite, Ferdinando rolava na cama, buscando em vo o repouso. 
Quando chegava a adormecer, dava com a figura raivosa de Ernesto, 
tentando enforc-lo, sem que ele nada pudesse fazer. Acordava ento sobressaltado, 
angustiado, e o medo o impedia de voltar a dormir. 

Naquela manh, no laboratrio, Ferdinando mal conservava os olhos abertos. 
Estava exausto, sem foras para prosseguir os experimentos. A presso 
dos acionistas por algum progresso era constante e Ferdinando no podia 
mais sequer raciocinar. Ele sabia que havia algo errado; aqueles sonhos 
eram muito reais. Mesmo assim, insistia em no pensar naquilo e concentrar-
se no trabalho a fazer. 

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To logo souberam da morte de Ernesto, o presidente e os acionistas da 
indstria farmacutica controladora da fundao se preocuparam em encontrar 
um sucessor para o renomado cientista. Ferdinando, rapidamente, tratou 
de assegurar-lhes que possua todas as informaes e os planos que Ernesto 
estava desenvolvendo - como seu assessor direto, tinha acesso a tudo, quase 
ao que ia na mente do grande mdico e cientista. No foi difcil convenc-
los e sem demora ocupou o lugar que pertencera a Ernesto. O rapaz, ambicioso 
e audacioso, havia premeditado tudo com muito cuidado. 

Relembrando os esforos que empreendera para chegar at aquela posio, 
Ferdinando deu um soco na mesa e gritou como se falasse diretamente 
com Ernesto: 

- Nada vai me impedir de obter meus intentos! Nada! No importa que 
eu no durma pelo resto da vida. Vou conseguir tudo o que desejo. Tudo! 
Cerrando o punho, ia socar novamente a mesa, quando o telefone tocou. 
O rapaz atendeu, e do outro lado da linha o telefone estava mudo. A cena se 
repetiu por cinco vezes, at que Ferdinando ignorou o toque e se levantou 
irritado. Andou de um lado para outro na sala, cada vez mais enervado com 
aquele som que no cessava. Aproximou-se do aparelho, arrancou-o com 
toda a fora e o lanou  parede, despedaando-o. Em seguida foi seu intercomunicador 
que comeou a chamar sem parar. No encontrando ningum 
na linha, ele desligou. O toque recomeou. De novo ele atendeu e foi ento 
que escutou claramente a voz de Ernesto: 

-Desta vez no vai conseguir livrar-se de mim! 

Ferdinando atirou o aparelho na parede e saiu da sala, em desespero. 
Passou pela assistente como um furaco e, ao invs de tomar o elevador, 
desceu as escadas apavorado, gritando: 

- Eu j me livrei de voc, Ernesto! Desaparea! V embora! Gritava e 
descia as escadas cada vez mais depressa, como se visse nitidamente Ernesto 
correndo atrs dele. A assistente acompanhou, assustada, o comportamento 
do chefe. H dias vinha estranhando as atitudes de Ferdinando, inclusive 
j havia comentado com vrios colegas que ele parecia ter perdido o juzo. 
Ao constatar seu estado naquele dia, no teve dvidas: ligou para o hospital 
psiquitrico que mantinha convnio com a fundao e informou o que estava 
acontecendo. 
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Ao chegar no andar trreo, Ferdinando estava lvido e completamente 
sem flego. Sem foras, confuso e aturdido, sentou-se no meio do saguo 
principal do prdio e se ps a chorar, bradando: 

-Por favor, v embora! No me atormente mais! Por favor! Deixe-me 
em paz! 

No demorou muito e uma ambulncia encostou  porta do prdio. Trs 
homens trajando branco se dirigiram para Ferdinando, que j chorava como 
criana. Quando viu que se aproximavam, foi se arrastando pelo cho, encostado 
 parede, enquanto gritava: 

- No, por favor, afastem-se de mim! No me toquem! No! No! 
Incapaz de se controlar, teve de ser imobilizado e sedado pelos enfermeiros, 
sob a ordem do mdico que os acompanhava. Foi levado ao hospital 
psiquitrico e, aps minucioso exame, considerado portador de distrbio 
mental grave. 

Imediatamente os responsveis pela fundao iniciaram a busca de outro 
cientista que pudesse dar andamento s pesquisas; candidatos no faltavam 
e logo encontraram outro mdico que se disps prazerosamente a prosseguir 
as anlises de onde Ernesto e seu assistente haviam parado. 

Passados alguns meses Ferdinando no falava nem andava mais, paralisado 
no leito, de onde nunca saiu, at ser encontrado pela enfermeira, sem 
respirar, com os olhos arregalados, como se o tivessem asfixiado. 

Ao desprender-se do corpo fsico, a dor de Ferdinando foi ainda maior. 
Em seus derradeiros instantes ele gritava: 

- Pare, por favor! No consigo respirar! 
E o drama no cessou com o desenlace. Seu corpo espiritual continuava 
agarrado por Ernesto e ambos, perseguido e perseguidor, foram sugados 
para o espao ao redor do orbe, arrastados para tenebrosa regio de dor e 
sofrimento. 

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CAPTULO 6 

E ira, no obstante recuperada por completo do momento ficil pelo qual 
passara, continuava extremamente preocupada com a situao espiritual de 
Ernesto. Ela conhecia bem a condio das almas que deixam o mundo sob o 
domnio do orgulho e do egosmo e, sobretudo, longe de Deus. 

Inabalvel, intercedia por ele em orao, rogando ao Pai que o auxiliasse. 
Ao deitar-se, noite aps noite, pedia ao bom amigo Jonef que a conduzisse 
at onde estava o marido. 

Naquela noite, Elvira se deitou e, entre lgrimas, suplicou a Deus que 
ajudasse Ernesto a reerguer-se da sombra onde provavelmente se encontrava. 
Jonef, afvel e amoroso, apareceu no quarto, dizendo: 

- Minha querida irm, precisa ter pacincia e aguardar confiante a restaurao 
espiritual de seu companheiro. Deus nos deu o livre arbtrio e infelizmente, 
por ora, Ernesto preferiu o caminho que o afastou do bem e da luz. 
Quanto a voc, minha irm, tem usado suas oportunidades para fazer o bem 
e acender a luz divina ao seu redor e dentro de seu corao. Por isso, no 
podero estar juntos por enquanto. 
- Eu desejo ajud-lo, Jonef. No me pea para ficar longe dele. Sabe h 
quanto tempo o acompanho, encamao aps encarnao. 
-Sim, Elvira, eu sei. Contudo, vocs escolheram caminhos opostos, e para 
Ernesto o regresso levar muito tempo. Assim, vocs tero de ficar sepa


rados por um perodo. 
-Mas ele precisa de mim... 
Envolvendo-a carinhosamente em intensa luz, Jonef prosseguiu: 

- Prepare-se. Em breve virei busc-la para um encontro que a ajudar a 
entender melhor o que estou falando. 
-Vai me levar at ele? 

- Ns vamos tentar. 
Elvira olhou para o amigo e, intrigada, perguntou: 
-Como "tentar"? No sabe onde ele est? Sei que deve ser um lugar 
triste e sombrio, mas quantas vezes o acompanhei a tais ambientes, para 
resgatarmos irmos em situao semelhante  do meu querido Ernesto? 
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-Acontece, Elvira, que agora  diferente. Estamos diante de um momento 
singular para o nosso mundo. O resgate no ser mais to simples... 

Elvira, sria, silenciou por instantes. Depois questionou: 

-Do que est falando, Jonef?
- chegado o momento de se consumar a transformao pela qual tanto 
temos ansiado. O orbe est se modificando e, em breve, ser um mundo de 
regenerao, onde somente as almas mais conscientes e afeioadas ao bem 
podero habitar. 

Elvira encarou Jonef enlevada. Seu rosto doce e meigo cintilava e dele 
emanavam luzes radiantes. De seu peito, luzes azuis e rosadas se expandiam 
ao infinito. Sua beleza espiritual era encantadora. Seus olhos brilhavam como 
estrelas no firma-mento. Ela no conseguia falar. Sentia o corao pulsar 
num misto de jbilo e tristeza. 

Jonef tocou-lhe os cabelos ternamente e acrescentou: 

- Sim, querida irm, chegou a hora de se completar a mudana. Veremos 
por fim a violncia dar lugar  paz; o dio ser trocado pelo amor; o orgulho 
ceder vez  humildade; e o mal, enfraquecido, ser vencido pelo bem.  o 
triunfo de Deus nos coraes dos homens de nosso mundo! 
Elvira fitou Jonef com emoo, sorrindo. Depois, como a se lembrar de 
algo, estremeceu e perguntou: 

-E o que ser de Ernesto, justamente agora? Sabamos que seria sua ltima 
chance. O que vai acontecer com ele? 
- Entendo sua angstia, minha irm, e por isso obtive autorizao para 
lev-la comigo a importante reunio no plano espiritual, para que possa 
compreender o destino de nosso irmo. 
-E acha que verei Ernesto, nessa reunio? 

- Elvira, no h como ter certeza. Mas insisto em que descanse e se prepare; 
 possvel que encontremos Ernesto entre aqueles que iro participar 
desse encontro especial. Em breve virei busc-la, durante o sono fsico. 
Movendo a cabea em sinal afirmativo e sorrindo com doura para Jone-
f, ela concordou: 

- Haverei de estar pronta, com a graa de Deus, meu bom amigo. A-
guardo-o com o corao preparado. 
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CAPTULO 7 

A vida flua com toda a intensidade naquele orbe admirvel, cujas belezas 
o colocavam entre os mais lindos do Universo. A movimentao era 
grande nas ruas e nos prdios; homens e mulheres iam e vinham; jovens e 
crianas se dedicavam com alegria s suas atividades. 

A humanidade estava otimista. Nunca antes um governo mundial tivera 
tanta confiana e credibilidade por parte das populaes. Pela primeira vez 
na histria, os povos tinham um s governo para todos os pases. As barreiras 
entre as diferentes naes haviam cado e uma ampla coalizo poltica 
fora capaz de eleger, num esforo gigantesco, um governo nico. Havia os 
que resistiam; muitos interesses se opunham a esse avano. No obstante, 
com o crescimento econmico unindo as naes, derrubando taxas e impostos 
entre os povos, a economia global se consolidara e de tal modo se fortalecera 
igualmente seu rgo representativo (constitudo de enviados de todos 
os pases) que fora possvel convencer a coletividade a eleger um governo 
centralizado. 

As populaes estavam cansadas da violncia e das guerras sucessivas; 
famlias incontveis haviam sido dizimadas e as pessoas ansiavam por algum 
em quem pudessem confiar; esperavam por uma transformao; desejavam 
como nunca antes que houvesse paz, finalmente, entre todos os homens. 


O governo nico se iniciara h alguns anos e os resultados se faziam notar 
em toda parte: o mundo, outrora  beira da destruio em conseqncia 
do contnuo desrespeito e das agresses sofridas por seus habitantes, atravessava 
uma fase de harmonia e restaurao, ainda que lenta e gradual, de 
suas reservas naturais. Nenhuma rvore fora derrubada nos ltimos anos, 
nenhuma sequer. E novas reservas florestais vinham sendo cultivadas, dia 
aps dia. Eram grupos enormes de jovens, estudantes, que deixavam as salas 
de aula e iam s reas completamente destrudas para, sob a orientao de 
tcnicos agrnomos, comear o reflorestamento das extenses devastadas. A 
princpio, muitos acharam que os esforos seriam em vo - nada mais poderia 
ser feito para salvar o mundo. Muitos acreditavam mesmo que a destrui


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o total era inevitvel. No entanto, passados alguns anos, eles viam reflorir 
a esperana, nos grandes parques que se formavam em toda parte. As rvores 
nativas de cada regio eram semeadas e, com a vegetao pouco a pouco 
recuperada, ia tambm ressurgindo a fauna original. 

Nas cidades, abandonadas e empobrecidas, destitudas de beleza, a mudana 
fora ainda mais radical: o governo vinha atuando diretamente na educao 
da populao e j o prprio povo, consciente e esperanoso, buscava 
alternativas para melhorar os centros urbanos. Grandes mutires se realizavam 
com freqncia, entregues  tarefa de elevar a qualidade de vida nas 
regies mais pobres das cidades. A populao, outrora esmagada pela desesperana, 
pela pobreza e pela fome, agora respirava aliviada, cheia de otimismo 
e confiana. 

Investimentos constantes em pesquisas, com resultados bem direcionados, 
traziam avano tecnolgico para todas as reas. O orbe experimentava 
um progresso jamais visto em todos os seus setores de atividades. Os interesses 
pessoais, aos poucos, cediam lugar ao bem comum, graas  conscincia 
reta e ao amor, que prevalecia invariavelmente, inclusive nas almas 
daqueles que governavam. O respeito ao prximo e a Deus era assunto rotineiro 
nas reunies polticas. 

Entretanto, havia os que ainda se opunham duramente, ignorando ou 
mesmo rejeitando os resultados que se vinham obtendo; viam, mas no queriam 
aceitar que aos poucos brotava uma nova civilizao. No cediam s 
evidncias, contrariados em seus interesses particulares. 

Dentre esses grupos que se opunham ao progresso, havia um em especial, 
constitudo de importantes figuras sociais e polticas: eram homens de 
negcios, que viam seus lucros diminurem por conta da mudana de hbitos 
das populaes. Dentre eles, muitos tambm tinham forte influncia junto 
a membros do governo nico. 

Esse pequeno mas poderoso grupo se reunia tentando, sucessivamente, 
diversas aes para desestabilizar o governo e tomar o poder nas prprias 
mos. Eles estavam adotando estratgias cada vez mais agressivas e naquela 
tarde, discutiam, ardorosos, como haveriam de proceder com relao s ltimas 
propostas do governo. 

Marcelo, um dos mais poderosos, dizia: 

- No concordo em absoluto! Temos de tomar providncias. Se deixarmos 
que continuem, perderemos de vez o controle. 
30 


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-Que se h de fazer, Marcelo? Eles agora so maioria! - redargiu Felcio, 
dividido entre o bem-estar que constatava no povo e os interesses de 
seus amigos, que vinham sendo afetados. 
- Que nada! Um bando de frouxos, isso  o que eles so. To ingnuos... 
Nesse ponto Maurcio interveio, convicto: 
- Olhe, Felcio, se no tomarmos atitude agora, ficar cada vez mais difcil. 
Tenho conexes no mundo inteiro, com aqueles que continuam insatisfeitos 
com o rumo que as coisas esto tomando. 
-Temos apoio em todo lugar.  s mover um dedo (e muito dinheiro) e 
poderemos insuflar metade da populao do globo contra o governo. - desta 
vez foi Rodolfo quem tomou a palavra. 
Felcio argumentou, receoso: 

- Porm no poderemos saber quais as conseqncias dessa nossa atitude... 
Parece que as coisas esto indo realmente bem. 
- Felcio, voc sempre esteve do nosso lado; mas, se ainda tem dvida, 
por que no tira umas frias? No tem de participar, se no quiser. 
O homem de seus cinqenta anos calou-se, pensativo. A reunio j durava 
horas quando Marcelo sugeriu aos participantes, que somavam mais de 
meia centena: 

- Vamos dominar um dos submarinos nucleares e ameaar explodi-lo. O 
pnico ser geral e ficar muito fcil tomarmos o poder, com o apoio de 
todas as faces que se opem ao governo atual. 
A sala explodiu em discusses. Todos falavam ao mesmo tempo, uns 
mais receosos do que outros. Marcelo pediu: 

- Senhores, vamos manter a ordem. As manifestaes devem ser enviadas 
ao nosso telo; caso contrrio no conseguiremos chegar a um consenso. 
Perguntas e sugestes se somavam. Depois de muitas horas de acalorada 
discusso, finalmente a maioria concordou: tomariam o controle de um dos 
submarinos nucleares mais potentes do mundo. Essa seria a mensagem direta 
ao governo de que ele no tinha o poder absoluto - eles, sim passariam a 
ter. 

Era uma medida drstica. Outras menores j haviam sido tentadas, sem 
xito. Atos terroristas tinham sido incentivados em diversas partes do globo, 
mas o povo contribua, os casos eram solucionados e os executantes dos 
crimes, quase sempre presos, estavam comeando a delatar a procedncia 
das ordens. 

31 


#
Marcelo representava grande nmero de interessados em refrear a qualquer 
custo o progresso que se via de forma generalizada. Eles simplesmente 
no queriam viver sem o controle que sempre haviam detido. Sentiam-se 
ameaados pela fora que a populao global vinha demonstrando e tudo 
fariam para que o progresso fosse impedido. 

Algumas semanas se passaram. Aquele dia amanheceu com frescor incomparvel 
e Felcio - que depois da conturbada reunio decidira afastar-se 
temporariamente de suas atividades - olhava pela janela o trfego das crianas 
indo para a escola. Sentia-se profundamente incomodado naquela manh. 
Observava tudo e pensava em como as coisas haviam chegado quele 
ponto, quando a esposa chegou, plida e ofegante, quase sem conseguir falar: 


-Venha ver... Felcio!  uma... catstrofe de dimenses incomparveis! 
- O que aconteceu, Melissa? -Ligue a televiso. 
Felcio empalideceu tambm. Lembrou-se de que aquele deveria ser o 
dia da ao que seu grupo planejara. Ligou a televiso, que noticiava em 
todos os canais: 

"A poeira radiativa alcanar algumas cidades. Aqueles que tm abrigo 
nuclear devem busc-lo imediatamente". 

Felcio passou de um canal a outro, atrs de mais informaes: 

"O mais poderoso submarino nuclear afundou e em seguida explodiu, 
gerando onda gigantesca que encobriu grande parte dos continentes Houve 
destruio macia. Segundo informaes colhidas com diversas reas de 
controle e operaes, tudo indica ter sido uma ao terrorista sem precedentes 
". 

Sem esboar reao, completamente atnito, Felcio olhava para a mulher, 
que chorava desesperada. 

Naquela mesma hora, longe dali, Elvira igualmente assistia ao noticirio, 
incrdula, junto dos filhos, que assustados perguntavam: 

- E agora? O que vai acontecer? Vai morrer muita gente? Henrique questionou: 
32 


#
- Como  que pode ser isso? Esse submarino era de segurana mxima, 
utilizado apenas para pesquisa em guas profundas... 

Elvira respirou fundo e respondeu: 

-Eu no sei o que dizer, meu filho. Agora que nosso mundo parecia de


finitivamente melhor, vemos esse desastre monstruoso... No sei, Henrique, 
no sei mesmo o que dizer... 

- Por que Deus permitiu uma coisa dessas, me? - questionou Lucas, o 
filho mais novo. 

Elvira fitou o jovem e explicou: 

-Meu filho, Deus nunca quer o mal, somente o bem para todas as suas 
criaturas. Ele nos ama infinitamente. S quer o nosso bem. Creia-me, Lucas, 
se algo to terrvel aconteceu, foi porque algum agiu contra a vontade de 
Deus. 

-Mesmo assim, por que Deus deixou algum tentar destruir tudo? 

-Porque ele nos d liberdade, meu filho. Somos livres para agir de acordo 
com nossa vontade. Ele nos deu esse poder. No entanto,  para usarmos 
isso em nosso benefcio, para o nosso bem e o bem geral de nossos semelhantes, 
e no para satisfazer nosso orgulho e nosso egosmo. Esse tem sido 

o maior problema humano, voc bem sabe.  contra isso que lutamos incessantemente... 
Apesar da resposta sbia da me, Lucas no se convenceu e, balanando 
a cabea em sinal negativo, repetia: 
-Isso no est certo... No est certo... Como isso foi acontecer, meu 
Deus? Por qu? 
Dor, sofrimento e estupefao: era o que se via estampado em todos os 
rostos. Era inacreditvel que, aps tantos esforos bem-sucedidos do governo 
nico para melhorar as condies do mundo, muitos ainda agissem para 
destru-lo. 

O nmero de mortes em decorrncia das ondas radioativas foi enorme. 
S no foi maior porque a populao h muito se preparara para enfrentar 
algo semelhante, e muitos possuam abrigos anti-radiao. 

33 


#
CAPTULO 8 

O dia foi de agitao e angstia em toda parte. Mesmo assim, Elvira no 
esquecia a recomendao de Jonef e, em meio  tragdia que se abatera 
sobre seus amigos, filhos e vizinhos, seu corao se mantinha ligado a Ernesto 
e  possibilidade de encontr-lo. 

J era noite alta e seus filhos ainda estavam grudados no aparelho de televiso, 
esperando novas informaes referentes aos fatos atordoantes que 
sobre o orbe se haviam abatido. Elvira entrou na sala e pediu: 

- Muito bem, rapazes, acho que j chega por hoje. Vamos nos deitar e 
procurar descansar. No se preocupem, pois amanh, logo que levantarem, 
todas as emissoras continuaro noticiando o que aconteceu. E repetindo as 
transmisses de agora. Vocs no perdero nada. 
Cansados, e sem ter muito como argumentar com a me, eles acabaram 
cedendo e foram para a cama. 

A casa estava silenciosa. Elvira rolava de um lado para o outro, tentando 
se acalmar, pois queria estar pronta para a oportunidade com que o amigo 
espiritual lhe acenara. Jonef a acompanhara ao longo do dia, embora sem 
se fazer perceber ostensivamente; agora, prximo  cabea dela, aplicava-
lhe fluxos de energia tranqilizadora sobre os centros nervosos, procurando 
serenar sua mente. Pouco a pouco, Elvira, que orava em pensamento, entregou-
se ao sono reparador. 

Logo que seu corpo entrou em sono profundo, seu peris-prito, liberto, 
ergueu-se com a ajuda de Jonef. Ela lhe disse: 

- Meu bom amigo, como me alegra v-lo! Que dia difcil tivemos hoje... 
Sinto-me esgotada. 
Amparando-a gentilmente, Jonef respondeu: 

-  chegado o momento to esperado, Elvira; sigamos sem demora. Somos 
chamados a comparecer a importantssima reunio no espao, prximo 
ao nosso orbe, e cabe-nos acima de tudo auxiliar no padro vibratrio necessrio 
para a realizao de encontro de natureza to singular. Deixemos para 
discutir assuntos menos elevados em nosso retorno, se voc ainda o desejar. 
Est certo? 
34 


#
O semblante de Elvira radiava luz intensa, de beleza admirvel. Seus olhos 
vibravam amor e emoo iluminada, e ela respondeu, compassiva e 
submissa: 

-Est certssimo, meu amigo. So os vcios da matria, que no conseguimos 
ainda superar. Vamos sem demora. 

Em segundos,  simples expresso da vontade de ambos, estavam diante 
de majestoso portal. Muitos acorriam ao local, em pequenos grupos de trs 
ou quatro; entidades espirituais acompanhavam almas que, desprendidas do 
corpo fsico durante o sono, compareciam  solene reunio. 

Respeitosos, entraram. Assim que cruzaram o portal avistaram ao longe, 
sobre colina verdejante, grande nmero de entidades que chegavam e procuravam 
se acomodar. O ambiente era de luz e beleza sublimes. rvores frondosas 
e flores delicadssimas que exalavam suave aroma compunham o cenrio 
deslumbrante. No cume do monte, instrumentos estavam colocados e 
alguns lugares preparados para aqueles que iriam conduzir a reunio. Luzes 
intensas eram vistas de longe, roscas, azuladas, lilases. Muitos eram os que 
as emitiam e o lugar transbordava harmonia e paz indescritveis. 

Logo Elvira e Jonef alcanaram os outros. Ela, ento, fitou o amigo e 
perguntou com delicadeza: 

-No vejo nossos amigos, Jonef, onde esto? 

-Muitos se encontram em tarefa na crosta, auxiliando nossos irmos em 
transposio de planos. Outros obedecem s orientaes de nossos superiores, 
participando das equipes de busca aos nossos irmos recalcitrantes no 
mal, que se escondem da luz. Eles devero apresentar-se esta noite, para 
colher os frutos de seu orgulho e sua iniqidade. 

Jonef se calou por alguns instantes. No breve silncio que se fez entre 
eles, o semblante de Elvira era de expectativa, at que o amigo continuou: 

- Esta noite ser o incio da grande transio; no  mais possvel esperar. 
Para que nosso mundo no seja destrudo e ganhe foras para se regenerar, 
milhares de almas sero transferidas para um planeta ainda primitivo, 
cujos obstculos e limitaes permitiro que recebam novas oportunidades 
de reabilitao e progresso. Voc no ignora que as falanges dos irmos que 
se comprazem no erro esto dificultando o desenvolvimento de nosso orbe. 
-Eu tenho plena conscincia disso, Jonef; s no sabia que estvamos 
to perto desse momento. Foram tantas as profecias que pareciam no se 
35 


#
cumprir que muitos acabaram por esquecer que um dia se daria o fato marcante 
da transio. 

- Pois bem, Elvira, acheguemo-nos mais; a reunio est para comear. 
Os dois se aproximaram do ajuntamento, tomando assentos confortveis, 
entre os que se espalhavam pela ramagem fresca. Elvira avistou rostos de 
alguns conhecidos e queridos, que cumprimentou mentalmente. 

Em poucos instantes, o silncio se fez absoluto. Todos oravam, pedindo 
as bnos de Deus para o encontro. Elvira, conquanto feliz por presenciar 
episdio to singular na histria daquela humanidade, sentia o corao apertado 
e inquieto, pois temia pelo destino de Ernesto. Jonef tocou-lhe as 
mos com ternura e advertiu: 

- Elvira, procure no pensar em Ernesto agora. Deixe que o Criador 
conduza aquele a quem voc tanto ama e coloque seu amor a Deus adiante 
de tudo. 
Acatando a sugesto do amigo, Elvira concentrou o pensamento nas 
verdades eternas e na beleza daquela ocasio, serenando desse modo o prprio 
corao. 

No cume do monte surgiram luzes to fulgurantes que alguns no as podiam 
fitar. Aos poucos elas tomaram a forma humana e se fizeram visveis a 
todos. A mais radiosa das luzes permaneceu brilhando, fortemente; dela 
emanava suave fragrncia que imediatamente inundou todo o ambiente, e 
encheu de alegria o corao de cada um dos participantes. Era o governador 
espiritual daquele mundo, que se apresentava  distinta audincia. Saudou a 
todos e, aps sublime e elevada prece, deu incio  esperada reunio. 

Aquela alma de absoluta pureza abraou a todos com sua energia de 
amor e explicou a importncia do momento. Ressaltou que, no Universo 
criado por Deus, todos os mundos evoluem da mesma maneira que os seres 
por Ele criados. Disse, jubiloso, que havia chegado o dia que Deus determinara 
para a depurao do querido orbe a que pertenciam, aps as duras lutas 
e os sofrimentos superados pela maior parte de seus habitantes. No haveria 
mais catstrofes naturais, nem a predominncia do mal. O Reino de Deus se 
fizera finalmente vitorioso no corao daquele povo, cheio de piedade e 
virtudes. O mal estava controlado. E se o povo, bondoso e misericordioso, 
continuasse a vigiar o corao e as tendncias inferiores, submetendo-se  
vontade de Deus, o mundo que habitava seguiria seu curso na espiral de 
transformao que o levaria a se tornar um mundo evoludo. O orbe passava 

36 


#
por significativa mutao e abrigaria, a partir daquele momento, almas em 
regenerao. Por causa disso, e conforme a determinao de espritos elevados 
que controlam o Universo, as milhares de almas que persistissem no 
mal, rejeitando o amor e a verdade, seriam banidas do orbe, temporariamente, 
para que pudessem, atravs de srias dificuldades, de lutas dolorosas e 
experincias expiatrias em um planeta jovem e com habitantes primitivos, 
sujeitar-se finalmente aos desgnios divinos, que at ento renegavam. 

Depois de breve pausa, ele retomou a palavra: 

-No  mais possvel que permaneam conosco. As almas que comeam 
a retornar para nosso mundo, neste novo ciclo evolutivo de regenerao, e 
que daro grande impulso ao seu desenvolvimento, necessitam de ambiente 
onde vicejem o bem, o amor e a fraternidade. No h mais lugar para o dio 
e o egosmo consciente, tampouco para o orgulho tenaz. Em um ambiente 
de tamanha harmonia e tanto bem-estar, nossos irmos que ainda desprezam 
a Deus no tero como renovar-se pela dor;  preciso que sejam lanados 
em maior abismo, onde o sofrimento os desperte para o Criador e para sua 
prpria felicidade. Muitos partiro deixando aqui entes queridos, que seguiro 
sua jornada evolutiva. Mas eu lhes asseguro que os que estiverem preparados 
e tiverem condio espiritual podero visit-los no orbe para onde 
sero encaminhados. 

Que Deus nos abenoe a todos. 

O governador interrompeu seu discurso. Suave cntico espalhou-se pelo 
ambiente e apresentou-se um coral reluzente, de vestes branqussimas, aliviando 
com a msica elevada a dor do corao de muitos que por tempo indefinido 
perderiam contato com aqueles a quem amavam. 

Elvira escutava com o corao opresso, porm resignado. Pesadas lgrimas 
desciam-lhe pela face e foi somente ao final dos cnticos que sentiu 
algum alvio. 

Aps a doce apresentao, nova e fulgurante luz surgiu no meio dos dirigentes. 
O governador daquele mundo em transio saudou o governador 
da Terra, planeta para onde seriam enviados os exilados. 

Lentamente, a intensa luz que aparecera, cujo brilho ofuscava a viso da 
maioria dos presentes, se condensou na figura amorosa de um ser fisicamente 
semelhante aos capelinos. De feies meigas e suaves, ele atraa todos os 
olhares. Retribuindo o carinho com que era recebido, aquele ser de luz saudou: 


37 


#
-Que a paz de Deus esteja com todos vocs e que ele abenoe essa transio 
bendita por que passam neste momento. Nosso Senhor, que tudo sabe 
e tudo v, recompensa sempre as obras de nossas mos e a colheita, boa ou 
m,  sempre certa. 

Depois da breve saudao se fez silncio expectante. Em alguns instantes, 
grande tumulto  distncia foi ouvido. Abriu-se o ter ao longe e das 
entranhas das trevas subiu uma espaonave enorme, com muitas almas em 
seu interior. Algumas gritavam, amaldioando a Deus por estarem presas 
naquelas condies. Outras vertiam doloroso pranto de arrependimento e 
remorso. Havia as que clamavam por misericrdia e gritavam por socorro. 
Umas gemiam, to-somente. Outras lamentavam, angustiadas, o destino que 
as aguardaria. 

CAPTULO 9 

Aquela seria a primeira grande transferncia de almas que partiriam para 
a Terra, deixando para trs o belo mundo em regenerao. Milhes de outras 
ainda haveriam de ser exiladas. Muitas estavam sendo presas e confinadas 
pelos trabalhadores da luz que as recolhiam em profundos e escuros abismos. 


Elvira desejou aproximar-se da espaonave, na esperana de ver Ernesto. 
Angustiosa expectativa pairava no ar. Ela pensava no marido e em qual 
seria seu destino, no novo lar onde iria viver. Foi ento que o governador da 
Terra se aproximou da gigantesca espaonave e falou afetuosamente s almas 
que ali se encontravam: 

- A partir de agora, eu os recebo no orbe da Terra, planeta em estgio inicial 
de evoluo. A misericrdia divina jamais abandona criatura alguma. 
Meus irmos,  foroso recomear e os habitantes da Terra precisam da contribuio 
de vocs. L, junto aos irmos primitivos, vocs podero colaborar 
para a sua evoluo, o seu adiantamento, enquanto resgatam os pesados dbitos 
contrados para com a justia divina. E a nova oportunidade que Deus 
oferece a vocs. Ainda que distantes do lar, eu prometo que estarei sempre 
cuidando de todos. No princpio, chegando  Terra, sero habilitados para 
aprender a viver em um ambiente primitivo, com todas as dificuldades que 
38 


#
vocs superaram nos primrdios de seu prprio mundo e, portanto, j esqueceram. 
Sero preparados para viver em um corpo mais grosseiro e denso, 
com suas necessidades e seus desafios. E um dia, quando for o momento 
propcio, eu mesmo descerei  Terra e estarei encarnado junto com vocs, a 
fim de ajud-los na conquista de suas almas para o glorioso destino que os 
aguarda. Vocs jamais sero desamparados, ainda que tenham virado as 
costas e desprezado as leis divinas. Nosso Pai jamais os abandonar; exercer 
sua justia, porm o far com profundo amor. 

As palavras daquele ser de pura luz eram doces e suaves, causando forte 
emoo. Os capelinos que seriam exilados o ouviam com ateno e muitos 
coraes se abrandaram diante das promessas que fazia. A maioria no o 
podia mirar, tamanha era a luz que dele emanava; escondiam os olhos e apenas 
ouviam suas abenoadas palavras. Outros, entretanto, manti-nham-se 
cegos e surdos s suas palavras, nutrindo revolta profunda contra Deus e 
seus desgnios. 

Quando o divino embaixador da Terra terminou, afastou-se da grande 
nave. O governador daquele orbe autorizou a aproximao dos presentes 
que tivessem pessoas amadas entre os que partiriam. Elvira imediatamente 
levantou-se, mas Jonef a deteve: 

- Ernesto no est entre os que vo partir hoje. Surpresa, ela se sentou e 
perguntou: 
-Sabe onde ele est? 

- Recebemos informaes sobre sua localizao antes do incio da reunio. 
Ele deve partir muito em breve, assim que puder ser resgatado. 
- E onde est? Podemos v-lo? 
Jonef pousou em Elvira os olhos lmpidos e amorosos e disse: 
- Querida Elvira, tem certeza de que quer v-lo nas condies em que se 
encontra? Pelo que fui informado, seu estado  de demncia total. Est enlouquecido 
pelo dio e pela vingana que empreitou. 
-Vingana? 

- No bastassem as suas deplorveis atitudes contra a vida, ele foi o responsvel 
pela loucura e morte de Ferdinando. Os dois esto ligados de maneira 
lamentvel e ser difcil dissoci-los. 
Elvira calou-se, desolada. Depois, fitando o olhar bondoso de Jonef, 
pediu: 

39 


#
- Podemos v-lo? Eu realmente gostaria de ajud-lo. Sentindo as foras 
lhe faltarem, derramou amargo pranto 

e falou entre soluos: 

-Meu Deus, como foi possvel que Ernesto se afastasse tanto assim do 

Senhor? 
Depois, ergueu a cabea e encarou o amigo: 

-Ah, Jonef, como isso pde acontecer? Ernesto havia melhorado muito... 
J se redimira de tantos dbitos... Como foi cair to fundo? 
Jonef a abraou carinhosamente e respondeu, tambm entristecido: 

-O orgulho, Elvira, essa chaga tomou conta de nosso Ernesto. Ele, de 
fato, havia melhorado muito em suas duas ltimas encarnaes. Tnhamos 
grandes esperanas para sua atual experincia, mas ele sucumbiu por essa 
imperfeio atroz. Ante a oportunidade de experimentar a expanso de sua 
inteligncia, no teve amor suficiente e falhou tremendamente. 
De olhos ainda midos, Elvira suplicou: 

- Podemos v-lo? 
Jonef assentiu com a cabea, dizendo: 
- Quando a reunio terminar, vamos procur-lo. 
A ateno de Elvira e Jonef se voltou para a movimentao que acontecia 
a meia-distncia. A grande nave se afastou, sob o olhar pesaroso de milhares 
de capelinos que viam pessoas prximas deixarem o espao etreo do 
sistema de Capela para s se reencontrarem num futuro remoto. Eram almas 
afins que se separavam dolorosamente, por tempo indeterminado. 

Mais alguns cnticos ecoaram no espao, enquanto os gu-pos se afastavam 
lentamente. Muitos ainda buscavam orientaes sobre como poderiam 
ajudar seus amados que partiam, mas aos poucos a multido se dispersava. 

Elvira, Jonef e uma equipe de mais sete trabalhadores abnegados dirigiram-
se para onde Ernesto estava. Dois deles eram os responsveis por prend-
lo assim que fosse encontrado. 

Caminharam para regio de sombras densas. O cenrio tornava-se tenebroso. 
Gritos e grunhidos eram ouvidos, bem como muitas ameaas. O grupo 
estava protegido por energias luminosas para que pudesse transpor o escuro 
abismo. Bandos de entidades deformadas tentavam atac-los, sem poder 
atingi-los, e eles prosseguiam. Ao se aproximarem da entrada de uma 
caverna, Jonef disse a Elvira: 

40 


#
-  aqui, eles esto l dentro. Eram prisioneiros de um grupo insolente, 
mas os mais perigosos j partiram para a Terra. De qualquer modo, Elvira,  
melhor que fique aqui com os outros. Eu, Manasses e Sadraque vamos entrar. 
- Por favor, Jonef, posso ser til l dentro. Vocs podem precisar de 
mim; eu vou entrar tambm, por favor. 

Jonef trocou rpido olhar com os companheiros, depois disse: 

-Pois bem, venha conosco; mas daqui por diante precisar fazer exatamente 
o que lhe pedirmos, ou seu corpo fsico, ora em repouso, poder ser 
afetado. 

Elvira concordou. Ela sentia dificuldade para respirar, pois a atmosfera 
era densa e pesada e o cheiro de enxofre, misturado a outros odores ftidos, 
era repugnante. Entraram. 

Aps pequena caminhada, Jonef, que ia adiante, estacou perto de uma 
massa disforme, com duas cabeas bem ntidas. Ele se virou para Elvira, 
sinalizando que os haviam encontrado. Ao constatar que aquela criatura 
monstruosa que via  sua frente fora outrora Ernesto, ela caiu de joelhos 
rogando mentalmente a Deus por piedade e misericrdia. Manasses e Sadraque 
plasmaram uma maa e se acercaram de Ernesto, que atado a Ferdinando, 
em simbiose doentia, estava completamente deformado. Entretanto, ao 
perceber o movimento, Ernesto comeou a gritar e esbravejar que ningum 
se aproximasse ou ele atacaria. Elvira levantou-se e, achegando-se um pouco 
mais s entidades doentias, suplicou: 

- Ernesto, sou eu, Elvira. Por favor, vocs precisam deixar que os ajudemos. 
Precisam de socorro. Ernesto querido, deixe-nos ajud-los... 
Todavia, no pde continuar. Das duas entidades, rajadas de energias 
deletrias comearam a ser arremessadas. Sadraque, ento, apontou para os 
dois um objeto que disparou raios neutralizadores e as entidades foram de 
imediato sedadas. Jonef e Manasses colocaram a massa disforme na maa e 
Elvira, junto ao rosto de Ernesto, afagou-lhe a testa e em lgrimas disse: 

-Descanse, meu amado. Onde voc for, a estarei tambm eu para orar 
por voc, para sustent-lo com o meu amor. Jamais o abandonarei, Ernesto. 
Um dia, haver de voltar-se para Deus e nunca mais precisar passar pelo 
que vive agora. E eu estarei ao seu lado, sempre. 

A cena era comovente. Elvira, que emitia intensa luz, de joelhos acariciava 
com desvelada ternura aquela massa pegajosa e cinzenta. Por um breve 

41 


#
instante o grupo permaneceu em profundo e respeitoso silncio. Depois, 
Manasses tomou Elvira pelo brao, levantou-a delicadamente e pediu: 

-Querida irm, ns temos de ir, pois nossa empreitada  perigosa. Certamente 
Deus j lhe ouviu as splicas de amor. Agora devemos ir. 

Imediatamente o grupo levou os prisioneiros para um posto de socorro 
prximo, onde aguardariam, sob deteno, nova partida de exilados para a 
Terra. Ainda uma vez, Elvira aproximou-se do corpo do marido, jungido ao 
de Ferdinando. Ajoelhou-se  beira da maa simples que os acomodava, tocou-
lhe a face com indizvel ternura e pediu que ambos fossem ajudados a 
encontrar o caminho de volta ao divino Criador, enquanto pesadas lgrimas 
corriam pela sua face iluminada. Aps curto silncio em que os amigos espirituais 
presentes acompanharam com reverncia a orao que ela proferia, 
Jonef ergueu-a e lembrou: 

-Agora vamos, minha irm,  hora de partir. 

Ela o seguiu em silncio durante a rpida viagem de retorno. De volta ao 
seu lar, ao adentrarem o quarto, Jonef recomendou: 

- Descanse um pouco, Elvira, que logo amanhecer. Seus filhos precisam 
de voc; muitos dependem de sua ajuda no momento crucial pelo qual 
est passando o orbe. Muitos esto desencarnando e outros tantos desencarnaro 
brevemente em conseqncia da exploso nuclear, sendo sem demora 
transferidos para a Terra. 
Acomodando-se a seu corpo fsico tambm agitado, Elvira perguntou: 

-O que ser de Ernesto agora? Quando partir para o novo planeta? 
-Ele ficar em tratamento por algum tempo e, logo que tiver o mnimo 
de condies, ser levado. 
-Gostaria imensamente de v-lo, de falar com ele outra vez, to logo 
seja possvel. 
- Seus pedidos foram atendidos, Elvira. Voc tem a seu favor anos de 
trabalho e dedicao aos semelhantes, em servio reverente ao Criador. Tem 
o merecimento e suas preces foram ouvidas. Contudo, por enquanto seu 
concurso no ser salutar. Outros necessitam de voc aqui mesmo. Desse 
modo, acompanharei pessoalmente o desenvolvimento de Ernesto, tanto 
aqui como quando de sua transferncia para a Terra. Esporadicamente, irei 
visit-lo e, ainda que a distncia, darei a ele amparo e cuidados constantes. 
To logo ele esteja em condies de v-la, de falar com voc -ou seja, assim 
que esse encontro puder ser til de fato , providenciaremos que estejam 
42 


#
juntos. Agora, Elvira, tranqilize seu corao. Voc poder estar perto de 
Ernesto, desde que seja proveitoso, especialmente para ele. Confie e trabalhe, 
como tem feito, e um dia, pela misericrdia de Deus, estar de novo ao 
lado dele. 

- Voc me trar notcias de seus progressos? 
-Sempre que as tiver. 
Elvira sorriu e ajustou-se por completo ao corpo fsico, adormecendo 
profundamente. 

CAPTULO 10 

Jonef acompanhava dia a dia o estado de Ernesto. Durante vrias semanas 
ele permaneceu em sono angustiado e delirante, tendo o perisprito 
ainda ligado fortemente ao de Ferdinando. Ambos ocupavam um quarto de 
segurana no posto de recuperao, prximo  crosta do orbe. Todos os dias 
numerosa equipe de magnetizadores participava das preces, ao entardecer da 
crosta, e vibrava energias de restaurao tanto para o corpo espiritual, como 
para o esprito dos enfermos, marcados pelo dio e pela rebeldia. 

O tempo passava sem que nenhum progresso se obtivesse no tratamento 
espiritual de Ernesto e Ferdinando. Os espritos encarregados de administrar 

o posto de socorro decidiram, ento, que seria mais proveitoso transferi-los 
sem demora, para que na Terra iniciassem a nova fase de penosas reencarnaes. 
Na noite prevista para a transferncia, Jonef levou Elvira para se despedir. 
Ela chorou entristecida ao constatar que nenhum progresso se efetuara 
naqueles dois coraes, obstinados no mal. 

Foram conduzidos, enfim, para o espao espiritual ao redor da Terra e 
preparados para o prximo reencarne. Iriam renascer nas condies em que 
se encontravam no espao para que do choque com o corpo fsico, com a 
matria densa, pudesse advir algum benefcio para aquelas almas. 

Foram encaminhados para uma tribo de seres primitivos, onde a linguagem 
falada ainda no existia. Reencarnaram ambos, filhos do mesmo casal, 
como irmos siameses e disformes, assustando a pequena aldeia. Abando


43 


#
nados pela me no meio de densa floresta tropical, foram rapidamente devorados 
por animais selvagens. 

Ao longo de muitos sculos, em igual situao renasceram seguida e 
compulsoriamente, inconscientes do que se passava ao seu redor, e na mesma 
condio lamentvel retornaram vezes sucessivas ao plano espiritual da 
Terra, at que em uma dessas reencarnaes, pela misericrdia do Criador e 
sob a proteo dos benfeitores espirituais, uma mulher j mais evoluda, 
esprito tambm originrio da civilizao do sistema de Capela, recebeu-os 
como filhos e afeioou-se a eles, apesar de todos os defeitos que apresentavam. 
Com esforo e dedicao, conseguiu mant-los com vida por cinco 
anos. Mesmo dispondo de curto perodo sobre o solo terreno, ao regressarem, 
estavam ligeiramente separados, um pouco menos ligados um ao outro. 
Era o primeiro progresso realizado desde que haviam deixado o lar longnquo. 


Elvira acompanhava, sempre esperanosa, as reduzidas notcias que Jonef 
lhe trazia. Agora ela j estava no plano espiritual, bem como seus filhos. 
Ela continuava, incansvel, trabalhando para o bem daqueles que amava 
e de tantos quantos necessitassem de sua ajuda. Dedicava-se especialmente 
s crianas que desencarnavam em difcil condio. Era infatig-vel 
colaboradora nos servios de auxlio queles que, mesmo encarnados naquele 
mundo em regenerao, se distanciavam gradualmente do bem. Por isso 
ela permanecia no plano espiritual; no mais reencarnara, desde sua ltima 
experincia junto com Ernesto. Foi com alegria que recebeu a notcia sobre 
a pequena melhora apresentada por Ernesto e Ferdinando. 

- Fico muito grata por manter-me informada, Jonef. No seria o momento 
de estar com ele e ajud-lo a conquistar um pouco mais de equilbrio 
para sua prxima experincia na crosta da Terra? 
- Incansvel Elvira, eu sabia que desejaria v-lo, to logo trouxesse 
qualquer notcia animadora. No entanto, ainda no  o momento. Seu concurso 
agora pouco poder contribuir para a melhora espiritual de Ernesto.  
preciso esperar; somente com o concurso do tempo, seu auxlio ser efetivo. 
Aguardemos a hora oportuna. Ernesto est apenas comeando seus passos 
na Terra a ainda precisar muito de sua ajuda. 
Consciente da ansiedade que dominava Elvira e do imenso amor que ela 
nutria por Ernesto, tocou-lhe suavemente o ombro e consolou-a: 

44 


#
-Minha irm, continue confiando em Deus. Ele jamais desampara um 
sequer de seus filhos amados. Somos criaturas de suas mos, que ele amorosamente 
acompanha passo a passo, na trajetria evolutiva. 

Ela suspirou e sorriu. Depois de alguns instantes, respondeu: 

-Tem razo, esperemos o melhor momento, o mais proveitoso para todos. 


Sculos se passaram. Ernesto e Ferdinando, em melhores condies, 
permaneciam no espao espiritual denso em torno da Terra, sendo preparados 
para nova experincia. As equipes espirituais finalmente conseguiram 
razovel separao de seus perispritos, que se completaria quando voltassem 
como irmos gmeos. Aps cuidadosa preparao, reencarnariam afinal 
em uma regio em franco desenvolvimento, filhos de pais tambm vindos 
do sistema de Capela, para que a sintonia se fizesse maior, auxiliando no 
progresso de que todos necessitavam. Renasceram no continente de Atlntida. 
Contudo, ambos traziam deformaes fsicas ao nascerem, sendo que as 
de Ferdinando eram mais graves. Sem pensar duas vezes, o pai escolheu o 
pequeno com menos defeitos e sacrificou o outro. Ernesto e Ferdinando se 
separavam, depois de prolongado estado de inconscincia. 

Naquela famlia, o menino cresceu at completar doze anos e depois, 
no resistindo a uma srie de doenas fsicas e mentais, voltou ao plano espiritual. 


A partir daquela experincia, Ernesto e Ferdinando seguiriam caminhos 
distintos, pois o segundo j estava reencarnado quando o primeiro regressou. 
Alm do mais, Ernesto, aps indispensvel preparao, retornaria  
vida fsica sem perda de tempo, para que pudesse recobrar a conscincia e 
iniciar o trabalho pessoal e intransfervel de resgate de sua alma para Deus. 
Mais uma vez, renasceria em Atlntida, na mesma famlia que havia deixado; 
seria neto daquela que fora sua me. Comeava para Ernesto nova fase 
de sofridas reencarnaes na Terra. 

Ainda semiconsciente de sua realidade, o esprito de Ernesto no compreendia 
o que se passava. Quando chegou  adolescncia, torturado por 
profunda angstia, cometeu suicdio, regressando ao plano espiritual em 
situao agravada. Apesar disso, aquele esprito comeava a despertar. 

* * * 

45 


#
Ao longe, Elvira contemplava seu orbe amado, enquanto tratava de algumas 
de suas plantas preferidas. Pensava nas crianas que recebera naquele 
dia, quando Jonef despertou-a de seu torpor: 

-Elas crescem lindas sob seus cuidados, Elvira. 

-Crescem lindas aqui, sob os cuidados de quem quer que as ame -ela 
sorriu, serena. 

Jonef abraou Elvira carinhosamente e disse: 

- Chegou o momento pelo qual voc tanto ansiava. Instantaneamente os 
olhos de Elvira encheram-se de lgrimas e ela indagou: 
- verdade, Jonef? Vou poder enfim reencontrar meu querido Ernesto? 
- Sim, partiremos em algumas horas. Prepare-se. Virei busc-la assim 
que estiver pronta. 
-No perderei nem um minuto. Vou tomar todas as providncias para 
que o trabalho aqui continue sem interrupes e ficarei livre para acompanh-
lo. 

Parando, olhou para Jonef e perguntou, sria: 
-Como ele est? 


-Sofre bastante. Seu esprito comea a despertar lentamente e est muito 
difcil para ele compreender o que se passa  sua volta. No presente momento 
se encontra sob o domnio de entidades muito agressivas, que o fazem 
refm. Mesmo assim, convm que o encontremos e resgatemos, para 
que retome sua caminhada. Nesta etapa, seu concurso poder auxiliar o trabalho 
de evoluo de Ernesto. 
-Estarei pronta rapidamente. 

-Virei busc-la. 

Algumas horas depois, partiram junto com outros dois companheiros em 
direo  Terra. Depois de percorrerem longa jornada entre os dois mundos, 
foram direto para as regies umbralinas do planeta, densas, pesadas, de amarga 
aflio. Elvira assustou-se. At as regies mais obscuras em derredor 
de seu mundo no se pareciam em nada com o que via e sentia naquele ambiente. 
Era difcil, quase doloroso, respirar e sentia-se sufocar pelo mau-
cheiro que havia ali. Foi  custa de grande esforo que pde seguir os companheiros 
e ajud-los a resgatar Ernesto. 

Horas depois, enquanto ele dormia em uma enfermaria, num hospital logo 
acima da crosta, Elvira trocava impresses com Jonef: 

46 


#
-Estou impressionada com o peso que sinto neste planeta. -J vivemos 
em condies semelhantes a estas um dia, em nosso mundo. 

-  impressionante refletir sobre o quanto j caminhamos. Graas a 
Deus! Graas a Deus, que nos concede a possibilidade da transformao e 
do crescimento, de nossa evoluo. 
-Sim. A Terra tem um longo caminho at alcanar condio espiritual 
diferente. Hoje, porm,  o lar que oferece abrigo aos nossos irmos capelinos, 
no  mesmo, Elvira? 

- Abenoado planeta que os acolheu. Por outro lado, imagino que deve 
ser muito difcil para eles viverem aqui. Quando encarnados, no suspeitam 
que existe algo alm, que no compreendem e de que sentem falta? No tm 
saudade de seu verdadeiro lar, dos afetos que deixaram para trs? 
- Na realidade,  o que mais os aflige, Elvira. Saudade de algo indefinvel, 
que no podem entender, nem imaginar exatamente o que seja. 
-E esto conseguindo ajudar de alguma forma o planeta? 

- Ainda no. A bem da verdade, Atlntida, onde Ernesto esteve encarnado 
nas ltimas experincias, dever desaparecer do orbe terreno em futuro 
no muito distante. 
- Desaparecer? 
-Sim. Ser outro expurgo, para purificao da raa, e nova tentativa de 
acelerar o aperfeioamento do planeta. Nossos irmos encarnados na Terra 
depressa tomaram o poder e hoje dominam tudo; mas neles a inteligncia 
tem prevalecido sobre o corao e, endurecidos, esto trazendo mais dor e 
sofrimento queles a quem deveriam auxiliar. O progresso se faz vagarosamente. 


Elvira ouvia atenta os detalhes da narrao de Jonef sobre o que se passava 
em Atlntida, quando foram chamados para ver Ernesto, que despertava. 
Ao entrar no quarto, ela procurou em derredor por algum semelhante  
imagem que guardava do marido; foi um enfermeiro que, aproximando-se, 
cumprimentou os recm-chegados e apontou uma das maas do enorme galpo: 


-Est ali, eu os levo at ele. 

Elvira chegou perto da cama onde um jovem jazia amarrado e, em desespero, 
gritava palavras incompreensveis. Tocando o rosto do rapaz, ela 
orou a Deus, pedindo amparo para aquele a quem tanto amava e comeou a 
vibrar intensa energia impregnada de amor. De seu corao emanavam jatos 

47 


#
dulcificantes que envolviam o corpo espiritual do jovem e o acalmavam. Ele 
adormeceu novamente, j em condies um pouco melhores. 

Por longo perodo Elvira auxiliou os trabalhadores responsveis por acolher 
os recm-chegados da crosta. Ernesto recebia seus efivios de amor e 
desvelada ternura, e, envolvido naquela energia que era to familiar para ele, 
melhorava gradativamente. Por fim, encontrou-se acordado e em condies 
de conversar com Elvira. Estava ainda semiconsciente e confuso, quando ela 
chegou. Olhou-a de alto a baixo e disse, sonolento: 

- Conheo-a de algum lugar... 
-Procure descansar. Voc precisa se recuperar, pois tem muito trabalho a 
fazer. 
-Eu sinto que tenho muito a fazer, s que no posso lembrar o que ... 
Seu rosto... Agora me lembro! Elvira! 
Ernesto se ps de joelhos, chorando copiosamente. Seu perisprito 
transmutou-se de imediato e ele retomou a forma que tinha ao deixar Capela. 


Elvira ajoelhou-se ao seu lado e abraou-o, sustentando-o em silncio. 
Quando finalmente conseguiu se acalmar, ele ergueu os olhos e indagou: 

- O que aconteceu comigo, Elvira? Tenho lembranas estranhas, entrecortadas, 
como num sonho. No sou capaz de me lembrar direito dos fatos, 
do que houve comigo... Ferdinando... Onde est aquele... 
Elvira o impediu de terminar o que tencionava dizer. Colocou o dedo 
sobre seus lbios e pediu: 

-Ernesto, agradeamos ao Criador as oportunidades que nos d e deixemos 
para trs nossos antigos desafetos. Olhe para a frente e prossiga, meu 
amado! No se prenda mais ao que passou! 

Ernesto sentou-se de novo na cama, atordoado. Elvira pediu: 
-Acho melhor descansar agora, voc precisa recobrar as foras. 
Ernesto segurou-a pela mo e implorou: 


- No se afaste de mim. Tenho medo de ficar s! 
-Voc no est s, querido, nunca esteve. Olhe  sua volta, quantos irmos 
trabalhando para que outros, como voc, se recuperem. 

Ernesto deu uma breve olhada em redor e falou outra vez, suplicante: 

-No me deixe. S com voc me sinto seguro. Elvira o abraou com ca


rinho e procurou acalm-lo: 

48 


#
-No se preocupe, no vou deix-lo. Descanse. Assim que acordar estarei 
aqui para conversarmos. 

- Promete? 
- Sempre estarei ao seu lado, querido, sempre. 
Ernesto ajeitou-se na cama e, segurando as mos de Elvira, adormeceu. 
Depois de prolongado descanso, despertou mais refeito, embora sentindo 
dores violentas. Elvira trouxe-lhe o medicamento indicado e as dores 
diminuram. A ele perguntou: 

-Que dor  essa? Onde estamos, Elvira? Que lugar  este? Parece-me 
muito estranho...  tudo to esquisito... 

-Sente-se bem para caminhar? 

-Sim. 

Ela estendeu as mos, sorrindo: 

-Ento venha, temos muito que conversar... 

Elvira e Ernesto caminharam para fora do ambulatrio e sentaram-se 
num banco. Ela ps-se a contar ao companheiro um resumo do que se passara 
at aquele momento, selecionando os fatos adequados para seu estado 
momentneo. 

Quando terminou a narrativa, Ernesto gritava descontrolado: 

-No! No! No  possvel! No! No quero viver nesta priso! 

Elvira pedia, suplicava: 

-Vamos, Ernesto, acalme-se. Pense em quanta misericrdia tem Deus, 
proporcionando-nos este reencontro... 

-No! No quero viver longe do meu mundo! Longe de voc e neste 
planeta inculto e grotesco! 

-Ernesto, acalme-se, estamos em um hospital. Muitos ainda esto na 
condio em que voc se encontrava h pouco: completamente inconscientes. 
Eles, do mesmo jeito que voc, precisam de paz e de silncio para melhorar. 


Tomando-lhe as mos com doura, irradiou intensa luz sobre ele e pediu 

uma vez mais: 
-Por favor, acalme-se. 
-No! -ele continuava -No quero! 
Jonef aproximou-se dos dois e chamou: 

- Elvira,  hora de partirmos. Sua presena comea a ser prejudicial para 
Ernesto. 
49 


#
Ernesto o fitou e disse, agarrando-se a Elvira: 

-Ela no vai a lugar algum. 
Jonef fez meno de tocar Ernesto, mas Elvira, sabendo o que ele estava 
para fazer, pediu ao dedicado amigo: 

- D-me s mais um instante, por favor. 
- Como assim, s mais um instante? - perguntou Ernesto, fitando-a assustado. 
Elvira baixou a cabea e comeou a orar cheia de f. Mais uma vez, de 
seu corao doces vibraes partiam em direo a Ernesto, que, envolvido 
por completo, acabou por se acalmar. Foi quando ela esclareceu: 

-No h como fugir das leis divinas, Ernesto. Foi escolha sua e agora colhe 
as conseqncias de suas decises. No estado espiritual em que se encontra, 
no pode mais viver em nosso mundo, ao menos por enquanto. 

Ernesto a fitava e segurava suas mos com firmeza. Ela prosseguiu: 

-  essencial que transforme sua vibrao, que renove seu corao, sua 
mente, que as leis divinas tomem conta de seu ser, para que ento voc possa 
regressar... No precisa ficar aqui para sempre. Se aproveitar bem suas 
oportunidades, suas experincias no corpo fsico e fora dele tambm, se, 
sobretudo, voc aprender a ser grato a Deus por cada uma delas, um dia estaremos 
reunidos outra vez. 
- E por que no posso melhorar l, ao seu lado? Por que tem de ser aqui, 
neste planeta miservel? 
-Ernesto, no maldiga o lar que o acolhe. Nosso orbe  agora um mundo 
de regenerao. A dor e o sofrimento foram substancialmente banidos. A 
boa vontade e o amor reinam nos coraes. No seria possvel resgatar os 
seus dbitos l. 

-E por que no? 
- Ernesto, j no h quase dor em nosso orbe. 
Ele a olhava sem entender o significado do que dizia. Elvira continuou: 
- A Terra  um planeta primitivo que atravessar longo caminho at se 
desenvolver. Aqui, a dor o ajudar na transformao que precisa realizar em 
si mesmo. 
Ernesto ia rebelar-se, indignado, quando ela se levantou primeiro e disse: 
-Agora preciso partir. Voc jamais estar s. A justia divina  sempre 
aplicada com amor. Siga com determinao, meu querido, e um dia nos jun


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#
taremos outra vez, em nosso lar. Meu amor por voc  imenso, porm preciso 
ir. 

Ernesto, gritando, insistia para que ela ficasse. Elvira sabia que seria 
intil tentar mudar o que ele sentia ou pensava e dirigiu-se a Jonef, que 
aguardara a distncia: 

-Podemos ir. 

Alguns trabalhadores do ambulatrio tiveram de segurar Ernesto, que 
gritava e tentava seguir Elvira, que dessa vez partiu sem olhar para trs. A 
despeito das lgrimas que corriam incessantes por sua face doce e meiga, ela 
no se voltou para a direo onde estava Ernesto e acompanhou Jonef em 
total silncio, at o regresso ao lar. Quando chegaram ela afirmou, pesarosa: 

-Foi mais difcil do que eu imaginava. 

-Sei que foi, mas ajudou-o muito, Elvira. 

- Espero que sim. S no sei se foi acertado despertar daquele modo sua 
conscincia. 
- S voc poderia faz-lo, sem que ele enlouquecesse. Foi acertado, sim. 
Agora, mais consciente, ele tem melhores possibilidades de progresso. Que 
Deus o ampare e abenoe em sua nova chance. 
-Ele reencarnar em breve? 

- Logo que estiver preparado, regressar. Na condio em que se encontra, 
 intil prorrogar demasiadamente sua estada no plano espiritual. 
Elvira fitou o infinito por instantes, depois olhou para Jonef e perguntou, 
ainda com os olhos rasos de lgrimas: 

- E ser que desta vez ter sucesso? 
Jonef tomou carinhosamente as mos da amiga entre as suas e disse, 
afetuoso: 

-Viver vrias experincias, sofrendo e aprendendo, at que um dia possa 
aproveitar melhor sua permanncia na Terra; ento, iniciar o caminho de 
regresso ao lar... 
Elvira silenciou por mais tempo, pensativa, e enfim disse, suspirando 
fundo: 

-E quanto tempo isso levar? Gostaria de ajudar mais Ernesto. 
- Voc j o est auxiliando muito, Elvira. Veja o progresso que obteve 
com sua visita... Levaria muito tempo para que ele conseguisse despertar do 
torpor em que mergulhara... 
51 


#
-Eu sei, meu bom amigo, mas desejo to ardorosamente estar ao seu lado... 
Sinto falta dele e gostaria de estar mais perto, apoiando-o mais. No 
seria possvel ficar junto dele, Jonef? Acompanhar seu progresso e ajud-lo 
de perto? No poderia ser seu anjo protetor na prxima existncia? 

Com as mos de Elvira seguras firmemente, Jonef respondeu: 

- Voc poder estar junto dele, mas  preciso que espere a melhor oportunidade. 
No estgio atual, ele no conseguir acatar-lhe os conselhos nem 
aceitar a sua preciosa ajuda, que acabar se perdendo. E voc sabe que h 
muito a ser feito aqui tambm, pelos nossos irmos em rduo trabalho de regenerao. 
Jonef fez longa pausa, fitou Elvira com o carinho de um pai e prosseguiu: 


-Quando ele atingir uma fase de maior iluminao interior e estiver vivendo 
uma encarnao em que sua ajuda seja decisiva, tenho certeza de que 
voc poder acompanh-lo. At l, oremos e aguardemos. 

Satisfeita com as colocaes do amigo, Elvira sorriu e, tomando o brao 
de Jonef, convidou: 
-Quer acompanhar-me at onde esto as crianas recm-chegadas, para 
ver o trabalho que est sendo desenvolvido? 
-Com muita alegria. 

52 


#
2. Parte 


"A civilizao egpcia -abrigando milhares 

de almas provenientes do sistema de Capela  
desenvolveu-se s margens do imponente rio Nilo, repleta 
de conhecimentos ignorados pelos povos primitivos da 
Terra e que ainda hoje exerce fascnio e admirao 

 sobre o homem moderno. 

Por volta de 3200 a.C. o Baixo e o Alto Egito 
unificaram-se sob a conduo de um s fara, tendo 
Mnfis como capital do chamado Antigo Imprio; seu 
domnio se estendia por todo o Oriente. 

Nesse idlico cenrio, Ernesto renasceu 
na Terra mais uma vez 

53 


#
CAPTULO 11 

As guas do Nilo refletiam com perfeio a lua e pareciam redobrar seu 
brilho, envolvendo tudo em suave claridade prateada. 

Sentado  beira de elegante e extensa varanda, Amenhotep observava a 
beleza da noite. O cheiro das plantaes, irrigadas pelo rio e banhadas pelo 
luar, dominava o ar, conferindo diferentes aromas ao ambiente. Era uma 
noite quente, depois de um dia de trabalho intenso. Ele contemplava o luar 
com estranha ansiedade. Olhava para as estrelas, desejando algo que no 
sabia explicar. No obstante sua respeitada posio no imprio, as conquistas 
e vitrias que acumulara, Amenhotep, quando sozinho, sentia-se inquieto 
e cansado. 

Usava ornamentos incrustados com detalhes em ouro, ao redor do pescoo 
e enfeitando-lhe a cabea; vestia tnica de seda pura e prazerosamente, 
de quando em quando, ajeitava a roupa alva e acariciava o adereo atado ao 
pescoo. Ele apreciava o luxo e a beleza e, ao mesmo tempo em que experimentava 
indefinvel angstia assaltar-lhe o corao, saboreava exultante a 
concretizao de seus planos. Sentia-se o prprio dono do Egito. 

Djoser, o grande fara, acabara de lhe dar inteira liberdade para a execuo 
de almejado projeto arquitetnico: construiria a maior e mais portentosa 
cmara morturia que um fara havia visto. Tinha certeza de que seu nome 
ficaria gravado na histria para sempre. Alm disso, o lder do imprio oferecera-
lhe vasto squito de servidores para colaborar em suas pesquisas na 
rea mdica, autorizando-o inclusive a utilizar escravos doentes para experincias. 
O que mais ele poderia ambicionar? Tinha tudo o que sempre desejara 
e estava perto, agora, de ser imortalizado pelas suas grandiosas realizaes. 


Amenhotep se levantou e caminhou devagar. De sbito, notou que a cortina 
de tecido finssimo que ornava a sada do seu quarto para a varanda se 
mexeu levemente. Uma silhueta feminina apareceu por trs da cortina. Sem 
se mover, Amenhotep perguntou: 

- Quem est a? 
Abrindo lentamente a cortina, Iaret surgiu, linda e sedutora. Aproximando-
se e enroscando-se em seu pescoo, disse: 

- Como viu que havia algum atrs da cortina? No fiz nenhum barulho! 
54 


#
-O que faz aqui, Iaret? 

-Fiquei com saudade e vim v-lo. No consigo ficar longe de voc, como 
bem sabe. Vamos, Amenhotep, vamos ao meu quarto agora! 

Afastando-a, com gentileza, ele alertou: 

- Voc se arrisca demais! 
E sussurrando no ouvido da moa, acrescentou: 
- Se ele descobrir, ambos pereceremos. 
- Ele est muito ocupado agora, com outra de suas mulheres. 
-Iaret, no seja cnica. Sabe que voc, e ningum mais,  a preferida do 
fara. E perigoso demais! Devemos ter mais cuidado. Tenho muitos inimigos; 
e quanto a voc -a favorita , tambm traria grande prazer s suas rivais, 
se o fara nos descobrisse. No, meu amor, temos de nos afastar.  
necessrio. 

Iaret se ergueu devagar, foi at o alpendre, observou o luar e o Nilo, com 

sua vigorosa correnteza, e depois, virando-se para ele, desafiou: 
-J me usou o bastante,  isso? 
Ele, ajoelhando-se aos seus ps, explicou: 

- No  nada disso, Iaret. Temo por ns; precisamos ser prudentes. Sabe 
que estamos conquistando uma posio de muito destaque e isso desperta a 
fria de nossos inimigos.  necessrio ter cautela. Djoser est organizando 
uma longa viagem para a Palestina; quer, ele mesmo, liderar essa batalha 
para dominar os inimigos. Quando ele for, boa parte de seu squito de abutres 
o acompanhar; mas eu ficarei. Estou arranjando tudo para que possa 
permanecer aqui, cuidando dos interesses do grande fara. 
Na pausa que se fez, ele estreitou nos braos a bela mulher do rei do Egito; 
depois prosseguiu: 
-Ento teremos mais condies para nos encontrar. At l, vamos ser 
cautelosos. 
Ainda contrariada, Iaret suspirou fundo e disse: 

-Muito bem, senhor arquiteto, vamos aguardar que se cumpram suas 
promessas. Minha ansiedade no tem fim... 
-No se arrepender! 
Ela j estava saindo, quando se virou e perguntou: 
-Em que pensava quando cheguei? Estava to distante e parecia triste... 

- Triste, eu? E por que estaria? No! Tenho quase tudo o que desejo e o 
que ainda no tenho, obterei em breve! Estava pensando na construo que 
55 


#
dever comear; fazendo clculos de tudo o que preciso para ver esse magnfico 
edifcio construdo. Serei uma lenda, Iaret. 

- Voc j te tornou uma lenda, querido Amenhotep. Sem esperar resposta 
a moa desapareceu pelo corredor. 
Ele sorriu por suas palavras e olhando o comprido corredor e a porta do 
seu quarto, para certificar-se de que ningum os ouvira, fechou-a e retornou 
 varanda. Mais uma vez admirou a lua e as estrelas, encantado com a beleza 
da distribuio dos astros na abbada celeste, e tentou imaginar o que 
existiria fora da Terra, longe, nesses pequenos pontos de luz espalhados pelo 
cu. Decerto haveria vida em outra parte; ele no tinha dvida disso. 

Em seguida Amenhotep se sentou, tomou nas mos objetos que havia 
criado e comeou a fazer clculos e mais clculos. O dia estava amanhecendo 
quando ele, ainda debruado sobre a mesa, bradou: 

- Descobri! Finalmente, consegui! 
Levantou-se eufrico e j ia saindo do quarto quando jovem escrava 
chegou, carregando um jarro com gua. Ao v-la, disse: 

- timo que tenha me trazido gua fresca. E disso que preciso agora. 
Coloque na bacia. 
Imediatamente ela despejou o contedo do jarro na bacia de cermica. 
Como fosse muito pesado, uma parte da gua escorreu pelo cho. Ao ver o 
pequeno acidente, ele gritou: 

- Voc no presta para nada, mesmo! Preciso me lembrar de livrar-me 
de voc! 
Ela se ps a chorar, apavorada. Mas ele disse, enquanto a escrava enxugava 
o rosto e saa: 

- Sua sorte  que estou muito feliz hoje! Nada me incomodar! 
Caminhou alegre pelos corredores do palcio que levavam at Djoser. 
Ao aproximar-se da porta dos cmodos reais, as sentinelas lhe barraram a 
entrada. Ele pediu: 

- Digam ao fara que Amenhotep quer v-lo. Tenho boas notcias. 
Do fundo do corredor, o sumo-sacerdote apareceu e, desdenhoso, perguntou: 


- O que inventou desta vez? Traz mais um de seus planos fantasiosos 
que so desperdcio de riquezas e de tempo do nosso bem-amado Djoser? 
56 


#
-No  nada com que precise se preocupar, Rudamon. Estou fora de 
seus domnios. Meus interesses no se opem aos seus, so de outra natureza. 
Com sorriso irnico, o sacerdote respondeu apenas: 

- Voc est sempre no meu caminho. Estou farto disso! 
-No entendo seu desprezo! Poderamos trabalhar juntos e ningum nos 
deteria - Amenhotep insistiu. 
-O fara no poder receb-lo hoje. Est muito ocupado organizando a 
prxima viagem. O Egito est em guerra, voc sabe. Ou no sabe? 

- Quem poderia ignorar? Nossas fronteiras se alargam dia a dia! 
- No graas a aventureiros como voc. Agora v embora. O fara est 
ocupado, tem muito trabalho a fazer. 
Rudamon ia prosseguir, quando foi interrompido pelo prprio Djoser, 
que, ouvindo o barulho  porta, reconheceu as vozes e veio at os seus mais 
fiis servidores: 

-Amenhotep! Entre! Venha, Rudamon, voc tambm. Conversemos em 
meus aposentos. 
-Se me permitir, senhor, tenho deveres a cumprir. No quero perder 
meu tempo com amenidades! 
- Pois bem, Rudamon. Pode ir. Vamos, Amenhotep, entre. O que deseja 
falar-me? 
-Eu consegui! Fiz alguns clculos pela posio das estrelas, que venho 
acompanhando h alguns anos, e cheguei  concluso de que posso prever 
as enchentes das margens do Nilo; quanto elas devero avanar na prxima 
estao das cheias. Isso nos poder ajudar no planejamento da produo 
agrcola para o abastecimento das cidades e para o comrcio. 

-Vamos saber antecipadamente quanto as guas subiro? 

- Quando e quanto. E, com base nisso, poderemos calcular a produo 
agrcola. 
-Extraordinrio, Amenhotep. Voc me surpreende sempre! No sabia 
que tambm sabia ler as estrelas. 
Dobrando o corpo em reverncia, Amenhotep respondeu: 

-Estou aqui para servi-lo, fara. 
- E eu estou satisfeito com seus servios. Pretendo trazer mais escravos 
em minha viagem. Assim poder comear a construir imediatamente meu 
templo morturio. Minha passagem para o mundo dos mortos. 
57 


#
-Fico muito feliz em poder servi-lo. 

Sentando-se e tomando nas mos um papiro, o fara escreveu nele algumas 
letras. Depois, chamou um dos guardas e ordenou: 

-Leve imediatamente ao meu sumo-sacerdote. E, virando-se para Amenhotep, 
disse: 

-Vou nome-lo meu ministro-chefe. Assim, poder cuidar do Egito enquanto 
expando as fronteiras do meu reino. 

Amenhotep quase no podia disfarar seu contentamento, mas conteve-
se, mostrando o ar grave que o momento exigia. 

Em alguns segundos, Rudamon entrou na cmara real, visivelmente contrariado. 
Djoser ordenou: 

- Organize a solenidade. Vou nomear Amenhotep meu ministro-chefe. 
- No acha uma deciso um tanto precipitada, senhor? No tivemos muito 
tempo para discutir o assunto. 
-Rudamon, todos admiram Amenhotep. Ele  de longe um dos mais inteligentes 
homens do meu reino. O que mais precisamos conversar? Organize 
a solenidade. Quero oficializar minha deciso amanh pela manh. 
Rudamon assentiu com a cabea e retirou-se, calado. Amenhotep aproximou-
se do fara e disse: 
-Acho que ele realmente no gosta de mim. 

- No se impressione. Rudamon serve fielmente ao Egito h muitos anos. 
Confio extremamente nele. Contudo, j  um ancio e, s vezes, cauteloso 
em demasia. Agora, vamos, me explique melhor o clculo das estrelas. 
Amenhotep sentou-se ao lado do fara e passou a detalhar os clculos 
que havia feito. 

CAPTULO 12 

Quando recebeu a notcia de que Djoser escolhera Amenhotep como 
ministro-chefe, Iaret gritou de alegria. Estava cada vez mais perto dele e 
isso lhe agradava profundamente. 

Amenhotep retornou ao seu quarto satisfeito e surpreso. No imaginara 
que em to pouco tempo atingiria tamanho prestgio no topo do poder no 
Egito. Ele se esforara para que isso acontecesse. Usara toda a sua capaci


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dade intelectual e toda a sua astcia para colocar-se no lugar que agora ocupava, 
mas custava a acreditar que conquistara tudo to depressa. 

Ainda estava perdido em pensamentos, sentado em sua agradvel varanda, 
quando sentiu braos delicados a envolv-lo. Levantou-se assustado e, 
ao ver que era Iaret quem o abraava, afastou-a irritado: 

- Iaret, eu j disse que devemos ter cautela. O que h com voc, afinal? 
- Vim apenas parabeniz-lo, meu amor. 
-Voc tem de ir embora. Se algum nos v, estaremos os dois condenados, 
sabe muito bem disso... 
-No tinha tanto medo quando me seduziu e invadiu meu quarto pela 
primeira vez, querido! 

-Meu amor, eu a quero com todas as minhas foras, e tanto, que no 
posso permitir que arrisque nosso futuro. Por favor, agora v! 
Iaret, insistente, agarrou-se ao pescoo dele e o beijou com ardor. Amenhotep 
no pde resistir quele arroubo e entregou-se ao beijo apaixonado. 
Os dois perderam-se no tempo e no espao e to entregues estavam  emoo 
avassaladora que no ouviram a porta do quarto se abrir. 

Quando os viu, Nitetis espantou-se e esbarrou em pesada jarra que ficava 
no corredor, junto do amplo quarto, derrubando-a. Ao escutar o estrondoso 
barulho, Amenhotep afastou-se de Iaret, apavorado. Deparando com a 
irm, ele gritou: 

- O que faz aqui, Nitetis? Voc me assustou! 
-Perdoe-me, Amenhotep, mas papai no est passando bem. Vim procur-
lo porque seu estado de sade piorou; ele precisa de voc. Creio que somente 
com sua ajuda poder melhorar. Por favor, venha comigo. Temos de 
fazer alguma coisa... 

-No posso ir agora, no hoje. E impossvel. 
- Mas ele est piorando muito, meu irmo. No teme que no possa ser 
salvo? 
-Creio que os deuses tm o controle da situao, minha irm. 
E olhando-a detidamente, disse: 
- Voc est diferente. O que aconteceu? Ela sorriu e respondeu: 
-Eu cresci, meu irmo. Faz tempo que no nos vemos. Por favor, Amenhotep, 
precisamos de voc. Venha comigo, papai nos aguarda. 
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- No se preocupe, Nitetis. Vou entregar-lhe um remdio que fiz e voc 
o leva ao nosso pai. Farei tambm uma oferenda a Anbis pela melhora dele; 
e assim que resolver tudo por aqui, vou ao encontro de vocs. 
Ela tentou argumentar: -Mas... 

- Hoje  impossvel. Receberei amanh das mos de Djoser a nomeao 
para a funo de ministro-chefe do Egito. E tudo com que sempre sonhei, 
Nitetis. No posso me ausentar agora e correr o risco de que algum inimigo 
tente se opor e consiga influenciar o fara. Assim que tudo estiver oficializado, 
irei ver nosso pai. 
Nitetis o fitou com tristeza. Levantou-se, conformada: 

- Est bem. Levo o remdio e espero que venha o mais breve possvel. 
Precisa ajudar a organizar o trabalho em nossa fazenda. Papai j est sem 
foras para distribuir os afazeres e eu no consigo fazer isso sozinha. 
Amenhotep trouxe um frasco com o remdio que preparara e o colocou 
nas mos de Nitetis, dizendo: 
-Agora v e no conte nada a ningum sobre o que viu aqui hoje. Est 
me entendendo, Nitetis? 
Ela sorriu docemente ao falar: 

- Sabe que eu o amo profundamente, no , meu irmo? Jamais faria 
qualquer coisa que pudesse prejudic-lo. 
Cheio de ternura por aquela jovem atraente em que sua irm se tornara, 
ele abraou-a amoroso e disse: 

- Que Anbis a acompanhe e ajude nosso pai at que eu os encontre. 
Retribuindo o olhar carinhoso do irmo, ela respondeu: 
- Que Anbis nos acompanhe, Amenhotep. 
E retirou-se do quarto, cumprimentando com a cabea Iaret, que se mantivera 
calada. 
Logo que a jovem saiu, Iaret disse, enciumada: 
-Bonita, sua irm.  irm realmente? 

- Iaret, agora que percebeu o risco que estamos correndo, quer, por favor, 
ir embora? Aviso-a quando tudo se acalmar. 
Levando a esposa do fara at a porta, Amenhotep repetiu: 
-V, por favor! 
-Voc no me leva a srio. Deveria tomar mais cuidado comigo... 
Dizendo isso, soltou-se das mos dele e saiu correndo pelo corredor. E


le, parado  porta de seu quarto, mais uma vez examinou os dois lados do 

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corredor para certificar-se de que estava s; depois entrou e trancou a porta 
por dentro. No notou que atrs de uma das pilastras, no final do corredor, 
uma figura encapuzada observava atentamente o movimento em seu quarto. 

O dia amanheceu fulgurante. Assim que os primeiros raios de sol surgiram 
no horizonte, Amenhotep levantou-se e se preparou para o importante 
momento que o aguardava. Relembrou rapidamente os anos de trabalho duro 
no campo, ajudando o pai; o esforo para convenc-lo a deix-lo ir para o 
palcio, comparecer diante do fara e apresentar-lhe seus conhecimentos e 
sua capacidade. 

Ele no tivera grandes oportunidades de estudo, mas as parcas informaes 
a que tivera acesso pareciam multiplicar-se dentro dele. Amenhotep era 
um homem brilhante: inteligente, conhecedor de medicina, astrologia e arquitetura. 
Ainda muito criana, j modelava palcios e construes com o 
barro do Nilo. Depois, orientado por um mestre contratado pelo pai, Tanutamun 
-que bem cedo percebera que o filho era especial -, absorveu os ensinamentos 
e ofereceu solues para alguns problemas com raciocnio espantoso. 
Ele era um gnio. Tanutamun tentara demov-lo da idia de viver no 
palcio. Temia que o ambiente do poder fosse prejudicial a Amenhotep, 
influenciando-o negativamente. No entanto, a me o apoiou e ele partiu. Os 
outros irmos continuaram o trabalho na fazenda e mais tarde nasceu Nitetis, 
a nica mulher entre os filhos da famlia, enchendo de luz aquele lar. 

Ela era meiga e doce, alegre e iluminada. Tanutamun a amava profundamente. 


Amenhotep sorriu ao lembrar-se de como a irm estava crescida e bela. 
Ajoelhado frente ao seu altar, ele se preparou pedindo ajuda aos deuses de 
sua devoo e especialmente a Anbis. Em seguida, dirigiu-se ao salo principal 
onde assumiria o cargo de ministro-chefe, o mais alto do Egito, depois 
do fara. Dividiria o poder apenas com o sumo-sacerdote, Rudamon. 

A cerimnia estava para comear. O fara j ocupava o trono real ao lado 
da esposa predileta, Iaret. O salo estava repleto de admiradores e tambm 
de inimigos. Ao ver o salo lotado, Amenhotep ergueu a cabea, estufou 
o peito e caminhou vitorioso pelo corredor, cumprimentando a todos 
com ligeiro sorriso. 

Ao cruzar com Rudamon, pde sentir o dio em seus olhos e ouviu-o 
murmurar: 

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-Aproveite o momento, sua glria ser efmera. Ligeiramente perturbado, 
Amenhotep logo recobrou o 

controle e seguiu triunfante at o trono do fara. Iaret estava especialmente 
bela naquela manh e ele mal conseguia desviar o olhar dos olhos 
dela. 

Djoser o designou ministro-chefe do Egito, assegurando-lhe plenos poderes 
at que regressasse de sua viagem. A seguir, comunicou a todos: 

- Estarei ausente por tempo indeterminado. Assim que obtiver o controle 
das primeiras cidades, enviarei os escravos para que Amenhotep d incio 
imediato  construo de minha fabulosa cmara morturia. Ser a mais 
espetacular de que se ter notcia em todo o Egito. Quando voltar, Amenhotep, 
desejo que ela esteja pronta. 
-Encarregar-me-ei pessoalmente da superviso, senhor. 
Tomando as mos de Iaret e beijando-as enquanto dirigia o olhar para as 
demais esposas, Djoser disse: 

-timo. Quero comunicar a todos que, desta vez, farei algo diferente. 
Levarei Iaret comigo, para que minhas noites no sejam to solitrias. 
A jovem mal disfarou a decepo e a frustrao que a dominaram. Amenhotep, 
igualmente, buscou fixar o olhar em Djoser, desviando-o quanto 
pde da cobiada Iaret. O fara encerrou a solenidade: 

- Conto com o apoio de vocs, fiis servidores, para que minhas conquistas 
sejam de fato valiosas. Deixo aos seus cuidados o mais precioso dos 
tesouros: o Egito. Que Aton-Ra esteja com todos. Partiremos imediatamente. 
Djoser ergueu-se e estendendo a mo esquerda para Iaret, que tambm 
se levantou, saiu com a esposa, direto para seus aposentos. A jovem sentia o 
corao bater descompassado e a face se lhe fizera rubra. Djoser percebeu 
sua reao e deduziu tratar-se da alegria de poder viajar em sua companhia. 

Amenhotep, juntamente com os demais, permaneceu em posio de reverncia 
at o fara deixar o salo de cerimnias. No instante em que o monarca 
desapareceu no corredor ele tentou sair, porm foi circundado por 
muitos dos presentes que faziam questo de cumprimentar o novo ministro-
chefe. Os ministros se aproximaram e comunicaram ao novo chefe que tinham 
muito que conversar e muitas medidas a tomar. Amenhotep seguiu 
com eles para sua primeira reunio, sob o olhar sinistro de Rudamon. 

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CAPTULO 13 

Nitetis chegou  pequena propriedade da famlia e foi diretamente para 
casa  procura do pai. Pegou com cuidado o pequeno frasco que o irmo lhe 
dera e, embrulhando-o em um tecido de linho puro, levou-o junto ao peito 
at Tanutamun. 

Deixara uma amiga da famlia, ex-escrava, tomando conta dos irmos 
mais velhos e do pai, pois todos haviam sido contrrios a que ela pedisse a 
ajuda a Amenhotep. Ao entrar em casa, cruzou com Raquel, que preparava a 
refeio. Buscando alguma esperana nos olhos da amiga, Nitetis perguntou: 


-Como ele est, Raquel, alguma melhora? 

Limpando as mos para achegar-se mais a Nitetis, ela respondeu: 

- Por infelicidade, est absolutamente igual a quando voc partiu, dois 
dias atrs. E voc, traz boas notcias? Amenhotep vir em breve ver Tanutamun? 
Como foi o encontro com ele, Nitetis? 
A jovem sentou-se e suspirou fundo, desenrolando lentamente o precioso 
pacote que trazia nas mos; quando tinha o frasco todo  vista, disse: 
-Trouxe este remdio que Amenhotep preparou. Ele no pde vir, embora 
eu tenha insistido muito. 

- Eu sabia, Nitetis. Seus irmos tinham razo, a viagem foi em vo! 
- Eu pensei que pudesse convenc-lo a me acompanhar. Sei que Amenhotep 
ama o nosso pai! 
- S que agora ele  poderoso demais, ocupado demais para dar ateno 
a questes domsticas, no  verdade? 
- No  bem assim, Raquel. Realmente ele tornou-se algum muito importante. 
Ontem o fara o nomeou ministro-chefe do Egito. 
- Ministro-chefe? 
- Sim, a mais alta posio, depois do fara. 
-Agora  que ele no vir mesmo! 
- Ele me prometeu que vir, Raquel. Pediu-me apenas alguns dias para 
se adaptar na nova posio, e ento vir. Ele fez um remdio para o pai; isso 
no prova seu interesse? 
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A jovem argumentava com os olhos marejados, a ponto de desabar em 
pranto. Raquel abraou-a com ternura: 

- Meiga Nitetis, no fique assim. Quem sabe eu e seus irmos no estamos 
enganados? Quem sabe se no est mesmo certa e ele vir em breve, 
tratar seu pai? Vamos esperar que isso acontea! 
Nitetis esboou ligeiro sorriso e falou, levantando-se: 

- Com certeza ele vir. Agora quero ver meu pai. Apertando o frasco nas 
mos, Nitetis caminhou at o quarto onde Tanutamun repousava. Abriu a 
fina cortina que circundava o leito do pai e se aproximou dele, que, ao v-la, 
fez um esforo para sentar-se: 
- Nitetis, minha filha, que bom que voltou! Venha c, d-me um abrao. 
Senti muito sua falta, minha doce Nitetis. 

Correndo e enlaando-se nos braos do pai, ela disse: 

-Tambm senti sua falta, mas foram somente dois dias, papai! Fiz uma 
boa viagem e olhe o que trouxe: um remdio que Amenhotep preparou especialmente 
para voc. 

Com cuidado para evitar nova crise de tosse, Tanutamun ajeitou-se para 
abraar melhor a filha. Ainda enlaando-a, olhou para o remdio e perguntou: 


- Como est seu irmo, Nitetis? 
-Ele est bem, papai. 
-Continua bonito? 
-Mais lindo do que nunca! 
-Que bom! Eu sabia que seria um homem muito bonito! Prolongado silncio 
se fez entre eles. Foi Nitetis quem o quebrou: 

-Vamos, papai, tome o remdio agora mesmo. Precisa ficar bom logo. 
Temos muito trabalho, e meus irmos no conseguem fazer nada sem voc. 

Tanutamun sorriu, fixando o olhar na bela jovem que lhe oferecia o remdio. 
Observou atentamente os traos suaves de Nitetis, lembrando-se da 
esposa, Bint-Anath. A filha no se parecia exatamente com ela, mas tinha o 
mesmo olhar cheio de bondade e os mesmos gestos carinhosos. Os longos 
cabelos lisos e negros lhe desciam pelos ombros, enfeitando-lhe o rosto, que 
a quase ausncia de ornamentos no colo delicado tornava cada dia mais admirvel. 


Ele sentiu imensa ternura pela filha. Ela enchera aquela casa de luz e de 
amor. Jamais conhecera algum como ela. Nitetis era especial. Parecia com


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preender cada um ao seu redor e buscava, incessantemente, a harmonia e o 
bem-estar de todos; no s da famlia, como dos amigos, e at daqueles que 
nem conhecia. Fora Nitetis que lutara pela libertao de Raquel. Fizera muitas 
viagens para convencer o irmo a lhe dar a liberdade. Amenhotep trouxera 
Raquel ainda jovem para servir na casa dos pais. Fora sua ltima visita 
 famlia, j fazia mais de seis anos. A princpio ele relutara, pois no admitia 
libertar qualquer escravo. Mas Nitetis tinha seu jeito peculiar e acabara 
convencendo o irmo. Uma vez livre, ao invs de retornar  Palestina, Raquel 
preferiu continuar com eles no Egito. 

Os irmos mais velhos no compreendiam Nitetis. Apesar da distncia e 
da indiferena de Amenhotep para com a famlia, era ele quem a entendia 
melhor. Tanutamun estava absorto em seus pensamentos quando sentiu a 
filha tocar-lhe o ombro: 

- Vamos, pai, tome o remdio, vai lhe fazer bem. Sem responder, ele obedeceu 
e deitou-se de novo. 
- Sinto-me cansado... 
-Descanse. Eu no deveria ter deixado que se levantasse e se movimentasse. 
Precisa repousar. 

Ela j ia saindo, quando o pai a chamou: 

-Filha... 

-O que ? 

-Obrigado por ter ido at seu irmo. Saiba que aprecio muito seus esfor


os... 
Ela interrompeu-o, colocando o dedo em seus lbios, e pediu: 

- No faa mais nenhum esforo, pai. Precisa descansar. Deite-se, vamos. 
Ajudando-o a se acomodar, ela finalizou: 
- Agora durma, descanse. Sei que em breve estar muito melhor. 
Tanutamun fechou os olhos e balanou a cabea concordando. 
A jovem saiu do quarto e, ao ver-se longe do pai, no jardim da casa, caiu 
em pranto doloroso. Raquel a viu e, correndo ao seu encontro, perguntou: 

- O que foi, Nitetis? O que houve? 
-Ele est piorando, Raquel, posso sentir. 
-No, acho que est do mesmo jeito, nem melhor, nem pior. 
- Est piorando. Sinto suas foras vitais diminuindo. 
-Suas o qu? 
-Foras vitais. 
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-O que  isso? 

-As foras que fazem com que vivamos. Essas foras esto acabando. 
Por alguma razo, ele vai nos deixando aos poucos. 

Limpando as lgrimas que insistiam em banhar-lhe a face, ela continuou: 


-O remdio no vai resolver nada, eu sinto isso. 

-No fale assim, tem de haver alguma esperana! Vou pedir ao meu 
Deus por seu pai. Meu Deus  poderoso e forte. Ele vai ajud-lo! 

-O chefe de todos os seus deuses? 

-No, Nitetis, o nico Deus que existe. 

-O nico Deus? 

-Sim. Voc sabe que meu povo acredita em Jeov, que  o nico e verdadeiro 
Deus. 

-Voc j me falou dele. E sabe de uma coisa, Raquel? Eu acredito nisso: 
que s existe um Deus, dono de tudo, criador de tudo! 

- mesmo? 

-Sei que s existe um Deus, que cuida de todos ns. Portanto, o seu 
Deus deve ser o mesmo que cuida de meu povo. 
Surpresa e sem saber o que responder, Raquel disse: 

- Ento vamos pedir ao Deus verdadeiro por seu pai. Ele vai nos escutar! 
As duas se ajoelharam ali mesmo, no meio do jardim, e Raquel elevou 
aos cus sentida prece. Ela no compreendia bem seus sentimentos, mas 
gostava demais de Nitetis e de seu pai. Quando se vira livre do cativeiro em 
que vivera nos ltimos quinze anos, no tivera coragem para deix-los. Algo 
a prendia a eles. 

Ainda estavam de joelhos quando os trs irmos de Nitetis -luseneb, Ineni 
e Ikeni - chegaram, ruidosos. Ouvindo-os, Raquel se levantou depressa, 
seguida por Nitetis. Mas eles perceberam sua rpida movimentao e foi 
Iuseneb, o mais velho, quem perguntou: 

- O que as duas faziam? 
- Orvamos ao Deus todo-poderoso - respondeu Nitetis, sem hesitar. 
- Deus todo-poderoso? Sei. Pedia que seu irmozinho querido voltasse 
para casa? 
-No. Pedamos pela sade de nosso pai. 
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- Desista, Nitetis. Ele no vai melhorar. Est velho demais. A hora de 
cruzar o grande vale est chegando. Ele ir juntar-se em breve aos nossos 
ancestrais. No h o que ser feito. 
-No fale assim! 

- No foi o que lhe disse o velho e bom Amenhotep? 
- No! Ele vir logo ver nosso pai. Deu-me at um remdio para ajud-
lo enquanto ele no chega. 
-Como voc  tola, Nitetis. Amenhotep no vir. Recebemos 
notcias de que ele foi escolhido pelo fara para ser o ministro-chefe. Tem 
idia do poder e da influncia que esto agora depositados nas mos de Amenhotep? 
Ele no vir. Tem muitas coisas para fazer, muito para cuidar. 
Tem o Egito em suas mos. Acha que ir se preocupar com o velho pai moribundo? 
-Voc no tem corao, Iuseneb! 

- Ele no vir porque no se importa com ningum alm dele prprio. 
Foi isso que quis desde o princpio. Est agora onde sempre desejou estar. 
No ama ningum, a no ser ele mesmo.  ele que no tem corao, e no 
eu. Mas parece que isso voc no enxerga. Nunca quis enxergar. Vive preocupada 
com o irmozinho Amenhotep... 
Nitetis afastou-se correndo dos irmos, na direo da plantao,  beira 
do Nilo. Raquel fitou Iuseneb e censurou:

-Por que faz isso com ela?  apenas uma criana. 

Erguendo a cabea e medindo Raquel de alto a baixo, ele entrou na casa 

sem dizer nada. 

CAPTULO 14 


67 


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Depois da partida do fara, Amenhotep, satisfeito pela posio alcanada, 
embora frustrado pela sbita ausncia de Iaret, entregou-se completamente 
ao trabalho. Gastava horas debruado sobre o projeto arquitetnico da 
cmara morturia de Djoser, pensando e repensando cada detalhe da construo. 


Os seus dias eram ocupados ainda pelos difceis problemas a serem solucionados 
junto aos ministros. Pouco tempo lhe sobrava para qualquer outra 
atividade. Os reduzidos momentos livres dedicava a cultuar as divindades 
que adorava. 

Seus conhecimentos rapidamente se tornaram respeitados por todos os 
ministros do reino; Amenhotep conquistou-lhes a reverncia e a admirao. 
Entretanto, Rudamon mantinha-se  espreita, aproveitando todas as oportunidades 
para question-lo e diminuir-lhe os atributos e qualidades. 

Em frente s primeiras pedras que iriam ser depositadas na ansiada construo, 
Rudamon levantava e abaixava os braos, e alava a voz em splica: 

- Oh! Grande e poderosa Isis! Proteja e conduza a construo da tumba 
de Djoser! Proteja a tumba do fara, desde agora e para sempre! 
Ajoelhou-se apoiado em seu cajado, que na ponta trazia a imagem da 
respeitada deusa guardi de tmulos e urnas morturias. De joelhos permaneceu 
longo tempo, at ouvir a batida dura de soldados a aproximar-se do 
local onde se ergueria aquela obra monumental que passaria para a histria 
do Egito. 

Ps-se em p e olhou a movimentada chegada dos soldados. Diante da 
expresso reprovadora do sacerdote, o oficial se aproximou e disse: 

-Perdoe-nos interromper seu culto, grande Rudamon. Acabamos de 
chegar da Palestina e trouxemos escravos que o fara ordenou fossem enviados 
para a construo do tmulo. 
- Todos os escravos passam por minha superviso e so por mim destinados 
ao trabalho que devero assumir. 
E olhando em redor, o sacerdote continuou: 

- Trazem, por alto, mais de 2 mil escravos. So muitos. Quero uma centena 
deles para outras finalidades. 
O oficial, mantendo o corpo ereto e os olhos baixos, sem fitar diretamente 
Rudamon, afirmou: 

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- So precisamente 2 256 escravos, entre homens e mulheres, e o fara 
nos ordenou que fossem encaminhados ao ministro-chefe, para que definisse 
o destino dos mesmos. 
Rudamon bateu o cajado com toda a fora no cho, retrucando indignado: 
-Maldito seja! Como ousa discutir minhas ordens? O oficial, tremendo, 
respondeu: 

- Senhor, estamos obedecendo s ordens do fara. 
Sem dizer palavra, Rudamon afundou seu cajado no solo arenoso, fixando 
o soldado sem piscar. Este, tomado de sbita dor no peito, caiu no cho e 
comeou a gritar, pedindo socorro. Assustados, os demais no ousaram aproximar-
se enquanto o soldado gritava desesperado, at, poucos minutos 
depois, desfalecer completamente. Ao ver o pobre soldado estirado, sem 
vida, Rudamon arrancou o bordo do solo e acercou-se lentamente do homem. 
Olhou-o sem clemncia e disse: 

-Na prxima vida, aprenda a respeitar o representante deRa! 
Depois se voltou para os outros soldados, que de olhos arregalados e 
sem ao testemunhavam os acontecimentos. Rudamon, ento, determinou: 

- Levem os escravos e tranquem-nos at que eu decida o que ser feito 
deles. 
Nesse momento, Amenhotep surgiu em companhia de seus guardas pessoais 
e contestou: 

- Os escravos ficam, Rudamon. O fara deseja ver seu templo morturio 
construdo e vamos comear j! Preciso de todos os escravos, alm daqueles 
que j foram destinados para esse fim. E no sero suficientes. O fara promete 
enviar mais, assim que avanar sobre o seu territrio. 
-  insolente, Amenhotep! 
-No tenho tempo a perder, Rudamon. 
Chegando mais perto de Amenhotep, o sacerdote disse: 
- Se quer tantos trabalhadores, por que liberta escravos pessoais, domsticos? 
-Se est se referindo  mulher que trabalha para meu pai, desista! Ele  
um velho cansado e doente e precisa da mulher para cuidar dele. Pediu-me 
que a libertasse e eu no quis entregar-me a atritos com um homem daquela 
idade. Afinal, o que deseja, Rudamon? 

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-Repito, mancebo, voc  insolente demais! Para que tantos escravos? O 
poder lhe subiu  cabea muito depressa! 

E, fincando o cajado no solo, passou a fitar Amenhotep, raivoso. 

O rapaz, tranqilo, sustentou-lhe o olhar e aproximou-se dele. Ps as 
mos sobre as de Rudamon e, com esforo, arrancou o cajado da areia e 
depois das mos do sacerdote, lanando-o longe: 

-Basta de ameaas que no tm razo nem fundamento. Se tiver algo 
contra mim, diga logo! No tenho medo de voc, Rudamon. 

Caminhando vagaroso em direo ao cajado, Rudamon abaixou-se, tomou-
o nas mos e limpou-o cuidadosamente. Depois, virou-se para Amenhotep 
e disse: 

- Eu o amaldio at sua quinta gerao! Seus dias esto contados! 
Sem prestar ateno s reaes de Rudamon, Amenhotep ordenou: 
-Vamos, acomodem os escravos que amanh comearo o trabalho. E 
vocs, levem este infeliz daqui e o enterrem dignamente. Ao menos cruzou 
as portas da morte servindo ao fara. 
Virando-se para alguns jovens que, assustados, mantinham-se ao seu lado, 
continuou: 
-Tenho definido cada detalhe da construo. Vocs no tero problema 
algum e eu acompanharei, sempre que puder, as etapas da obra. 
E olhando com desdm para o sacerdote, que se afastava, aduziu: 

- O importante  que a construo comece e no seja mais interrompida, 
por ningum, a no ser o prprio fara! Vocs me entendem? 
-Sim, senhor. Conte conosco. 

- timo. Assim est bem melhor. 
Rudamon seguiu para o templo, enfurecido. Entrou em sua cmara e, ajoelhado 
diante de muitas imagens, amaldioou: 
-Para cada pedra que ele colocar no edifcio, uma chaga se abrir em seu 
corpo! Ao final da construo, ele morrer! 
E ps-se a abrir diversos papiros e a fazer vrias anotaes. De quando 
em quando, levantava a cabea e se lembrava do ministro-chefe, lanando 
odiosos pensamentos em direo a ele, que a distncia, sem perceber, os 
recebia em sua aura. 

Amenhotep prosseguiu o trabalho, incessante, sem ao menos recordar a 
famlia e sua casa, onde os dias transcorriam sem novidades. 

70 


#
Nitetis, ansiosa, esperava a chegada do irmo, enquanto piorava o estado 
de sade de Tanutamun. Passaram-se semanas. Naquela tarde, o pai chamou-
a: 

-Pea a um de seus irmos que me leve at o jardim. 

- No pode, papai, assim vai piorar. Afagando-lhe os cabelos sedosos, 
ele disse: 

-Querida, no h como ficar pior do que j estou. 

Ela baixou os olhos, tentando controlar as lgrimas que neles assoma


vam. Tanutamun ergueu seu rosto suavemente e falou: 

- Nitetis, minha filha, no v que estou morrendo? 
-No, papai, no  verdade! 
- Filha, no fique triste, morrer no  ruim, e continuamos a viver em 
outra dimenso. A vida sempre continua. 

Ela calou-se, pensativa. O pai insistiu: 

-Quero ver o sol, senti-lo tocando minha pele. Quero que Aton-Ra me 

envolva antes que eu v cruzar o grande vale. 
Assentindo com a cabea, ela disse: 

- Vou ver quem est por perto para lev-lo. 
-Qualquer um deles, menos seu irmo mais velho. 
- Tudo bem, papai. 
Em alguns segundos, Ineni, Nitetis e o pai estavam no belo jardim da casa. 
A tarde era esplendorosa e o sol iluminava o jardim inteiro. Sentados sob 
os galhos de uma rvore frondosa, protegiam-se do sol direto. Ineni acomodou 
o pai e perguntou: 

-De que mais precisa? Tenho de voltar ao trabalho. 
-V, meu filho, no se preocupe comigo. Quando retornarem me levam 
para dentro. 

- No vai se cansar demais, pai? - o jovem insistiu. 
-No  possvel ficar mais cansado do que j estou. 
-Pois bem, se precisar de alguma coisa, Nitetis sabe onde me encontrar. 
- Obrigado, meu filho. 
Ineni afastou-se rpido e Nitetis ajeitou-se perto do pai, que fitou o cu 
luminoso e sorriu, satisfeito. 

Nitetis acariciou-lhe as mos cansadas e comentou: 

-Ra lhe faz bem, pai. H tempo no o vejo sorrir assim. Ele tomou-lhe as 

mos entre as suas e disse: 

71 


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-H muito tenho saudade do lar, minha filha. Estou cansado e quero regressar. 


-Para o vale dos mortos, pai? 

-No, Nitetis. Para o nosso verdadeiro lar. Quando olho as estrelas e o 
cu iluminado por elas, sinto enorme saudade. Sei que em algum lugar est 
meu lar. E  para l que desejo voltar. 
Sem titubear, a jovem abraou-o com desvelado carinho e disse: 
-Sim, pai, sei que sente saudade de seu verdadeiro lar. Mas em breve estar 
unido queles que mais ama... 

- De quem est falando? De sua me? 
-No s dela, mas dos outros que deixou para trs ao partir. 
- A que se refere, minha filha? Eu lhe falei de algo impreciso que sinto 
dentro de mim, e voc me fala de algo to preciso... 
-Seu corao  grandioso, papai. Por certo h muitos que o antecederam 
e que o esperam com amor. 
Tanutamun continuou a fitar a filha, sem entender claramente o sentido 
de suas afirmaes. Depois a abraou e sorriu, dizendo: 

- Sempre com suas frases misteriosas... Deveria ser sacerdotisa, Nitetis. 
Voc sabe dos segredos do Universo mais do que qualquer um que eu tenha 
conhecido.  na realidade uma enviada de sis. 
- E voc, papai,  uma das almas mais generosas que j conheci. Tem o 
corao em paz? 
- S Amenhotep me preocupa. Devo ter falhado com ele. 
- Sabe que no  verdade, pai. Fez o melhor que podia por ele tambm. 
-Mas no foi suficiente... 
- Ouvindo aquelas palavras, Nitetis ergueu-se, com o corao opresso e 
angustiado, como se elas lhe trouxessem triste lembrana. Virou-se para o 
pai e perguntou: 
- Quer um pouco de refresco? 
- No, minha filha. Venha, sente-se aqui, ao meu lado. Ela tornou a sentar-
se, ainda angustiada. O pai abraou-a ternamente e disse: 
- Voc me fez muito feliz, filha. S me trouxe alegrias. Tenho orgulho 
de ser seu pai. 
Ela sorriu, sem responder, e Tanutamun prosseguiu: 

- Sempre amei todos os meus filhos igualmente, e os tratei com o mesmo 
carinho e respeito. 
72 


#
-Sei disso, pai. 
Como se relembrasse o passado, ele emendou: 
- Mas com Amenhotep nada funcionou. Usei tudo o que sabia para ajud-
lo a compreender o que realmente tem valor na vida, e ele ignorou tudo o 
que lhe ensinei. No vejo sequer vestgios de nossos valores na vida de seu 
irmo. Isso  o que mais me desgosta. Sempre soube que ele seria grande no 
Egito. 
Desde pequeno revelava uma inteligncia fora do comum e algumas de 
suas habilidades me assustavam; matava os animais que o incomodavam, s 
de olhar para eles. Por causa disso, redobrei minha ateno sobre ele. Contudo, 
mesmo assim, Amenhotep partiu e esqueceu de tudo o que lhe ensinei. 
Ele fez uma pausa e a jovem considerou: 

-Voc fez tudo o que podia, pai, no fique triste. Um dia ele compreender! 


- No sei, Nitetis. O corao dele fica cada vez mais endurecido. Sinto 
isso. Deveria usar tudo o que sabe para ajudar o povo do Egito, para promover 
o bem entre a populao, e o que faz? S pensa em si mesmo, em autopromoo. 
Quantas oportunidades j teve de utilizar seus conhecimentos 
para o bem geral? E nunca o fez! 
-Por mais que isso o aflija, peo que fique tranqilo, pois eu sempre estarei 
perto de Amenhotep, a lembr-lo de seus deveres e responsabilidades! 

- Como, Nitetis, se ele nem nos visita? 
-No sei ao certo, pai, porm algo me diz que ficarei muito prxima dele. 


-Mais uma vez, voc com seus segredos... 

Tanutamun comeou a tossir sem parar, e a crise se intensificou. Assustada, 
sem afastar-se do pai, Nitetis gritou por Raquel, que acudiu correndo. 
Quando as duas tentaram carreg-lo, Tanutamun tossiu mais e mais; no 
conseguiam mov-lo. 

Depois de alguns minutos, tendo a crise cedido ligeiramente, Nitetis 
procurou ergu-lo outra vez. Ele fez sinal para que parasse e alou o olhar 
para o sol. Quis falar algo, mas foi impossvel. Nova crise o assaltou e ento 
ele, sem foras, caiu ao cho. Aps ameaas de tosse que lhe morriam na 
garganta, fitou o sol uma vez mais e se imobilizou. 

Nitetis inclinou-se sobre seu peito e auscultou-lhe o corao. Ao levantar 
o rosto, grossas lgrimas desciam-lhe pela face rubra. Ela, ajoelhada, 

73 


#
-Que Deus o abenoe, papai. 
seguiu com os olhos a direo do olhar do pai e tentou mirar o sol. Sem conseguir, 
fechou-lhe os olhos com delicadeza, depois disse para Raquel: 

- Ele partiu para a grande viagem. 
Raquel, que tambm chorava, disse: 
-Que Deus todo-poderoso o abenoe. 
E Nitetis, segurando as mos de Raquel, repetiu: 
CAPTULO 15 

Sentado  mesa de trabalho, Amenhotep meditava, examinando a planta 
do monumento em construo. Olhava detidamente os detalhes da entrada 
da cmara morturia que se erguia lentamente do cho. Queria ter certeza de 
que aquele templo dedicado a Djoser fosse perfeito. 

Verificando os pormenores da saudao a Isis que desejava gravar no 
corredor principal de entrada, pensava em qual arteso seria o mais indicado 
para receber incumbncia de tal envergadura. A quem daria a honra de pintar 
as paredes da entrada da tumba? - conjeturava. Conhecia diversos artistas, 
mas queria que a pintura tivesse beleza mpar, bem como estilo diferenciado, 
superior ao de todos os artesos que conhecia. Levantou-se e caminhou 
at a varanda. Observou a abbada celeste, cravada de estrelas, que ele 
tanto admirava, e deixou o pensamento vaguear. Com os olhos no firmamento, 
pensava: em algum lugar daquele cu haveria outros povos, semelhantes 
ao seu prprio povo, ou estariam sozinhos no Universo? Em um 
espao to gigantesco, seriam os nicos? No, por certo; sendo os deuses 
sbios e poderosos, devia haver outros seres humanos, em outra parte. Ele 
sabia que existiam. 

Enquanto fitava o infinito, recordou-se de uma pea curiosa que a irm 
pintara. Retratava o cu estrelado e um grupo de homens que chegava  Terra, 
descendo de um objeto voador indecifrvel. Disse, ento, em voz alta: 

-  isso! Nitetis  a artista certa para pintar a entrada do tmulo. No conheo 
ningum que pinte como ela, que tenha os traos to lindos e to marcantes! 
Ela  capaz de fazer o que eu imagino que tem de ser feito! 
74 


#
Feliz, saiu do quarto, procurou a escrava que o assistia e ordenou: 

- Vou viajar at a casa de meu pai. Prepare tudo para partirmos amanh, 
sem perda de tempo. No me demorarei muito; levaremos o essencial. Preciso 
retornar em breve. As fundaes do templo esto prontas e comearemos 
a erguer as paredes da tumba. Vamos, depressa. Quero sair logo pela 
manh. 
A escrava curvou-se diante do seu senhor e saiu com rapidez para obedecer-
lhe as ordens. Amenhotep se vestiu e foi ao templo, pela segunda vez 
naquele dia, verificar a construo. Tinha colocado escravos trabalhando dia 
e noite. Dispunha de supervisores treinados e formados por ele - homens de 
sua confiana - acompanhando a obra; no entanto, queria certificar-se de que 
tudo corria como planejara. 

Assim que chegou, notou ligeiro tumulto no local. Ouvia gritos e homens 
corriam de um lado a outro. Segurou um deles pelo brao e gritou: 

-O que aconteceu? 

O escravo, que mal falava a lngua egpcia, fez sinal negativo com a ca


bea e correu para junto dos demais escravos. Amenhotep seguiu rpido at 

o centro da construo e logo encontrou o seu supervisor: 
- Amy, o que aconteceu? 
- Tivemos um acidente, senhor. Algumas pedras rolaram e... Bem... 
-Diga logo, o que houve? 
-Dois escravos ficaram sob as pedras. 
-Foi s isso? 
- Bem, creio que perdemos esses dois homens. 
-  pena, porm em breve receberemos mais escravos para acelerar a 
construo. 
- S que agora os escravos no querem trabalhar, esto com medo. 
- Como, no querem trabalhar? Eles no tm querer! 
-Mas, senhor, eles esto assustados. Seus amigos acabaram de morrer! 
-Muito bem, trate de enterr-los, conforme os seus costumes, e depois 
ordene que continuem. Aqueles que se recusarem iro para a priso. Est 
entendendo, Amy? 

- Sim, senhor. E se muitos forem para a priso, como poderemos manter 
o ritmo da obra? 
-No se preocupe.  o comeo da estiagem do Nilo; muitos colonos viro 
para trabalhar conosco, em troca de alimento. Eles sero de grande utili75 


#
dade neste momento. Livre-se logo dos corpos dos escravos acidentados, e 
trate de silenciar os outros, para que no espantem tambm os colonos. E 
quero saber por que as pedras deslizaram. Fizemos todos os clculos para o 
transporte delas. 

-  um sistema muito novo, senhor; ainda estamos aprendendo a fazer 
tudo exatamente como nos ensinou. Ningum utilizou antes pedras to 
grandes e to pesadas para uma construo. 
Sorrindo satisfeito, Amenhotep respondeu com os olhos brilhantes: 

- Sei disso. Essa obra ser grandiosa e inesquecvel! Cada nvel abrigar 
uma tumba de influente sdito real, e no topo da escada ficar o tmulo do 
glorioso fara! Imponente, elevado, divino! No lugar que lhe cabe de direito! 
O supervisor olhava-o maravilhado; ainda assim, insistiu: 
-Acho que  preciso rever os clculos e o mtodo da movimentao das 
pedras, para evitar futuros acidentes. 
Amenhotep puxou-o pelas vestes, impaciente: 

- Calculei cada dcimo de movimentao das pedras, de cada uma delas. 
Se alguma coisa deu errado, pode ter certeza de que no foi o clculo, e sim 
quem executou meus planos. Concentre-se em seguir minhas orientaes e 
pode estar certo de que no haver mais acidentes! 
- Sim, senhor. 
-Quero que comecem amanh a erguer as paredes. 
- Para isso precisamos ter por aqui o artista que vai pint-las, para comear 
o trabalho de ornamentao. 
- J tenho a pessoa que ir pintar as paredes. Limite-se a colocar meus 
planos,  risca, em prtica e deixe o restante comigo. 
O rapaz sorriu, reverente: 

- Sim, grande Amenhotep! 
O ministro-chefe despediu-se do supervisor e retornou ao palcio. 
Na manh seguinte, antes que o sol estendesse seus raios sobre o Egito, 
Amenhotep seguia viagem rumo  casa paterna. J era noite quando avistou 

o amplo portal que delimitava o incio da propriedade da famlia. Entrou 
determinado. Trazia consigo mais alguns medicamentos que havia preparado, 
com ervas novas que descobrira terem efeito regenerador do sistema 
respiratrio; dessa maneira, esperava poder ajudar o pai a recuperar-se. 
76 


#
Ao se avizinhar da casa com seu squito, esperou que logo algum viesse 
receb-lo, mas surpreendeu-se com o silncio no interior da residncia. 

Em alguns segundos estava cruzando as portas da conhecida moradia em 
que vivera toda a infncia e parte da juventude. Foi Iuseneb, o irmo mais 
velho, que ele encontrou na sala de refeies. 

Ao v-lo, Iuseneb levantou-se abruptamente: 

- Amenhotep! 
-Como vai, Iuseneb? Onde esto todos? Nitetis, meu pai... Iuseneb sorriu, 
irnico, ao responder: 

- Seu pai? Voc tem pai, Amenhotep? Estranho, pensei que tivesse esquecido 
totalmente disso. 

Amenhotep ignorou o tom de ironia do irmo e reiterou: 

-Onde esto todos? 

Raquel apareceu trazendo a singela refeio. Ao v-lo, sentiu o corpo estremecer 
num mal-estar indescritvel. Ela temia Amenhotep. Trazia dolorosas 
recordaes de sua experincia no cativeiro, e assim que o viu suas lembranas 
afloraram. Ela se deteve, muda. Iuseneb chamou-a  realidade: 

-Vamos, Raquel, sirva-me o jantar! No fique a parada! Com as mos 
trmulas, sem dizer nada, aproximou-se da mesa e colocou sobre ela os utenslios 
que trazia. Depois saiu, igualmente em silncio. Correu para o 
quarto de Nitetis, ofegante: 

-Nitetis... 
-O que foi, Raquel? 
-Seu... Seu irmo... 
- Quem? O que aconteceu? Iuseneb? 
-No... Amenhotep. 
- O que foi? O que tem ele? 
-Est na sala de refeies! 
Nitetis fitou Raquel espantada e, com intenso brilho nos olhos, saiu correndo 
do quarto. Ao deparar com o irmo na sala, correu ao seu encontro e 
agarrou-se ao seu pescoo, beijando-lhe a face com ternura. Amenhotep 
abraou a irm, e logo a afastou gentilmente, perguntando: 

- Voc est bem, Nitetis? 
- Com muita saudade, Amenhotep! Demorou muito para chegar! 
- Tenho muitas responsabilidades pesando sobre meus ombros. O futuro 
do Egito depende de mim. 
77 


#
Iuseneb soltou uma gargalhada. 

-Ah, essa  muito boa! O futuro do Egito depende de voc? No seja 
ridculo! 
- Veja l como fala comigo, Iuseneb. Respeite-me pela posio que ocupo, 
ou ento... 
- Ou ento o que voc vai fazer? 
-Mando prend-lo por desacatar-me! 
- Respeito? Quem  voc para falar em respeito? No tem considerao 
por ningum. 
- Iuseneb, estou avisando. No abuse da minha pacincia e boa vontade. 
Respeite-me, sou ministro-chefe, o poder mximo do Egito na ausncia do 
fara. 
-Para mim voc no  ningum! 
-Vou prend-lo agora mesmo! 
Quando Amenhotep fez meno de sair para chamar um de seus guar


das, Iuseneb empunhou uma lana que estava junto  porta de entrada e avanou 
sobre o irmo, gritando: 

- O que quer aqui? V embora! No tem nada para fazer nesta casa! 
Nitetis colocou-se entre os dois, pedindo ao irmo mais velho: 
- Por favor, Iuseneb, acalme-se. Amenhotep no vem  nossa casa h 
muito tempo! 
-Pois deveria continuar onde estava! 

- Minha visita  breve, no tenho inteno de demorar-me. Quero apenas 
ver meu pai e falar com Nitetis. 
A jovem insistiu com autoridade: 

-Vamos, Iuseneb, abaixe essa arma! Papai no gostaria nada dessa atitude! 
Tinha horror a brigas entre ns! 
luseneb afastou-se, jogou a lana brutalmente contra a parede e saiu irritado, 
deixando os irmos na sala. Amenhotep olhou para a irm, surpreso. 
Ela disse: 

-Nosso pai cruzou o grande vale. J no faz parte deste mundo. Iremos 
encontr-lo um dia no paraso, ou quem sabe aqui mesmo, quando voltarmos 
para o Egito, em nossa prxima reencarnao. 

Sentindo-se constrangido pela situao, o irmo recm-chegado perguntou: 


- Quando aconteceu? 
78 


#
-Faz alguns meses... 

-Por que no mandou me avisar? Poderamos embalsam-lo e dar-lhe 
um enterro com honra! 

-Ele teve um enterro com honra e foi devidamente em-balsamado. Est 
enterrado sob as areias quentes perto das margens do Nilo, na divisa de nossa 
propriedade. Seu corpo est preservado, pode ficar tranqilo. 

Amenhotep sentou-se  mesa calado e se deixou ficar meditando. Nitetis 
aproximou-se e, tocando-lhe as mos, questionou: 

- Por que demorou tanto? Eu lhe disse que ele no estava bem, que precisava 
de voc! 
- Eu sei, Nitetis. Sinto muito. Fiquei envolvido com meus deveres. So 
muitas as minhas obrigaes agora. 
Ela baixou a cabea e, suspirando, falou com a voz embargada: 

-Ora, Amenhotep, nunca veio nos visitar, nem antes de se tornar ministro-
chefe! Todos ns sentimos muito a sua falta. Papai foi quem mais sofreu 
com a sua ausncia; ele falava muito em voc. Que pena no ter podido v-
lo antes de partir... 
Amenhotep se levantou, andou de um lado para outro na sala, depois se 
sentou outra vez e disse, constrangido: 
-Eu sinto muito. 

CAPTULO 16 

Nitetis sorriu para o irmo com doura e exclamou: - Que bom que est 
aqui; tardou, mas no falhou... Tenho certeza de que nosso pai, onde quer 
que esteja, sente-se feliz por saber que voc veio. Apesar de todas as suas 
responsabilidades, est aqui. 

Amenhotep observava a irm, procurando ensejo para tocar no real motivo 
de sua visita. Ele disse: 

-Sabe que no poderei demorar-me. Preciso retornar o mais rpido possvel; 
como voc mesma reconhece, muitos deveres me aguardam. O fara 
est viajando e em breve retornar; no posso decepcionar o representante 
dos deuses, voc sabe, minha irm. 
- Mas acabou de chegar... 
79 


#
-Contudo, no poderei delongar esta visita; vou conversar com nossos 

irmos para saber se h algo que possa fazer por eles, depois partiremos. 
Nitetis o olhou, surpresa, e perguntou: 
-O que quer dizer com isso? Partiremos? 
Tomando as mos delicadas da irm entre as suas, ele falou: 
-Quero que venha comigo, Nitetis. Perplexa, ela indagou: 

-No estou compreendendo. Por que deseja que eu o acompanhe? 
Ele no respondeu de pronto. Apertou as mos da irm com mais fora, 
olhou-a nos olhos e disse: 

-Existem certas coisas que foram determinadas pelos deuses, Nitetis. 
Nosso destino no nos pertence, e sim a eles. 
A jovem permanecia atenta ao irmo, que prosseguiu: 
-Preciso de voc. 
-De mim? Por qu? - ela cada vez mais se surpreendia. 

-Preciso de um artista talentoso - o mais talentoso do Egito - para decorar 
o tmulo de Djoser. Quero que pinte o templo morturio do fara. 
Nitetis olhava o irmo, atnita, incrdula. Ele perguntou: 
-Voc me acompanha, Nitetis? 

- Mas, meu irmo, sabe que uma mulher dificilmente poderia fazer esse 
trabalho, menos ainda v-lo aceito... 
- No se preocupe, ter ajudantes, todos eunucos, que podero dividir 
com voc a tarefa. Seu trabalho ser aceito dessa forma. Ningum precisa 
saber que  a verdadeira responsvel. O importante  que todo o seu talento 
ser finalmente consagrado. No h ningum no Egito que faa o que voc 
faz com as tintas. Quero o melhor para esse empreendimento fenomenal. 
Portanto, quero que seja voc a ilustr-lo, Nitetis. 
- Sinto-me lisonjeada, Amenhotep. Contudo, no gostaria de me afastar 
de casa neste momento. Nossos irmos precisam de mim. 
- Eles tm Raquel. To logo termine as pinturas, voc regressar, se assim 
o desejar. Por outro lado, se preferir continuar no palcio, poderei providenciar 
novas obras para voc ornamentar com seu notvel talento. 
Nitetis encarou o irmo, pensativa. Calado, ele esperava pela resposta. 
Ela, ento, abriu um grande sorriso e decidiu: 

-Est bem, vou acompanh-lo. Farei o que me pede. Porm ao terminar 
voltarei para casa. 
80 


#
Raquel, que ouvia toda a conversa, no ousou dizer palavra. Amenhotep 
se levantou satisfeito: 

- Excelente! Arrume suas coisas que partiremos imediatamente. No 
precisa levar muitas roupas, pois quando chegarmos mandarei que lhe confeccionem 
vestes especiais, de linho puro. Ficar deslumbrante, Nitetis. 
-Ora, Amenhotep, isso no me interessa. Quero apenas fazer o que me 
pede. Se isso vai deix-lo feliz... 
- Sim,  fundamental para mim. 
-E isso  o que me importa. 
Nitetis foi para o quarto preparar suas coisas. Raquel seguiu-a e, assim 
que se viram a ss, repreendeu-a: 

- O que est fazendo, Nitetis? Vai abandonar seu lar tambm? Esse Amenhotep 
a enfeitia! No  possvel! 

-Ele precisa de mim, Raquel. No percebe? 

-Vai usar seu talento em favor dos interesses dele;  s isso que est 

querendo! 
Nitetis abraou Raquel amorosamente e admitiu: 

- Eu sei, Raquel. Amenhotep  muito egosta. No entanto, tenho uma 
oportunidade a mais de ficar perto dele, de tentar auxili-lo, falando-lhe com 
maior freqncia. Quem sabe no consigo algum resultado? Aqui, longe 
como estou, pouco poderei fazer por ele. Devo acompanh-lo, Raquel. Preciso 
aproveitar a oportunidade que a vida me oferece. 
- Seus irmos no vo gostar nada disso, Nitetis. J estou prevendo a reao 
deles. 
A linda jovem de cabelos negros refletiu por alguns instantes e depois 
disse: 

- Pode ser que no aceitem; mesmo assim, tenho de arriscar. Preciso tentar, 
Raquel. Sei que bem no fundo Amenhotep tem muitas coisas boas, eu 
posso pressenti-las. Preciso ajud-lo a ach-las dentro de si. 
-Voc  muito boa, minha amiga, vendo sempre o que h de melhor em 
todos  sua volta. 
E abraando a jovem com ternura, Raquel suspirou fundo e concluiu: 

- Ah! Nitetis, desejo que Deus a abenoe e acompanhe. 
-Pea a seu Deus por mim, Raquel. Precisarei de todo o amparo possvel. 


81 


#
As duas ouviram gritos vindos da sala de almoo. Nitetis, que acabara 
de preparar seus poucos pertences, correu para a porta do quarto, com a inteno 
de ir ao encontro dos irmos. Foi detida pela entrada de Ikeni: 

-O que est fazendo, Nitetis? No pense em fazer isso! 

- Eu preciso, Ikeni, embora voc no possa compreender. 
-Est querendo destruir sua vida, abandonando o lar, os nossos cuidados, 
para enfiar-se no palcio, justamente onde o pai detestava que Amenhotep 
estivesse? 

- Ele  igualmente meu irmo, tambm poder cuidar de mim. 
- No seja ingnua. Amenhotep no tem qualquer inteno de cuidar de 
voc. Estar sozinha l, em meio a estranhos, em meio a disputas constantes, 
orgulho, vaidade, jogo de poder.  isso que deseja para sua vida? E 
quanto a seu noivo, Bek? O que vai dizer a ele? 
- No vou dizer nada agora. Assim que tiver idia do tempo que vou levar 
para pintar as paredes da construo, enviarei uma mensagem a Bek. 
Espero que ele entenda... 
-No est em seu juzo perfeito. O que aconteceu com voc, Nitetis? 
- Ikeni, sabe que os amo a todos e amo nosso lar. Jamais faria algo para 
mago-lo, ou a Ineni ou a Iuseneb. Da mesma forma, amo muito Amenhotep 
e ele  quem mais precisa de apoio neste momento. Tenho de fazer alguma 
coisa, e estar perto dele poder ajudar. Agora devo ir. Por favor, procure 
compreender. 
Lgrimas corriam pela face de Raquel, que chocada assistia  discusso 
dos dois irmos. Nitetis desvencilhou-se do irmo e foi ao encontro de Amenhotep. 
Ao chegar ao salo de refeies, o embate seguia acalorado e 
Amenhotep estava sob a proteo de seus soldados. Iuseneb gritava: 

-Voc  um covarde! Tem de esconder-se atrs de seus homens para resolver 
um problema de famlia... 

-Chega, Iuseneb. Estou indo com Amenhotep, e no h nada que me 
possa impedir! 

-Se sair com ele por aquela porta, Nitetis, nunca mais por os ps nesta 
casa, est ouvindo? Tem de escolher. Se for com ele, ter de viver com ele 
para sempre! 

Ela ficou paralisada. Olhava para Amenhotep e para os outros irmos 
sem saber o que fazer. Enfim disse: 

- Nosso pai no concordaria com isso, Iuseneb! Est sendo egosta. 
82 


#
- Nosso velho pai jamais permitiria que fosse com ele, Nitetis, isso nunca! 
Estou tentando fazer o que  melhor para voc, como ele tambm faria. 
Desista dessa idia maluca. 
E aproveitando-se da hesitao da jovem, virou-se para Amenhotep e 
gritou: 
-Desista tambm, egosta! Ela no ir com voc! Nitetis caminhou com 
firmeza e colocou-se ao lado de 
Amenhotep, afirmando: 

- Vamos, estou pronta. 
Protegidos pelos soldados do fara e pela guarda pessoal de Amenhotep, 
saram em direo aos animais que os levariam para a capital. Iuseneb gritava, 
impedido pelos soldados de se aproximar: 

- Nunca mais volte, Nitetis, est ouvindo bem? Voc no tem mais casa, 
no tem mais famlia! 
Raquel chorava baixinho, vendo Nitetis desaparecer junto da comitiva 
que acompanhava o ministro-chefe do Egito. 
Nitetis permaneceu muda a viagem inteira. Olhava a paisagem com o 
pensamento distante, nos irmos que deixara para trs. Amenhotep tambm 
seguiu calado. Sentia-se desconfortvel pela situao que acabara de provocar 
para a irm. Sabia que ela no poderia mais regressar ao lar e que teria 
de preparar um lugar para ela viver, agora no palcio. Pensou no pai e em 
tudo o que ele lhe dizia sobre a famlia, o amor que seus membros deveriam 
ter entre si, bem como para com os outros. Subitamente, profunda tristeza 
apossou-se dele e tudo lhe pareceu sem sentido. 

Foi assim ensimesmado que Amenhotep retornou ao palcio. Ao chegar, 
acomodou a irm em um quarto contguo ao seu: 

-Tenho certeza de que vai ficar bem aqui, Nitetis. Ter tudo de que precisa. 
Amanh mesmo providenciarei uma escrava exclusivamente para atend-
la. Procurarei algum que conhea bem o palcio e possa auxili-la em 
tudo de que necessite. 

- No quero uma escrava. Sei me virar sozinha e tenho voc para me ajudar, 
se precisar de alguma coisa. 
Amenhotep olhou-a preocupado, e avisou: 

- No teremos muito tempo juntos. Tenho muito trabalho a fazer, minhas 
responsabilidades so imensas. Preocupo-me com voc sozinha aqui, em um 
lugar estranho e... 
83 


#
A jovem olhava-o, aguardando, at que ele encerrou a frase cortada: 

- Vou providenciar uma escrava e no se discute mais o assunto. Sei de 
uma jovem palestina que chegou h algum tempo. Acho que se daro bem, 
ela  muito parecida com Raquel. 
Cansada, Nitetis no discutiu com o irmo. Ajeitou-se na cama confortvel, 
em meio a almofadas macias, e suspirou fundo: 

- Como quiser, meu irmo. 
- E no adianta me pedir para libert-la. Nitetis reagiu, surpresa: 
-Eu nem conheci a moa ainda! 
- Mas eu conheo voc muito bem. No adianta vir me pedir que a liberte. 
Estamos no palcio e, aqui, h inumerveis interesses em jogo. Fui interpelado 
por Rudamon quanto  liberdade que concedi  Raquel. Isso quase 
me prejudicou. No fosse a desculpa de que cedia a um velho doente, e ele 
teria conseguido criar-me problemas com o fato. Portanto, aqui viveremos 
de acordo com as minhas regras. Agora descanse, que amanh tomaremos 
juntos o desjejum e em seguida iremos para a construo. Quero que comece 
seu trabalho o mais rpido possvel. 
Depois que Amenhotep saiu, Nitetis ficou observando detidamente as 
paredes do quarto, o teto e os objetos de decorao distribudos pelo aposento. 
Apesar de oprimida pela situao, sentia-se feliz por estar perto do irmo 
que tanto amava. 

CAPTULO 17 

Amenhotep deixou a irm e foi para seu quarto. Andou mecanicamente 
pelo belo aposento, com a mente distante. Caminhou at a varanda e passou 
longo tempo contemplando o reflexo da luz e das estrelas sobre o esplendoroso 
Nilo. A imagem do pai vinha-lhe constantemente  cabea. Exausto da 
viagem, ajeitou-se na cama e procurou dormir. No obstante o cansao que 
sentia, teve dificuldade em conciliar o sono. Indefinvel angstia tomava-lhe 

o peito; era a mesma aflio que j o havia dominado muitas outras vezes. 
Por fim, vencido pelo cansao, adormeceu. 
Sonhou que estava em um lugar maravilhoso, repleto de rvores muito 
verdes, com todo tipo de flores coloridas enfeitando o jardim. Uma linda 
mulher aproximava-se dele, suavemente. Via crianas correndo ao seu en


84 


#
contro, com roupas estranhas e completamente diferentes das que usavam 
no Egito. Os meninos se agarravam ao seu pescoo e chamavam-no de pai. 
Ento, aquela mulher o abraava com carinho. Aos poucos, porm, a mulher 
se transformava e, quando a olhava outra vez, era Nitetis quem sorria para 
ele. Despertou assustado. 

Antes que pudesse levantar-se, viu Nitetis sentada  beira de sua cama, 
tocando-o com delicadeza: 

- Acorde, Amenhotep. No queria estar cedo na construo, para comearmos 
o trabalho decorativo? 
Meio atordoado, sem saber se dormia ou estava acordado, ele sentou-se 
na cama, esfregando os olhos. Fitou Nitetis e perguntou: 

-O que faz aqui? 

-Vim acord-lo, meu irmo. Faz muito tempo que estou aguardando, 

mas como demorou demais vim ver o que se passava. Pedi  sua... Sua servial 
que preparasse algo para comermos e j est tudo pronto. O que aconteceu? 
Sempre acordou to cedo! 

-Custei a pegar no sono ontem  noite, e creio que no dormi muito 
bem. 
Suspirou fundo, levantou-se e observou o sol que ia alto no cu, derramando-
se pela varanda. Disse, ento, agitado: 

-J  tarde, vamos depressa; tenho muito que fazer. 

Estavam prestes a sair quando um mensageiro do fara apareceu na por


ta do quarto e entrou, seguido pela escrava: 
-Trago mensagem do grande Djoser. 

-Pois fale, rapaz. 
- Ele deve retornar em cerca de dois meses e quer saber notcias da construo. 
-Venha conosco e recolha suas prprias impresses. Estou certo de que 
Djoser se surpreender ao chegar. A edificao j est bastante avanada. 
Hoje mesmo comearemos o trabalho decorativo das paredes do templo. 
Acompanhe-nos e faa seu relatrio. 

O jovem obedeceu sem dizer nada. Nitetis tambm seguia em silncio, 
admirando a grandiosidade das construes que via ao redor. O palcio era 
soberbo, com colunas altas e elegantes espalhadas por toda parte. Acostumada 
que estava  viso da natureza, s margens do Nilo, encantava-se com 
a beleza da cidade. 

85 


#
Amenhotep tambm ia calado. Parecia triste e preocupado. De quando 
em quando, Nitetis observava o semblante do irmo, no qual transparecia 
sua exasperao. Ao se aproximarem da imponente construo, Nitetis exclamou: 


- Amenhotep, que maravilha! Como  ampla! Tudo isso para abrigar o 
corpo do fara? Somente o dele? 
-No, Nitetis. Pretendo que este seja tambm o repouso dos ministros e 
sacerdotes do fara: a elite poltica e religiosa do reino. 
Sem falar, a jovem caminhava entre os escravos e camponeses que dedicados 
erguiam, pedra por pedra, o grandioso monumento. Nitetis tocava as 
paredes com as duas mos, impressionada com sua solidez. Disse ento:

- Que pedras, Amenhotep!  magnfico. 
-E vai ficar muito mais, com o seu trabalho. Do que  que precisa para 
iniciar? Diga-me, e providenciarei tudo. E voc, eunuco, j pode ir contar ao 
fara que seu templo morturio ser incomparvel. Falta muito para que 
fique pronto, porm ser a mais bela edificao do Egito, isso eu garanto. 

O rapaz moveu a cabea afirmativamente e, dando uma ltima olhada 
em torno, pegou o caminho que o levaria ao palcio e de l direto ao fara, 
que ainda se encontrava em terras palestinas. 

Nitetis e Amenhotep andaram por todo o stio, estudando cada detalhe 
da construo que se erguia. Ele havia encomendado aos artesos da corte 
todo o material de que Nitetis necessitava para comear o trabalho. Assim 
que o material foi trazido, ele disse  irm: 

- Nitetis, quero um esboo completo do que pretende fazer. Desejo que 
descreva em detalhes a histria de nosso povo; tudo o que  relevante para 
ns precisa estar gravado nessas paredes. Use tudo o que sabe. Quero que 
supere o que j realizou antes. 
- Pode ficar tranqilo, meu irmo, ter o melhor de mim. 
- Muito bem. Aqui esto os eunucos que iro ajud-la. Agora preciso ir, 
tenho muito trabalho a fazer. 
Amenhotep ps-se a caminho do palcio, mas pouco se afastara quando 
ouviu Nitetis que corria em sua direo. Alcanando-o, ela segurou-o pelo 
brao e indagou: 

-Voc est bem, meu irmo? Qual  o problema, o que o aflige? 

-Nada! 
86 


#
- Eu o conheo e sei quando algo no vai bem. O que h? Diga-me para 
que eu tente ajudar. 
- Estou apenas preocupado com as muitas responsabilidades que pesam 
sobre mim. Concentre-se no seu trabalho. Voc ouviu o mensageiro: o fara 
volta em breve e quero que fique totalmente fascinado pela beleza da construo. 
Sem esperar resposta, Amenhotep partiu. Nitetis ficou a observ-lo at 
desaparecer na estrada. Ento se virou e fitou a esplndida construo de 
pedras que o irmo havia projetado. Sorriu impressionada com sua habilidade 
e seguiu a passos firmes para principiar o trabalho. 

Uma semana transcorreu. Amenhotep dedicava-se ao trabalho, mas tinha 
dificuldade de concentrao. Algo lhe faltava; sentia-se oprimido e entristecido, 
sem entender o porqu de seus sentimentos. Tentava empenhar-se 
mais no trabalho, buscando aliviar o corao. 

Nitetis quase no via o irmo, a no ser  noite, quando chegava da 
construo para o jantar. Nesses momentos, pouco conversava, atendo-se a 
acompanhar o andamento do trabalho que ela executava. Sempre que Nitetis 
insistia em falar do que se passava com ele, Amenhotep voltava a ateno 
para os assuntos do ministrio e afastava-se dela. 

Naquela tarde, Nitetis estava radiante. Terminara a parede da entrada da 
cmara, e as inscries em homenagem a Isis haviam ficado esplndidas. 
Ela contemplava o resultado do trabalho, junto com os auxiliares, quando se 
ouviu inesperado burburinho, seguido de silncio absoluto. 

Uma mulher jovem e sensual, lindamente vestida e com ar soberbo, entrou 
na construo.  medida que ela passava, todos lhe faziam reverncia. 
Assim que ps os ps na edificao, ela perguntou: 

- Onde est Amenhotep? Quero v-lo. Amy aproximou-se e ajoelhou-se 
reverente: 
- Alteza, no sabamos que o fara j havia chegado. Perdoe-nos, por favor. 
Amenhotep no est aqui. 
- O fara ainda dever demorar um pouco. Algumas batalhas foram muito 
difceis e, preocupado, o fara quis colocar-me em segurana e ordenou 
que eu regressasse. 
Ela calou-se por alguns segundos e olhou ao redor; depois continuou: 

87 


#
- pena que Amenhotep no esteja. Trago-lhe mais escravos e tenho 
certeza de que ir apreciar. Gostaria tambm de dar-lhe pessoalmente as 
ltimas instrues do fara. 
Observando com mais ateno em derredor, disse: 

-Vejo que as obras vo adiantadas. 
Ao olhar a pintura nas paredes, sem deter-se nas figuras, viu Nitetis; acercou-
se dela com evidente desagrado: 
-Quem  voc? O que faz aqui, em meio  construo? Sem saber ao 
certo de quem se tratava, mas reconhecendo estar diante de importante autoridade 
real, respondeu: 

-Estou ajudando os eunucos no trabalho de pintura das paredes do templo. 
Iaret examinou novamente as pinturas, depois dirigiu-se a Amy: 

- No estou compreendendo. Por que necessitamos de uma mulher para 
esse trabalho? Mande-a embora imediatamente. Exijo somente eunucos. 

Nitetis baixou os olhos e esperou pela resposta de Amy. 

-Esta  Nitetis, uma artes talentosa, contratada pelo prprio Amenhotep 

para colaborar com os eunucos. Antes de dispensar seus servios, preciso 
comunicar a Amenhotep. Ele no vai admitir atrasos na obra. 

- E eu estou ordenando que a despea agora. No quero mais v-la aqui. 
Amy curvou-se em sinal de reverncia e ao erguer-se disse a Nitetis: 
- Deixe tudo como est e v embora. 
Nitetis fitou-o sem saber o que falar. Levantou-se, tomou alguns de seus 
pertences pessoais e saiu. 
Assim que a jovem deixou a construo, Iaret determinou: 

- Voltem ao trabalho. Tenho mais de trezentos escravos, Amy. Muitos 
so soldados e bem fortes. Aproveite todos e coloque-os para trabalhar! 
Quero que Amenhotep termine essa construo ao menor prazo possvel, e 
que tudo fique como ele deseja. 
Iaret saiu e seguiu direto para o palcio. O sol que se punha no horizonte 
transformava a paisagem em um espetculo inebriante. Os tons alaranjados 
se espalhavam por sobre o Nilo, refletidos em suas guas, tornando difcil 
saber onde terminava o cu e comeava a terra. 

Amenhotep entrou em seu quarto apressado,  procura de um de seus 
planos para a construo do grande templo deRa. Deparou com Nitetis, que, 
nervosa, apertava as mos. Ao ver a irm, ele indagou: 

88 


#
-O que faz aqui a esta hora? 
- Ora, no  to cedo assim.Ra j est indo dormir. Voc se acostumou 
mal a minhas longas jornadas de trabalho. 
Antes que ele respondesse, Nitetis aduziu: 
-Alm do mais, fui dispensada. 

- O qu? Como, dispensada? 
-Aquela jovem que vi em seu quarto, quando vim procur-lo h algum 
tempo, apareceu na construo e me mandou embora. 

Amenhotep arregalou os olhos, que brilharam intensamente: 

-Iaret... Ento o fara chegou?! 

Ao perceber a reao do irmo, Nitetis emendou: 

-No, ainda demora um pouco. Mas, afinal, quem  ela? Pareceu-me to 

poderosa! 
Respirando fundo e aliviado, ele sorriu: 

- a esposa preferida do fara. 
-Isso explica sua autoridade. Ela no quer que eu trabalhe na pintura das 
paredes... 
Amenhotep sorriu satisfeito, ao perceber o cime da mulher que desejava, 
e assegurou  irm: 
-No se preocupe, vou falar com ela. 
Eles conversavam, quando Iaret entrou, procurando pelo amante: 

- Amenhotep... 
Ao ver a jovem que havia dispensado da obra em construo, ela empalideceu 
de raiva: 

- O que faz aqui? Veio reclamar ao seu contratante? J disse que no a 
quero trabalhando no templo funerrio de meu marido! 
Amenhotep aproximou-se de Iaret e, reverenciando-a, disse: 

- Com sua permisso, senhora, posso explicar tudo. 
-Estou esperando... Voltando-se para Nitetis, pediu: 
-V, Nitetis, depois conversamos. 
A jovem levantou-se e saiu, fazendo antes sinal de reverncia  rainha 
do Egito. Iaret encarou Amenhotep com firmeza e perguntou: 

- O que significa isso? Como ousa permitir que uma mulher entre em 
seu quarto, sobretudo em minha ausncia? E o que ela fazia na tumba? Por 
que a contratou? 
- Acalme-se, por favor. 
89 


#
E olhando-a apaixonado, tomou-a nos braos: 

- Como est linda! No sei por que retornou antes do fara, mas estou 
muito feliz em v-la. Morria de saudade de voc, minha amada! 
-No tente distrair-me, Amenhotep. Quero uma explicao! 
Ele sorriu e beijou-a com fervor. Aps entregar-se  carcia apaixonada 
sem resistir, Iaret se desvencilhou dele e cobrou: 

-Estou esperando sua explicao. 

-Nitetis  minha irm. No se recorda daquele dia, antes de minha indicao, 
antes de voc viajar? Ela esteve aqui, quando estvamos juntos. Veio 

procurar-me porque meu pai estava doente. Lembra-se? 
-No, no me lembro. Ela  sua irm? 
-Sim, Iaret. 
-Mas por que est ajudando os eunucos? 
-So os eunucos que a esto ajudando. 
-Como? 

- Nitetis  a mais talentosa artes de todo o Egito. Eu a trouxe porque 
quero o melhor para o templo morturio de Djoser. 
Ela sorriu cinicamente: 

- Voc quer que todos se ajoelhem aos seus ps reconhecendo quanto  
inteligente e capaz! 
- E desejo o melhor para o fara tambm. 
-Pois eu no a quero l. 
- Ora, vamos, Iaret, que diferena isso faz para voc? Ela  muito boa no 
que faz! 
-Eu a expulsei! Como poderia readmiti-la? 

- V comigo  obra amanh. Observamos juntos o trabalho e depois voc 
comenta com todos que at seria interessante que a artes voltasse. O que 
acha? 
-No a quero por l; no a quero perto de voc. 
-Iaret, pare com isso. Ela  minha irm! 
- E da? A primeira esposa do fara tambm  irm dele! 
-Mas  diferente, eu no tenho esse tipo de atrao por ela. 
Atirando-se nos braos de Amenhotep, ela insistiu: 
- No tem? 
- No. Quero apenas que ela faa o trabalho no qual  habilidosa, nada 
mais. 
90 


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-Pois bem, que volte, mas eu a quero bem longe de voc! Ele a abraou 
novamente e pediu: 

- Agora que est mais calma, conte-me todos os porme-nores da viagem. 
Quero saber de tudo o que aconteceu, desde a sua partida. 
CAPTULO 18 

As pedras eram sobrepostas cuidadosamente. Cortadas com medidas 
precisas e instrumentos projetados e construdos especialmente para essa 
finalidade (sob orientao do prprio arquiteto), assombrava aos escravos e 
aos assessores egpcios a engenhosidade das tcnicas empregadas por Amenhotep. 
Os escravos trabalhavam desde o amanhecer at noite alta; muitos 
deles no suportavam a jornada exaustiva e tombavam sob o peso da labuta 
infindvel. 

Nitetis no podia ignorar o que se passava  sua volta. Dedicava-se  
pintura com desvelo, mas corria em socorro dos escravos assim que percebia 
que um deles estava exausto demais. Rapidamente ela conquistara a 
simpatia de Amy, que fingia no notar como tratava os escravos. Sem condies 
de ajud-los pessoalmente, pois tinha de cumprir as ordens de Amenhotep, 
ele deixava que Nitetis atendesse a todos que necessitassem de ajuda. 


Amenhotep, por outro lado, entregue  paixo desenfreada por Iaret, tornava-
se dia a dia mais distante e insensvel. Afastava-se da irm, dificultando 
a convivncia que ela tanto havia desejado; viam-se pouco, e quando 
conversavam era na construo, sempre ocupados com as pinturas e as esculturas 
em andamento na cmara morturia. Nessas raras oportunidades, 
Nitetis procurava aproximar-se o mais que podia do irmo, recordando algum 
episdio agradvel da infncia, ou a imagem querida dos pais. Quase 
nunca obtinha sucesso, porque pouca ateno Amenhotep dava s lembranas 
de famlia. Parecia hipnotizado e dominado por Iaret e pela prpria ambio 
de poder. 

Naquela tarde, Nitetis trabalhava em uma das ilustraes do fara, diante 
da efgie dera, numa seqncia de imagens que pretendiam retrat-lo como 
enviado e escolhido dos deuses. Amenhotep chegou sem que ela perce


91 


#
besse e ficou avaliando a perfeio do trabalho da irm. Encantou-se com a 
maestria com que ela transferia para as pedras a histria do Egito e de seu 
povo. Analisou detidamente cada detalhe, demorando-se em notar a perfeio 
das vestes do fara, seus adornos e traos fisionmicos. Totalmente 
compenetrada, entregue  tarefa que executava, Nitetis estava linda, esplendorosa. 
Amenhotep a observava enlevado. Pouco reparava na irm, porm 
naquele momento, tendo a ateno despertada pelo trabalho grandioso que 
ela desenvolvia, percebeu como era, e pensou que parecia uma deusa trabalhando 
no paraso. 

Subitamente, Nitetis sentiu a presena do irmo e virou-se para ele perguntando, 
surpresa: 

- H quanto tempo est a, me olhando? 
Ele sorriu e respondeu: 
-Faz bastante tempo. Voc est divina, to compenetrada no trabalho; e
sua pintura est admirvel!  muito mais talentosa do que eu havia imaginado! 
Fiz muito bem em traze-la para c. Est maravilhoso, Nitetis. O resultado 
de sua arte  perfeito, como se viesse diretamente das mos dos deuses. 

Achando graa no entusiasmo do irmo, Nitetis respondeu: 

- Ora, Amenhotep, est ficando bonito, mas tambm no  tudo isso que 
est dizendo! 
- Como no? Ningum encontrar uma obra to linda em todo o Egito! 
Voc me surpreendeu, Nitetis! 
Feliz por ver o irmo satisfeito, ela abriu um lindo e sincero sorriso e afirmou, 
com sua peculiar simplicidade: 
-Voc exagera, meu irmo! Amenhotep abraou-a com carinho e ralhou: 

- Pare de se diminuir! Seu trabalho  esplndido! 
Os dois sorriam, abraados, enquanto examinavam os detalhes da pintura, 
quando atrs deles ouviram a voz irritada de Iaret: 
-Alguma coisa de bom voc devia ter, Nitetis; do contrrio seu irmo j 
a teria mandado daqui para bem longe. No , Amenhotep? 
Imediatamente ele soltou a irm e afastou-se dela. Em seguida falou, aproximando-
se de Iaret: 

- O que faz aqui? Andar no interior da obra pode ser perigoso. Temos 
pedras subindo e descendo em todos os lados. Vamos,  melhor que volte 
para o palcio. 
92 


#
Estacando  frente de Nitetis e mantendo o olhar fixo na irm do poderoso 
ministro-chefe, Iaret mediu-a de alto a baixo e, com desprezo, interpelou-
os: 

- Quando termina seu trabalho? 
Nitetis buscou com os olhos apoio do irmo, que permaneceu calado, 
sem olhar para ela. A jovem, ento, respondeu: 

- No sei dizer ao certo; creio que ainda deve demorar um pouco, pois a 
construo  grande... 
- Acho melhor se apressar, pois o fara manda avisar que deve chegar 
em breve. 
Amenhotep tomou Iaret pelas mos e insistiu: 

- Venha, Iaret, temos muito que conversar. 
Ela, entretanto, olhou firmemente para Nitetis, dizendo: 
- Acho que teria sido melhor voc ir embora enquanto pde. 
Quando Nitetis fez meno de responder, Iaret colocou a mo sobre a de 
Amenhotep, e encerrou: 

- Vamos! Quero que faa um relatrio minucioso do andamento da obra! 
Meu marido quer encontrar tudo de acordo com o planejado! 
Amenhotep acompanhou Iaret sem olhar para Nitetis, que ficou a observ-
los abandonando a construo, at finalmente desaparecerem. Sem poder 
acreditar na conduta de Amenhotep, suspirou e voltou-se para a pintura em 
que estivara trabalhando. Diante da imagem deRa, que havia ilustrado com 
primor; tocou suavemente a figura e ergueu os olhos ao cu rogando aos 
deuses pelo irmo; especialmente ao Deus de Raquel, que em segredo amava 
e respeitava. Era naquele Deus que ela pensava diariamente; era a ele que 
dirigia suas preces e seus mais sinceros sentimentos. 

Algumas semanas se escoaram velozmente. Aproximava-se o dia do retorno 
triunfante do fara. Ele havia conquistado novos territrios, expandindo 
as fronteiras de seus domnios para alm do deserto de Zim, e trazia 
grande nmero de escravos para servirem ao reino do Egito. 

Nitetis dedicava-se com maior intensidade ao trabalho, na certeza de que 
Amenhotep esperava que a obra estivesse bem adiantada para receber Djoser. 
Naquele dia, no entanto, ela estava inquieta. Olhava para a porta com 
freqncia, como se esperasse algum. No conseguia concentrar-se e sentia-
se mais cansada do que de hbito. Amy no pde deixar de notar a agitao 
da moa e perguntou: 

93 


#
- Voc est bem, Nitetis? Parece apreensiva. 
-Sinto-me angustiada e no sei explicar o porqu. 
- No seria melhor tirar o dia de folga, para descansar um pouco? Tem 
trabalhado em excesso, Nitetis. 
-De modo algum! Ainda tenho muito que fazer! Sabe quando chegar o 
grande Djoser? 
- Muito breve. 
- Pois ento! Como poderia esmorecer logo agora? 
-Mas se no descansar, pode at cair doente de exausto. 
- No se preocupe, meu bom amigo Amy; no cairei. Aps a pequena 
pausa, prosseguiram com o trabalho. Pelo meio do dia, um dos escravos 
caiu, desfalecido. Nitetis, prontamente, correu at ele e ajoelhou-se ao seu 
lado, tentando avaliar seu estado. Entretanto, ao ser tocado, ele a agarrou e 
puxou com toda a fora para o cho; deitou-a, beijando-a com sofre-guido, 
enquanto dizia: 
-No posso mais viver sem voc! Deixe os outros, fique somente comi


go! 
Debatendo-se para soltar-se do rapaz, Nitetis repetia: 
-Pare com isso! Solte-me! Est me machucando! 

-Voc  que me machuca! Quero-a s para mim! - ele insistia. 
- Do que  que est falando? -perguntou Nitetis, tentando desvencilhar-
se do jovem escravo. 
Novamente foi beijada  fora, at que enfim conseguiu livrar-se e se levantou 
depressa, limpando as vestes. Deparou, ento, com a rude figura do 
sumo-sacerdote, em companhia de Iaret, que com sorriso maldoso e olhar 
fulminante falou: 

- Eu no o preveni, Rudamon? Essa mulher est desrespeitando o tmulo 
do fara! Quero que seja expulsa imediatamente! 
Nitetis tentou explicar: 

- Est havendo algum engano... Rudamon interrompeu-a, rspido: 
-Cale-se! Eu no podia acreditar at ver com meus prprios olhos! Que 
imundcie! Saia j e no ponha mais seus ps sujos neste santurio. 

-Mas... 
- Saia e no diga nem mais uma palavra, se no quiser morrer aqui 
mesmo! 
94 


#
Assustada e humilhada diante de todos, Nitetis saiu cabis-baixa e muda. 
Quando estava fora da cmara, ainda tentando entender o que se passava, 
Rudamon saiu e ordenou a dois soldados: 

- Levem-na para a priso. Depois decidirei o que fazer. Nitetis gritou: 
-Por favor, senhor, no fiz nada! Est havendo algum engano. Aquele 
escravo agarrou-me  fora! 
-Sei bem o que os meus olhos viram. Cale-se e obedea! Ao retornar ao 
interior do templo, dizia: 

- Que idia, deixar uma mulher fazer o trabalho que pertence aos homens! 
S poderia vir de um homem como Amenhotep. 
Iaret olhou de vis para Rudamon, observando-lhe as reaes, depois 
disse: 

-  aviltante!  melhor que fale com o irmo dela! Amenhotep precisa 
saber o que andava fazendo quando ele no estava por perto! 
Nitetis gritava, desesperada, enquanto era levada pelos guardas: 

-Por favor, deixem-me falar com Amenhotep! Est havendo um engano 
muito grande, por favor! 
Escutando o som abafado da voz de Nitetis, a distanciar-se da construo, 
Iaret sorriu satisfeita, e j se dirigia  sada quando Rudamon perguntou: 


- O que realmente deseja, senhora? 
Ela virou-se, mediu Rudamon de alto a baixo e respondeu: 
-A glria absoluta do fara! 
E afastou-se depressa,  frente de seus guardas pessoais. 
Rudamon a acompanhou com os olhos, depois contemplou o monumento 
inacabado e sorriu, exultante. A obra estava parada e isso certamente prejudicaria 
Amenhotep. 
Ao receber notcia do ocorrido, o arquiteto indignou-se. Foi o prprio 
Amy quem lhe trouxe as informaes. 
-No posso crer, Amy! Minha irm! 

- No consigo compreender, senhor. Nitetis sempre foi to comedida e 
recatada; no posso imagin-la fazendo aquilo de que a acusaram. 
Amenhotep pensou por instantes e perguntou: 
-Levaram-na para a priso? 
-Sim. 
-No d para acreditar! Agora, a obra est parada! 

95 


#
Sem dizer mais nada, Amenhotep saiu nervoso e foi direto para o quarto 
de Iaret. Esta, que j o esperava, ao ser interrogada respondeu ardilosa: 

- Ela se encontrava com eles s escondidas. Ningum nunca viu, mas tenho 
meus sditos fiis, que no deixam nada passar despercebido. Assim 
que soube como ela estava se comportando, tomei as medidas necessrias 
para proteg-lo, meu querido. Se o fato se espalhasse, poderia prejudicar a 
construo de Djoser. 
E abraando-se a ele, continuou: 

- Mande-a para longe daqui. Os eunucos terminam o trabalho que ela 
comeou. No perca mais tempo com ela. Liberte-a, pois  sua irm, e mande-
a embora. 
Ela improvisou ligeira pausa e em seguida, acariciando-lhe a mo, deu o 
golpe final: 

-Ou, melhor ainda, deixe comigo. Eu mesma vou pedir clemncia a 
Rudamon, em seu nome. Voc nem precisa desgastar-se indo at ele. O 
tempo corre e Djoser est para chegar. No perca mais tempo, Amenhotep. 
Deixe que agora eu resolvo a situao. Mando-a embora e logo o caso estar 
esquecido. Aps breve reflexo, Amenhotep concordou: 
-Est bem. No estou em condies de me indispor com minha irm. 

Mande que meus soldados a levem para casa. 
E saindo do quarto de Iaret, beijou-a com paixo e disse: 
-Tenho pouco tempo e muito que fazer. 
Sorrindo, Iaret falou baixinho, enquanto ele se afastava: 

- Isso mesmo, Amenhotep, deixe que eu resolvo seus problemas. 
CAPTULO 19 

Quando alcanou os portes de sua casa, Nitetis ainda trazia os olhos 
vermelhos do pranto derramado por horas. Chegou sozinha e caminhava 
como se trouxesse sobre os ombros pesado fardo. 

Ao avist-la, Raquel correu ao seu encontro: 

-Nitetis! O que houve? 
96 


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A jovem abraou-se  amiga e mais uma vez deixou que as lgrimas lhe 
inundassem a face. Raquel emudeceu e a deixou desabafar. Quando se acalmou, 
Nitetis perguntou: 

-Onde est Iuseneb? 
-Seus irmos esto viajando. 
-Os trs? 
- Sim, esto trabalhando na construo de um palcio, ao sul. Como a 
estiagem se prolongou, acharam melhor partir e garantir o sustento dessa 
maneira. No devem retornar to cedo. 
-Eu posso ficar, Raquel?
-Querida Nitetis, o que me pergunta?  claro que pode ficar! No importa 
o que tenha acontecido, voc tem em mim uma amiga, e sabe disso. Venha, 
vamos entrar. Vou preparar-lhe alguma coisa para comer. Parece faminta. 


Nitetis sorriu levemente, ao confirmar: 

- E estou mesmo! 
Aconchegando-se no confortvel ambiente domstico, Nitetis contou em 
pormenores o que vivera. Falou da alegria que sentia na companhia do irmo, 
e das raras oportunidades em que haviam podido conversar. Enxugando 
as lgrimas, ela disse: 

-Foi tudo to rpido... Mal posso acreditar que tenha acabado dessa 
forma. Eu tinha tantas esperanas, Raquel... Desejava muito ajudar meu 
irmo. Infelizmente, acho que no ser possvel. Agora entendo a tristeza 
que vi nos olhos de meu pai, pouco antes de partir. Ele sentia imenso pesar 
por no ter conseguido auxiliar Amenhotep. Sentia-se como que responsvel 
pelo caminho que ele escolhera trilhar. Naquele momento eu no compreendia 
o que hoje entendo.  doloroso ver algum que amamos tomar um caminho 
que, sabemos, ir lev-lo  dor e ao sofrimento e no podermos fazer 
nada!  um sentimento enorme de impotncia... A nica coisa que me anima, 
Raquel,  pensar no seu Deus. Quando me sinto frgil e sem esperanas, 
penso nele e minhas foras se renovam. Fico revigorada e cheia de alegria 
de viver. Seu Deus  tambm o meu Deus, Raquel. Eu posso perceb-lo em 
tudo  minha volta: no cu cheio de estrelas, na manh radiante de luz, no 
anoitecer suave que tudo envolve em serenidade. Posso senti-lo em seu abrao, 
minha amiga, e em seu sorriso meigo. 
97 


#
Raquel enlaou a amiga com lgrimas nos olhos. As duas permaneceram 
abraadas em doce permuta de amor e carinho. Depois, Raquel props: 

-Agora  melhor descansar um pouco. Seus ltimos dias foram muito agitados. 
Venha, depois preparo um jantar do jeito que voc gosta e amanh, 
com certeza, sua disposio ser completamente diversa. 

Nitetis acompanhou a amiga at o quarto, que continuava exatamente 
como o havia deixado. Sorriu ao ver que estava intacto. Raquel disse: 

-No permiti que seus irmos tocassem em nada. Surpreendentemente, 
eles no me contrariaram. Acho que tambm queriam t-la de volta. 
-No sei, Raquel. Iuseneb foi bem enftico quando me proibiu de retornar. 


- Estava nervoso. Assim que voc saiu, ele se sentou e, inconformado, 
quase se ps a chorar. S no o fez por minha causa, para no demonstrar 
fraqueza. Eu acho que voc no precisa se preocupar com isso.  claro que 
ele no vai admitir, e pode at ser rspido com voc, quando chegar, mas no 
fundo sei que deseja que fique. Penso mesmo que ele sentiu cime de Amenhotep 
e de seu carinho por ele. 
- Cime, Raquel?
-Por que no?  bem comum entre irmos. Ela refletiu por alguns segundos 
e disse: 

-Voc pode ter razo. 
E ajeitando-se na cama, confessou: 
-  muito bom estar em casa, Raquel. 
-Agora descanse. 
Ao voltar de seu exaustivo dia de trabalho, Amenhotep passou pelo cmodo 
vazio, que a irm havia ocupado. Sentou-se e acariciou as roupas que 
ela deixara jogadas sobre a cama. Recordou-a por poucos instantes, pois foi 
interrompido por rudos junto  porta de seu quarto. Ao sair, deparou com 
Iaret. 

- Meu amor! Tive muita saudade. 
- No podemos nos arriscar, Iaret. Rudamon anda  espreita. 
- Eu sei, no se preocupe; sei muito bem cuidar de Rudamon. Agora venha 
comigo, vamos para o meu quarto. 
- De forma alguma,  muito perigoso. 
Indiferente aos apelos de Amenhotep, ela o arrastou at seu quarto. 
98 


#
Embora a construo da pirmide continuasse sem grandes problemas, 
tal como ocorria com as atividades do ministrio, Amenhotep sentia-se aflito. 
Iaret percebia certa tristeza no amante, e buscava distra-lo fazendo o que 
mais sabia: cobrar-lhe maior ateno. Todavia, ele se mostrava distante e 
preocupado. Passava longos perodos sentado  varanda, meditando. Amenhotep 
no compreendia a razo dessa perturbao: as coisas pareciam caminhar 
conforme desejava; tinha tudo o que queria. Mas sentia estranha 
inquietude. Era como se algo indefinido estivesse para acontecer. 

As paredes da cmara morturia de Djoser subiam dia a dia, com elaborada 
e perfeita sobreposio de pedras. O trabalho de pintura prosseguia, 
conforme os planos deixados por Nitetis. A olhos mais atentos seria notada 
a mudana na qualidade dos traos, porm a olhos menos treinados certamente 
o detalhe passaria despercebido. Amenhotep estava satisfeito com o 
resultado. Caminhava por entre os escravos, observando atentamente o trabalho 
que faziam, quando Amy anunciou a chegada de um mensageiro: 

- Ele o aguarda na entrada do templo. 
-Que espere! Terminarei a verificao e ento o atenderei. Ao acabar de 
inspecionar a construo, Amenhotep saiu e recebeu o mensageiro, que informou: 


- Venho da parte do grande fara. Ele manda avisar que em duas semanas 
estar de volta. Trar consigo mais escravos, para dar rpido andamento 
 obra. Est muito satisfeito com as notcias que tem recebido sobre a edificao 
da pirmide. 
Amenhotep convidou o mensageiro a averiguar pessoalmente os progressos 
da elaborada construo, para que pudesse manter Djoser informado. 
Depois se despediu e retornou ao palcio, no sem antes notificar seu 
supervisor: 

Amy, o fara estar aqui em duas semanas. Quero que ponha todos os 
escravos para trabalhar at carem, est me entendendo? Que trabalhem inclusive 
 noite; quando um cair, voc o coloca de lado. Quero que o fara se 
surpreenda com a construo. 

- Mas ele j no est contente com o que tem escutado sobre a obra? 
-J disse que desejo surpreend-lo. E no diga a ningum que estamos 
trabalhando nesse ritmo acelerado. 

99 


#
Amy balanou a cabea em sinal afirmativo e retirou-se, obediente. Apesar 
de no concordar com as ordens de Amenhotep, no ousava question-
lo. 

Assim que voltou ao palcio, Amenhotep foi direto aos aposentos de Iaret. 
Porm, antes de alcan-los, encontrou Rudamon no corredor, como se 

o aguardasse. O sacerdote o segurou pelo brao e perguntou: 
-O que faz aqui? Por que no est em sua construo? O fara logo 
chegar. Por certo ir tentar impression-lo com suas bobagens. 
-Como sabe que ele est para chegar? 

- Por que acha que eu no saberia? Se meu senhor, meu fara, est chegando, 
 claro que posso senti-lo. Bem como outras coisas que aconteceram 
em sua ausncia. 
Rudamon proferiu essas palavras olhando para o final do corredor - a 
porta do quarto de Iaret. Depois soltou seu brao e falou: 

-V, pode ir, ela o espera. 
Sem saber como agir, Amenhotep olhou fixamente para os olhos de Rudamon 
e perguntou: 

- Por que me odeia tanto? O que foi que lhe fiz? Tenho procurado colaborar 
com voc em tudo. No compreendo. 
- V, aproveite sua glria passageira. 
Sem dizer nada, Amenhotep seguiu at o quarto de Iaret.  porta, virou-
se, mas Rudamon j desaparecera. Quando Iaret o recebeu, ele disse: 
-Rudamon sabe de tudo. 

- claro que sabe. 
-E como voc conserva toda essa calma? 
-Ele  o sumo-sacerdote deRa,  claro que sabe. Rudamon sabe de muitas 
coisas, assim como voc, meu amor! 

-Iaret,  srio. Ele poder entregar-nos a Djoser. 
-Acalme-se, Rudamon no far isso. Tem seus segredos e seus planos. 
Eu conheo alguns e sei como utiliz-los a meu favor. J disse que no se 
preocupe com ele. 

Iaret sentou-se sobre a confortvel cama coberta de grandes almofadas e, 

ajeitando-se, indagou: 
-O que o trouxe aqui a esta hora? 
-Djoser est a poucos dias do Egito; seu mensageiro acaba de retornar. 

100 


#
- Muito bem. Faremos uma grande festa para recepcion-lo. Vou organizar 
tudo junto com Rudamon. Eu mesma danarei para o fara. 
-Voc? 

- E por que no? Uma surpresa assim o encantar. 
-Voc se arrisca demais, Iaret. 
- Eu gosto do perigo. Ele me instiga. 
-Que bom que pensa desse modo. Observando intrigado a reao de Iaret, 
ele disse: 

- Parece feliz com a notcia da chegada do fara. 
- J tinha conhecimento de seu breve regresso. Mas estou feliz porque 
tivemos todo esse tempo para estar juntos. Djoser continuar mais interessado 
em suas conquistas e na construo de seu monumento do que em qualquer 
outra coisa. Teremos tempo para nos vermos. 
Amenhotep despediu-se de Iaret e retomou suas tarefas. Seu corao ainda 
estava pesado e triste. 

Depois de receber a notcia da volta de Djoser, a esposa do fara no 
descansou um s minuto. Preparava com cuidado a celebrao da vitria do 
poderoso rei. Pensou em todos os por-menores: a exibio das melhores 
danarinas, a comida preferida do marido, a certeza de ter os convidados 
apreciados pelo fara. Montou para si as roupas especiais com que se apresentaria 
diante dele e criou uma coreografia sensual e provocante. 

Na vspera da chegada do marido, foi ter com Amenhotep, vestindo a 
roupa de sua apresentao. Ao abrir a porta do quarto, ele ficou atnito. Iaret 
estava deslumbrante. 

-Quero danar s para voc nesta noite. 
- Est maravilhosa, Iaret, mas  muito perigoso. Por favor, volte para o 
seu quarto. O palcio est agitado com os preparativos da festa. 
- Justamente. Todos esto muito ocupados para prestar ateno em ns. 
- No Rudamon. Irritada, ela retrucou: 
- J disse para deixar o sacerdote comigo. Voc no me escuta! 
-No devemos nos arriscar. Ele nos vigia; no quero que tenha nenhuma 
prova contra ns. 
Empurrando Amenhotep para dentro do quarto, ela fechou a porta e disse: 


-Meus eunucos o esto vigiando. 
-Voc pensa em tudo... -ele respondeu, sorrindo. 
101 


#
-Em tudo. 

Na tarde seguinte, o salo estava repleto de convidados de honra; muitos 
haviam vindo de outros reinos, para celebrar a vitria de Djoser. 

Aps breve descanso da longa jornada, o fara tomou seu lugar no trono, 
cercado por Rudamon, Amenhotep e os demais ministros. Notou a ausncia 
de Iaret, mas logo lhe comunicaram que ela faria uma surpresa. 

A festa era uma das mais grandiosas j vistas naquela dinastia. A dana 
de Iaret causou no fara profunda admirao. Assim que terminou, ele a 
convidou para sentar-se ao seu lado. Depois, agradeceu aos visitantes de 
regies distantes e convidou-os ao jantar. Antes, porm, elogiou efusivamente 
o trabalho de Amenhotep: 

-Estou honrado com esta magnfica festa, e muito impressionado com 
seu trabalho, Amenhotep. 
Sorrindo, o arquiteto curvou-se ligeiramente em reverncia ao fara. 

- Seu trabalho ficou conhecido em toda parte. No foi somente de meus 
mensageiros que recebi notcias da construo e de suas aes cuidando do 
Egito. Sua previso de estiagem e estocagem prvia de alimentos garantiu a 
fartura dos gros para o povo e o tornou famoso. 
- Fico feliz que esteja satisfeito, senhor. 
- Satisfeito? Voc  o melhor ministro-chefe que um reino j teve!  
nossa melhor arma, Amenhotep! 
Rudamon irava-se com cada palavra que ouvia. Quando o fara concluiu 
seu pequeno discurso de agradecimento, sentaram-se todos  mesa e o sacerdote 
ocupou lugar em frente a Amenhotep. Este, sentado ao lado do fara, 
tinha dificuldade em desviar os olhos dos de Rudamon. 

O sacerdote manteve-se calado durante a noite inteira. Amenhotep brilhava, 
feliz pelo triunfo que obtivera. 

Era madrugada alta quando a comemorao terminou. Ao se recolher, j 
deitado em sua cama, Amenhotep sorriu realizado. Depois, lembrou-se de 
Iaret danando, do olhar raivoso de Rudamon e de como evitara fit-lo por 
toda a noite. Procurou acalmar a mente para descansar. Adormeceu. Seu 
curto sono foi agitado e antes que o sol raiasse ele j estava acordado. Vestia-
se, quando Iaret apareceu. Ela o abraou e depois, vendo uma grande 
mancha em seu ombro, perguntou: 

- O que  isso? Essa mancha no seu ombro. 
Ele olhou a mancha avermelhada, apertou-a e no sentiu nada. 
102 


#
-Estranho, no sinto nada. A pele est dormente. Essa mancha no estava 
a ontem. 

- Deve ter se machucado na construo e no percebeu. Ele respondeu 
enquanto se vestia, encobrindo a mancha: 
-Decerto foi isso. 
CAPTULO 20 

Ajoelhada no meio do jardim, Nitetis retirava delicadamente cada planta 
indesejada que crescia entre as abundantes flores e folhagens. Raquel apareceu 
na porta da casa e olhou em volta, em busca da amiga. Ouvindo a sua 
voz, percebeu que ela estava no jardim, mas no conseguia v-la e na ponta 
dos ps a procurava. Quando finalmente a achou, aproximou-se e comentou: 

- O jardim est lindo, Nitetis. Somente suas mos poderiam torn-lo to 
belo outra vez. Seu pai amava sentar-se aqui, sob as rvores, para contem-
pl-lo. Lembro como costumava ficar horas apreciando as flores. 
Nitetis, que se levantara, caminhando em direo a Raquel, disse: 

- Ora, voc tambm tratou bem dele, durante minha ausncia. 
- Nem de longe tenho esse talento com as plantas. Suas mos so mgicas. 
Sob seus cuidados, as flores so fartas e viosas; as folhagens ficam 
verdes e bonitas. Tudo ganha beleza. No, eu no sou to talentosa... 
Nitetis a olhou com carinho e sorriu, mas Raquel a conhecia bem: 
-Noto certa tristeza em seu olhar. Ainda Amenhotep? 

- Embora me esforce para esquecer tudo o que ocorreu, fico preocupada 
com ele. Ser que est tudo bem? 
-E por que no haveria de estar, Nitetis? Ele  um dos homens mais importantes 
do Egito. 

- Eu sei, e  isso o que me inquieta: quanto mais poder, mais perigo. 
-Precisa esquecer o que houve. 
- No consigo. De vez em quando at sonho com ele, e em meus sonhos 
est sempre precisando de mim. 
- Mesmo que fosse verdade, ele nunca admitiria precisar de ajuda; Amenhotep 
 muito orgulhoso. Acha-se auto-suficiente. 
- verdade, ele nunca pediria ajuda. 

103 


#
-E voc no pode fazer mais nada. Agora precisa esquecer o que aconteceu 
e voltar a ser a nossa alegre Nitetis. 

A jovem sorriu e abraou a amiga, sentindo-se animada pelo carinho que 
recebia dela. 

Na manh seguinte, as duas tomavam o desjejum quando escutaram 
conversas ruidosas prximo  casa. Os irmos de Nitetis regressavam. Ineni 
e Ikeni entraram primeiro. Ikeni dirigiu a Raquel ligeira saudao, depois 
olhou firme para Nitetis, que apreensiva o fitava quase sem poder respirar. 
Temia por sua reao ao v-la. Por fim ele disse, risonho: 

-Dava para saber que voc tinha voltado s de olhar o jardim l fora. Fez 
muita falta, Nitetis! 

Envolvendo a irm num abrao apertado, ele continuou: 

-Senti sua ausncia! 

Ineni tambm se aproximou da irm e abraou-a com carinho. Depois 
olhou para Raquel, aprovador: 

-Agiu bem ao deix-la ficar. Nitetis foi quem respondeu: 

- Espero que Iuseneb pense como vocs. Ele foi muito claro quando me 
falou que no retornasse nunca mais. 

E abraada aos dois irmos, acrescentou, entre lgrimas: 

-Vocs so minha famlia, e eu os amo muito. Como poderia ficar lon


ge? 
Iuseneb deu a resposta, j dentro da casa: 

- A escolha foi sua. Voc preferiu Amenhotep  sua famlia. Os dois irmos 
se afastaram um pouco, enquanto Nitetis levantou-se para receber o 
irmo mais velho. Limpando as lgrimas que lhe desciam pela face, ela se 
defendeu: 
- Ele precisava de mim, Iuseneb. Qualquer um de vocs que necessitasse 
teria de mim carinho e dedicao iguais. Mas todos aqui esto bem, posso 
ver claramente, e fico feliz por isso. Era ele quem precisava mais de mim. 
-E de que adiantou, Nitetis? 
Ela baixou a cabea e, com o semblante entristecido, respondeu: 
-De fato no deu certo. 


- Eu sabia! - disse Iuseneb, quase exultante - Amenhotep desconsidera 
sua famlia. No temos importncia alguma para ele. 
-Justamente porque no est bem, Iuseneb. Nosso pai tinha a mesma 
preocupao. 

104 


#
-E morreu desgostoso. 

Colocando pesadas bolsas sobre a mesa, ele considerou: 

-Muito bem, voc voltou, afinal. Eu deveria mand-la embora imediatamente, 
como disse quando partiu. 

Os dois irmos olhavam para Iuseneb, quase implorando que no expulsasse 
a irm. Nitetis pediu: 

-Por favor, Iuseneb, no tenho para onde ir. Vocs so minha famlia. 
Ikeni reforou o pedido: 
-Por favor, seja condescendente. 
luseneb sinalizou com a mo para que Ikeni se calasse e consentiu: 
-Poder ficar, com uma condio. 
Nitetis ouvia o irmo atentamente. Ele prosseguiu: 
- Ter de me obedecer, de hoje em diante. 
- O que quer de mim? 
-Quero o melhor para voc. E para ficar conosco ter de prometer que 
ir me obedecer, acatar o que lhe pedir. Sou o irmo mais velho e vocs 
devem confiar em mim. Ento, posso esperar que acate minhas posies? 

Ela respondeu, sorrindo: 

- Sempre teve meu respeito e meu carinho. 
-Quero mais do que isso. Quero que me obedea. Caso contrrio, pode ir 
j! 

- Est bem, Iuseneb, voc venceu. O que quer de mim? 
-Nada, por enquanto. Logo que tiver decidido o que fazer com voc, eu 
aviso. Agora vou descansar. Ineni, por favor, guarde as provises das sacolas; 
precisamos das sementes. As cheias esto apenas no incio, e logo que o 
Nilo baixar suas guas comearemos a plantar. 

Sem falar, os dois irmos levaram as sementes para o lugar seguro da 
casa. Iuseneb entrou no corredor que levava aos quartos e Nitetis correu a 
abraar Raquel: 

- Acho que ele vai me perdoar! 
- Espero que sim, Nitetis. 
Algumas semanas se passaram. As guas do Nilo baixaram lentamente e 
a plantao comeou com intensidade. O hmus deixado pela cheia do rio, 
rico em nutrientes, proporcionaria farta colheita, se aproveitado no momento 
certo. Os trs irmos dedicavam-se de sol a sol  plantao, contando com o 
auxlio de mais alguns camponeses. 

105 


#
Nitetis e Raquel cuidavam da casa e ajudavam os irmos no tempo que 
lhes sobrava. Ao chegarem em casa, naquela tarde, Iuseneb disse: 

-Nitetis, quero que saiba que contratei com Bek e sua famlia o casamento 
de vocs. 

Nitetis olhou atnita para os irmos e para Raquel, que baixou os olhos. 
Iuseneb continuou: 

- Assim que a poca de semear terminar, vocs se uniro. Nitetis no sabia 
ao certo o que dizer. Gostava muito de 
Bek, porm no se encontravam desde a sua partida para a capital. Finalmente, 
falou: 
-Mas por que tanta pressa, Iuseneb? 
-Para evitar que faa outra besteira. 

- Eu quero me casar com Bek! 
-Que bom, desse modo ser melhor para voc! 
- S que desejo fazer isso na ocasio oportuna. No precisa demorar, 
no  isso; mas tambm no precisa ser s pressas. Por favor, Iuseneb, deixe 
que ns dois conversemos para resolver. 
-Vamos receb-los aqui amanh  noite, e j est tudo decidido. Bek 
concordou em perdo-la e receb-la como esposa. Fique feliz, Nitetis. Ele  
melhor do que eu, que no a perdoaria! 
luseneb no esperou pela resposta da irm, desaparecendo casa adentro. 
Nitetis, sentada  mesa, disse a Raquel: 

- No compreendo a pressa! 
Raquel sorriu, afagando os sedosos cabelos negros da bela Nitetis: 
- Ser melhor para voc. Ter sua prpria famlia, filhos... Seu lar... 
Nitetis tentou sorrir para a amiga. Depois meditou por alguns instantes e 
comentou: 

-  estranho, Raquel, nunca pensei em ter filhos. Sempre amei as crianas, 
mas jamais me imaginei sendo me. 
- E por que no? Ser uma me maravilhosa! Bek sabe bem o que est 
fazendo; ele  um rapaz srio. 
-Por que diz isso? 
-Ele no quer perd-la. Soube que o pai dele ficou um pouco inseguro 
pela sua deciso de acompanhar Amenhotep para Mnfis, e foi Bek que o 
convenceu. Acho at que foi ele quem procurou Iuseneb. 
- E por que no procurou a mim, a maior interessada? 
106 


#
- Acho que por medo. 
-Medo de qu? 
-De perd-la outra vez, Nitetis. Os homens usam meios um pouco atrapalhados 
para expressar seus sentimentos. Tenho certeza de que Bek a ama 
e quer seu bem. 

Nitetis fitou Raquel e afirmou, sria: 
-No pretendo me casar agora. Concordo em me casar com Bek, mas 
no vai ser do jeito de Iuseneb. Ser  minha maneira. 

- No v criar problemas com seu irmo! 
- No, de forma alguma, no se preocupe. Se foi Bek quem primeiro 
procurou meu irmo, saberei convenc-lo. 
CAPTULO 21 

Amenhotep voltou mais cedo da construo, naquela tarde, e se trancou 
no quarto. Estava muito aflito com as feridas que aumentavam e se espalhavam 
por todo o seu corpo. Sentou-se na varanda e observava atento as manchas 
pelos braos e pernas. Tocava-as com os dedos sem nada sentir. Levantou-
se e entrou no quarto, para logo retornar  varanda trazendo nas mos 
uma faca. Sentou-se de novo e, decidido, enfiou-a na pele, superficialmente, 
sobre uma das manchas. Esperou pela dor, que no veio. Ergueu-se, desesperado, 
andando de um lado a outro, sem saber o que fazer. Depois, vestiu-
se e foi at o templo deRa, onde ajoelhado rogou ajuda aos deuses. 

Ali permaneceu por horas, suplicando auxlio. A situao o preocupava, 
no apenas por no sentir dor, mas porque as manchas estavam aumentando. 
Ele j vira alguns escravos com doena parecida, e alguns poucos egpcios 
haviam relatado casos semelhantes. Todos se tinham revelado incurveis. 

Era noite alta quando regressou ao palcio e deitou-se; queria sair bem 
cedo pela manh. Assim que o sol raiou, ele acordou e em vo tentou levantar-
se; um mal-estar sbito o prendeu na cama. Com muito esforo, sentou-
se e vestiu-se, temeroso de que algum chegasse e visse as feridas. 

Estava acabando de se vestir quando bateram  porta com insistncia. 
Ouviu a voz abafada de Iaret, que pedia: 

107 


#
-Abra, Amenhotep, quero falar-lhe. Apressando-se em cobrir as manchas 
dos braos, ele respondeu: 

- S um instante, Iaret. 
To logo ele entreabriu a porta, Iaret enfiou-se no quarto. Fechando a 
porta e abraando-se a Amenhotep, disse: 
-Meu amor, abrace-me. 

- O que houve, Iaret? Parece preocupada. 
-  verdade, estou muito preocupada. 
- O que aconteceu? 
- que... 
- O qu? Fale! 
Ela acariciou a barriga e olhou para ele de modo provocante: 
- Vamos ter um beb. 
-O qu?
- o que acabou de ouvir. Vamos ter um beb! 
-Tem certeza de que est grvida? 
-Absoluta certeza de que estou grvida e de que o filho  seu. 
- Como sabe que no  de Djoser? 
-Ora, Amenhotep, as mulheres sabem dessas coisas. 
- Ento no tem certeza? 
-Claro que tenho. Estou com mais de dois meses de gravidez e Djoser 
regressou h apenas um; portanto, o filho no pode ser dele. 

- E como est certa quanto ao tempo de gestao? 
- A parteira de minha me veio ver-me em segredo. Ela j trouxe ao 
mundo mais de duzentas crianas e conhece bem cada fase. Garantiu que a 
criana j tem dois meses. 
Amenhotep sentou-se na cama, apoiou a cabea nas duas mos e ficou 
quieto, a meditar. Iaret ajoelhou-se perto dele: 

- O que foi, querido, no est feliz? Vai ser pai! 
-No sei o que dizer, Iaret. Por um lado sinto-me feliz, mas sei que jamais 
poderei assumir a paternidade dessa criana. E bem sabe o porqu. 
Iaret fechou o semblante e sentou-se ao lado de Amenhotep; suspirou 
fundo e concordou: 

- Tem razo. Djoser nunca me perdoaria, nem a voc. A no ser... 
-A no o qu? 
-Que ele no fosse mais o fara. 
108 


#
-No estou entendendo, Iaret. 
Com um brilho estranho nos olhos, ela sorriu desdenhosa, dizendo: 
-Voc no teria coragem, no  mesmo? Amenhotep, compreendendo o 
que ela sugeria, ergueu-se de sbito e reagiu: 
-Voc enlouqueceu? Jamais insinue isso novamente. Segurou-a firme 
pelo ombro: 

- Est indo longe demais com seus caprichos! No pode estar falando srio. 
Diga-me que est apenas brincando... 
- Pois no estou. Se Djoser desaparecesse de nosso caminho, poderamos 
viver plenamente nosso amor e cuidar de nosso filho juntos. Seria maravilhoso, 
meu querido! 
- Seria maravilhoso se fosse possvel. S que no . Voc  a esposa favorita 
de Djoser e ter de criar essa criana como herdeira do trono do Egito. 
No existe outra soluo. 
Irritada e inconformada, Iaret ergueu-se num mpeto: 

- Voc  um frouxo! Prefere renegar seu filho, deixar que ele cresa sem 
saber quem  o verdadeiro pai, a assumir comigo a melhor soluo para nosso 
futuro. 
- No podemos fazer uma coisa dessas, Iaret,  muito perigoso. Se nos 
descobrirem, morreremos tambm. E Djoser tem guardas junto dele o tempo 
todo; no seria algo fcil de executar. 
-Deixe que eu pense em um plano minucioso. Preciso apenas ter a certeza 
de que poderei contar com voc. 
Hesitante, Amenhotep disse: 
-No quero que nos envolvamos nessa espcie de ao, Iaret. 

- Quem sabe no seja voc mesmo escolhido o prximo fara? 
-Djoser tem seus herdeiros. 
-Todavia, voc  muito apreciado pelos ministros; pelo menos boa parte 
deles. No seria difcil convenc-los a mudar a dinastia de mos. 
-Acha que seria possvel? 
- Tenho quase certeza. Muitos deles lhe tm demonstrado admirao e 
respeito, mais do que sinto que nutrem pelo fara. 
- No, Iaret, seria muito arriscado. 
E estreitando a bela jovem nos braos, ele continuou: 
- Quero que tome conta de si e que cuide bem de nosso filho. 
-Vou pensar em algo, um plano infalvel para nos livrarmos do fara. 
109 


#
Ele ia responder, quando sua escrava pessoal bateu  porta: 
-O grande fara quer v-lo, meu senhor; seu mensageiro est aqui. 
-Avise que logo estarei l. Olhando fixo para Iaret, ele pediu: 


- Diga que no vai fazer nada sem falar comigo antes, por favor. 
-Vou pensar em todos os detalhes. Assim que souber o que fazer, conversaremos. 
Ele acompanhou a jovem at a sada e reforou o apelo: 

- No faa nada antes de falar comigo. 
Assim que Iaret se retirou, Amenhotep certificou-se de que ningum os 
vira e ento foi diretamente ter com o fara. Djoser o aguardava na sala do 
trono, cercado pelos ministros e por alguns dos sacerdotes. 

Ao adentrar o recinto, Amenhotep estranhou a presena de todos naquela 
reunio. E extremamente preocupado ficou quando notou o olhar triunfante 
que Rudamon lhe dirigia. De imediato imaginou que haviam sido descobertos 
seu romance com Iaret e a gravidez dela. Temeroso, controlou as 
emoes e se aproximou do fara, fazendo reverncia. Djoser lhe ordenou: 

- Levante-se, Amenhotep. 
O ministro-chefe mostrou inteno de chegar mais perto, sendo detido 
por Djoser: 

- Pode ficar a mesmo, onde est. Ele estacou, ainda mais assustado. O 
fara prosseguiu: 
-Amenhotep, tenho muito a lhe agradecer pelos servios prestados ao 
Egito. Confiei-lhe meu reino e voc no me decepcionou em momento algum. 


- Sou eu quem agradece, grande fara. 
-O meu tmulo est ficando magnfico e tenho certeza de que voc ser 
lembrado como o maior arquiteto de meu reinado. 
Amenhotep escutava quase sem respirar a manifestao do fara: 
-Gosto de voc, Amenhotep, sempre admirei seus conhecimentos. Voc 

 especial. Entretanto, fui informado de que est envolvido em um problema 
muito srio. 

Amenhotep ergueu a cabea devagar, buscando na mente um jeito de 
desmentir qualquer acusao referente ao seu relacionamento com Iaret. O 
fara prosseguiu: 

110 


#
- Infelizmente, se o que me informaram for verdade, voc no poder 
continuar no palcio; sequer poder entrar nas redondezas da cidade. Mais 
que isso: sinto muito, Amenhotep, mas ser banido do Egito. 
Amenhotep fazia meno de caminhar em direo ao trono quando Rudamon 
esticou seu cajado, desenrolando-lhe a veste de um brao e deixando 
algumas de suas manchas  vista de todos. Ento disse: 

- Est doente, Amenhotep, e j deveria ter se afastado do palcio por sua 
prpria vontade. No pode colocar em risco um s dos ministros e muito 
menos nosso grande fara. 
-No creio que seja uma doena grave. 
E ajoelhando-se diante do fara, ele asseverou: 


- Senhor, as manchas comearam a aparecer h algumas semanas. S 
preciso me tratar, para ficar curado. Se me expulsarem do Egito, no mais 
terei acesso aos medicamentos e certamente a recuperao ser impossvel. 
Rogo que no faa isso comigo, fara. Permita-me permanecer -com restries, 
eu as aceito, porm autorizado a ser atendido e medicado. 
Foi Rudamon quem respondeu: 

- Sua doena  incurvel e letal. Embora leve algum tempo, mata invariavelmente. 
Sei de vrias pessoas que apresentaram esse mal e no tiveram 
esperana. Console-se, pois ir viver junto delas. 
-O qu? 
Rudamon sentenciou, satisfeito: 
- H um lugar em Hermon onde vivem muitos que tm essa praga. Ser 
levado para l.  o mais seguro a fazer. 
-Fara, no pode fazer isso comigo, preciso tentar a cura! Ajeitando-se 
no trono, Djoser falou austero: 

-Sinto muito, Amenhotep. No gostaria de decidir isso, mas no tenho 
alternativa. Como disse Rudamon,  o mais garantido a fazer. Alguns servos 
de minha guarda pessoal o seguiro a distncia para ter certeza de que ir 
para o lugarejo onde ficam os degredados. 
Amenhotep sentiu as foras lhe fugirem do corpo. De joelhos, enfraquecido, 
envergonhado, humilhado e desamparado, suplicou: 

- O Egito  minha vida! Rudamon olhou-o fixamente e disse: 
-Sua vida acabou. 
Amenhotep levantou-se e ameaou avanar sobre Rudamon, no que foi 
impedido pelos guardas do fara. Djoser ordenou: 

111 


#
- Levem-no. Deixem-no ir at o quarto e recolher seus pertences pessoais. 
Nada alm disso. Ele no deve sair do quarto pondo outros em risco. 
Agora podem ir; ele deve partir imediatamente. 
Desesperado, aps ser largado em seu quarto, Amenhotep andava de um 
lado a outro sem saber o que fazer. No podia acreditar no que lhe estava 
acontecendo. Andava e procurava uma forma de impedir que o levassem. 
Pensou ento em Iaret. Decerto o ajudaria. Mas como encontr-la? Sentou-
se na cama, avaliando como poderia falar com a jovem esposa do fara. Foi 
at a porta e viu os guardas postados ao longo de todo o corredor. Mais de 
quinze homens o vigiavam. Dirigiu-se  varanda e deparou com outros trs 
guardas. Um deles lhe disse: 

- Depressa, temos ordens de lev-lo sem demora. Tem pouco tempo. Se 
no estiver pronto logo, ir sem seus pertences. 
Em extrema aflio, Amenhotep gritava: 

- No podem fazer isso comigo! No podem! Eu sou Amenhotep! No 
podem fazer isso! 
Sua atitude era dramtica. Os guardas permaneciam imveis, observando-
o. Ele, ento, implorou: 

- Permitam que fale com Iaret, por favor! 
-A esposa do fara? Para qu? 
-Ela conhece meu trabalho, poder defender-me junto ao grande Djoser. 
-Nem pense em v-la. No pode sair desse quarto, a no ser para abandonar 
o Egito. 
Ele continuou a suplicar: 

- Pelo menos levem a ela meu recado. Por favor, digam o que est acontecendo 
e peam que interceda por mim. 
Penalizado com a situao do notvel arquiteto, o chefe dos guardas cedeu: 


- Muito bem, vou enviar um mensageiro at ela. Amenhotep entrou e 
sentou-se na beira da cama em angustiosa espera. Algum tempo se passou. 
Desolado, ele viu quando o mensageiro retornou e conversou em segredo 
com o guarda. Este, ento, trouxe-lhe a informao: 
- Iaret mandou dizer que no o conhece a ponto de intervir junto ao fara 
em seu favor. Disse que sabe de seu trabalho e que lamenta a constrangedora 
situao; no entanto, entende que o melhor que lhe cabe fazer  obedecer 
ao fara, partindo imediatamente. 
112 


#
Amenhotep ajoelhou-se outra vez no cho, rasgou as roupas que vestia, 
deixando  mostra as feridas que lhe cobriam o corpo, e gritou num lamento 
incontrolvel: 

-No! Pelos deuses, no! 

* * * * 

Carregada por vrios escravos, a Uteira conduzindo Amenhotep seguia 
bem atrs aos soldados, a uma distncia que consideravam segura. 

Dentro dela, o grande arquiteto chorava como criana. Seu corao estava 
dilacerado pela dor e pela vergonha; fora humilhado e abandonado. A 
mulher que o procurara momentos antes daquela hora nefasta agora o desprezava, 
dizendo que nem o conhecia. Amargurado, derramava doloroso 
pranto. 

A viagem at a regio de Hermon durou muitos dias. Assim que se avizinharam 
do destino, puderam ver ao longe homens e mulheres miserveis, 
que ocultavam suas chagas sob restos de vestes rotas e pauprrimas. O squito 
parou. A lacnica ordem dada aos soldados por um dos guardas do 
fara, os escravos abandonaram suas posies e dispararam na direo contrria 
 entrada dos rochedos. Queriam regressar com os demais. Todavia o 
chefe comunicou: 

- Vocs ficaro aqui, ou podero ir para onde quiserem. Esto livres. 
Um deles gritou em desespero: 
-E de que adianta a liberdade, num lugar destes? Por que no nos deixaram 
morrer na tumba do fara? Que faremos agora? Morreremos neste local, 
junto com os banidos. 
O soldado argumentou: 

- No entanto, podem ir para onde quiserem. 
Os escravos se entreolharam e alguns saram em disparada, distanciando-
se dos soldados e de Amenhotep. Os soldados igualmente partiram em 
retirada, abandonando a liteira bem prximo  rea onde estavam os leprosos. 


Alguns dos habitantes do lugar, curiosos, comearam a se aproximar da 
pea que transportara o arquiteto. Amenhotep permanecia em tamanho desalento 
que no percebera a movimentao dos escravos nem dos soldados. 
Ainda tinha o pensamento longe e o rosto banhado em lgrimas, quando 

113 


#
notou a face oculta por panos de algum que o observava, em silncio. Ele 
olhou para o rosto parcialmente coberto e gritou, assustado: 

- O que  isso? Quem  voc? 
Era uma mulher que no respondeu, apenas continuou a encar-lo. Logo 
outros rostos curiosos vieram juntar-se ao dela. Amenhotep, imvel, ante 
aqueles olhos semicobertos a fit-lo, de novo gritou, apavorado: 

- Pelos deuses, onde estou? Quem so vocs? Para onde foram os soldados 
e os escravos? 
A mulher que h algum tempo o olhava enfim respondeu: 

- Todos se foram. 
- E quem so vocs? Que lugar  este? - perguntou Amenhotep, saindo 
da liteira. Ao v-lo descer, os que estavam mais perto se afastaram. Ele caminhou 
olhando desconfiado ao redor, enquanto os outros o examinavam 
atentamente. Perguntou, irritado: 
-Afinal, algum pode me dizer onde estamos? O que todos vocs fazem 

aqui? Parecem doentes! O que est acontecendo? 
Um homem sisudo acercou-se dele e indagou: 
-No sabe para onde o trouxeram? De onde veio? 

-De Mnfis, no Egito. 
- Pois  hora de saber que foi abandonado, como prisioneiro deste lugar. 
-Como prisioneiro? No vejo os guardas. 
-Na entrada de todas as cidades encontrar sempre um soldado para impedir 
nossa passagem. 

- E por que no podem sair daqui? 
Abrindo os panos que o envolviam, o homem deixou que o recm-
chegado lhe visse os braos purulentos. Amenhotep no suportou e se ps a 
vomitar. Quando por fim conseguiu se controlar, olhou para as pessoas  sua 
volta e gritou: 

-O que so vocs? Onde estamos? Por que no saem daqui e procuram 
ajuda? 

- Somos prisioneiros nestes rochedos. 
-Insistem nisso, porm no vejo os guardas. 
- No precisam colocar guardas aqui. H soldados em todas as cidades 
que poderamos alcanar; todos devidamente instrudos a nosso respeito, 
para impedir-nos a passagem. Para chegarmos a regies mais distantes, pre114 


#
cisaramos de provises, obtidas nas provncias mais prximas. E isso  impossvel. 
Logo, somos prisioneiros. 

-E por que foram deixados aqui? Afinal, que doena  essa? 
- Em minha terra a chamam lepra - disse uma senhora no fundo do povaru. 
-J experimentaram as ervas? 

-Esta doena no tem cura. Todos ns vamos morrer aqui, como muitos 
j morreram. 
-E no procuram fazer alguma coisa? Buscar socorro em outra parte? 

- No escuta? E intil. Muitos j tentaram e acabaram morrendo no caminho 
ou sendo mortos pelos soldados quando se aproximavam da cidade a 
que se dirigiam. Aceite seu destino. Estamos condenados a viver aqui at o 
fim de nossos dias. E para muitos, os dias de vida neste lugar esquecido se 
tornam bastante reduzidos. Quem sabe voc tem a sorte de ser um deles? 
- No  possvel que no haja algo a fazer. No acredito! Tem de haver 
um modo de sair daqui. 
Uma mulher com o rosto parcialmente envolto em trapos achegou-se um 
pouco mais ao pequeno grupo que se fizera em torno do recm-chegado, e 
disse: 

- Moo, acho que ainda no compreendeu sua real situao. 
Ela abriu os trapos que tampavam seu rosto e deixou que todos vissem 
as profundas chagas que lhe desfiguravam o semblante. Depois, cobrindo-se 
novamente, continuou: 

-No podemos mais viver entre os sos. Quem aceitaria viver ao lado de 
seres humanos que se deformam a cada dia? Tornou-se impossvel.  melhor 
aceitar logo sua condio e acomodar-se  nova vida. Assim os dias lhe 
sero menos penosos. Se  que isto  vida. 

Caindo em si, Amenhotep perdeu o resto das foras que o animavam e 
sentou-se no cho, vencido e cansado. Lembrou-se de suas feridas e da reao 
de repugnncia do fara e de todos os seus ministros. Por mais que lhe 
doesse concordar, por mais que desejasse lutar contra a situao em que se 
via, tinha de admitir que a mulher estava certa. Ele fora banido. Aquele mal 
que o acometera transformara para sempre sua vida. Nunca mais seria a 
mesma. 

Sentado no cho, ele colocou a cabea entre os joelhos e entregou-se a 
profundo e sentido pranto, enquanto os outros se afastavam em silncio. 

115 


#
CAPTULO 22 

A noite estava clara e antes de se deitar Nitetis contemplava o luar, sentada 
no jardim de sua casa. Raquel se aproximou suavemente e, notando o ar 
distante da jovem, perguntou: 

- Voc est bem, Nitetis? 
- Sinto-me triste hoje, como se algo doloroso me atingisse. 
-No seria a questo do casamento que a preocupa? 
- No, Raquel, conversei com Bek e ele est propenso a me atender. Preferia 
casar-se logo,  bem verdade. Por ele, at j nos teramos casado, conforme 
Iuseneb desejava. Mas Bek me respeita e vai aguardar que eu diga 
qual o momento certo. 
- E quando ser esse momento, Nitetis? O que est esperando? Bek a 
ama. 
Suspirando fundo, Nitetis respondeu: 
-Eu sei, e tambm gosto muito dele. 

- Gosta? 
- Sim, aprecio bastante a sua companhia. Para mim isso j  suficiente 
para compartilharmos a vida. Bek  tima pessoa. 
- Ento no compreendo o que est esperando. Algum a quem ame 
mais do que a ele? 
- No sei, Raquel. Seja como for, voc tem razo, eu j deveria ter me 
decidido; s que algo me impede e no sei explicar o que . 
Abraando ternamente a amiga, Raquel lembrou: 

- Seu corao  complicado, Nitetis; muitas vezes eu no a entendo. 
Mas, como seu pai sempre dizia, sua alma  especial, e est alm de nossa 
compreenso. 
Deixando-se envolver pelo abrao reconbrtante, aps alguns instantes 
de silncio Nitetis falou: 

- Hoje, em particular, sinto-me atormentada. Meu corao est opresso e 
entristecido. 
Levantando-se c estendendo as mos para a jovem, Raquel pediu: 

116 


#
- Vamos dormir, querida. Quem sabe amanh se sentir melhor? Seu 
noivo vem v-la, no  certo?
- Sim, logo pela manh.  melhor mesmo ir dormir; preciso estar bem 
disposta para argumentar contra seus apelos veementes para apressarmos o 
casamento. 
As duas seguiram enlaadas para o interior da casa. Nitetis acomodou-se 
no leito e, no obstante o pensamento que insistia na figura de Amenhotep, 
logo adormeceu. 

Assim que seu sono se fez pesado, desprendido do corpo denso seu corpo 
espiritual surgiu, nimbado de intensa luz rosa e azul. Prximo de seu 
leito ela viu Jonef, que a saudou atencioso: 

- Ol, minha irm, recorda-se de mim? 
Abraando com ternura o aliado de tantas jornadas, ela respondeu: 
-E como esquecer o irmo querido? Parece que ficamos muito tempo 
sem nos encontrarmos. 

- Sim, faz algum tempo. No foi necessrio antes, visto que voc vem 
cumprindo com excelncia sua misso. 

-Porm, fracassamos outra vez. 

-De maneira alguma. Nosso irmo  chamado agora  sua experincia 

mais difcil. Desejamos que Deus lhe d muita fora para aproveitar a lio 
que est para iniciar. Lembra-se? 

- Imprecisamente. 
-Amenhotep adoeceu gravemente e foi levado para o lugar dos enjeitados, 
onde ficam os leprosos. Neste momento, est desolado, pensando em 
tirar a prpria vida. 

- No podemos permitir, Jonef. 
- Fique tranqila, temos muitos amigos de nosso plano com ele, amparando-
o e sustentando-o nesta hora dolorosa. No obstante, urge que ele 
receba ajuda direta, do plano terreno. 
-Estou pronta para ir ao seu encontro. 

- Sabe dos riscos implcitos, minha irm? 
- Sei e estou disposta a aceit-los. 
Abraando-a outra vez com imenso carinho, ele disse: 
- Pois bem, que Deus a ampare e abenoe. V, minha irm, v ao encontro 
de nosso irmo. 
117 


#
Nitetis despertou e sentou-se na cama, sobressaltada. No se lembrava 
de todos os detalhes do sonho que acabara de ter, mas com clareza ecoava 
em sua mente a frase: Amenhotep adoeceu gravemente e f oi levado para o 
lugar dos enjeitados, onde ficam os leprosos. 

Levantou-se, caminhou at a sala de refeies e tomou um pouco de gua 
fresca. Sentou-se em um dos bancos, tentando organizar os pensamentos 
e raciocinar sobre o que deveria fazer. 

Ainda meditava quando Iuseneb aproximou-se sem fazer barulho. Ao 
v-la distrada, disse: 

-Deveria estar dormindo. Seu noivo chega em algumas horas e vem para 
decidir tudo. Eu prprio quero participar dessas decises. Voc est protelando 
de novo esse casamento e seu noivo deixa que o domine. Pretendo 
esclarecer que, a menos que tome uma atitude depressa, ele terminar por 
perd-la de vez. 
Nitetis ouvia Iuseneb, sem conseguir parar de pensar em Amenhotep e 
na frase que se repetia em sua mente. Ela precisava saber se aquilo era verdade. 
Precisava descobrir se ele de fato estava doente e se tinha sido levado 
para longe. Mas como? 

luseneb insistia, exasperado: 
-Est escutando, Nitetis? Est me ouvindo? Ela por fim respondeu: 


- Sim, claro, Iuseneb, voc tem razo. 
-Do que est falando? 
-De tudo. Tem razo em tudo. Preciso tomar uma atitude. Vou ao encontro 
de Bek agora mesmo. 

- O qu? Est maluca? 
- No, voc est correto. Preciso tomar uma atitude drstica, no  isso? 
Ento, que seja agora! Vou  casa dele, assim podemos resolver j essa situao. 
Perplexo, Iuseneb custou um pouco a responder: 

- No  necessrio. Ele estar aqui em algumas horas e podero definir 
os pormenores desse casamento. 
- Quero v-lo j, meu irmo. Agora. Tenho urgncia em v-lo. 
- Nitetis, estou cansado de suas atitudes impensadas. Para que... 
Ela o interrompeu: 
-Ora, ele j deve estar em p, a esta hora. Veja, est quase amanhecendo. 
Raquel pode ir comigo. 

118 


#
-Vocs no iro sozinhas a parte alguma. 

-Ento, venha conosco. 

Depois de instantes de indeciso, ele capitulou: 

-Muito bem, v chamar Raquel e ver se concorda em nos acompanhar. 
Se ela vier, preparo os animais. 

Nitetis levantou-se sem dizer palavra e correu ao quarto de Raquel, que 
j estava desperta e quando a viu indagou: 

- O que est havendo, Nitetis? Voc e seu irmo esto discutindo outra 
vez? 
- Ns a acordamos, Raquel? Desculpe. 
-Meu sono estava leve, escutei as vozes. O que est havendo? 
-Confia em mim, Raquel? 
-Por que pergunta? 
-Preciso desesperadamente de sua ajuda. 
-O que foi? 
- Tive um sonho, eu acho. Sonhei que Amenhotep est seriamente enfermo, 
em um lugar onde vivem os leprosos e banidos da sociedade. 
- O qu?! O lugar dos leprosos, em Hermon? 
-Acho que sim. 
- Que coisa terrvel! 
-E creio que no  somente um sonho, Raquel.  um aviso. Meu irmo 
est doente e precisa de mim. 
-Ainda que isso fosse verdade, o que voc poderia fazer? 

- Tenho de saber se  verdade ou nada mais que um sonho, e voc precisa 
me ajudar. 
- Como? 
-Pedi a Iuseneb que nos leve agora  casa de Bek. 
-A esta hora? 
- Est quase amanhecendo, Raquel. Por favor, no negue. 
E por isso que estava to angustiada ontem  noite. Meu irmo est muito 
doente, est sofrendo demais. 

-Nitetis... 
-Por favor, Raquel, s preciso que descubra se  verdade. Enquanto 
converso com Bek, voc vai at o mercado e pergunta pelos ltimos acontecimentos 
do palcio. Bek mora bem perto do mercado e muito mais prximo 
ao palcio do que ns. L devem saber de alguma coisa. 
119 


#
-Nitetis, tente se acalmar e pensar melhor... 

As duas conversavam quando Iuseneb apareceu  porta anunciando: 

- Seu noivo acaba de chegar. V trocar de roupa e venha receb-lo. Raquel, 
prepare o desjejum para nossos hspedes. 
Imediatamente Raquel se levantou e comeou a se arrumar. Nitetis olhou 
firme para Iuseneb e foi para seu quarto. Em alguns segundos estava de 
volta  sala de almoo para encontrar Bek: 

-Veio s? 

-Achei melhor. Temos muito que conversar e decidir. Meu pai est impaciente, 
Nitetis, e por isso preferi vir sozinho. 

luseneb, que escutava a conversa, interveio: 

-E ele est certo. Eu tambm estou impaciente com essa demora. O que 
esto esperando, afinal? 

Nitetis olhava para Raquel, como a implorar que tocasse no assunto relacionado 
a Amenhotep, mas ela se mantinha calada. Aps tomar alguns 
goles de suco de uva, Bek se levantou, aproximou-se de Nitetis, tomou-lhe 
as mos delicadas e beijando-as, disse: 

-Esperamos to-somente que Nitetis se sinta segura com a deciso. 

- Ela j est segura, Bek. Devem casar-se imediatamente. Nitetis continuava 
a olhar suplicante para Raquel, que no 
conseguiu mais se conter: 

- Afora a impacincia, seu pai e sua famlia esto bem de sade, senhor 
Bek? 
-Esto todos bem. Os negcios  que no andam muito promissores. 
-E por qu? - perguntou Iuseneb, interessado. 

- As recentes mudanas no palcio deixaram todos alvoroados. 
-E o que houve? 
- Ainda no sabem? - ele hesitava, olhando fixo para Nitetis, que logo 
falou: 
- Amenhotep est afastado do palcio e de suas funes, no , Bek? 
Percebendo que ela j sabia do fato que tentava ocultar, Bek prosseguiu: 
- Sim, definitivamente. 
-Por qu? -questionou Iuseneb. 
-Ele est doente... Parece que  um mal incurvel. Olhando para Raquel, 
Nitetis disse: 

120 


#
- Foi banido do Egito para sempre, Iuseneb fitou a irm e, intrigado, indagou: 
- Voc j sabia disso e no me disse nada? 
-Foi esta noite que descobri. 
- Como? - foi a vez de Bek interrogar. 
- Devo ter sonhado e ao acordar tive a certeza de que ele est muito doente. 
Bek apertou a mo da noiva entre as suas e disse: 

- Sei o quanto isso a machuca, Nitetis, mas no h nada que possamos 
fazer para ajud-lo. Ele foi banido, e onde est agora ningum poder acompanh-
lo. 
Pesado silncio dominou o ambiente, enquanto Raquel mantinha os olhos 
em Nitetis, penalizada. 

Mais de duas semanas haviam transcorrido desde que chegara. Arqueado 
e ofegante, Amenhotep caminhava na direo de um pequeno riacho que 
por ali passava. Ajoelhou-se  beira das guas tranqilas, que naquela parte 
formavam um pequeno lago, e viu sua imagem refletida. Tirando a tnica 
que lhe cobria o corpo, pde observar as feridas que aumentavam no peito e 
nos ombros. Ele as tocou de leve, sem ter dor ou qualquer outra sensao. 
Levantou-se, ergueu os olhos para o cu e gritou alto: 

- Por que os deuses esto fazendo isso comigo? O que foi que eu fiz de 
to abominvel? 
Ajoelhando-se outra vez, chorou amargurado at que as lgrimas secassem 
em seu rosto. Ele sabia que sua situao era terrvel. Sentia que nunca 
mais deixaria aquele lugar e, mesmo que uma vez ou outra lhe viesse  cabea 
a idia de retornar  Mnfis, faltavam-lhe foras para sair dali. Sua 
mente estava confusa e seu corao profundamente magoado. Amenhotep 
sentia-se trado, abandonado e sem esperanas. 

Cambaleando, alcanou a sombra de uma rvore; deitou-se sob sua ramagem 
farta e adormeceu. Quando acordou o sol j desaparecera no horizonte. 
Ele recordou o esplendoroso entardecer que via de sua sacada, no 
palcio, e teve imenso desejo de voltar. Pensou em seu quarto e subitamente 
lembrou-se de que havia dias no comia nada; apenas bebia a gua pura. 
Notou, ento, que tinha muita fome. Olhou para o alto da rvore que o protegia 
e percebeu que era uma tamareira. Tentou subir para colher alguns 
frutos, sem xito. No tinha foras. 

121 


#
Sentou-se novamente e, com o olhar perdido no horizonte, recomeou a 
pensar em morrer. Somente a morte lhe restava como sada. Sabia que no 
poderia mais voltar para seu lar, para a vida que deixara. Portanto, que a 
morte viesse o mais depressa possvel. 

Com enorme esforo, levantou-se e andou na direo da fumaa que via 
ao longe, em uma clareira. Ainda no se aproximara de nenhum dos outros 
que viviam ali, tampouco permitira que algum se aproximasse dele; no 
quisera conversa, mantendo-se isolado de todos. 

Teve muita dificuldade at chegar a um grupo de pessoas sentadas ao 
redor de uma fogueira. A princpio o olharam com certa curiosidade, para 
em seguida, ignorando-o, continuarem o assunto que os entretinha. Amenhotep 
avanou mais e perguntou: 

-Sabem qual erva  a mais venenosa deste lugar? 

Os que o ouviram se entreolharam sem responder. Uma mulher se levantou 
e perguntou: 

- O que pretende fazer? No h ervas venenosas aqui. Fomos abandonados 
neste lugar para morrermos aos poucos... 
- No acredito que no haja em algum ponto desta regio uma planta que 
se possa tornar veneno. Tem de haver; elas existem em toda parte. 
Um homem que estava bem prximo do fogo disse, erguendo um pouco 
a cabea: 
-Deve at haver alguma planta assim, porm ningum aqui sabe qual . 
Ter de descobrir sozinho... Indignado, Amenhotep bradou: 

- Vocs no fazem nada? Ficam aqui, como um bando de imprestveis, 
esperando que seus corpos apodream? Inteis! 
Outro dos homens que rodeavam a fogueira se ergueu e, agarrando Amenhotep 
pela garganta, apertou-a at quase sufoc-lo. Quando conseguiram 
afast-lo do arquiteto, ele arrancou a tnica e gritou, exibindo o corpo 
desnudo e com um s brao, pois o outro j fora devorado pela lepra: 

- Todos sofremos muito! Basta-nos a dor de nossa solido, a tortura de 
morrermos aos poucos! No precisamos suportar algum a nos insultar! 
Chega! Se o vir por perto de novo, no vai precisar de nenhuma planta venenosa. 
Eu mesmo, com esta minha nica mo, acabarei com sua vida, imbecil! 
122 


#
Ao ver o estado lastimvel daquele jovem, Amenhotep afastou-se enojado 
e correu como pde para a margem do riacho. Recostou-se sob a tamareira 
e adormeceu ao relento, coberto pelo cu cintilante de estrelas. 

O tempo cumpria seu papel: Amenhotep mal conseguia comer as tmaras 
que caam da rvore frondosa; estava a cada dia mais magro e cansado; 
as chagas se aprofundavam lentamente, e ele j sentia dores pelo corpo todo. 

s margens do Nilo, na propriedade de Nitetis e de seus irmos, Iuseneb 
e Bek acertaram a data e os detalhes para a realizao do casamento. Entretanto, 
Nitetis sentia-se infeliz. Estava sendo pressionada pelo irmo a aceitar 

o casamento com Bek, quando intimamente sabia que tinha de fazer outra 
coisa. 
Naquela noite, Iuseneb trouxe os ltimos animais que seriam preparados 
para as bodas, que aconteceriam dali a trs dias. Nitetis, em seu quarto, cruzava-
o de um lado a outro, at que se sentou na cama, pensativa. Ento, tomou 
sua deciso. Sob a cama guardava alguns trabalhos que executara antes 
que o pai partisse. Embrulhou-os com cuidado; eram trs pequenas esculturas 
primorosamente entalhadas em pedra. Ela sabia que mais perto do palcio, 
com algum mercador, conseguiria uma boa troca. 

Silenciosamente, preparou-se. Separou algumas roupas e as esculturas, 
colocando tudo em uma sacola. Foi at a porta do quarto, abriu a cortina e 
observou o movimento que vinha da sala de almoo. Todos estavam entretidos 
com os preparativos para os festejos do casamento. Desejou chamar 
Raquel, mas temia que dessa vez ela no ficasse do seu lado. Hesitou. Por 
fim, ainda escutando a voz carinhosa da amiga, que falava animada de uma 
das receitas de famlia que trouxera de seus parentes, saiu pelo outro lado da 
casa e rpido desapareceu na estrada que levava  capital do reino. 

Caminhou durante toda a noite, cuidadosa, para que ningum a visse. J 
era manh quando avistou um pequeno povoado, com um mercado movimentado. 
Foi at um dos comerciantes, que tinha obras artesanais  venda. 
Mostrou-lhe uma das esttuas. Impressionado, o mercador declarou s ter 
visto algo to belo e perfeito na cmara morturia do fara, que estava sendo 
construda. Sem vacilao ficou com a pea, dando em troca mantimentos 
e uma mula bem tratada. 

Nitetis ficou satisfeita; era tudo de que precisava. Subiu no animal e j 
se afastava quando perguntou: 

-Sabe alguma coisa sobre o ministro-chefe do Egito, senhor? 
123 


#
- Amenhotep? 
Ela anuiu com a cabea e o homem respondeu, num sussurro: 
-Ele foi enviado para o lugar dos degredados. 
-Que lugar? 
- O lugar para onde vo todos os que tm aquela doena horrenda. 
-Sabe onde fica? 
-Fica a caminho da Palestina, entre o deserto de Sur e Amom. Mas por 
que pergunta? Qual o seu interesse? 
- Apenas curiosidade. 
Depois de pequena pausa, ela indagou: 
- E as pessoas no saem de l? 
- Os doentes no podem entrar em parte alguma. Para onde quer que se 
dirijam, levam consigo as marcas de sua sina. Nunca lhes permitiriam viver 
perto de outras pessoas. 
Nitetis agradeceu e iniciou sua jornada. Mas como chegar l, se no conhecia 
o caminho? Decidiu ento que iria at mais prximo ao palcio, onde 
conseguiria mais informaes que a levassem at o irmo doente. 

Quase sem perceber, ela foi direto para a imponente construo do templo 
morturio do fara. Logo reconheceu o lugar e apressou-se. Desmontou 
sem dificuldade e viu Amy, que veio saud-la  entrada da edificao: 

- Nitetis, o que faz por aqui? Pensei que tivesse voltado para casa. 
Cumprimentando com um aceno de cabea o antigo supervisor de obra 
de seu irmo, ela comeou a conversa: 

- Como est, Amy? Como anda a construo? 
-Um pouco lenta, agora que nosso mestre foi afastado. 
- Sabe como ele estava quando partiu? 
-Parecia bem, apenas um pouco preocupado. 
- Tem alguma notcia dele, Amy? 
- No, nenhuma. 
-Quem assumiu a responsabilidade pela obra? 
-Rudamon assumiu a construo juntamente com Iaret, porm eles no 
entendem nada do assunto e esto tornando o trabalho muito difcil. 

- Pobre Amy, no deve estar sendo fcil mesmo! Observando a grande 
construo que se erguia, ela continuou: 
-Est muito bonita e por certo Amenhotep estaria muito orgulhoso de 
voc. Amy, sabe para onde o levaram? 

124 


#
-Para o lugar dos degredados, em Hermon;  para onde vo os doentes e 

banidos do reino. 
-E onde fica exatamente? 
-Para que quer saber, Nitetis? 
-Sabe como posso chegar l? 

-Voc pretende ir at Hermon? Est louca? Ningum volta de l! No 
faa isso.  muito jovem e tem toda a vida pela frente. Por que estragar tudo? 
No poder ajudar Amenhotep. 
- Tenho certeza de que ele precisa de mim e de que posso ajud-lo. Sabe 
como se vai at l? 
- No importa o que eu diga, no vai desistir, no ? No importa quo 
perigosa seja e viagem, nada a impedir. 
Ela sorriu ao confirmar: 

- Nada. Tenho viajado por estradas muito mais longas para estar com 
Amenhotep, acredite-me. 
Amy a fitou sem compreender. Nitetis perguntou novamente: 

- Pode me ajudar, Amy? 
- Poderia pedir a algum escravo conhecedor do caminho que a levasse; 
s que nada tenho para dar em troca... 
Ela tirou outra escultura da sacola e entregou-a ao amigo: 

- Tome, talvez isto sirva. Com outra pea consegui de um mercador 
mantimentos e o animal... 
Amy tomou a esttua nas mos e examinou-a com ateno. Era linda. Ia 
questionar a jovem, mas achou melhor dizer apenas: 
-Fique aqui, vou ver o que consigo. 
Depois de algum tempo de espera, Nitetis viu Amy chegando com dois 

homens muito simples. Ao se aproximarem, Amy explicou: 

- Estes so servos de minha confiana. Eles conhecem o caminho e a levaro 
at bem perto do lugar; depois voltaro e lhes entregarei a escultura. 
-timo. Podemos ir j? 

- No prefere passar a noite aqui e viajar pela manh?  mais seguro. 
Temendo que Iuseneb enviasse algum atrs dela, Nitetis pediu: 
- Quero ir imediatamente, preciso chegar depressa. Estou muito preocupada 
com o estado de Amenhotep. Receio que ele no suporte o sofrimento 
e acabe com a prpria vida. 
-O que seria at um bem para ele... 

125 


#
- No diga isso, Amy. A vida  nossa oportunidade. Enquanto estamos 
aqui, podemos lutar, vencer, renovar, construir. 
- Mas a situao dele  muito difcil. 
- Eu sei, por isso quero estar ao seu lado nesta etapa. Ela j se preparava 
para subir na mula, quando Amy a segurou pelo brao e perguntou: 
- E voc, Nitetis, vai entregar a vida dessa maneira? No deveria tambm 
lutar, construir, como voc mesma disse?
-  exatamente o que estou fazendo; para isso estou aqui. Sem dizer 
mais nada, ela montou no animal e agradeceu: 
-Muito obrigada por tudo, Amy. Nunca vou esquecer quanto me ajudou, 
meu amigo. Seu corao  generoso e bom. Que o Deus nico esteja sempre 
com voc. 

Antes que ele pudesse indagar que deus era aquele, ela se virou e partiu, 
seguida pelos dois servos, que tambm levavam grande quantidade de mantimentos 
obtida por Amy. 

Ele acenou admirando profundamente aquela jovem mulher, determinada 
e corajosa, que iria sacrificar a vida para ajudar o irmo. 
Aps longa e exaustiva jornada, a pequena caravana avistou finalmente 

o lugar que buscava. Assim que o viu, um dos escravos parou e se virou 
para a jovem:
-  somente at aqui que a acompanhamos. O local fica ali, depois daquele 
estreitamento nos rochedos. Pode v-lo? 
Ela observou a rea que se espalhava aos ps da colina: 

- Sim, estou vendo. Sabe se todo esse espao est destinado aos banidos? 
- Acredito que sim, pois ningum ousa ir alm deste ponto. Tem certeza 
de que quer prosseguir? 
- Tenho, sim, e agradeo muito por sua companhia. 
- Ao descer o morro, v em direo queles rochedos. Est vendo, l 
embaixo? 
-Estou vendo. 

-Logo que entrar pelo estreito rochoso estar no lugar dos abandonados 
e esquecidos. Desejo que encontre o que procura. 
Mais uma vez, ela olhou para os dois homens e disse: 

- Que o Deus nico os guarde. Obrigada, novamente, por me trazerem 
em segurana at aqui. 
126 


#
Em silncio eles acomodaram na mula os sacos com man-timentos que 
vinham carregando e puseram-se no caminho de volta  capital do imprio. 
Nitetis ficou parada, contemplando o local  distncia. Notou a beleza das 
rvores que sobressaam na paisagem e respirou fundo, como a haurir foras 
da natureza para ir at o fim em seu objetivo. Olhou para o cu de intenso 
azul e pediu ao Deus que ela no conhecia bem, mas que j amava e em 
quem confiava, que a amparasse em seu empreendimento. E comeou a descer. 


O estreito, que do alto parecera to prximo, ficava mais distante  medida 
que ela descia. Nitetis chegara de manh com os dois escravos e foi 
somente ao entardecer que finalmente atingiu a pequena passagem que logo 
se abria, expondo a farta vegetao. Ao atravessar a fenda entre as rochas, 
viu algumas pessoas que a olhavam a certa distncia. Parou o animal e perguntou: 


- Procuro por um homem chamado Amenhotep. Sabem onde posso encontr-
lo? 
Vrios rostos -ocultos em trapos -continuavam a espreit-la desconfiados. 
Ela, ento, esclareceu: 
-Por favor, ele  meu irmo e preciso ach-lo. Sabem onde est? 
Um dos homens se manifestou, enfim: 

-O que deseja aqui? Veio busc-lo? 
- Bem que eu gostaria, mas sei que ele no poder entrar em parte alguma. 
Vim para ficar com ele e ajud-lo. 
- No sei quem  esse de quem voc fala. 
-Ele no deve estar neste local h muito tempo; no mximo trs ou quatro 
meses... 
-Aqui aparecem estropiados todos os dias. Como vamos saber quem  
esse tal que procura? 

-No ouviram ningum mencionar esse nome? 

Uma das mulheres, que at aquele momento apenas ouvia a conversa, 

disse: 
-S se for aquele impertinente de quem no sabemos sequer o nome.  
insuportvel e ningum fala com ele desde que chegou. 

- Talvez seja ele mesmo. Sabem onde posso encontr-lo? 
- No, ele nunca fica com o grupo; est sempre perambulando... 
O homem que primeiro respondera a Nitetis interveio: 
127 


#
-Pode ser que encontre esse de quem lhe falamos perto das rvores, na 
parte de cima do riacho. Ele gosta de ficar por ali. 

Tomando o animal pela corda que o prendia, ela comeou a andar rumo 
ao riacho, dizendo: 

- Muito agradecida, vou at l agora mesmo. A mulher lhe perguntou: 
- Sabe o que est fazendo? Sabe realmente que lugar  este? 
Nitetis sorriu, serena, e respondeu: 
-Eu sei, senhora, no se preocupe. 
A jovem caminhou at a beira do riacho e ali deixou que o animal se 
dessedentasse da longa jornada. Ela tambm se abaixou e tomou grandes 
goles da gua cristalina que descia pelas rochas. Ao erguer a vista notou que 
sob uma frondosa rvore, acima da outra margem do rio, algum estava estendido 
no cho. Puxou o animal com a corda, cruzou o riozinho e aproximou-
se do homem prostrado sobre as folhas secas e a relva. 

J bem perto, constatou que era Amenhotep. Instantaneamente seus olhos 
encheram-se de lgrimas que desciam pesadas, escorrendo-lhe pela 
face. A condio do irmo a penalizara de imediato. Seu corpo estava coberto 
por chagas pu-rulentas, suas roupas eram trapos imundos e seu abatimento 
era indescritvel. Ele parecia dormir. Nitetis andava devagar, para no 
acord-lo. Prendeu a mula em uma pequena rvore e sentou-se ao lado de 
Amenhotep, limpando-lhe delicadamente o rosto com gua fresca que trouxera 
do riacho. Ele abriu os olhos, tentando ver o que o tocava, e espantou-
se ao deparar com o olhar doce e terno de Nitetis. Sentou-se, tirou as mos 
dela de seu rosto e inquiriu: 

-O que faz aqui? 
- Vim cuidar de voc, meu irmo. 
-V embora, no preciso de ningum. Calmamente, ela props: 
- Ento cuide de mim. Eu preciso muito estar perto de voc. 
Ele a fitou nos olhos tranqilos e amorosos, molhados pelas lgrimas, e 
indagou: 
-O que deseja, humilhar-me ainda mais? 

-Sabe que no  isso. Quero ficar aqui com voc, para ajud-lo nesta 
hora difcil. 
- No acredito nisso. Todos me abandonaram. 
Ela sentou-se ao seu lado e, segurando-lhe a mo, disse: 
128 


#
- Vamos cuidar desses machucados. Trouxe algumas ervas que podem 
aliviar sua dor. Sente dor, Amenhotep? 
Ele puxou a mo doente ao responder: 

-Muita. 
Ela tornou a pegar-lhe a mo. Tirando alguns frascos de um dos sacos, 
comeou a fazer compressas em ambas as mos do irmo, enquanto dizia: 

-Vamos cuidar desses machucados. 

Ele emudeceu e ficou a observ-la, sem ao. Seu corao orgulhoso es


tava tocado de profunda ternura pela irm e, a despeito da revolta que o dominava, 
no teve coragem de reagir; ficou calado algum tempo, depois perguntou: 


- Sabe que nada disso vai adiantar, no ? Esta praga no tem cura! Eu 
vou morrer de qualquer jeito. Por que no me deixa morrer sozinho? De que 
adianta ficar aqui, desperdiando seu tempo e sua vida? Ser intil, Nitetis. 
Eu no ficarei curado e voc acabar morrendo tambm. 
Com os olhos fixos nos do irmo, sentindo emoo intensa, ela disse: 

- Amenhotep, a vida  uma grande oportunidade. Todos os momentos 
so preciosos para nossa alma imortal. E sua alma  o mais importante para 
mim. Quero estar ao seu lado, ajudando-o a atravessar este momento to 
difcil em sua existncia. Para isso vim: para ficar ao seu lado. No importa 
o que vai acontecer depois: quero ajud-lo; sempre quis, meu irmo. 
Angustiado, ele se levantou e ficou andando de um lado para outro, sem 
falar. Depois se virou para a irm: 

-No consigo compreend-la, Nitetis. Por que quer jogar fora sua vida? 
Voc mesma est dizendo que a vida  uma oportunidade. Por que ento no 
quer aproveitar a sua, estragando-a por minha causa? 
Ela fitou-o e disse: 

-Porque o amo muito e no posso viver longe daqui, sabendo que precisa 
de apoio e de algum to-somente para conversar, aliviando assim a dor do 
seu corao. De que me valeria estar distante, com o corao triste, angustiado, 
desejoso de saber notcias suas? Serei mais feliz aqui, ao seu lado. 

Tocado no mais ntimo pelas palavras amorosas da irm, ele ajoelhou-se 

e verteu copioso pranto. Nitetis o abraou e aconchegou-o junto ao ombro: 
-Chore, meu irmo, que as lgrimas vo aliviar um pouco o seu corao. 
Ele alou um pouco a fronte e disse: 

129 


#
- Duvido. Chorar  s o que tenho feito e meu corao est ainda mais 
pesado e oprimido. Perdi tudo o que possua, tudo com que sempre sonhara. 
Eu tinha conquistado tudo, Nitetis, tudo. Tinha tudo aquilo que desejei, inclusive... 
-Inclusive? 

- Um filho. 
- Um filho? 
-Iaret est esperando um filho meu. E agora eu perdi tudo! Minha vida 
no tem mais sentido, no tenho mais razo para existir! 
Ele chorava convulsivamente e Nitetis calou-se por alguns minutos. 
Quando Amenhotep sossegou um pouco, ela ergueu seu rosto, limpou as 
lgrimas que teimavam em correr e disse: 

-Sei que  difcil para voc compreender, por ora, mas s vezes quando 
pensamos perder  que realmente estamos ganhando. O Deus nico, que 
sabe todas as coisas, cuida de ns e nunca nos abandona. 

- Que deus  esse? Nunca ouvi falar nele. 
-Mas sabe, bem no fundo da alma, que ele existe. E, mais do que isso, 
vai enviar para a Terra algum muito especial, que ensinar aos homens o 
caminho da luz. 

-Do que est falando, Nitetis? 
-Do enviado dos cus que vir ensinar o amor e ajudar todos os homens 
a se reaproximarem de Deus. 
-Afinal, que deus  esse? Onde ouviu falar dele? 

-Foi Raquel quem me falou do Deus nico, criador de todo o Universo. 
E eu creio nele. 
-S podia ser idia da Raquel... 

- Acredito nele, e no  s pelo que ela contou. Na verdade  como se eu 
soubesse desde sempre da existncia desse Deus. Por mais que aprendesse 
sobre os nossos deuses e sobre o respeito que lhes devamos, sentia que havia 
algum mais poderoso e superior a todos eles, e que esse era o verdadeiro 
Deus. Quando Raquel me falou sobre ele, apenas o reconheci. 
-No a compreendo, Nitetis. 
- Tem certeza? Sei que no fundo voc tambm sabe de todas essas coisas, 
apenas no quer admitir. 
- E que tem esse deus a ver com o que estou vivendo? 
-Ele s quer o nosso bem. 
130 


#
O irmo gritou, dilacerado pela dor: 

- E por isso nos pe doentes e nos mata? Ela enlaou-o com amor e disse: 
- Entend-lo, e perceber o sentido de tudo isso,  nossa tarefa. E o mensageiro 
de Deus, o enviado de que lhe falei, nos ajudar a conhec-lo e 
compreend-lo. 
-Foi Raquel quem lhe falou desse tal enviado? 


- Ela falou algumas coisas, mas eu j sabia de tudo o que me disse. 
-E quando ele vir? 
-No sabemos; mas  certo que um dia vir. Envolvido pelas suaves vibraes 
que Nitetis irradiava enquanto conversavam, Amenhotep sentou-se 
ao seu lado. A irm lhe deu po, frutas e vinho e ele, por fim, adormeceu em 
seu colo e repousou como h muito no conseguia. 

CAPTULO 25 

O sol raiou no horizonte e seu brilho feriu os olhos de Amenhotep, que 
dormia sono profundo. Ao sentir os raios do astro-rei lhe tocarem a face, 
despertou vagarosamente. Abriu os olhos e fitou o cu de azul intenso. Sentou-
se sem pressa e procurou por Nitetis. No a vendo em parte alguma, 
levantou-se e caminhou devagar at a beira do riacho. Avistou a irm conversando 
com algumas pessoas na outra margem. Teve vontade de cham-
la, porm desistiu e voltou, sentando-se outra vez embaixo da tamareira. 
Notou que sobre um forro de linho alvo ela havia deixado algumas frutas e 
suco de uva. Comeu e bebeu, enquanto Nitetis retornava de sua caminhada. 

-O que estava fazendo? O que conversava com aquela gente? 

- Estava oferecendo um pouco de comida a eles. 
- No devia fazer isso, Nitetis. 
-E por que no? 
- Vamos acabar ficando sem nada! 
-No se preocupe. Amy vai providenciar mais alimento daqui a poucos 
dias. 
-Amy? 

131 


#
-Sim, deixei com ele duas esculturas que fiz h algum tempo. Ele est 
trocando por alimentos e mandar algum para nos deixar as provises num 
lugar combinado, no alto da montanha. 
Amenhotep observou-a enquanto se movimentava, organizando tudo  
sua volta. Depois, quando ela se sentou, perguntou: 

-Por que estava ajudando aquelas pessoas?
- Porque precisam de ajuda.  to simples... 
- Vai acabar sendo atacada e roubada por eles e por outros, quando souberem 
que trouxe comida. 
- No se inquiete, meu irmo; teremos o suficiente. Depois de longa 
pausa, Nitetis questionou: 
-Ontem voc falou que Iaret espera um filho seu. Tem certeza disso? 
-Foi ela prpria quem me contou, e no tinha razo para mentir. 
Demorado silncio se fez entre eles. Por fim, Amenhotep perguntou: 
- Voc me faria um favor? 
-O que estiver ao rneu alcance. 
- Quando vierem trazer mantimentos, se  que realmente viro, poderia 
tentar obter notcias da capital, de Iaret e de meu filho? 
- No sei se vou conseguir, mas posso tentar. Amenhotep se levantou, 
caminhou at a beira do riacho e 
agachou-se. Fitou longamente as feridas que j cobriam grande parte de 
seu corpo; olhou uma a uma as que sua vista alcanava. Em seguida voltou e 
sentou-se, calado. Nitetis, que o observara sutilmente, tambm permaneceu 
em silncio, at que perguntou: 

-Quando comearam? 

- H alguns meses. 
- Sentiu alguma coisa diferente? Teve contato com algum doente? 
-No, foi tudo de repente, de uma hora para outra. Quando apareceram 
eram somente manchas avermelhadas. No dei muita importncia; quis acreditar 
que no era nada srio e que sumiriam logo. No entanto, ao invs de 
desaparecerem elas comearam a aumentar at se transformarem nessa coisa 
horrenda que tenho agora. 
- No diga isso, meu irmo. 
- Estou horrvel! E vou ficar cada vez pior. Alguns daqueles homens que 
ficam do outro lado do rio... Eles so verdadeiros monstros... 
132 


#
Nitetis o olhou com piedade e no alimentou o assunto. Apenas foi ao 
encontro dele e ofereceu-lhe o brao: 

-Vamos dar uma caminhada? Este lugar  muito bonito e sei que voc 
no saiu desta banda desde que chegou. 

Amenhotep olhou-a incrdulo e perguntou: 

-Est brincando? 

-Claro que no! 
- No quero andar, no quero fazer nada! Quero morrer,  somente isso 
que desejo! 
Pacientemente, Nitetis tomou a mo dele entre as suas e, puxando-o suavemente, 
reiterou: 

- Venha, vamos caminhar um pouco. H paisagens magnficas ali adiante. 
s vezes o espao que nos separa da felicidade  bem menor do que podemos 
imaginar. Venha caminhar ao meu lado. Vamos conversar um pouco, 
meu irmo. Que mais pode fazer agora, a no ser aproveitar o tempo para 
ver e sentir coisas belas? 
- Voc no entende. Eu estou morrendo... Que beleza posso ver naquilo 
que me cerca? 
-Existe beleza em toda parte, Amenhotep. E alm do mais, a vida continua 
sempre, sabe disso. Portanto, preparemos nossos coraes para encontrar 
com a eternidade... 

Sem saber o que responder, ele a acompanhou em agradvel caminhada 
 margem do riacho, por entre clareiras e mata fechada, vendo muita beleza 
natural. 

Iniciou-se assim um hbito dirio. Nitetis e o irmo andavam bem cedo, 
pela manh, quando ele tinha mais disposio e suportava melhor a exposio 
ao sol. 

Durante os passeios, os dois conversavam muito sobre diferentes assuntos. 
Nitetis pde compartilhar com ele tudo o que vivera ao lado do pai, 
lembrar todo o carinho que este lhe dedicara, e mostrar a Amenhotep quanto 
lhe queriam bem. 

Quando a revolta dominava Amenhotep, as longas caminhadas o ajudavam 
a espairecer. Quase sempre, ao retornar em companhia da irm, ele 
estava de nimo um pouco mais elevado. Entretanto, ao mesmo tempo, seu 
corpo se deteriorava rapidamente sob a ao voraz da doena que o consumia. 


133 


#
Em alguns meses, Amenhotep no conseguia mais se mirar nas guas do 
riacho. Seu corpo estava desfigurado e passou a ocultar-se em panos, como 
via os outros fazerem quando chegara. As feridas exalavam forte odor, e os 
panos o continham ligeiramente. 

Amenhotep sentia as foras lhe sumirem aos poucos do organismo cansado. 


Naquela manh ele no quis caminhar. Nitetis saiu para buscar as provises 
que os escravos trouxeram e ocultaram atrs das plantas, no alto do 
morro. De longe, fizeram sinal para Nitetis, que ento subiu para apanhar os 
alimentos. Ainda que a distncia, deram-lhe breves notcias do palcio. 

Assim que ela regressou o irmo perguntou, ansioso: 

- Soube alguma notcia de Iaret? Ela est bem? J deve ter tido o beb, 
ou ele est para nascer. O que soube? 

Nitetis acomodou-se ao seu lado e ofereceu: 

-Quer um pouco de leite? Aproveite enquanto est fresco... Amenhotep, 

junto dela, insistiu: 

- Conte logo, o que soube de Iaret? Eles disseram alguma coisa, no disseram? 
Com o semblante preocupado e entristecido, ela respondeu, ante a insistncia 
do irmo: 

- Iaret est bem. 
-Que bom! E o beb? 
-Ela no teve beb algum. 
-E quando vai nascer? 
-No vai nascer. 
-Como assim? 
- Iaret no est mais grvida. 
-O que me diz? Ela perdeu o beb? 
-Eles disseram que houve boatos abafados sobre uma gravidez, porm 
o falatrio logo se dissipou. Iaret, que tivera diversos mal-estares, recuperou-
se plenamente e nunca mais teve qualquer problema. Muitos dizem que 
tirou o beb. 
-Isso no  possvel! Ela no... 
Amenhotep calou-se. De sbito, lembrou-se vivamente de Iaret, de seu 
temperamento impetuoso e de seu comportamento. No disse mais nada. 

134 


#
Sabia que os boatos podiam ser verdadeiros. Lgrimas ardentes rolaram pelo 
seu rosto. Nitetis achegou-se ainda mais a ele e tentou anim-lo: 

- No fique triste assim, meu irmo. Vamos caminhar? -No! 
Ele se abaixou e tomou nas mos punhados de terra misturada  areia, 
que jogou sobre a cabea. Depois se sentou e disse: 

- Estou de luto, Nitetis. J perdera quase tudo, mas tinha a luz da esperana 
na imagem que fizera de meu filho. Agora perdi a nesga de luz que 
ainda restava em minha alma. 
Abraando-o com ternura, ela pediu: 

- Tem de continuar a acreditar no bem. 
-Como? Eu no tenho mais nada! Tiraram-me tudo. Nitetis o olhou nos 
olhos e disse num profundo suspiro: 
-Eu sei que  difcil. Chore, que o pranto lhe far bem. Quando o irmo 
parecia mais calmo, ela continuou: 
-Tudo tem uma explicao. Precisamos aprender a ler os sinais da divindade 
a nos guiar em tudo o que nos acontece. 

Enfurecido, com alguma dificuldade ele se levantou e gritou: 

-No agento mais seus sermes ridculos! No me venha outra vez com 
essa histria de que tudo  para o bem! No  verdade! Se existe mesmo um 
deus nico, como voc vive falando, ele deve se divertir muito s nossas 
custas!  um monstro! 

Sem dizer nada, Nitetis foi at as sacolas com as provises, pegou alguns 
mantimentos e saiu levando-os consigo. J era madrugada quando retornou 
e encontrou Amenhotep delirando, com febre muito alta. Ela o protegeu 
com mais cobertas e preparou-lhe um ch, que ele bebeu sem relutar. 

Depois daquela noite, o estado fsico de Amenhotep piorou rapidamente. 
Ele no mais se levantou e Nitetis cuidava dele com extremado carinho, 
fazendo compressas em suas feridas para atenuar as fortes dores que sentia. 

Paciente, ela lhe falava com doura do Deus nico e da grande oportunidade 
que a vida representa. Quase sem poder falar, ele apenas a ouvia e, 
ainda que entorpecido pela situao, percebia o amor que a irm lhe dedicava. 


Algumas noites depois, sob o frio cortante da madrugada, Amenhotep 
chamou pela irm, que dormia a seu lado. Sua voz fraca sumia na garganta: 

-Nitetis... 
A jovem se levantou de imediato e se debruou sobre ele, solcita: 
135 


#
-O que foi, meu irmo? 

Apertando-lhe a mo com fora, Amenhotep balbuciou: 

-Perdoe-me... 

Nitetis olhou firme em seus olhos e, antes que pudesse dizer qualquer 
coisa, viu que estavam imveis. Compreendendo que Amenhotep partira 
para a outra vida, fechou-lhe os olhos com carinho. As lgrimas corriam 
pela sua face ao se despedir: 

- Que Deus todo-poderoso o receba em seu lar. Quando o dia amanheceu, 
Nitetis terminava de enterrar o irmo. Exausta, sentou-se  sombra da 
frondosa rvore que os abrigara e adormeceu. Enquanto seu corpo dormia, 
seu esprito desprendeu-se do corpo fsico e encontrou o corpo espiritual de 
Amenhotep, ainda sob a rvore, deitado exatamente na posio em que estava 
ao expirar. Ento ela avistou Jonef e, aliviada, disse: 
-Que bom v-lo, meu amigo. 

- Sua misso est encerrada. Deve regressar em breve ao nosso plano. 
-Deixe-me ajudar um pouco mais esses homens e mulheres que esto 
aqui. Gostaria de falar-lhes do amor divino e consolar-lhes o corao sem 
esperana. 
Afagando-lhe a fronte com carinho paternal, Jonef as sentiu: 

-Est bem, permanea um pouco mais com nossos irmos necessitados. 
Contudo, no deveremos prolongar em demasia sua estada. Sua misso terminou. 
Olhou para o corpo espiritual de Amenhotep que gemia sobre a relva: 
-Vo lev-lo agora ao hospital, para que se recupere? 

- Vamos lev-lo, fique tranqila. Apesar da rebeldia renitente que abriga, 
o corao de nosso irmo est abrandado. A doena prolongada lapidou 
seu interior; ele est pronto para receber ajuda de kmos que j transitam em 
esferas superiores. Vamos fazer tudo o que for possvel por ele, enquanto 
aguardamos seu retorno, minha irm. 
Abraando Jonef com carinho, ela agradeceu e voltou ao corpo fsico. 

Jonef tomou nos braos o corpo espiritual de Ernesto, ainda sob a forma 
de Amenhotep, e, em companhia de outros irmos que tambm vinham 
ajudar, levou-o consigo para uma colnia de socorro em ambiente prximo 
 crosta da Terra. 

136 


#
CAPTULO 26 

Quando Nitetis despertou o dia j ia alto. Embora entristecida pela partida 
do irmo, sentia-se afeioada aos habitantes daquele lugar. Ela se levantou, 
juntou os pertences e foi em direo ao grupo que se mantinha no centro 
da regio. Aproximou-se e serenamente disse: 

-Meu irmo morreu ontem; j no tenho mais ningum. Posso ficar com 
vocs? 

Os homens e mulheres doentes se entreolharam e um deles falou: 

-No nos importa que fique, mas voc no contraiu a doena, ainda. Por 
que no volta para casa, j que seu irmo est morto? O que mais tem para 
fazer aqui? 

Nitetis fitou o homem e pensou por alguns segundos antes de responder: 

-Tem razo, eu deveria partir; no entanto,  imensa minha vontade de 
continuar aqui. Se no os incomodar, pretendo ficar. 

E abrindo uma das sacolas, ela tirou po e frutas secas que ofereceu aos 
circundantes: 

-Tenho comida, querem um pouco? 

Uma das mulheres achegou-se desconfiada e aceitou a comida. Depois 
outra e mais outra vieram para perto da jovem. Lentamente, um aps outro, 
foram todos se juntando ao redor da bondosa moa. Ela, ento, disse: 

- Quando vim para c, trouxe algumas ervas para ajudar no tratamento 
de meu irmo. Apesar de no poderem curar essa doena, elas aliviam a dor. 
Se desejarem, ainda tenho bastante aqui comigo. 
A mulher que se aproximara primeiro comia sofregamente um pedao 
de po, ouvindo Nitetis.  sua ltima oferta, a doente informou: 

- Sei de alguns que esto muito mal, quase sem poder andar. Moram para 
l do riacho, mais abaixo de onde voc e seu irmo costumavam ficar. 
Talvez possa ajud-los. 
-Claro, vamos at l. Podem levar-me at eles? Concordando com a cabea, 
a mulher caminhou na direo dos mais necessitados, seguida pela 
jovem egpcia. 

Nitetis passou a tratar dos doentes mais graves, enquanto espalhava suavidade 
e doura com sua presena e suas palavras. Alm de cuidar do corpo 

137 


#
degenerado daqueles homens e mulheres excludos e esquecidos, tinha sempre 
uma mensagem de esperana a dirigir-lhes. 

Em muitas noites frias, sentava-se ao lado deles, em volta da fogueira, e 
falava-lhes do salvador prometido que viria  Terra para socorrer a humanidade; 
abrandava a revolta e a desesperana com suas palavras de compreenso 
e incentivo. Freqentemente dizia: 

-Tenham pacincia, meus irmos, pois toda a dor h de passar. 

Fitava os olhos sofridos daqueles seus irmos e prosseguia, cheia de 
compaixo e misericrdia: 

-No se sintam abandonados. O Deus nico e verdadeiro, que nos criou 
a todos, est sempre conosco, por mais difceis sejam os momentos que vivemos 
sobre a Terra. Ele nos mandar o Messias, e esse enviado encher 
nosso planeta de amor e de novas esperanas. 

Eles a olhavam sem coragem para responder. Entre aqueles seres degredados, 
muitos eram egpcios e nunca haviam ouvido falar em um deus nico. 
Todavia, aquela jovem perfeitamente s, cuidando deles com tanto amor, 
tocava at o mais endurecido corao. E eles a ouviam e se enterneciam com 
suas doces palavras e seus gestos de bondade. 

Em uma colnia espiritual, prximo  crosta da Terra, Amenhotep descansava 
sobre um leito limpo e confortvel. s vezes acordava e via a seu 
lado um jovem de vestes alvas e resplandecentes que lhe dirigia palavras 
tranquilizadoras e lhe dava gua; ele bebia e logo, outra vez sonolento, voltava 
a dormir. 

Assim permaneceu por vrias semanas.  medida que se fortalecia, os 
perodos de viglia comearam a se ampliar. Ele passou a sentar-se na cama 
e por algum tempo conseguia permanecer desperto. 

Naquele dia, abriu os olhos sentindo-se bem melhor. Sentou-se na cama 
e no viu ningum por perto. Tudo lhe parecia estranho: a construo em 
que estava era diferente de todas que conhecera antes. Mas pequenos desenhos 
familiares estavam distribudos pelas paredes do quarto, semelhantess esculturas que Nitetis fazia.  lembrana da irm o estranhamento foi 
ainda maior. A ltima coisa de que se lembrava era de estar com ela no local 
dos banidos. Onde estaria agora? Que lugar era aquele? As dvidas se acumulavam 
na mente de Amenhotep. Ele tentou se levantar e teve de sentar-se 
de novo, assaltado por forte vertigem. Ouviu uma voz j familiar: 

-No queira se levantar, voc precisa descansar. 
138 


#
- Onde estou? Que lugar  este? Quem  voc? Onde est Nitetis? 
-Calma, uma coisa de cada vez. Tome um pouco de gua. Amenhotep 
recusou: 

- No. Toda vez que bebo dessa gua volto a dormir. O que esto colocando 
nela? 
- Meu irmo, essa gua s lhe tem feito bem. Voc j est mais forte. 
Amenhotep olhou para seus braos e pernas e viu que as feridas tinham 
quase desaparecido. 

-Estou curado! Veja, as feridas esto sumindo...  essa gua? 
O rapaz sorriu e disse: 
- Essa gua faz muitos milagres, mas sua recuperao se deve tambm a 
outros fatores. 
-Foram as ervas de minha irm, no foram? Elas esto me curando! 
Pacientemente, o jovem prosseguiu: 
-Acha que consegue caminhar apoiado em mim? Erguendo-se, Amenhotep 
respondeu: 
-Vou tentar. Para onde vai me levar? 

- Vamos dar uma caminhada. Quero mostrar-lhe algo. Apoiado no rapaz, 
Amenhotep acompanhou-o para fora do quarto. Assim que saram, olhou 
com surpresa o ambiente onde se encontrava: 
- Afinal, que lugar  este? Quem so vocs e todas essas pessoas? So 
outros leprosos? 
E fitando seu acompanhante com estranheza, insistiu: 

- Onde est minha irm? 
O rapaz apenas respondeu: 
- Venha comigo, vamos ver uma pessoa. Alcanaram uma construo 
bela e simples, rodeada por flores de uma espcie que Amenhotep nunca 
vira, e que ainda assim lhe pareciam familiares. Parou diante das flores e 
ficou a apreci-las. O rapaz lhe perguntou: 
-Gostou das flores? 
-Estou intrigado. No me lembro de ter visto flores iguais antes, porm 
ao mesmo tempo parece que as conheo... 

-Vamos entrar. H muitas coisas que voc j viu e das quais agora no 
se lembra. 
139 


#
Amenhotep seguiu-o em silncio. Ao chegarem  ampla sala, repleta de 
livros, o jovem certificou-se de que ele estava bem e, acomodando-o em 
uma confortvel poltrona, pediu: 

- Fique aqui um instante, vou chamar algum que quer muito v-lo. 
Confuso e agitado, Amenhotep ficou a observar a poltrona e os livros, 
sem entender o que era tudo aquilo. Que tipo de artefato seria aquele em que 
se sentava? O que seriam todos aqueles objetos colocados lado a lado em 
escadas de madeira? Ele se fazia muitas outras perguntas, ao mesmo tempo 
em que olhava os braos e especialmente as mos, limpos das feridas que 
tanto o haviam torturado. 

O rapaz voltou junto com Jonef. Ao v-lo, Amenhotep teve outra forte 
vertigem. Prestes a perder a conscincia, foi acudido pelo jovem, que lhe 
aplicou passes restauradores. Com isso, aliado ao amparo de Jonef, Amenhotep 
conseguiu refazer-se e, apoiando-se no rapaz, sentou-se de novo na 
poltrona. 

Jonef se acomodou em uma cadeira ao lado e disse: 

-Voc deve estar se fazendo muitas perguntas. Tenha pacincia. A memria 
vir gradativamente. Se fizer maior esforo para recordar tudo de uma 
vez, a vertigem que sentiu agora voltar mais forte. Precisa ter pacincia. 

-Eu o conheo... No sei de onde, mas sei que conheo. Tocando o ombro 
do antigo amigo, Jonef disse: 

-Sim, meu irmo, voc me conhece, bem como a este lugar; e muitas outras 
lembranas que hoje lhe parecem confusas retornaro  sua mente aos 
poucos. 

-Onde estou? 
-Esta  uma colnia espiritual, situada prximo  crosta da Terra. 
-Colnia espiritual... 
-Exatamente. Voc no est mais em Hermon, nem na Terra; Nitetis 
continua l, porm voc deixou o planeta; voc desencarnou. 
-O qu? 

- Voc morreu, Amenhotep. 
-Mas como? No entendo... 
- Seu corpo mais denso, que usou na Terra, est morto, vtima da lepra 
que o consumiu. Voc se encontra numa colnia de recuperao, onde poder 
restaurar as energias para ento compreender seu passado e preparar-se 
para o futuro que o espera. 
140 


#
Fitou o jovem que tambm se sentara ao seu lado: 

- Eu o conheo igualmente... Mas de onde?! 
De sbito, imagens vagas apareceram na mente de Amenhotep: 
- Vejo uma casa estranha... Um lugar distante... Voc... Ele parou de falar. 
Seus olhos miraram o infinito. Ento deu um grito doloroso e caiu em 
pranto convulsivo: 
-Elvira! 
Amparado novamente por Henrique, que acabara de reconhecer, e por 
Jonef, que lhe aplicava passes na regio da glndula pineal, Amenhotep 
adormeceu. 

Ao despertar de um longo perodo de descanso e refazi-mento, estava de 
volta ao leito. S que dessa vez as lembranas afloravam uma aps outra. 
Assim que despertou, sentou-se e viu Henrique. Exclamou, quase gritando: 

-Eu me lembro, Henrique! Lembro-me de muita coisa... De sua me... 
Onde est Elvira? 
Henrique sentou-se na cama ao lado de Amenhotep; dando-lhe gua, 
respondeu: 

- Precisa se acalmar. As lembranas no podem vir todas de uma vez, 
como Jonef lhe disse; tm de vir aos poucos, ou voc no suportar. 
-Onde est ela? 
- Lembra-se de sua recente estada na Terra? 
- Estou confuso. Sinto-me vrias pessoas ao mesmo tempo... 
-Voc estava vivendo no Egito, recorda? 
-Sim, claramente! Disso eu no tenho dvida alguma. So outras lembranas 
sobrepostas que me perturbam. 
-So suas outras vidas, suas outras encarnaes. Por isso deve ir com 
calma. 

-Mas por que me lembro to nitidamente de voc e de Elvira? Onde est 
Elvira? 
- Permanece encarnada na Terra. Fitando o rapaz longamente, ele disse: 
-Lembro-me de outro lugar, outro pas, outro... mundo! 
- Sim, um mundo do sistema de Capela.  de l que viemos. 
-Estou confuso... 
-Com o tempo tudo ficar mais claro. 
- Disse que Elvira est na Terra? Ela tambm veio conosco de Capela? 
141 


#
- Eu e ela viemos de maneira um pouco diferente da sua. Amenhotep ia 
prosseguir, quando Henrique o deteve: 
-Agora descanse, precisa estar calmo para que as lembranas no o perturbem 
tanto. Durma um pouco. Eu ficarei aqui mesmo, no vou sak. Quando 
despertar, continuaremos nossa conversa. Voc se sentir melhor ao acordar. 


Sem discutir, sentindo-se profundamente cansado, Amenhotep acomodou-
se e adormeceu novamente. Ao despertar, viu Henrique sentado em 
uma poltrona perto de sua cama, lendo tranqilo. Sentou-se e perguntou: 

-O que  isso que tem nas mos?

- um livro. 

-Livro... Livro... Sim, livro. Muitos livros... Sei que tenho muitos li


vros... 

- Como se sente? 
- Melhor. 
Encostando-se na cabeceira da cama, ele perguntou: 
-Onde est Jonef? 
-Est ocupado agora, cuidando de assuntos importantes. 
- Ele sabe onde est Elvira? 
-Lembra-se de seu nome, quando esteve com Elvira pela ltima vez? 
Ele pensou um pouco, depois respondeu: 
- No me lembro. 
-No faz mal. Vai se lembrar. 
- E por que a recordao de Elvira  to clara? 
-Porque voc a ama profundamente. 
- Sim, eu a amo muito. 
-Ela tambm o ama muito. 
Amenhotep fitou Henrique e seu semblante se fez srio; depois ele disse, 
entristecido: 

- Agora eu me lembro. Fui expulso de meu mundo, por isso vim para a 
Terra. As lembranas voltam... Ferdinando... Onde est ele? 
-Est no Egito. 
-O Egito... Lembro-me do palcio, de Iaret... Nitetis... Ela ainda est no 
lugar dos banidos? 

-Est. 
-Por que continuou l? Poderia ter ido embora... 
142 


#
- Ela ficou para ajudar aquelas almas sofridas. 
- E Ferdinando? 
-  agora Rudamon. 
-Claro! Aquele monstro s poderia ser Ferdinando. E Nitetis... Aqueles 
olhos ternos... 
Subitamente o semblante de Amenhotep se transformou. Ele arregalou 
os olhos, empalideceu e disse, trmulo: 

-No me diga que Nitetis... Elvira... No pode ser. Ela no pode ser Elvira... 
Eu no posso t-la tratado to mal. Meu Deus, no... Diga-me que 
no, Henrique, por favor... Por favor, meu Deus, no pode ser... 
-Calma, precisa se acalmar. 
Agarrando o rapaz pela tnica, ele se ps a chorar: 
-O que ela foi fazer na Terra? Por que foi para l? Deveria estar em Ca


pela... 
-Veio para ajud-lo. Sem o apoio de Elvira, dificilmente voc estaria aqui 
agora. 
Com um sinal afirmativo da cabea, Amenhotep encostou-a nos joelhos 
e entregou-se ao pranto doloroso. 

CAPTULO 27 

Enquanto, no plano espiritual prximo a Terra, Amenhotep recuperava 
as foras e as lembranas, Nitetis se dedicava incessantemente aos doentes. 
Seu carinho constante se derramava como blsamo sobre os coraes revoltados 
e tristes dos prisioneiros daquele lugar esquecido. Incansvel, ela servia 
aos enfermos com bondade e resignao. 

Naquela tarde ela cuidava de uma das doentes. A jovem mulher, entretanto, 
mostrava-se revoltada e descrente. Nitetis buscava consol-la: 

- Samira, tente descansar. Venha, sente-se aqui, sob a ta-mareira. 
Cambaleando, Samira respondeu: 
-No quero me sentar. Se tiver de morrer, que seja em p. 
- No precisa se impor sofrimento maior do que o que j est suportando. 
Venha, sente-se. 
143 


#
- Pensa que  muito boa, no  mesmo, Nitetis? S porque vem cuidar 
de ns, pobres desamparados do mundo! S que voc no tem a menor idia 
do sofrimento pelo qual passamos. Eu estava noiva, ia me casar, e fui abandonada 
por todos. 
- No  verdade, Samira. Jeov no a abandonou. 
-Ele foi o primeiro! Sou filha de um sacerdote hebreu -um levita, servo 
especial de Jeov. Se isto fosse verdade, se Jeov de fato se importasse conosco, 
como essa coisa terrvel teria acontecido comigo? 
Caminhando at onde a jovem tentava ficar em p, Nitetis apoiou-a e carinhosamente 
a conduziu para a sombra de frondosa rvore. Depois, carregando 
gua fresca do riacho, serviu-a, dizendo: 

-Os caminhos de Deus so muitas vezes incompreensveis para nossa 
mente;  ento que devemos procurar compreend-los com nosso corao, 
com nossa f, com nossos sentimentos. Deus no erra, Samira, e nos ama a 
todos sem distino. 

Jeov est muito distante de ns. Como pode permitir que esse lugar 
exista e que pessoas vivam aqui como fantasmas? 
Nitetis calou-se por instantes e refletiu. Depois, fitando firme os olhos 
da moa, ela disse: 

- No podemos tentar explicar nossa existncia apenas por esta vida de 
hoje;  necessrio entender que j vivemos muitas outras vidas e que tudo o 
que nos acontece hoje, tanto de bom como de ruim,  conseqncia de nossos 
atos, daquilo que semeamos no passado. 
- Do que est falando? J ouvi alguma coisa a esse respeito, mas meus 
pais disseram que no  verdade. 
-Certamente  verdade. No entanto,  preciso que busquemos a confirmao 
dentro de ns mesmos. Essas vidas que j tivemos esto gravadas em 
nosso interior e nos apontam de alguma forma o caminho que devemos seguir 
hoje, na presente experincia. 
- Diz isso porque os egpcios crem que vivemos outras vidas. 
Parecendo distante, Nitetis redargiu: 
-Tem razo. No meu povo, muitos acreditam que a vida continua depois 
de morte. E os que detm conhecimentos mais profundos sabem que ela 
comeou antes de estarmos no corpo que ora usamos, e que continuar em 
outros corpos que haveremos de usar. 

- Chega! No quero ouvir mais essas estrias... 
144 


#
Samira ia se levantar, mas Nitetis segurou-a pelo brao com suavidade e 
disse: 

-Se no quer acreditar no que lhe digo, tudo bem, mas pense: estou aqui 
apenas para ajudar. No ganharei nada com isso, e posso at perder minha 
vida. Por que acha que fao isso?  que algo dentro de mim aponta o 
caminho que devo trilhar. 
Sem saber o que responder, Samira ficou em silncio, s rompido quando 
Nitetis perguntou: -Quer comer alguma coisa? 

- No tenho fome, estou com muita dor. 
Nitetis se aproximou da jovem e imediatamente comeou a fazer-lhe 
compressas balsamizantes. 
Durante a noite, Nitetis acordou muitas vezes, sentindo o corpo febril. 
Pela manh, assim que o sol despontou no horizonte, ela foi at o riacho, 
desejando banhar-se na gua fresca. Ali chegando, encontrou-se com alguns 
de seus assistidos que a olharam estranhamente. Ao mirar sua imagem nas 
guas cristalinas, constatou que seu rosto apresentava vrias manchas. Tocou 
nelas e percebeu que no sentia nada naqueles locais. Teve ento certeza: 
havia contrado lepra. 

Seus olhos encheram-se de lgrimas, que escorreram, densas, pela sua 
face. Sentou-se  beira da gua e, abraada aos joelhos, chorou baixinho. 

Quando se acalmou, sentiu que algum a abraava. Ergueu a cabea e 
viu  sua volta muitos habitantes do lugar. O abrao era de Samira, que vertia 
lgrimas silenciosas. Muitas outras mulheres choravam tambm e alguns 
homens tinham os olhos vermelhos. Nitetis fitou-os com carinho. Aquelas 
almas sofridas e maceradas pela dor haviam se tornado sua famlia. Samira 
lhe disse: 

- Perdoe-me pelo que falei ontem. No poderia imaginar que hoje mesmo 
voc estaria como ns... 

Nitetis limpou os olhos e sorriu: 

-No tenho nada para perdoar. Agora poderei realmente sentir o que vo


cs sentem. 
Samira lamentou: 
-No queria que isso lhe acontecesse. 

- No foi culpa de ningum, Samira. Eu sabia que poderia ficar doente. 
Peo ajuda ao seu Deus, Jeov, o nico Deus, e sei que a recebo. 
145 


#
Aceitando sua situao, Nitetis continuou quanto pde a auxiliar os demais 
doentes. Aos poucos, porm, a doena se alastrou e tomou conta de 
todo o seu corpo, at que, sem foras, caiu prostrada, em condies lastimveis. 


Alguns dos que ela assistia j haviam morrido, e outros mostravam estado 
idntico ao dela; assim, contava com pouca ajuda. Entretanto, toda noite, 
durante o sono fsico, seu corpo fludico se desprendia e encontrava-se com 
Jonef e Henrique; alm deles, outros irmos a amparavam agradecidos, 
pois muitos eram amigos e entes queridos dos que ela ajudara. Com as foras 
renovadas, quando despertava Nitetis trazia no corao a calma e o nimo 
que lhe permitiam suportar as limitaes temporrias com absoluta resignao. 


Muitos daqueles que, ainda em p, tinham os coraes revoltados e que 
haviam recebido assistncia da jovem egpcia, sentiam-se transformados 
pelo exemplo de suas atitudes e de suas palavras. 

Certa noite, enquanto ela se revirava de um lado ao outro, com dores por 
todo o corpo, Jonef chegou em companhia de vrios amigos, trazendo tambm 
Amenhotep. Ao ver seu estado ele se prostrou em lgrimas, pedindo: 

- Perdoe-me, Nitetis; perdoe-me, Elvira. Como fui tolo em no perceber... 
Meu Deus, como fui tolo! 

Jonef acercou-se e o ergueu: 

-Amenhotep, ns o trouxemos porque insistiu em v-la. Mas deve ajud-
la. Concentre-se em Nitetis. Sua necessidade agora  de carinho, respeito e 
considerao. Lastimar-se no ir ajud-la e ainda poder prejudic-la. Envolva-
a com todo o seu amor. Depois, quando se encontrarem em nosso 
plano, poder conversar com ela e ento contar tudo o que lhe vai ao corao. 
O momento  de trabalho ativo pelo bem de nossa irm. 

Limpando as lgrimas, Amenhotep respondeu: 

- claro, tem razo. Jonef asseverou: 
- Isso, assim est melhor. Ajudemos nossa irm a adormecer. 
Aplicando passes longitudinais sobre o corpo de Nitetis, os amigos do 
espao a auxiliaram a adormecer. Assim que se viu desprendida do envoltrio 
denso, ela abraou Jonef e, com voz fraca, o saudou como sempre: 

- Como  bom v-lo, meu amigo. Jonef lhe disse: 
-Tenha s mais um pouco de pacincia. Sua energia vital est prestes a 
terminar e muito em breve estar conosco. 

146 


#
-Anseio por esse momento, meu bom amigo. 

-Trouxemos algum que lhe  muito querido. Afastando-se ligeiramente, 
Jonef deixou que Nitetis visse Amenhotep, e informou: 

- Nosso amigo finalmente est se recuperando. 
Ao ver aquele a quem tanto amava, ela estendeu-lhe a mo e sorriu: 
-Meu amor, como me alegra v-lo to bem! Amenhotep, que j trazia de 
novo no perisprito traos de sua vida como Ernesto, ajoelhou-se diante de 
Elvira e disse, segurando-lhe as mos: 

- Amor da minha vida! Jamais poderei agradecer todo o bem que voc 
me fez! 
Percebendo que no conseguiria controlar por mais tempo a emoo, ele 
se calou, apertou as mos de Nitetis entre as suas e beijou-as com ternura; 
depois olhou para Jonef, como a pedir socorro. Este afastou Amenhotep e, 
amparando a jovem, recomendou: 

- Agora descanse que o desenlace se aproxima. Durma, ser melhor. 
Quando despertar j estar definitivamente junto anos. 
Extenuada, imediatamente ela aquiesceu. Enquanto o corpo fludico de 
Nitetis descansava ao lado de Amenhotep, que lhe afagava os cabelos, seu 
corpo denso vivia os ltimos instantes na Terra. 

A equipe que viera em companhia de Jonef realizou, dirigida por ele, a 
tarefa de desligamento definitivo dos fios energticos que ligavam o corpo 
espiritual ao corpo fsico. Henrique mantinha no colo aquela que uma vez 
fora sua me, e Amenhotep no se cansava de tocar-lhe com carinho os cabelos 
e o rosto. 

O trabalho de desligamento se completou e Jonef disse aos dois: 

- Est consumado. Podemos partir. 
Fitando o corpo desfigurado de Nitetis, Amenhotep questionou: 
- Como pde sacrificar-se desse modo? 
- Ela o fez por amor. 
-Eu tambm a amo demais. Entretanto, por que ela, depois da minha partida, 
continuou a correr o risco de ter de passar por todo esse sofrimento? 
Jonef encarou o amigo e, depois de curto silncio, respondeu: 

- Logo poder perguntar a ela, mas Nitetis o fez igualmente por amar 
aos irmos da Terra. 
147 


#
Incapaz de alcanar a compreenso daquele sentimento, Amenhotep se 
calou. Henrique tomou nos braos o corpo flu-dico adormecido de Nitetis e 
partiram, deixando seus despojes. 

O dia amanhecia e em pouco tempo o grupo de leprosos chorava a perda 
da mais querida amiga que por ali havia passado. 

CAPTULO 28 

Depois de alguns dias de repouso, Nitetis j havia assumido a forma perispiritual 
que tivera enquanto fora Elvira e caminhava de braos dados com 
Henrique, no grande jardim da colnia prxima  Terra. Calmamente, trocavam 
impresses sobre a experincia que ela vivera: 

- Sem dvida, Henrique,  difcil a adaptao de nosso corpo fludico ao 
corpo denso que por ora  utilizado na Terra. 
- E voc esqueceu tudo enquanto esteve l? 
- Tinha muitas lembranas e sentia uma fora a me guiar. Acho que era 
minha prpria conscincia. 

-Foi como voc imaginou, Elvira? 

-No exatamente. Acho que a infncia foi a parte mais difcil para mim. 
Sentia uma tristeza indefinida e uma ansiedade muito grande... 

Sentaram-se sob a copa imensa de uma rvore, diante de belo e sereno 
lago. Henrique ficou meditando no que acabara de ouvir e logo depois Elvira 
prosseguiu:

- como se em minha mente tudo estivesse turvo, confuso. Achava-me 
inadequada, uma verdadeira estranha. Aos poucos, foram surgindo algumas 
informaes daquilo que eu j sabia e sentia. Especialmente no que se refere 
 noo de Deus. Chegava mesmo a ser sufocante ter de ajoelhar-me diante 
de tantos deuses diferentes, sentindo claramente em meu corao, desde a 
mais tenra idade, que havia um nico Deus. 

Ela ficou pensativa. Ento sorriu, segurou a mo de Henrique e perguntou: 


-Como est Raquel? Nutro por ela um carinho muito grande. 
148 


#
- Ainda est na Terra. Cuida dos rapazes com o mesmo carinho de sempre. 
-Quanta dedicao!... Ela  mesmo muito especial. Lembro-me das 
conversas que tivemos antes de todos nos encarnarmos na crosta. Ela me 
abraou e prometeu que no falharia. E realmente cumpriu. 
- Mas foi difcil. Muitas vezes ela quase sucumbiu frente aos ensinamentos 
que recebeu de seu povo. 
- S que o amor falou mais alto, Henrique, e assim ela foi vitoriosa. 
- Sim, o amor falou mais alto. Raquel  uma alma nobre e amorosa. 
Creio que no demorar a retornar a Capela. 
- Sem dvida. No sei dos detalhes de seus dbitos com a Lei divina, 
mas creio que ela progrediu muito nas sucessivas encarnaes na Terra. 
Os dois emudeceram por longo tempo, na contemplao do cenrio de 
suave beleza da colnia. Depois Elvira perguntou: 
-E voc, Henrique, julga-se preparado? 

- Estou me preparando, Elvira, para poder contribuir com nosso querido 
Ernesto, bem como com nossos irmos da Terra. 
Ainda conversavam, quando Elvira sentiu o toque de mos carinhosas 
sobre seus ombros e ento escutou a voz familiar de Ernesto: 
-Esto falando de mim? Escutei meu nome. Elvira tocou-lhe as mos delicadamente 
e perguntou: 
-Por que acha que era sobre voc que falvamos? No  o nico Ernesto 
que existe, sabia? 
Ele sorriu: 
-Posso acompanh-los? 
Abrindo espao para Ernesto sentar-se entre eles, Elvira indagou: 
-J est em condies de caminhar sozinho? 

-Hoje foi meu primeiro dia. Venho me recuperando bastante. 
- Fico feliz, Ernesto. Vendo-o srio, Elvira repreendeu: 
-Deveria estar contente tambm, Ernesto. Voc j est quase bom. 
- Das feridas, pode ser; porm continuo triste e cansado. 
- Voc fez progressos incrveis em sua ltima experincia. Deveria ficar 
feliz! 
- No posso estar feliz, Elvira, com minha conscincia cobrando dia e 
noite os erros que cometi, especialmente com voc. 
-No diga isso. 
149 


#
- Tenho de dizer. Como posso ter paz, se sei que falhei? Tendo todas as 
possibilidades de realizar muito em favor dos irmos da Terra, e resgatar 
grande parte de meus dbitos com Deus, falhei novamente. E agora tenho 
medo de falhar outra vez. 
-No tenha medo, Ernesto; voc est avanando, e isso  o mais importante 
- insistiu Elvira. 
Ele tocou seu rosto em leve carcia: 

- Como pude fazer o que fiz com voc, minha doce Elvira? Disse coisas 
horrveis, agi de maneira infantil e no a valorizei. 

-Ora, querido, no sabia que era eu. 

-No  desculpa. A figura de Nitetis falava por si; no poderia ter des


prezado o afeto e a dedicao de algum como ela, como voc! 

- Isso j no importa. Voc precisa se recuperar totalmente e recomear 
seus estudos e sua disciplina de trabalho em favor do prximo, para fixar em 
seu corao as lies que aprendeu, de modo a estar verdadeiramente preparado 
quando chegar o momento de voltar para a Terra. 
Ele sorriu e, com os olhos rasos de lgrimas, disse: 

- Quando nos preparvamos para essa experincia no Egito, confiava 
tanto que no falharia... Queria me dedicar ao bem dos companheiros encarnados; 
cheguei a nutrir secretamente a esperana de terminar meu tormento 
na Terra e regressar a Capela. Isso  o que mais desejo. Sinto muita saudade 
de nosso mundo, da vida que tnhamos l. 
Com a voz embargada pela emoo, ele se calou. Elvira tambm se 
manteve quieta, e foi Henrique que enfim quebrou o silncio: 

-Ernesto, sei que no  fcil, mas veja quanto voc j melhorou! 

-No sei, Henrique. Tive oportunidade de recordar minha situao e as 
promessas que fiz pouco antes da ltima reencar-nao em nosso orbe. Tudo 
parecia perfeito para meu xito e, mesmo assim, falhei fragorosamente. No 
consegui vencer meu orgulho, no consigo vencer a mim mesmo. Acho que 
nunca vou conseguir. 

Elvira colocou o dedo sobre os lbios de Ernesto e censurou: 

-Nunca mais diga isso, Ernesto. Seja grato a Deus pelo que j alcanou. 
Seu estado ao deixar Capela era to deplorvel que foram necessrios muitos 
milnios para que pudesse recobrar a situao que tem agora. Continue 
acreditando, jamais desista. Voc conquistou muito e pode terminar sua jor


150 


#
nada de redeno, tenho certeza. No demorar muito e estaremos reunidos 
outra vez em nosso mundo. 

Enquanto Elvira falava, seu rosto irradiava luz to intensa que quase ofuscava 
a viso de Ernesto. Ele no pde dizer mais nada e ficou pensativo. 
Estavam os trs em silncio quando Jonef se aproximou, firme e amoroso 
como sempre: 

- Vejo que est completamente refeita, Elvira. 
- Estou refeita e feliz, cheia de esperana. Vejo que Ernesto est melhorando, 
apesar de no reconhecer o prprio progresso. 

Jonef olhou para o amigo e comentou: 

-Ernesto no obter a paz para seu corao enquanto no adquirir o con


trole sobre seus impulsos inferiores, que o arrastaram para a Terra. Esse tem 
sido um lar abenoado para nossos irmos de Capela, no qual, porm, a dor 
e o sofrimento ainda so muito intensos. O remorso, a culpa, a dor das separaes 
e a falta de autodomnio tm protelado indefinidamente o regresso de 
nossos irmos ao lar. Alguns j retornaram. Por outro lado, muitos afundaram 
mais no abismo da escurido. So os que, ao invs de contribuir para o 
progresso da Terra, vm desviando os irmos primitivos cuja evoluo deveriam 
auxiliar. E para esses, que usam seu potencial, seus conhecimentos e 
sua liderana para reter na estagnao os irmos mais atrasados, o sofrimento 
ser longo e tenebroso. 

- De qualquer forma, nosso Ernesto fez progressos, no concorda? 
- Sim, fez muitos. Mas poderia ter aproveitado ainda mais seu tempo. 
-Tambm acho. S que agora estou muito inseguro. Temo falhar de novo. 


- Tranqilize seu corao, Ernesto. Estamos fazendo os planos para suas 
prximas experincias. 
Elvira interrogou: 
-Prximas? Quer dizer que j sabem que necessitar de mais de uma? 

- Sem dvida. Ernesto precisa vencer esse medo de falhar e readquirir 
confiana. Ele dever viver na Terra em um corpo de mulher, frgil e doente, 
com limitaes de toda ordem, para que possa, atravs das dificuldades, 
superar outros limites e preparar-se para uma encarnao onde ter novamente 
condies plenas para liquidar seus maiores dbitos com o Criador. 
Ento poder voltar para casa e prosseguir no caminho da unio perfeita 
com Deus. 
151 


#
Depois de breve pausa, Jonef continuou: 

-Estamos preparando para Ernesto uma reencarnao na Grcia, em que 
ter toda a sua capacidade intelectual e osyseus conhecimentos adormecidos. 
Enquanto aguarda o tempo certo para o regresso, ir se preparar aqui, na 
colnia, em companhia de Henrique. 

Ernesto refletia. No apreciava a idia de retornar num corpo feminino, 
numa sociedade que maltratava e desmerecia constantemente as mulheres. 
Sobretudo sabendo que teria diversas limitaes. No obstante, no se sentia 
em condies de fazer qualquer tipo de exigncia. Sentia-se fraco interiormente. 
Tinha vergonha da maneira como havia conduzido sua experincia 
no Egito, pois sabia que jogara fora uma grande oportunidade. Estava consciente 
de que ter Elvira, tambm encarnada, ao seu lado havia sido um privilgio 
inimaginvel que ele menosprezara por completo. A culpa e o remorso 

o devoravam. Portanto, sentia-se compelido a fazer o que lhe dissessem, 
sem reclamar ou exigir o que quer que fosse. 
Quando Jonef quis saber o que pensava em relao aos planos, ele perguntou: 


-Quanto tempo viverei? 
-No est definido ainda. Por qu? 
-Tenho pressa. 
-No tenha, Ernesto. Cultive desde j a pacincia, que ser sua mais 
importante companheira na prxima jornada. 

Elvira, que ouvira Jonef em silncio, indagou: 

-E depois, j tem algum plano para a etapa seguinte? 

-Se conseguir permanecer na Terra sem rebeldia e submeter-se aos aprendizados 
necessrios -em que haver muito perigo de falhar, dadas as 
suas graves limitaes -, ele ter a beno de voltar  Terra no mesmo perodo 
em que o Messias do planeta descer para a redeno da humanidade. 
Ser contemporneo de Jesus. 

Ernesto no disse nada. Elvira perguntou: 

-E como poderei ajudar? 

-Por enquanto, dever regressar a Capela, onde seus antigos deveres a 

aguardam. Durante sua prxima encarnao, Ernesto, no contar com a 
presena de Elvira. Depois, quando estiver preparado para outro retorno, ela 
ir acompanh-lo, do plano espiritual. No dever mais reencarnar, por muito 
que deseje. Poder ajud-lo melhor de nosso plano, assistindo-o de perto 

152 


#
em todas as suas experincias. Na verdade, ela ser seu anjo da guarda, seu 
esprito protetor. Espero que desenvolva mais sua intuio e sua sensibilidade, 
vestindo um corpo de mulher, e que assim possa estar mais receptivo aos 
conselhos e orientaes que ela ir transmitir-lhe. 

Fez-se prolongado silncio, at que Jonef prosseguiu: 

- Henrique se prepara a fim de reencarnar juntamente com Ernesto, ao 
tempo do Messias. Unidos, podero colaborar com o divino enviado, para 
resgatar as criaturas da escurido. 
Ernesto olhou para os amigos com gratido genuna e afirmou: 

-Sinto-me fraco e entristecido; a angstia e a dor dominam meu corao. 
Ao mesmo tempo, vendo vocs trs aqui, por minha causa, quando poderiam 
estar desenvolvendo suas tarefas em nosso orbe, sinto-me comovido e 
agradecido ao Criador por tal auxlio. Obrigado, meus amigos, muito obrigado. 
Em reconhecimento a vocs, meus irmos, farei o melhor que puder, 
me empenharei ao mximo para vencer em todas as etapas. No quero decepcion-
los mais. 

Jonef, que normalmente trazia o semblante sereno e grave, sorriu satisfeito 
e aprovou: 

-Isso mesmo, Ernesto, assim  que deve sentir e pensar daqui para a 
frente. Voc pode vencer, se concentrar seu potencial em uma vontade firme 
de triunfar, de se superar. Deus o ampara, e seus amigos estaro ao seu lado 
para ajudar. A misericrdia divina nos sustenta os passos sempre, impreterivelmente. 
Cabe-nos desejar com sinceridade melhorar e vencer nossas limitaes, 
para que a bondade divina se manifeste atravs de ns, fazendo-nos 
os primeiros beneficiados. 

Jonef fez uma pausa. Depois, dirigiu-se a Elvira: 

- Vamos partir em alguns dias. 
- Estarei pronta. 
Abraando Ernesto com carinho, ela concluiu: 
- Aproveitaremos cada instante que nos resta, Ernesto. 
153 


#
CAPTULO 29 

Elvira partiu com Jonef, deixando Ernesto entregue aos cuidados dos 
orientadores da colnia e na amorosa companhia de Henrique. Assim que 
regressou ao lar, ela retomou suas atividades, dedicando-se com carinho s 
crianas. Contudo, seu corao permanecia fortemente unido ao de Ernesto, 
sustentando-o em orao e vibraes diuturnas. 

Ernesto, a despeito das angstias que o assaltavam, da culpa que no esquecia 
e da dor pela separao de Elvira, dedicava-se aos estudos e  meditao 
no ncleo que o acolhia. Sempre que podia, Henrique o acompanhava 
em longas caminhadas e at mesmo em atividades educativas na crosta da 
Terra. Juntos realizavam muitos servios de socorro e apoio aos irmos mais 
primitivos do planeta. Para enfrentar suas tendncias de orgulho e arrogncia, 
egosmo e vaidade, Ernesto era mantido em tarefas singelas; propositadamente 
suas aptides e sua alta capacidade intelectual eram deixadas em 
segundo plano, o que muitas vezes o incomodava. Nessas horas, Henrique 
vinha em seu auxlio: 

-No importa quanto se saiba, quanto se tenha de inteligncia, Ernesto. 
O essencial  o que se faz com essa capacidade. O fruto de nossas habilidades 
para a humanidade  que ser avaliado. O amor precisa ser desenvolvido. 
Muitos de nossos irmos de Capela seguem cultivando dores ainda maiores 
para o porvir, por desprezarem aquilo que lhes parece menos importante: 
o amor. Continue trabalhando seu corao; combata a negatividade 
em seus impulsos e tendncias. Somente assim sua futura experincia na 
crosta poder ser proveitosa.

-Sei de tudo isso, e voc est correto.  disso mesmo que necessito. Mas 
s vezes sinto-me quase descontrolado no meu anseio por atividades mais 
complexas. 

-Detenha-se na simplicidade. No tire o olhar de seu prprio interior e 
do que ali precisa trabalhar. Muitos dos seus impulsos so contidos devido  
energia predominante na colnia, que no lhe facilita exterioriz-los. No 
ser assim na Terra. Precisa prosseguir trabalhando, servindo, Ernesto. Os 
servios aos irmos do planeta o auxiliaro enormemente. Deixe de pensar 
um pouco em voc mesmo e olhe para aqueles que carecem de ajuda. 

154 


#
Ernesto baixou a fronte e ficou em silncio por instantes. Depois olhou 
para Henrique, encostou a mo na do rapaz e disse: 

- Como  difcil para mim, Henrique! Nunca pensei que fosse to custoso. 
Quando menos espero me pego pensando em mim, nas minhas necessidades, 
naquilo que desejo... Devo confessar que at em meio a tarefas de 
socorro das mais tocantes me surpreendo pensando em mim, e no naquela 
alma que tanto est precisando de amparo! 
- Sei disso, Ernesto. Seus orientadores tambm. E  por isso que voc ficar 
ainda por muito tempo na esfera espiritual, trabalhando junto aos irmos 
da Terra e estudando a si mesmo, conhecendo-se mais profundamente, 
para que possa, no futuro, voltar e realizar algum progresso espiritual efetivo. 
Sorrindo, ele abraou Ernesto carinhosamente, e aduziu: 

- No desanime, voc conseguir. Um dia todos conseguiro compreender 
que a verdadeira felicidade consiste mais em dar do que em receber. 
Ernesto tambm sorriu, aliviado, e prosseguiu conversando com Henrique 
sobre os desafios que enfrentava. 
Era naquele ambiente de restaurao interior e trabalho abundante em 
favor do prximo que Ernesto se preparava para a futura encarnao. Os 
sculos passavam cleres, mesmo para ele, na dimenso espiritual da Terra. 
Transformaes ocorriam no planeta e Ernesto acompanhava com interesse 

o progresso do orbe. 
Certa tarde, quando retornava de uma de suas mais rduas tarefas na 
crosta, foi convocado pelos orientadores para uma conversa. Um deles lhe 
disse: 

-Tarefa difcil essa, Ernesto. 

-Sim, muito difcil. 

-Saiu-se bem. Estudando detidamente seu processo, consideramos que 

chegou o momento de voc retornar  Terra. Cremos que j est adequadamente 
preparado para enfrentar a si mesmo, na crosta do planeta. 

- Acham mesmo? Ser que j estou pronto? 
- Totalmente pronto nunca estar, ou nem precisaria regressar. Mas j 
angariou recursos interiores suficientes para que tenha possibilidade de xito. 
Nossa equipe de trabalhadores especializados nas tarefas de reencarne j 
esto tratando das condies para seu retorno. 
-Em quanto tempo? 

155 


#
- Daqui a algumas semanas. Procure pelo nosso irmo Tobias. Ele o colocar 
a par dos detalhes do planejamento para sua nova etapa evolutiva. 

Neste ponto Ernesto desabafou, emocionado: 

-Eu ainda sinto muito medo de falhar, de no conseguir. Esse medo  
como um monstro a devorar minhas energias. Quando tento focar a ateno 
e a vontade em um recomeo, numa vida de xito espiritual, no demoro a 
me apavorar e tenho quase a certeza de que vou falhar novamente. Apesar 
de tudo o que tenho aprendido, no me sinto forte o bastante para vencer 
esse medo. 

-Fique tranqilo. Sabe que retornar na condio feminina, no ? 

-Sim, fui informado h muito tempo, quando regressei ao plano espiritual. 


-Pois bem, sua vida como mulher ser complicada e cheia de limitaes. 
Estar sob a tutela de um pai severssimo, que lhe deixar poucas oportunidades 
para se expressar. Casar-se- muito cedo, sem poder usufruir plenamente 
as alegrias do amor verdadeiro. Depois de um segundo parto difcil, 
ficar acamada por longos anos. Sua trajetria ser penosa, mas no ter 
muitas alternativas para falhar. O sentimento religioso ser profundo em seu 
corao e a ajudar a ter foras nos momentos mais crticos. 

Ernesto permanecia srio, atento s palavras de Marcos, o orientador. 
Sentia-se sufocar s de ouvi-lo descrever suas prximas experincias. Notando-
lhe a angstia, Marcos interrompeu a narrativa e disse: 

- Calma, Ernesto, sua vida no ser somente dor e sofrimento. Voc ter 
a doce alegria de ser criado por uma me carinhosa e dedicada, quase abnegada. 
 uma das irms que voc ajudou na crosta nesses anos de servios; 
extremamente grata a voc, ela aceitou a tarefa de auxili-lo. Alm disso, 
contar com dois filhos que, apesar do carter dominador do pai, lhe sero 
igualmente amigos consagrados; tambm so socorridos seus, que se ofereceram 
para apoi-lo. 
Os olhos de Ernesto encheram-se de lgrimas. Marcos continuou: 

-Voc ter ainda a amorosa companhia espiritual de Henrique, que o 
guiar e proteger, consolando sua alma e fortalecendo suas esperanas. 
Como disse, tudo est sendo detalhadamente organizado para que essa experincia 
seja bem-sucedida, preparando-o para o desafio decisivo, que vir no 
tempo oportuno. Quer falar alguma coisa, Ernesto? 
156 


#
- S que estou muito comovido pelo carinho que recebo desses irmos. 
Estou pronto a tentar. No quero mais me furtar s experincias reparadoras. 
Sinto muita saudade de Elvira e de meu mundo. Meu corao chega at a 
doer. Mas compreendo hoje que colho aquilo que semeei. 
-E j est comeando a colher o que de bom vem semeando. 
Ernesto se preparava para sair quando Marcos disse: -Voc renascer na 
Grcia. Ao menos estar vivendo no local de maior adiantamento intelectual 
da atualidade na Terra. Respirar uma atmosfera de cultura, embora no 
possa efetivamente fazer parte dela. Mas isso lhe dar certo conforto emocional. 


Ernesto sorriu e mais uma vez disse: 

- Agradeo a Deus pela oportunidade e aos irmos, por me ajudarem de 
todas as formas. 
CAPTULO 30 

Tempos depois, no momento propcio, Ernesto renascia no seio de uma 
tradicional e influente famlia de Creta. 

Os anos na Terra foram de grande sofrimento para ele. As profundas limitaes 
que lhe marcaram a vida fsica o impediam de reagir, porm sua 
alma se rebelava constantemente contra a condio opressiva em que se 
encontrava. 

Henrique improvisava recursos de auxlio, solicitando amparo de outros 
trabalhadores da esfera espiritual para impedir que Ernesto, no novo corpo, 
cometesse suicdio. Especialmente depois que ficou imobilizado em uma 
cama, seu desejo de morte era freqente. Em sonhos, Henrique lhe falava 
sobre a coragem que deveria ser renovada, e em geral ao acordar Helena era 
esse seu nome na nova existncia -estava mais aliviada e esperanosa. 
Foram anos de luta e de intenso trabalho das equipes espirituais para sustentar 
a experincia de Ernesto. 

Determinada manh, depois de quase quinze anos sem poder se levantar, 
Helena sentia-se mais cansada. Pediu que a colocassem  beira da janela, 
pois desejava ver o mar. Os filhos, dedicados e amorosos, ainda adolescentes, 
atenderam-na de pronto. 

157 


#
Assim que se viu diante da imensido do mar, ela falou: 

- Como  maravilhoso o mar! Tenho vontade de sair voando sobre as 
guas do oceano. s vezes, sonho que vo sobre ele, mas de repente algo 
me puxa para c e desperto assustada. 
-Que estranho, me -disse um dos filhos. 
-, meu filho,  um sonho muito estranho mesmo. Onde est seu pai? 
-J foi para a assemblia. 
Helena suspirou profundamente, sentindo a suave brisa do mar a beijar-


lhe a face envelhecida pelo sofrimento. Observou o sol esplendoroso que 
iluminava o horizonte e, virando-se para os jovens, disse: 

-Estou me sentindo muito cansada. Por favor, chamem sua av, preciso 
dela aqui. 
Eles saram e em pouco tempo voltaram com Isadora, uma senhora de 
feies doces e ternas. Logo que viu a filha, perguntou: 

-O que tem hoje, minha querida? Parece abatida. Que aconteceu? 
-Nada de novo ou diferente aconteceu. Acordei muito cansada, exausta 
mesmo. Mas no posso apontar nenhum motivo em especial. 
Como a intuir a real situao da filha, Isadora aproximou-se dela e afa-
gou-lhe os cabelos, aconchegando-a ao ventre. Enquanto era assim acalentada, 
Helena foi perdendo mais e mais a cor, at empalidecer totalmente. Os 
filhos perceberam o agravamento do seu estado e gritaram: 

-Vov, ela est ficando branca! 
Isadora, com a ajuda dos netos, recolocou-a na cama, ajeitando-a em altos 
travesseiros. Helena ento disse: 

- Obrigada, me; obrigada, meus filhos. Estou muito cansada... 
Depois, vendo ao lado da cama a figura amiga de Henrique, saudou: 
- Ol. Sei que o conheo, mas no me lembro de onde. Sim, sei que o 
conheo muito bem. 

E virando-se para a me, perguntou: 

-Quem  ele mesmo, me? 

Isadora olhou na direo que Helena lhe apontava e, no vendo nin


gum, trocou um rpido olhar de estranheza com os dois netos, depois respondeu: 
-Tambm no me lembro do nome dele. 

- Ele me estende a mo e me diz algo. Espere. Vejo outros com ele. Esses 
eu no conheo. Quem so vocs? 
158 


#
Isadora, compreendendo que a filha em breve no mais estaria junto deles, 
apertou-lhe as mos com fora. Helena prosseguiu: 

-Ele continua dizendo alguma coisa. Afinal, o que quer? Henrique chegou 
mais perto dela e tocando-lhe o corpo etreo, j quase totalmente desprendido 
do corpo denso, chamou: 

-Venha, Helena, est na hora de partir. Cumpriu bem sua misso e seu 
sofrimento est concludo. Venha comigo. 

Helena estendeu a mo e falou com a me e os dois filhos: 

- Quer que eu v com ele. Disse que minha misso est encerrada. O que 
isso significa, me? 

Com lgrimas escorrendo pela face, Isadora concordou: 

-Ento v com ele, minha filha, v em paz. Eu cuido dos meninos enquanto 
estiver fora, no tem com que se preocupar. Que os deuses a abenoem, 
minha querida Helena. 

Arqueando o peito, com muita dificuldade de respirar, Helena enfim silenciou 
para sempre. Ao passo que seu corpo fsico desfalecia, seu corpo 
espiritual se desprendia e era desligado por completo pelos socorristas. Henrique 
a segurava firmemente. Ela se virou e viu seu corpo fsico sobre a cama. 
Observou a me e os filhos em torno dele, vertendo lgrimas de dor. 
Ento, voltou-se para Henrique e perguntou: 

-O que acontece aqui? 

-Vamos voar sobre o oceano, venha. 

O convite lhe pareceu irrecusvel e ela o obedeceu sem discutir, embora 
insistentemente olhasse para o quadro comovente que aparecia atravs da 
janela, enquanto se afastavam. 

 medida que voavam sobre o mar, Helena, ainda confusa, registrava 
algumas lembranas do pretrito lhe assomando  mente. Ao chegarem  
colnia espiritual, foi acomodada em uma grande enfermaria e medicada, 
para que dormisse e descansasse at se recompor. 

Meses depois, com a memria e a forma perispiritual quase completamente 
recuperadas, Ernesto recebeu a alegre visita de Henrique: 

-Vejo que j est refeito, Ernesto. 
-Estou muito bem, meu amigo. Obrigado por sua paciente e dedicada ajuda! 


- Foi bem difcil, Ernesto. Quase o perdemos por duas vezes. 
-Eu sei. 
159 


#
-Sua rebeldia esteve prestes a colocar a perder a frutfera experincia. 
Mas graas a Deus voc no sucumbiu. 

-Graas a Deus e a voc. Como esto Isadora e os rapazes? 
-Esto bem, recebendo muito consolo e alvio de nosso plano. Logo tero 
a paz interior restaurada. Assim que for possvel, os traremos para visit-
lo. 

-Ficarei muito feliz em v-los. 
Depois de alguns minutos de silncio, Ernesto perguntou: 


- Acha que fui capaz de me aprimorar um pouco? 
-Fez diversas conquistas interiores. Sua alma adquiriu um pouco mais de 
pacincia e tolerncia. E aprendeu a dar valor s coisas simples. 
Ernesto sorriu, relembrando suas ltimas experincias. 
-E o medo de fracassar, diminuiu? -indagou Henrique. 

-Eu quase falhei, no foi? 
-Quase, mas no falhou. E o medo, diminuiu? 
- No totalmente. 
- Nem conviria, algum medo nos traz prudncia. Mas a sensao de agonia 
e desespero foi superada? 
- Creio que sim. 
- Isso  muito bom. 
-Quando volto ao trabalho? 
- Assim que for liberado pelos mdicos do hospital. Temos muito servio 
a fazer. 
Prosseguiram a conversa animadamente. Ernesto tinha o corao aliviado 
e sua esperana havia sido restaurada. Logo que recebeu alta, voltou ao 
trabalho, acrescentando a suas tarefas, mais uma vez, o amparo aos novos 
familiares espirituais: Isadora e os dois jovens que haviam sido seus filhos. 

No tardou a receber a inesperada visita de Elvira e Jonef, que contentou 
ainda mais seu corao. Ela permaneceu pouco tempo, mas o perodo 
em que estiveram juntos foi de extrema alegria. 

Na colnia espiritual, por longos anos Ernesto se dedicou ao trabalho e  
contnua busca do autoconhecimento. Sabia que lhe faltava superar muitas 
imperfeies, que no se haviam manifestado pelas restries que tivera na 
ltima encarnao. Embora feliz, ele no se iludia. Com as repetidas visitas 
de Elvira e a ateno constante de Henrique, fazia planos para o futuro. 

160 


#
Naquela manh, Elvira veio e lhe pareceu ainda mais radiante. De seu 
corao partia intensa luz rosa-azulada, que se difundia ao seu redor. A beleza 
da cena o embeveceu. Sabia da superioridade desse esprito amado; 
porm, sempre que via sua luminosidade, surpreendia-se com a constatao 
da prpria inferioridade. Ao se aproximar, ela disse: 

- No pense mais nisso. Sua grande oportunidade chegou. Temeroso, 
Ernesto perguntou: 
-O que quer dizer? 
-Agora, vim para ficar com voc e o acompanharei em sua prxima experincia, 
que est por vir. 
Ernesto sentiu sumir-lhe a cor. Elvira segurou-lhe a mo: 

- No tenha medo, querido, Deus estar amparando sua jornada. A hora 
 de grande felicidade. 
-Percebo que est radiante. O que est acontecendo de to especial? 
- Avizinha-se o momento da descida de Jesus ao planeta. 
-Tenho ouvido bastante sobre isso. Todos nos preparamos para receb-lo 
no orbe. J h muito podemos pressentir sua presena. 

-  verdade. A atmosfera do planeta est muito diferente. Para vir, ele se 
preparou durante longo tempo. 
- De fato, teve de se despojar de sua grandiosidade, adensar seu corpo 
espiritual, e isso leva tempo. 
- Mas o momento est prximo. O Messias prometido e to esperado pelos 
nossos irmos da Terra est chegando. 
Ernesto ficou srio. Elvira fitou-o e ele indagou: 

- Ser que estamos realmente em condies de receb-lo? 
-Confiemos em Deus, que  todo sabedoria. E voc, querido, vai poder 
viver com toda a intensidade esse momento; estar na Terra, encarnado, 
vivendo junto de Jesus. 

-Junto de Jesus? 


- Sim, Ernesto, muito perto. 
-Disseram-me que viveria na Terra na poca em que Jesus ali estivesse, 
mas no sabia que o veria de perto. 
Elvira sorriu, e o brilho de seus olhos acentuou-se: 

-Foi para no assust-lo, querido. Mas agora voc est pronto e j pode 
saber. Antes de v-lo, falei com os irmos responsveis pela sua reencarna161 


#
o. Estou com todo o plano de sua prxima experincia. Venha, vamos 
estud-lo detidamente. 

Acariciando o rosto de Ernesto, ela exclamou: 

-Que oportunidade bendita, querido: estar ao lado do Messias! 
Ele, por sua vez, com os olhos rasos de gua, disse emocionado: 
-Eu no mereo uma beno como essa, no me sinto digno. A nica 
coisa que posso fazer  servi-lo com todo o meu corao; sacrificar-me por 
Ele, dedicar-me a segui-lo e am-lo com todo o meu ser! 
Elvira abraou-o longamente, sentindo imenso jbilo a lhe invadir a alma: 


-Que Deus o abenoe! 
3. Parte 


 Na plenitude dos tempos, quando tudo estava 
Preparqado, Jesu, o arquitetio do planeta, desceu 
 Terra como havia prometido para ensinar aos 
homens com o exemplo de sua prpria viva o 
caminho para a regenerao de suas almas. 

O Messias, j anunciado e esperado pelos 
povos desde as mais priscas eras, veio ao orbe 
para aproximar as criaturas, sofridas 

e angustiadas, do Criador do Universo. 

162 


#
CAPTULO 31 

Os trs andavam pela estrada poeirenta que levava a Jerusalm. No caminho, 
discutiam sobre aqueles que em segredo procuravam o Mestre. Pedro 
disse, exasperado: 

-Acho absurdo que o Rabi continue a receb-los em horrios to inapropriados. 
Por que no vm at ele quando est pregando? Na hora em que 
precisa repousar, depois de longas jornadas junto s multides,  que o procuram! 
E bem de madrugada! No concordo e vou falar outra vez com o 
Mestre! 

Joo, sempre amoroso, interveio: 

-Pedro, sabe que Jesus jamais se negaria a atender quem quer que fosse, 
a qualquer hora. Ele est sempre pronto a ajudar quem o busca! 

Pedro insistiu: 

-No concordo, Joo. O que pensa, Tiago? 

Tiago parecia distante e no respondeu. Pedro insistiu: 

-E voc, Tiago, o que acha? Tiago sorriu e disse: 

- Acho que nunca compreenderemos totalmente as atitudes de Jesus. Elas 
sempre nos causaro surpresa. Vejam o caso de Jud, o jovem rico. E um 
exemplo de conduta para nosso povo: cumpre a lei de Moiss e todas as 
orientaes de nosso pai Abrao. No h um sbado sequer em que no seja 
o primeiro a chegar  sinagoga. Mesmo assim, Jesus no parecia completamente 
satisfeito com ele, pois pediu que vendesse todos os seus bens e os 
distribusse aos pobres, e por fim que o seguisse. Nunca tinha escutado isso 
do Mestre. 
Pedro ouvia atento. Depois de breve pausa, Tiago continuou: 

-Agora, veja a diferena no caso de Zaqueu: a ele o Mestre no pediu 
nada. Justamente a ele, um cobrador de impostos! H muitas coisas que no 
entendemos, Pedro. No adianta, devemos segui-lo e aprender com ele. S 
isso. 

Joo concordou: 
-Tem toda a razo, Tiago. No podemos compreender tudo o que Jesus 
nos ensina, mas precisamos confiar nele. 

163 


#
Sem saber o que argumentar, Pedro calou-se e os trs seguiram, pensativos, 
o restante da longa viagem de Nazar at Jerusalm. Ao chegar, uniram-
se aos outros discpulos de Jesus, bem como aos demais que o seguiam. 

Enquanto isso, Jos de Arimatia, em sua manso, caminhava de um lado 
para outro, inquieto. Esperava com ansiedade por Nicodemos. Logo que 
Timteo o avisou da chegada do amigo, Jos solicitou: 

- Leve-o  sala central e pea que me aguarde; j vou receb-lo. E sirva-
nos algo bem fresco; est muito quente hoje. 
Timteo saiu imediatamente e conduziu Nicodemos  sala principal. A 
imensa propriedade ficava no alto de uma colina. Da rua era possvel observar 
as lindas colunas dispostas uma ao lado da outra, com perfeio e harmonia, 
ao melhor estilo arquitetnico romano. Os belos jardins que circundavam 
a residncia tambm seguiam a tendncia das mais exuberantes manses 
romanas. 

Na realidade, embora fosse judeu, membro de uma das famlias mais 
importantes, tradicionais e influentes de Jerusalm, Jos gozava de alto conceito 
junto aos dominadores da Palestina. Quando Pilatos assumira seu cargo 
como governador da Judia, fora levado a procurar por ele, dados o prestgio 
e o poder que frua perante os conterrneos. Sua riqueza e sua influncia 
eram amplamente conhecidas pelas maiores autoridades de toda a Palestina. 


To logo o conhecera, Pilatos se encantara com o hebreu. Jos de Arimatia 
era um homem de aparncia impecvel, elegante e de porte atltico. 
Alm do mais, tinha uma fluncia verbal invejvel e era possuidor de inteligncia 
brilhante, o que o havia tornado um dos mais bem-sucedidos negociantes 
da Judia. Dispunha de uma frota de barcos que faziam o comrcio 
com diversas cidades ao longo do Mediterrneo, e inclusive com regies 
mais distantes, como a Glia e a Britnia. 

Como tivesse grande habilidade com as palavras, ele se destacara como 
admirvel contador de histrias, narrando suas faanhas e experincias atravs 
de terras longnquas, quando, com apenas dois barcos pequenos, iniciara 
suas atividades e a expanso dos negcios da famlia. 

Pilatos o admirara imediatamente, e nascera entre eles slida amizade. 
Assim que lhe fora possvel, promovera Jos de Arimatia a uma espcie de 
embaixador de exportaes, concedendo-lhe exclusividade no comrcio de 
estanho com as regies sob o controle de Roma. 

164 


#
Nem bem o jovem Timteo tinha deixado Nicodemos acomodado, Jos 

entrou, fechou a porta e, cumprimentando o amigo, perguntou: 
-E ento? Esteve novamente com o Mestre? 
-Sim, estive com ele, de madrugada. 
-E dessa vez, sobre o que conversaram? 

- Sobre muitas coisas, Jos, mas a maior parte no consigo entender; Jesus 
me faz sentir to pequeno e ignorante! 
-  verdade. Tudo o que conhecemos se torna insignificante em sua presena. 
Toda a sabedoria de nossos antepassados se reduz a nada em sua luminosa 
companhia. 
- Para mim, Jos, basta estar com ele. Como  doce ficar ao seu lado... 
Como me sinto venturoso e feliz!... Os momentos que passei com Jesus at 
agora, apesar de breves e fugidios, foram os mais jubilosos de minha vida. 
Quanta sabedoria em suas palavras, quanto amor em seus olhos! No deixo 
de pensar em seu olhar um instante sequer. Desde que o vi pela primeira 
vez, que meus olhos viram o olhar de Jesus, nunca mais fui o mesmo. 
Jos ajeitou-se na cadeira, ouvindo o amigo com ateno.  primeira 
pausa de Nicodemos, ele disse: 
-Sinto-me da mesma forma.  to bom estar com o Mestre... - e suspirou 
profundamente - Pena que no possamos encontr-lo mais freqentemente. 

-Tenho pensado sobre isso, Jos. Incomoda-me ver Jesus s escondidas, 
como se ele fosse um ladro!  muito constrangedor. 
Jos fitou o amigo com olhar triste e considerou: 

- E o que podemos fazer? Eu tambm penso muito nisso, mas se nos expusermos 
mais do que j o fazemos, correremos srios riscos. Muitos, no 
Sindrio, andam fazendo perguntas sobre os possveis seguidores ocultos de 
Jesus. Existem rumores de que h alguns de seus membros que lhe dedicam 
simpatia. No, Nicodemos, infelizmente no h nada que possamos fazer.  
muito arriscado. Se descobrirem que somos seguidores dos ensinamentos de 
Jesus, perderemos tudo o que temos, tudo... 
Fez-se abrupto silncio quando Timteo entrou, trazendo um refresco 
para o dia quente que j ia adiantado. Assim que o rapaz saiu, Nicodemos 
perguntou: 

- Ele sabe de algo? 
-No, ningum em minha casa suspeita de nada; no desconfiam nem de 
longe. 

165 


#
-Nem mesmo Sara? 

-Muito menos ela. Sabe como a famlia dela  apegada s tradies. No 
posso permitir que ningum descubra. Seria um desastre para mim. Voc me 
compreende, no ? 

-Claro, Jos; em sua posio, seria absolutamente desastroso. Algum 
com o seu poder e a sua influncia, que pela prpria situao j tem alguns 
rivais gratuitos, de imediato os teria como inimigos. 
- Pois  isso; tambm penso assim. Infelizmente, no h o que fazer. Teremos 
de continuar encontrando-o s escondidas. Entretanto, deixar de ouvi-
lo e falar com ele, isso eu no vou fazer. Para mim, ningum jamais falou 
como Jesus. Sinto-me verdadeiramente mais perto de Deus, quando estou 
em sua companhia. 
Os dois prosseguiram em animada palestra, trocando impresses sobre 
os ensinamentos essenciais daquele que ambos reconheciam ser o Messias 
prometido. 

Algumas semanas mais tarde, Jos, ao retornar de viagem que realizara 
at a Fencia, foi informado de que Jesus estava em Cafarnaum. Fazendo 
uma parada no programada na regio, dirigiu-se ao lugar onde esperava ver 

o nazareno. No teve dvida: dispensou todos os servos e empregados, dando-
lhes um dia de folga. Depois, trocou suas vestes elegantes e sofisticadas 
de ancio judeu pelas roupas rotas que comprara de um mendigo e, usando 
pesada tnica que lhe escondia a cabea, buscou o local onde soubera que 
Jesus estaria. 
Cercado por grande multido, o Mestre, do alto de um monte, falava ao 
povo. Assim que Jos o localizou, enfiou-se no meio do povo, procurando 
chegar o mais perto possvel. No conseguiu ficar muito prximo, mas podia 
v-lo ao longe e escutar claramente as suas palavras: 

-"... Bem-aventurados os que choram, porque sero consolados. Bem-
aventurados os que tm fome e sede de justia, porque sero fartos... Bem-
aventurados os que padecem perseguies por amor da justia, porque deles 
 o Reino dos Cus..." 
Enlevado, Jos de Arimatia, annimo entre a multido, bebia sofregamente 
cada palavra de Jesus, que lhe ressoava profundamente no corao. 

166 


#
CAPTULO 32 

Ao regressar a Jerusalm, nem bem Jos entrara em casa e Sara veio ao 
seu encontro, preocupada: 

-Atrasou-se, Jos. Ns o espervamos h dias. O que houve? 
- Tive de parar em Cafarnaum, a pedido de Pilatos. 
-E por qu? 
- Queria que eu visitasse alguns negociantes, para tratar de assuntos pessoais 
dele. 
Aparentemente distrada, ela se calou por instantes. Depois, como a se 
lembrar de algo, disse: 
-O Sindrio se reunir hoje. 

-Hoje? O que aconteceu? No temos nenhuma reunio marcada, a no 
ser dentro de algumas semanas. 
- Trata-se de uma reunio especial; foi convocada s pressas. 
-E sabe por qu?
-  sobre o tal Jesus de Nazar. Parece que esse homem est criando 
problemas. Querem discutir sobre ele. J ouviu falar nele, no ? 
- Claro, muito se tem falado a respeito de Jesus. 
-E o que sabe sobre ele? 
Jos fitou-a, buscando em seus olhos algum sinal das intenes que lhe 
iam na mente ao fazer aquela pergunta. Sem sucesso, desviou os olhos e 
respondeu: 

-Quase nada. Apenas que ajudou a muitos e que o povo lhe procura a 
companhia. 
Sorrindo ironicamente, ela afirmou: 

-O povo no sabe nada, Jos. Quero a sua opinio. 
-Minha opinio sobre o qu? 
- Sobre esse tal Jesus. O que pensa dele? Jos custou um pouco a responder, 
hesitante: 
- No sei nada sobre ele, Sara, alm do que j lhe disse. No tenho opinio 
formada. 
E antes que a mulher fizesse mais perguntas, foi ele quem indagou: 

167 


#
-A que horas deverei estar no Sindrio?

- A reunio j deve estar comeando.  bom se apressar. 
Ele encerrou imediatamente a conversa e entrou pelo corredor da manso, 
seguindo na direo do quarto, enquanto dizia  esposa: 
-Vou trocar-me e logo sairei para juntar-me aos demais membros do Sindrio. 
Pea ao Timteo que me prepare algo para comer no caminho. 
Sem responder, Sara ficou pensativa enquanto o marido se afastava; ento 
foi at a cozinha e deu ordem a Timteo, conforme Jos pedira. 
Aps cumprimentar os membros aos quais era mais ligado, Jos acomodou-
se em sua cadeira. Assim que o viu, Nicodemos levantou-se e, devagar, 
aproximou-se dele. Cumprimentou um, depois outro, at ficar perto do amigo 
Jos de Arimatia. Saudou o ancio que estava sentado bem atrs dele, e 
depois, simulando surpresa, disse: 

-Jos! Pensei que ainda estivesse viajando. 

- Cheguei hoje, pela manh. 
Nicodemos acomodou-se ao lado do amigo. Ao ver Caifs, o sumo-
sacerdote, ocupar a tribuna, Jos sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. 
Ajeitou-se melhor na cadeira e, srio, atentou para o incio da reunio. 

Jesus comeava a incomodar muito as autoridades religiosas de Jerusalm. 
Aquela seria a primeira de muitas outras reunies que se realizariam, 
em torno de seus atos e palavras. Com o passar dos dias, crescia o nmero 
de doentes que eram curados por ele: cegos, paralticos, mudos, surdos de 
nascena, leprosos. Muitos comearam a vir de longe para v-lo, e os doutores 
da lei, os escribas e os sacerdotes de Jerusalm sentiam-se mais e mais 
ultrajados com seus atos. 

Durante essas discusses acaloradas entre os seus companheiros do Sindrio, 
em geral Jos de Arimatia permanecia calado. Ele, um dos setenta 
membros da instituio que era o grande conselho poltico e religioso e a 
suprema corte de justia de Jerusalm, sentava-se e escutava, mudo, todo 
tipo de acusaes e suspeitas contra Jesus. Ele sabia que eram ataques infundados; 
conhecia as mensagens amorosas do Mestre e sabia que eram 
verdadeiras. No obstante, sentia-se constrangido diante dos demais, e na 
maioria das vezes no dizia nada. Raramente, quando tinha oportunidade, 
levantava-se e questionava as acusaes, tentando fazer os outros refletirem 
melhor sobre o que estava por trs daqueles ensinamentos. Sugeria, ento: 

168 


#
- Ilustres companheiros, no seria conveniente enviarmos um grupo para 
ouvi-lo e avaliar-lhe melhor as intenes? 
Era sempre automaticamente repelido. Algumas vezes estabelecia-se um 
burburinho entre os participantes da assemblia e Caifs, o sumo-sacerdote, 
intervinha: 

- Silncio, senhores! No acho necessrio enviarmos ningum para ou-
vir-lhe as blasfmias. Esse homem est instigando o povo contra Roma, e 
ainda nos trar problemas... 
E as reunies seguiam infindveis, s vezes noite adentro, discutindo o 
comportamento de Jesus. Jos se calava. Normalmente saa dali cansado e 
abatido. Voltava para casa desalentado. Sentia que deveria ter sido mais 
enftico, mais firme na defesa de Jesus, mas no conseguia faz-lo. Receava 
muito as conseqncias que poderiam atingi-lo se demonstrasse explicitamente 
a simpatia pelo nazareno. 

Antes do incio de cada reunio, ele prometia a si prprio que daquela 
vez exporia seu ponto de vista e falaria em defesa de Jesus. Porm, quando a 
ocasio se apresentava, de novo ele se sentia acuado pelos outros e silenciava. 


Naquela tarde, terminada mais uma das reunies cujo tema invarivel 
eram acusaes a Jesus de Nazar, ele voltou para casa devagar, triste e acabrunhado. 
 noite, revirava-se de um lado ao outro na cama, sem poder 
dormir. Levantou-se e caminhou at o alpendre, de onde se tinha uma bela 
vista do cu estrelado. Olhou ao seu redor observando o vento movendo as 
folhas das rvores, e ficou imaginando o que aconteceria com sua vida se 
ele ousasse erguer-se com firmeza, em meio  prxima reunio, e defender 
Jesus. Outra vez o gelo de um calafrio percorreu-lhe o corpo. Sentia medo. 

J era madrugada quando, vencido pelo cansao, ele conseguiu adormecer. 
Assim que seu corpo denso entregou-se ao sono reparador, seu corpo 
espiritual desprendeu-se, atordoado. Ouviu, ento, uma voz suave e terna: 

-Sente-se, Jos, ainda est tonto. 
Ele viu a luminosa figura  sua frente e ajoelhou-se, exclamando, impressionado: 


- Meu Deus!  um anjo do Senhor que vai me punir! 
Estendendo os braos e erguendo-o suavemente, aquele ser falou: 
- Acalme-se, Jos. Ningum vai puni-lo a no ser voc mesmo. 
169 


#
Confuso, ele sentou-se na beira da cama. Fitou ento a imagem que tinha 
diante de si: uma jovem delicada e meiga, com cabelos que cintilavam; 
os olhos e o corao emitiam luz to forte que ele mal podia olhar. Ento, 
perguntou: 

- Quem  voc?  uma enviada do Altssimo? 
-Sim, Jos, sou enviada de Deus; mas no tenha medo, quero ajud-lo. 
Primeiro precisa se acalmar. Anda muito preocupado, no ? 
-Eu no estou feliz. 
- Eu sei, nem poderia estar, Jos. O que esto fazendo com Jesus  muito 
injusto. 
- Ento, estou certo? O Todo-Poderoso est mesmo com ele? 
- Sim. Jesus  o Messias prometido em todas as escrituras, aquele anunciado 
pelos seus antepassados. 
- Eu sabia! Pelas suas palavras plenas de sabedoria e entendimento, amor 
e misericrdia, eu o reconheci. 
- Todavia, nem todos o aceitam, no ? 
-Acho que muitos ainda no b reconheceram. Mas por que Jesus os incomoda 
tanto? 
-Porque ele diz a verdade sobre o corao do homem, que est repleto de 
impurezas e imperfeies. Ele pede transformao, e os homens no querem 
mudar, Jos. 

Jos ficou pensativo. Com voz ainda mais suave, ela prosseguiu: 

- Entretanto, voc o reconheceu, e isso  uma grande beno. Agora  a 
sua vez de tambm mudar. Assuma sua posio ao lado de Jesus; siga-o e 
deixe para trs o velho homem. Esta  a sua grande oportunidade de transformao. 
No a desperdice. Aproveite! Voc esteve com ele, j sentiu o 
poder do seu amor. 
Jos respondeu, entristecido:
- isso o que mais quero, porm... No consigo. 


- No tenha medo, Jos. Voc no estar sozinho. O Senhor Deus estar 
amparando e abenoando sua deciso e suas atitudes. Aja no bem, sem se 
importar com as conseqncias. Escolha o bem, a verdade, o amor, custe o 
que custar. Coloque os verdadeiros valores, que so eternos, acima das iluses 
da Terra, e entregue-se ao Salvador com alegria. 
Jos baixou a fronte e grossas lgrimas rolaram pelo seu rosto. Enfim, 
afirmou: 

170 


#
- Vou me esforar... Vou tentar. Tocando-lhe as mos, ela disse: 
- Voc conseguir, Jos. Abra seu corao a Deus, com sinceridade, e 
ele o ouvir e lhe dar foras. Agora,  hora de descansar. Logo o sol brilhar 
no horizonte. 
Jos fitou-a nos olhos e perguntou: 


- Qual  o seu nome? 
-Elvira. 
Antes que ele pudesse dizer palavra, seu corpo fsico foi despertado por 
uma agitao incomum. 

CAPTULO 33 

Ainda envolvido pela doce energia de Elvira, Jos despertou e olhou em 
torno. Sara j estava de p, e  beira da janela, dizendo: 

- Isso  uma blasfmia! Ele se deixa aclamar como se fosse o Todo-
Poderoso.  uma blasfmia! 
Jos se levantou e, ainda sonolento, aproximou-se da janela: 

-O que est acontecendo? O que te incomoda tanto? -perguntou. 
Ela apontou na direo do templo de Jerusalm:
- Veja!  aquele Jesus, aclamado pelo povo! Ele tem de ser detido! 
Dizendo isso, afastou-se da janela e ia deixando o quarto quando ele, 
depois de tentar ver o que se passava, indagou: 

- Como sabe que  ele? No consigo ver direito. S vejo a multido e... 
- Timteo me disse. Mandei-o bem cedo  casa de meu pai para buscar 
algumas roupas que minha me comprou para mim, e ele voltou contando 
tudo em detalhes. No posso acreditar que no o tenham detido! 
- Afinal, Sara, que mal ele lhe fez? 
-Do que est falando, Jos? 
- Que mal esse homem lhe fez para causar tamanha averso? 
-Ora, ele se mostra inimigo de nossa tradio, de nossos antepassados! 
Eu  que no compreendo por que voc sempre parece ter por ele certa simpatia... 
Estou certa? 

Erguendo um pouco mais o corpo, Jos limpou a garganta e retrucou: 

171 


#
- No  isso; apenas no compreendo por que todos lhe tm tanta hostilidade. 
At onde sei, ele no fez nada contra nossas tradies. 
- Jos, ele fala em igualdade, em perdo das ofensas, em humildade, em 
justia... 
-E no  isso mesmo que Moiss nos ensinou, atravs das leis? 
Sara fechou ainda mais o semblante ao dizer: 
- No h justia em termos de pagar to altos tributos aos nossos dominadores. 
Os romanos esto nos espoliando e precisamos de um libertador, de 
um verdadeiro emissrio do Alto para nos restaurar a liberdade. Somos o 
povo eleito do Todo-Poderoso e esperamos pelo emissrio dele que nos salve, 
finalmente, dos opressores. Esse Jesus  pattico! Apregoa ser enviado 
dos Cus, e sabe como entrou em Jerusalm? 
Jos no respondeu. Ouvia atentamente a esposa, que prosseguiu: 

- Entrou em um burrico! Veja se ele poderia ser nosso libertador! No! 
Jeov nos far justia! Somos um povo especial, os escolhidos, e no podemos 
mais viver sob a opresso de nenhum soberano que no seja o Senhor! 
Ns  que devemos dominar, com as leis de Deus e com a tradio de nossos 
antepassados. 
Sem saber o que dizer, Jos permaneceu ora olhando a esposa, que continuou 
a falar, ora tentando identificar, pela janela, algo em meio  multido. 
Finalmente, ela veio at a janela, olhou mais uma vez para fora e virou-se 
para Jos: 

-Isso tem de acabar! O Sindrio precisa tomar uma providncia definitiva 
contra esse... esse agitador! 
Olhando fixo para Jos, que manteve silncio, Sara saiu do quarto, resmungando: 


- Alguma coisa tem de ser feita... 
Jos ficou encostado  janela por mais algum tempo, tentando enxergar 
o que ocorria, porm quela distncia s via a multido. Vestiu-se, tomou 
um rpido desjejum e saiu direto para o templo. Assim que se aproximou da 
multido, perguntou a um homem, que parecia saber o que se passava: 
-O que est acontecendo?
- Jesus de Nazar. O povo o sada como a um grande rei. 
- E ele, o que faz? 
-Apenas acena para o povo e sorri. 
- Aceita, ento, a aclamao? 
172 


#
O homem mediu Jos de alto a baixo e perguntou: 

-Quem  o senhor? No  Jos de Arimatia, o rico mercador? 
Jos empalideceu e respondeu: 
-No, acho que est me confundindo com algum. O homem insistiu: 
- Como no? Lembro-me de o ter visto quando chegou trazendo tecidos 
de uma de suas viagens. Tambm sou mercador. 
Aflito e temeroso, Jos disse: 

- Deve estar me confundindo. De qualquer modo, s estava querendo entender 
o motivo de tanto tumulto. Tenho trabalho a fazer e meu acesso est 
sendo dificultado por essa confuso. 
Sem esperar resposta, ele voltou para casa. Entrou e enfiou-se em uma 
das salas, onde costumava planejar suas viagens e seus negcios. Ali, sentado 
diante de uma ampla janela, ficou absorto, observando o horizonte. 

Perto das onze da manh, Sara entrou e perguntou: 

- No vai se arrumar? 
Jos, como se despertasse de um sonho, olhou-a por instantes e perguntou: 


- Para o almoo? Mas  cedo... 
-Jos, voc me avisou que Pncio Pilatos viria almoar conosco hoje, 
esqueceu? Ainda que os romanos me causem nuseas, admito que a convivncia 
com eles  boa para os seus negcios. J est tudo pronto. No diga 
que desmarcou o almoo e no me comunicou! 

-Tinha esquecido completamente, Sara. Que bom que me lembrou! Vou 
preparar-me agora mesmo. 

Abraou a esposa  porta, agradecendo: 

-Obrigado, querida, voc sempre me ajuda em tudo. Sara observou o 

marido e disse: 
-Est estranho, Jos. No costuma esquecer seus compromissos. O que o 
preocupa? E esse Jesus, no ? Jos fitou-a e respondeu: 

- Sim, Sara,  esse Jesus... 
O almoo transcorreu com tranqilidade, e o assunto principal foi o nazareno, 
que tanto atraa a ateno do povo. Jos esforou-se o quanto pde 
para desviar a conversa para temas que naquela circunstncia lhe interessava 
mais focalizar. Contudo, era Pilatos quem insistia em retornar ao jovem de 
Nazar: 

173 


#
-No entendo, Jos, por que os conselheiros do Sindrio tm tanto medo 
desse homem. Ele no  um impostor? 

Diante dos olhos atentos da esposa, Jos procurava contemporizar, sem, 
no entanto, defender Jesus de qualquer modo que fosse. E foi Sara quem 
interveio: 

-Ora, senhor governador, o que diria se ele se colocasse acima de seus 
deuses? 

-Seria inadmissvel! 

-Pois  exatamente isso que os integrantes do Sindrio pensam. Eles esto 
l para zelar pela ordem, pelo bem do povo, pelo cumprimento das leis. 
E creio que tomaro as medidas necessrias para acabar com essa situao. 
Jos ouvia calado. Pilatos tambm emudeceu e ele aproveitou, ento, para 
mudar de assunto: 

- Pilatos, trago timas novidades da Britnia. 
-Esteve l? 
-Desta vez no fui pessoalmente; enviei um homem de minha inteira 
confiana. Eles esto interessados em nosso estanho. Temos ainda de acertar 
pequenos detalhes quanto s condies do pagamento, porm o interesse  
grande. Acho que faremos bons negcios por l. 

Desviada totalmente a ateno de Pilatos, eles terminaram o almoo e 
Jos o levou at sua sala. O domingo passou calmo e Pilatos, que viera acompanhado 
da esposa Cludia, deixou a casa de Jos ao entardecer. To 
logo eles saram, Jos foi para o quarto e ali ficou. 

A atmosfera era tensa em toda Jerusalm, como se alguma coisa grave 
estivesse em suspenso, prestes a se desencadear. A despeito dos preparativos 
para a celebrao da Pscoa, algo parecia diferente. Jos sentia-se angustiado, 
triste. 

Naquela noite, no suportando a sensao opressiva, resolveu procurar 
Jesus outra vez. Esperou que a esposa adormecesse e saiu cuidadosamente, 
sem fazer barulho. Envolvido em uma bela e pesada tnica, foi ter com os 
discpulos de Jesus. Quando o viu, Pedro inquiriu: 

-O que faz aqui, Jos? 
-Preciso falar com o Mestre. 
-Agora  muito tarde, ele precisa descansar. 
-Preciso muito v-lo, por favor. 
174 


#
- Por que no vem durante o dia, como todos os outros? Tem de aparecer 
furtivamente, no meio da noite? No v que o Mestre necessita descansar? 
Jos baixou a cabea, envergonhado. Sabia que Pedro estava certo, que 
ele deveria fazer o que sua conscincia lhe cobrava, mas no conseguia. 
Joo saiu para ver o que estava acontecendo e, ao ver o visitante, saudou: 

Jos, seja bem-vindo. 

-Como vai, Joo? -Veio ver Jesus? 

-Eu gostaria muito, mas Pedro diz que o Mestre precisa descansar. 

- verdade, ele tem se sacrificado muito nos ltimos dias. No sei como 

consegue... 
Depois, dirigiu-se a Pedro: 

-Acho melhor dizer a ele que Jos est aqui. Talvez o receba... 
Pedro continuou firme em sua posio: 
-  muito tarde, Joo. O Mestre precisa descansar. Joo, calmamente, 
respondeu: 
- Eu sei, Pedro, tem razo. Porm, vejo que Jos est aflito; precisa falar 
com Jesus. Vamos ao menos avisar que ele est aqui. 

Conduzindo Jos at a sala da entrada, pediu: 

-Aguarde um pouco. Vou ver se Jesus pode receb-lo. Pedro os acompa


nhava e encarava Jos, visivelmente contrariado. Joo logo reapareceu, 
chamando: 

-Venha, Jos, o Mestre o espera. 
Quando Pedro fez meno de objetar, Joo disse: 
- Vai ser um encontro breve, fique tranqilo. 
Jos penetrou rapidamente o interior da pequena casa,  procura de Jesus. 
Joo e Pedro retomaram a questo das visitas, e este esclareceu: 

- No  isso que me incomoda. O que no tolero  que esses homens o 
aceitem em segredo, sem ter a coragem de assumir que so seus seguidores. 

Novamente Joo intercedeu em favor de Jos: 

-A situao de Jos  complicada. Ele ama Jesus, posso perceber isso em 

seus olhos. 

- No a ponto de segui-lo - Pedro redarguiu, firme. Joo suspirou: 
- Quem sabe isso no mude hoje? Temos de acreditar, Pedro. 
Negando com a cabea, Pedro resmungava: 
- No acho isso correto. Ele  um medroso, um covarde! No tem coragem! 
175 


#
Joo se calara. No demorou muito e Jos surgiu outra vez na entrada da 
casa. Com os olhos vermelhos e rasos de lgrimas, agradeceu, apertando a 
mo do discpulo: 

- Obrigado mais uma vez, Joo; sempre  muito generoso comigo. 
Joo abraou-o e respondeu: 
- No me agradea. Eu tenho por voc um grande carinho, Jos, e espero 
que encontre muito em breve o que est procurando. 
-Obrigado, meu amigo; uma vez mais, obrigado. Enxugando as lgrimas 
que insistiam em descer-lhe pelo rosto, Jos despediu-se de Joo, de Pedro e 
de alguns outros que estavam  porta da casa, e voltou depressa para a manso. 


Assim que chegou, enfiou-se na cama em silncio, para no acordar a 
esposa. Ajeitou-se nas almofadas e, fitando o teto, comeou a relembrar a 
conversa que tivera com Jesus. Evocou cada frase, cada palavra, extremamente 
comovido com a recepo amorosa do Mestre. Ao mesmo tempo, seu 
corao doa e sua mente estava dividida. Sentia que devia unir-se a Jesus e 
assumir de vez sua posio em favor dele. Por outro lado, resistia a colocar 
em risco sua condio e suas conquistas sociais e materiais. Sabia que era 
radical a rejeio dos principais de Jerusalm a Jesus. Segui-lo abertamente, 
naquelas circunstncias, poderia significar transformar-se em inimigo de seu 
povo. 

Os primeiros raios do sol encontraram Jos ainda acordado, refletindo e 
recordando; ele no pudera dormir um minuto sequer naquela noite. 

CAPTULO 34 

Jos estava  mesa, em companhia da esposa, quando Nicodemos foi 
anunciado por Timteo. Jos recebeu o amigo com entusiasmo: 

- Bom dia, Nicodemos. Sente-se e tome o desjejum conosco. 
Nicodemos, deixando transparecer grande nervosismo, respondeu: 
-No, agradeo, mas estou sem fome. 
Olhando para Sara e em seguida para Jos, disse a este: 
-Precisamos conversar. 
176 


#
Compreendendo de imediato que Nicodemos desejava falar-lhe a ss, 
Jos levantou-se, dizendo: 

- Sara, pea a Timteo que nos leve alguns pes; estaremos em minha 
sala. 
Sara no respondeu, apenas ergueu-se e foi  procura de Timteo. Nicodemos 
acompanhou o dono da casa e fecharam-se os dois na sala de negcios 
de Jos de Arimatia. Assim que ficaram sozinhos, Jos perguntou: 

- O que houve, Nicodemos? Parece nervoso. 
- Estou, Jos, e muito preocupado. 
-O que est acontecendo? 
- Estou com um terrvel pressentimento a respeito de Jesus. 
-O que foi? -insistiu Jos. 
- Caifs quer fazer uma reunio amanh cedo, para discutir o que fazer 
com Jesus. Eles esto muito revoltados com o que aconteceu ontem. No 
aceitam que ele tenha sido recebido pelo povo de Jerusalm como um rei. 
Esto cheios de dio, Jos. Estou preocupado. Vi bem a maneira como Caifs 
se referiu... - baixou o tom de voz - ao Mestre. Seus olhos revelavam 
rancor e ressentimento. No estou gostando nada disso. O que faremos? 
Levantando-se e caminhando at a janela, Jos pensou por instantes e 
respondeu, desanimado: 

- No sei o que podemos fazer para ajudar. O Sindrio tem setenta 
membros; no representamos praticamente nada. Acaso sabe de mais algum, 
entre nossos companheiros, que simpatize com as idias de Jesus? 
Nicodemos refletiu um pouco e fez sinal negativo com a cabea, dizendo: 


- S sei que alguns dos ancios so menos resistentes ao Mestre. Se ao 
menos os essnios fizessem parte do Sindrio... Eles, sim, na grande maioria 
so simpatizantes de Jesus. Sabe disso, no ? 
Num suspiro profundo, Jos respondeu: 
-Sim, os essnios o apoiam totalmente. Alis, creio que Jesus  um deles. 


- Tambm acho. Infelizmente, nossos irmos essnios se afastaram por 
completo de Jerusalm e no tm qualquer influncia sobre as decises do 
Sindrio. Portanto, no podero ajudar. Fico remoendo a situao, tentando 
achar uma forma de colaborar com o nosso Mestre, mas... 
177 


#
A voz morreu-lhe na garganta. Jos, que desolado ouvia o amigo, aduziu: 


-Temos medo, no , Nicodemos? Tememos nossos prprios conterrneos. 
Sabemos do que eles so capazes, no  mesmo? 

-Jos, eu receio que desta vez eles tomem medidas drsticas contra Jesus. 
Esto falando at mesmo em... mat-lo! Jos empalideceu: 

- O qu? Quem disse isso? 
-H rumores por todo o Sindrio. Embora ningum assuma diretamente, 
ouve-se em todos os cantos... Eles esto mesmo furiosos... 

- Especialmente Caifs... 
-Especialmente ele. Como sumo-sacerdote, no admite os ensinos de Jesus. 
Ele  o pior de todos os inimigos do Mestre... 

-E de qualquer um que o siga... 

Os dois calaram-se por largo tempo. Afinal, Jos levantou-se, foi at o 

amigo e tocou-lhe o ombro com gentileza: 

- Vamos pedir a Deus que nos inspire para encontrar um modo de ajudar, 
Nicodemos. 

Este, erguendo-se e fitando Jos, respondeu: 

-Espero que possamos contribuir. E insuportvel ver esse homem justo, 

bom, puro e verdadeiro - o Messias prometido pelos nossos antepassados - 
ultrajado e humilhado por seu prprio povo. 

- impressionante a cegueira de nossos religiosos! Eles so incapazes 
de ver que Jesus  o Messias. O enviado! 
-No conseguem. Esto cegos pelo orgulho e pela vaidade. Jesus lhes 
toca nas feridas quando aponta suas imperfeies. Eles se julgam superiores. 
-Julgam-se acima do prprio Messias. Chegam a colocar-se no lugar de 
Deus! 
-E o povo  quem sofre as conseqncias. Est desamparado.  por isso 
que Jesus est sempre cercado pelos sofredores e desprezados. 

-At leprosos ele curou. Imagine a reao dos sacerdotes! 

-Eu me lembro da reao de Caifs. Perdeu a cor de tanta raiva, e ento 

bradou em alta voz: Ele cura pelo poder de Belzebu. 
Mais uma vez os dois se calaram por longo tempo. Depois, Nicodemos 
despediu-se: 

- Amanh, na primeira hora, o Sindrio se reunir. Espero que possamos 
fazer algo em favor de Jesus. 
178 


#
-Ento nos vemos amanh, a menos que surja alguma idia antes. 
O dia se arrastou para Jos. Procurou entregar-se aos seus afazeres, sem 
conseguir concentrar-se em nada. Foi at o centro comercial verificar alguns 
de seus negcios e seus carregamentos, mas tinha o corao pesado e a mente 
distante do trabalho. Pensava apenas em Jesus: em seu olhar vivo e poderoso, 
em sua mensagem de luz e amor, em sua presena gloriosa. Queria 
ajudar e, ansioso, buscava alguma idia que lhe permitisse agir. Tomou a 
firme deciso de defender o Mestre perante o Sindrio, custasse o que custasse. 


Ao voltar para casa, encontrou Sara pensativa. Logo que o viu, ela disse: 

- O que Nicodemos queria? Por que estava to nervoso? 
-Negcios, Sara. Ele estava preocupado com alguns servos que lhe tm 
trazido problemas. 

- Pensei ter ouvido falarem no nome do nazareno. 
-Estava escutando nossa conversa? 
- Claro que no. Passei pela sala umas duas vezes, eu acho, e em ambas 
ouvi o nome de Jesus. Era sobre ele que falavam, no  verdade? Tenho 
percebido que simpatiza com ele, Jos. 
- No vejo mal algum em seus ensinamentos, apenas isso. 
- No ouse apoi-lo, Jos. Ele  inimigo do nosso povo! Blasfema contra 
Deus e contra seus representantes na Terra. 
-No  bem assim, Sara. Voc est equivocada, como a maioria dos nossos 
lderes religiosos. 
-Jos, ns somos o povo escolhido, a nao eleita. Nossos lderes tm 
contato direto com o Deus vivo no tabernculo, dentro do templo. Esse rebelde 
deve ser apedrejado! E aqueles que o seguem tambm! 

Jos emudeceu, assustado. No imaginava que Sara se sentisse daquela 
forma em relao a Jesus. Ela o fitou detidamente e exigiu: 

- No ouse envergonhar nossa famlia. Afaste-se dele imediatamente e 
esquea qualquer iniciativa de apoi-lo. 
Antes que o marido pudesse dizer mais alguma coisa, ela saiu da sala. 
Jos, sentindo-se desfalecer, sentou-se em ampla cadeira e deixou que o 
corpo todo pesasse sobre o assento. Estava s e desalentado. Naquela hora, 
desejou profundamente nunca ter feito parte do Sindrio. 

Na manh seguinte, ao se aproximar da luxuosa construo que abrigava 

o conselho mximo de Jerusalm, Jos percebeu a movimentao intensa. 
179 


#
Muitas pessoas se amontoavam diante da porta principal. Assim que conseguiu 
entrar, Jos encontrou Nicodemos, que avanou ao seu encontro e falou 
baixo, junto a seu ouvido: 

-Ele est aqui. Trouxeram Jesus ao Sindrio. 
Jos e Nicodemos tomaram seus lugares. Sob a conduo de Caifs, sumo-
sacerdote em Jerusalm, a sesso comeou. Todos queriam falar. Caifs 
procurava colocar ordem nas per-quiries que eram dirigidas ao nazareno. 
O Sindrio, na figura de seus membros, desafiava Jesus de todas as maneiras 
possveis, questionando seus ensinos, seus atos. 

Jesus, pacientemente, respondia a todas as perguntas que Lhe eram dirigidas, 
procurando esclarecer e orientar aqueles coraes endurecidos pelo 
orgulho e pelo egosmo. Suas palavras eram firmes e amorosas, cheias de 
sabedoria e de luz. 

Jos e Nicodemos tudo ouviam calados. Percebiam a quantidade desmedida 
de questes, muitas at sem sentido, com que o assaltavam. Mas no 
ousavam dizer nada. Tenso, Jos desejava ardentemente que aquele suplcio 
terminasse. Sentia-se torturado no mais profundo de seu ser. 

Horas mais tarde, no instante em que a sesso era encerrada, Jos despediu-
se discretamente de Nicodemos e saiu depressa. Quando alcanou certa 
distncia do prdio, inspirou o ar fresco e se deu conta de que mal conseguira 
respirar durante toda a manh. Sem vontade de voltar para casa, ele caminhou 
a esmo por muito tempo. Lgrimas corriam, incessantes, pela sua face. 
Cheio de angstia, sentou-se em um local afastado, baixou a cabea sobre os 
joelhos e chorou amargamente. 

J era noite quando Jos foi para casa. Logo que entrou, a esposa veio ao 
seu encontro e perguntou: 

- Onde esteve? Nicodemos veio aqui  sua procura. 
-Cuidando dos negcios. -respondeu lacnico -Vou me deitar. 
-To cedo? No quer... Ele a interrompeu: 
-No, estou sem fome e muito cansado. Amanh conversaremos, Sara. 
Sem esperar pela resposta, entrou em seu quarto, lavou-se e enfiou-se na 
cama. Nem bem adormeceu, exausto pelo dia cansativo e desgastante, seu 
corpo espiritual, com a ajuda de Elvira, desprendeu-se do corpo denso e 
sentou-se na beira da cama. Ele olhou para ela, banhada em intensa luz, e 
perguntou: 

180 


#
- Voc  o anjo do Senhor, que veio me orientar quanto  maneira de ajudar 
Jesus? 
- No sou anjo, Jos, mas estou aqui para ajud-lo - ela respondeu a sorrir. 
- Ento me diga: o que devo fazer para ajudar Jesus? Ela segurou-lhe as 
mos entre as suas e afirmou: 
- Voc j sabe o que deve fazer, s est temeroso. Sim, meu amado Jos, 
voc sabe o que deve fazer. Sua conscincia lhe tem dito diariamente, mas  
uma deciso difcil. 
- Quer dizer que devo apoiar Jesus, custe o que custar... Mas isso pode 
significar a minha morte! 
A voz suave e meiga de Elvira respondeu: 

- Nada nos acontece sem a permisso de Deus. Ele sempre nos ampara e 
nos supre com a fora necessria. 
- Temo pela minha vida, pela minha famlia. 
-O que mais teme, Jos,  voc mesmo. Tem medo de no ter f suficiente 
para fazer o que deve ser feito. Por isso est sofrendo. Confie em Deus, 
ele estar sempre ao seu lado. 

Jos no respondeu e continuou a fit-la, assustado. Ela, ento, ajoelhou-
se  sua frente e, tomando-lhe as mos, disse: 

- Deus me enviou para ajud-lo, confie em mim. Jos olhou-a longamente 
e enfim disse: 
- Eu a conheo. Seus olhos me so to familiares... Quem  voc? 
Elvira, ainda ajoelhada diante dele, respondeu: 
- J nos conhecemos h muito tempo, Jos, e estou aqui para auxili-lo, 
por isso no deve temer. O Pai jamais nos abandona. 
Com o olhar fixo nos olhos de Elvira, Jos sorriu ao comentar: 
-Voc fala como Jesus... 
Elvira retribuiu o sorriso e respondeu: 

- Quem me dera, Jos, ao menos ser digna de ter palavras semelhantes s 
do enviado de Deus. 
- Ele  mesmo o enviado de Deus! 
-Jesus  o Messias prometido, que vem ensinar ao mundo o caminho para 
Deus. 

- Ento por que tenho tanta dificuldade em segui-lo? 
181 


#
-  seu passado que lhe pesa sobre os ombros, Jos, tentando arrast-lo 
para as regies sombrias de onde h muito se esfora para sair. No desanime. 
Lute! 
Os primeiros pssaros anunciavam o alvorecer de um novo dia. Jos 
despertou ainda inebriado pela impresso que lhe causara a presena amorosa 
de Elvira. Sentou-se na cama e tentou compreender aquilo que, para ele, 
havia sido um sonho. Como acreditava que os sonhos eram mensagens de 
Deus para os homens, procurou lembrar e guardar tudo o que pde. Por fim, 
levantou-se lentamente, tentando fixar as imagens que ainda estavam diante 
de sua retina. Aos poucos elas foram esmaecendo e ele comeou a pensar 
nos preparativos para a celebrao da Pscoa, que seria realizada em breve. 

CAPTULO 35 

A grande mesa do salo principal estava ocupada por parentes mais chegados 
e amigos de Jos. A preparao para a Pscoa, que para o povo hebreu 
recordava o fim da escravido no Egito, era realizada todos os anos. O 
vinho estava sobre a mesa e, enquanto os presentes cumpriam cada etapa do 
ritual, atentos aos mnimos detalhes, Jos parecia distante. Apenas acompanhava 
os demais, que eram dirigidos pelo sogro, escolhido havia muitos 
anos para conduzir as cerimnias religiosas mais importantes. 

Sara no podia deixar de notar que o marido estava distante. Embora Jos 
executasse todos os atos, como os outros, ela, que o conhecia bem, percebia 
que ele fazia tudo de modo automtico, sem prestar a menor ateno em 
nada. 

No muito longe da elegante manso de Jos de Arimatia, Jesus estava 
reunido com os apstolos para a ceia. Ajoelhado diante dos seus seguidores, 
ele, o Mestre dos Mestres, o Messias enviado por Deus para resgatar a humanidade, 
lavava os ps dos discpulos. Gentilmente, segurou os ps de 
Pedro, que, muito constrangido, quase os puxava. Jesus, no entanto, suavemente 
lavou seus ps e depois os enxugou. Em seguida, fez o mesmo com 
Joo, e Tiago, e Andr, e um a um lavou-lhes os ps. Apesar de a lio ter 
enorme profundidade, os discpulos ainda no podiam apreender-lhe o sentido 
por completo. 

182 


#
Ao final da cerimnia, Jesus deu as ltimas orientaes aos seus eleitos, 
preparando-lhes o corao para o momento difcil que os aguardava. Depois 
da comemorao, seguiu com eles para o Monte das Oliveiras. 

Enquanto isso, na manso  beira-mar, tambm terminava a ceia preparatria 
para a grande celebrao. Quando o ltimo convidado saiu, Jos, que 

o acompanhara at a porta, caminhou devagar em direo ao seu quarto. Ao 
passar pelo salo que h pouco acomodara os convidados, encontrou Sara, 
ainda sentada  mesa. 
J  tarde, por que no foi se deitar? -ele indagou. 

Ela no teve pressa em responder. Levantou-se, ajeitou alguns enfeites 
que estavam sobre a mesa; s ento se virou para o marido e lanou-lhe outra 
pergunta: 

-O que voc tem hoje, Jos? Est distante e pensativo. 

-Ora, Sara, estou apenas cansado. 
-Jos, eu o conheo bem. Sei que alguma coisa o preocupa. O que est 
havendo? 
-J disse, Sara, estou cansado; tenho trabalhado muito. Sentando-se novamente, 
ela insistiu, exasperada: 
-Eu sei que no  isso, Jos. Est preocupado com o nazareno, no  
mesmo? 
Jos se impacientou: 

- Como voc  insistente, Sara! J cansei de dizer que para mim no h 
nada de especial nesse homem. Apenas acho que o Sindrio se impressiona 
em excesso com ele. 
- Pois acho que existe algo mais. De qualquer forma, ele no vai durar 
muito. Provocou demais a ira de nossos sacerdotes. Esse homem no vai 
sobreviver por muito tempo. 
Jos fitou-a longamente antes de falar: 

- Por que se incomoda tanto com ele? O que Jesus faz que a ameaa? 
Sara ergueu-se e respondeu, olhando firme para Jos: 
- Ele no significa nada para mim. O que me aborrece  ver voc se interessar 
tanto por ele. Por mais que no admita, sei que o aprecia e est preocupado 
com seu destino. Insisto, Jos, tome cuidado. Esquea esse homem, 
ou ter graves problemas. Todos aqueles que se aproximarem dele sofrero 
as consequncias. 
183 


#
Jos andou at a porta que dava para o corredor dos quartos e, virando-
se, disse  esposa: 

-Vamos nos deitar, Sara. Estou cansado e quero dormir. Amanh conversaremos 
sobre suas inquietaes descabidas, est bem? 

Ela caminhou at ele, tomou-lhe o brao e ento disse: 

-Vamos. 

Jos dormia, mas seu sono era agitado. Virava-se de um lado para o outro 
na cama, e transpirava muito. Era madrugada quando batidas na porta o 
fizeram erguer-se, aturdido: 

-Senhor, acorde! 

Sentado na cama, Jos tentava entender a situao. Sara tambm acordou 
e avisou: 

-Timteo est batendo. V ver o que , Jos. Cambaleando, ele abriu a 
porta do quarto. Timteo disse: 

-Desculpe-me acord-lo  essa hora, senhor, porm um mensageiro acaba 
de informar que Caifs convocou alguns membros do Sindrio para uma 
sesso extraordinria. 

-Agora?! Mas  muito cedo! O que haver de to importante que no 
possa esperar at amanh? 

Fitando o servo, ele indagou: 

- Ele disse qual o motivo da urgncia? 
- Sim, senhor. Prenderam Jesus, o nazareno, e vo julg-lo agora mesmo. 
- O que disse, Timteo? 
-Foi o que o mensageiro falou. Antes de vir acord-lo, insisti em saber 
a razo de tamanha urgncia; ele contou que haviam prendido Jesus e que 
Caifs quer resolver a situao o mais rpido possvel. 
Sara, que no escutara com clareza, perguntou: 

- O que est havendo, Jos? O Sindrio est reunido a esta hora? 
- Prenderam Jesus. Querem julg-lo j. 
Sara se levantou, veio at a porta e questionou o marido: 
- Mas no  proibido fazer qualquer reunio durante a noite e pela madrugada? 
No  da lei que qualquer julgamento ocorra depois da oferenda 
matinal? 
- Sim, Sara,  contra a lei julgar quem quer que seja antes das trs horas 
da manh. Mas, obviamente, Caifs est ignorando nossas leis. 
184 


#
- Ento, ele deve ter uma razo muito forte para isso. V, Jos, meu pai 
com certeza j deve estar no Sindrio. 
Jos pediu a Timteo: 

- Prepare-me algo para comer. 
Em seguida, virando-se para Sara, recomendou: 
- Volte para a cama, eu vou me preparar. 
Sem discutir, Sara voltou e enfiou-se na cama. Jos estava comeando a 
se vestir quando Timteo bateu outra vez. 
-Estou quase pronto, Timteo, espere um pouco! -disse. 

- O senhor tem uma visita. 
-Quem  agora? 
O servo no respondeu. Jos aproximou-se da porta e en-treabriu-a. Ao 
v-lo, Timteo sussurrou: 

-Pedro est a fora, querendo v-lo. 
- Quem? Que Pedro  esse? 
-  Simo Pedro, o zelote, seguidor de Jesus. Est acompanhado de um 
tal de Joo, filho de Zebedeu. 

Imediatamente Jos saiu do quarto, fechou a porta e indagou: 

-Tem certeza de que so Pedro e Joo? 

-Tenho. Disse a eles que no sabia se o senhor poderia v-los, que est 
de sada para o conselho, mas insistiram muito. Jos refletiu por um instante, 
depois determinou: 

-Diga que estou acabando de me vestir e que j vou v-los. Leve-os para 
a sala de audincias. E no conte a ningum que eles estiveram aqui; nem 
mesmo a sua senhora. Est entendendo bem? 

-Sim, senhor. 
Timteo saiu depressa e Jos entrou de novo no quarto, para terminar de 
se arrumar. Sara, que ainda estava acordada, perguntou: 
-O que foi desta vez? 

-Sabe como  Timteo, estava em dvida sobre o que eu desejo comer. 
Ele sempre est em dvida quanto  melhor maneira de agradar. 
- Ele  muito medroso... -comentou Sara, virando-se na cama. 
Jos, j vestido, disse  esposa ao sair: 
-Durma, Sara. Assim que a assemblia terminar eu retorno. 
185 


#
Sem resposta, fechou a porta atrs de si e foi direto para a sala de audincias. 
Entrou e viu Pedro em p, prximo  janela. Joo foi ao seu encontro 
e justificou: 

-Jos, perdoe-nos vir to tarde a sua casa, porm a situao  desesperadora. 


Abraando-o carinhosamente, Jos respondeu: 

-No se preocupe, Joo, sente-se. So bem-vindos  minha casa. 

Joo insistiu: 

- Agradeo, Jos, mas deve saber que prenderam Jesus. 
-Eu j soube. Infelizmente, aconteceu. Pedro aproximou-se dos dois e 
disse: 

- Est indo reunir-se com o conselho, no  mesmo? 
- Sim, estava acabando de me aprontar quando chegaram. 
- Tem de fazer alguma coisa para ajud-lo, Jos. 
-Digam-me, como ocorreu a priso? Foi Pedro quem respondeu: 
-Estvamos com ele no Monte das Oliveiras quando Judas o entregou 
aos soldados romanos. Ele o traiu. 

Judas! No  possvel... -disse Jos, surpreso. Pedro o segurou firme 
pelo brao e afirmou: 

-Voc pode ajud-lo, Jos.  o nico a quem nos resta recorrer nesta hora. 
Andr e Tiago esto tentando falar com Nicodemos. S vocs podem 
depor a favor dele no Sindrio. 

Trmulo, Jos se levantou, soltou-se das mos de Pedro e caminhou at 
a janela, buscando ar fresco. A respirao estava ofegante. Suspirou fundo e 
respondeu: 

No  to simples, Pedro. Somos somente eu e Nicodemos contra todos 
os demais. No  fcil! 
Pedro aproximou-se, fitou-o de alto a baixo e disse, erguendo a voz: 

- No seja covarde! Faa alguma coisa por ele! Voc o segue desde o 
princpio, sempre s escondidas! Agora tem de assumir sua crena! Ajude-
o! 
-No h muito que eu possa fazer. Eles so absoluta maioria e esto com 
muita raiva de Jesus. 
Joo, procurando abrandar os nimos, acercou-se dos dois e pediu: 

- Acalme-se, Pedro. 
E tocando no ombro de Jos, falou: 
186 


#
-Apenas pedimos que faa o que for possvel, Jos. Estamos assustados 
e no temos a quem recorrer. 
Jos baixou os olhos ao responder: 

- Eu sei, Joo. Tambm estou assustado. No queria fazer parte desse 
conselho. Como gostaria de no fazer parte dele! Receio o que possa acontecer 
ao nosso Mestre. 
Pedro fitou-o e protestou: 

- Se no  capaz de ajud-lo, tenha ao menos a dignidade de no cham-
lo assim. 
Joo pegou Pedro pelo brao, com firmeza, e disse: 

- Chega, Pedro. Fizemos o que podamos, agora vamos voltar ao Sindrio; 
o julgamento j deve estar comeando. 
Ainda olhando fixamente para Jos, Pedro foi quase arrastado para a sada 
por Joo. Esttico, Jos ficou  beira da janela, olhando o cu, com o 
pensamento distante. Foi interrompido por Timteo, que bateu de leve  
porta: 

- Senhor, preparei comida, conforme pediu. Tudo est pronto. Quer que 
o sirva aqui? 
Sem tirar os olhos do horizonte, Jos respondeu: 
-No, vou comendo enquanto me dirijo ao Sindrio. 
CAPTULO 36 

Ao entrar no tribunal, Jos procurou Nicodemos, que tambm o aguardava 
com ansiedade. Sentou-se ao seu lado e indagou: 

- Como vo as coisas, Nicodemos? O amigo sussurrou: 
- Esto pssimas. Jesus j foi combatido mais de uma vez por este conselho; 
contudo, hoje sinto que esto decididos a levar a sentena at o fim. 
-O que esto fazendo  ilcito. Todos ns sabemos que  contra a lei fazer 
um julgamento antes da oferenda da manh. 

- Seja como for, conseguiram reunir quase metade dos membros do Sindrio 
e parece que ningum se importa com a legitimidade desse julgamento. 
Esto todos encolerizados, alterados. 
-E onde est Jesus? 
187 


#
- Deve estar em alguma das salas anexas; eu ainda no o vi. 
-Ento no o trouxeram para c? 
-At agora, no. 
- E o que esperam? 
-No se sabe bem, mas parece que esto acertando os ltimos detalhes 
sobre os depoentes, as testemunhas, voc sabe. 
Fez-se pequena pausa. Em seguida, Jos suspirou longamente e afirmou, 
irritado: 

- Tudo isso  absurdo! Est tudo errado! Por que esto fazendo isso com 
ele? 
Nicodemos, temendo que os ancios que estavam mais prximos o escutassem, 
tocou-lhe o brao: 

-Calma, Jos, fale mais baixo. 

Jos se calou, olhou ao redor e depois segredou: 

-Pedro foi me procurar; pediu que ajudemos Jesus, testemunhando a seu 
favor. 

-Jos, at onde percebo, esse julgamento no passa de uma grande farsa. 
Na verdade, o sumo-sacerdote nada tem de concreto contra o Mestre; e est 
determinado, mesmo assim, a encontrar uma forma de o condenar. Ele far 
qualquer coisa para conseguir seu intento. 

- Acha que podem at... 
Ele parou, horrorizado. Nicodemos foi quem completou: 
- Sei que esto preparando falsas testemunhas, para acus-lo. Como disse, 
Jos, esto dispostos a tudo para silenci-lo de vez. 
Jos se conservou pensativo. O ambiente estava alvoroado: ancios, sacerdotes 
e escribas -os principais membros do Sindrio - falavam todos de 
uma s vez. Passado algum tempo de espera, finalmente Caifs assumiu o 
seu lugar de juiz da sesso e, aps cumprimentar seus cmplices, mandou os 
soldados trazerem o acusado. Jos mexeu-se na cadeira, inquieto. Nicodemos 
quase no podia respirar, tal a angstia que sentia. 

Jesus entrou, com as mos amarradas nas costas. Embora atado e aparentemente 
subjugado, sua figura era de majestade singular. Suas vestes 
simples e amassadas, agora sujas pelos maus-tratos recebidos, pareciam 
reluzir ao olhar dos seus acusadores. Ele entrou sem qualquer resistncia e 
foi colocado no centro do conselho. O Sindrio emudeceu diante da grandeza 
daquele homem. 

188 


#
O silncio incomodou Caifs, que apressado deu incio  sesso: 

- Filhos de Abrao, ns estamos aqui hoje para determinar o destino deste 
homem, que nos tem trazido demasiados aborrecimentos. Temos mais da 
metade do nosso conselho reunido e muitas testemunhas aguardam para 
serem ouvidas. Nada nos impedir de concluir este julgamento. E olhando 
para Jesus, perguntou: 
-Tem algo a dizer em seu favor, antes que comecemos o julgamento? 
Jesus permaneceu calado. 

- Muito bem, diante do seu silncio, compreendemos bem o que devemos 
fazer. Que entre a primeira testemunha. 
Uma a uma, as testemunhas foram entrando e dando seus depoimentos. 
Todos falsos. A cada nova testemunha que deixava o salo, Jos olhava para 
Nicodemos sem entender como pretendiam concluir o julgamento, uma vez 
que cada depoimento diferia do anterior e no havia concordncia nas descries. 
Quando um dos depoentes saiu, ele sussurrou para o amigo: 

-No combinam em nada! No podero conden-lo com base em testemunhos 
discordantes. Ao menos dois testemunhos tero de ser idnticos 
para que Caifs d prosseguimento s suas intenes. Do jeito que as coisas 
esto caminhando, no iro conseguir. 

-Tomara que esteja certo, Jos, porm tenho minhas dvidas. Pressinto 
que Caifs no poupar esforos para condenar Jesus ainda hoje, de qualquer 
modo... E se meus pressentimentos se confirmarem, o que faremos? 

- O que poderemos fazer, Nicodemos? Conhece mais algum que esteja 
a favor de Jesus? 
-No, os poucos que nutrem por ele alguma simpatia no chegaram a ser 
convocados, por causa da hora avanada. 
-Pois ento, o que poderemos fazer apenas ns dois? 

- Eu no sei, mas temos de fazer algo. Quem sabe se testemunhssemos 
a favor dele? 
-Nicodemos, eles querem conden-lo! Somos minoria insignificante. 
Se nos colocarmos do lado de Jesus, eles nos prendero imediatamente. 
-No podem fazer isso, somos membros do Sindrio! 

- Meu amigo, pense bem, veja a sucesso de atitudes reprovveis: esto 
realizando uma assemblia ilegal, convocaram uma reunio em horrio 
completamente fora de nossas leis e agora esto trazendo para depor testemunhas 
falsas, como voc mesmo disse, para cometerem perjrio! Eles es189 


#
to enlouquecidos e no pouparo ningum! Por que acha que tero alguma 
tolerncia conosco? 

Nicodemos calou-se, observando o semblante contrariado e raivoso de 
Caifs. Depois olhou em volta, para os companheiros de conselho, e identificou 
em seus rostos o mesmo dio que via no sumo-sacerdote. Voltou o 
olhar para Jesus, no centro do conselho. Suspirou, profundamente entristecido, 
e respondeu: 

- Acho que nem mesmo se o Todo-Poderoso descesse para defender Jesus 
eles o ouviriam! 
- E o que penso tambm. No podemos fazer nada... Calados por longo 
tempo, os dois observavam a farsa que 
se desenrolava  sua frente. Crescia a indignao de Nicodemos, que de 
sbito afirmou: 

-Independentemente do resultado, Jos, devemos manifestar apoio ao 
Mestre.  o certo a fazer, sejam quais forem as conseqncias. No podemos 
nos omitir ao presenciar tamanha injustia! 
- No vai adiantar nada, Nicodemos. 
- No importa, Jos! Precisamos agir corretamente, qualquer que seja o 
resultado. 
Nicodemos fez meno de levantar-se, mas Jos o deteve, dizendo: 

-Espere, sejamos astutos. Vamos ouvir um pouco mais para ver se no 
encontramos a melhor maneira de ajud-lo. 
Nicodemos ajeitou-se outra vez na cadeira e silenciou. O julgamento 
prosseguiu, com outras falsas testemunhas se contradizendo. Por fim, duas 
delas fizeram declaraes semelhantes. A segunda afirmou: 

- Ele disse: eu destruirei esse santurio e em trs dias edificarei outro, 
sem que mos humanas o toquem. 
Profundamente irritado, Caifs ergueu-se num impulso, desceu alguns 
degraus e foi at Jesus. Caminhou ao seu redor e, fitando-o firmemente, 
inquiriu: 

-O que falam  verdade? O que me diz? 

Jesus, entretanto, continuou em silncio. O sumo-sacerdote, ento, voltando 
ao seu lugar, sentou-se e perguntou:

-Diga-nos de uma vez:  o Libertador que havia de vir?  voc o Filho 
de Deus? 

Jesus, erguendo a cabea e fitando Caifs, respondeu: 

190 


#
- Eu sou, e em breve voltarei a ocupar o meu lugar ao lado de meu Pai 
que est nos cus, e uma vez mais tornarei a reinar sobre as hostes celestiais. 
To logo Jesus terminou de falar, Caifs desceu novamente at ele e o 
esbofeteou. Depois, rasgou as prprias vestes e disse, em alta voz: 

-Vares hebreus, ouviram a blasfmia! No precisamos escutar mais 
nada. Ele acaba de condenar-se a si mesmo! 
Imediatamente outros membros do Sindrio rasgaram suas vestes, como 
era costume em tais situaes, e concordaram que o herege deveria ser condenado 
 morte. 

Foram descendo, em bandos, e ao passarem por Jesus muitos cuspiam 
nele, outros lhe davam socos e tapas. A cena era animalesca. As criaturas, 
ao mesmo tempo frgeis e brutalizadas, ofendiam e maltratavam o arquiteto 
do planeta, o Messias prometido e esperado por milnios. O homem bom e 
sublime que caminhara entre elas ensinando, sobretudo pelo exemplo, a 
humildade, a bondade e o amor era agora alvo de sua ira descontrolada. 

Jos permaneceu inerte, estarrecido diante do espetculo chocante a que 
assistia. Nicodemos fitou-o, incrdulo: 

- E agora, o que faremos?! 
-Eu no sei! -Jos respondeu e balanou a cabea, sem conseguir tirar os 
olhos de Jesus. 

CAPTULO 37 

Por volta das seis horas daquela manh, Jesus foi levado  presena de 
Pncio Pilatos, para que o procurador romano na Judia confirmasse a sentena 
de morte que o Sindrio havia proferido contra ele. 

S quando o luxuoso salo de pedra lavrada localizado no templo de Jerusalm 
ficou vazio, Jos de Arimatia e Nicodemos se levantaram e saram. 
Abatidos, caminharam devagar em direo  fortaleza do governador. 

Ao se aproximarem, porm, Nicodemos indagou: 

- Ser que voc no poderia conversar com Pilatos? Ele  seu amigo. 
Jos parou observando o tumulto que se formara na porta do palcio do 
procurador e, apontando a turba com a cabea, respondeu: 

191 


#
-Acho que j  tarde. Veja. 
Nicodemos olhou o alvoroo que se formara logo adiante e insistiu: 
- Talvez encontre um jeito de falar com ele, a ss. Temos de tentar, Jos. 
Jos refletiu por instantes e respondeu: 
- No  possvel que levem esse julgamento desonesto e ilcito at o 
fim... 
- Pois acho que vo at as ltimas conseqncias. Voc viu o dio nos 
olhos de Caifs e dos demais. Todos esto contra ele. 
Jos respirou fundo; depois virou-se para o amigo, tocou-lhe o ombro e 
disse: 

- V descansar um pouco, Nicodemos. Eu acompanharei de perto a interveno 
de Pilatos, para ver se posso falar com ele em particular; no sei 
se terei condio de me aproximar. Alm do mais, Pilatos teme os principais 
sacerdotes. No d para ignorar o fato de que j no  capaz de se impor, e 
os nossos lderes acabam fazendo o que querem dele. Desde que cedeu s 
rebelies organizadas pelos sacerdotes, e deixou-se vencer pelas suas artimanhas 
polticas junto a Csar, ele se enfraqueceu. No consegue tomar as 
decises baseado na imparcialidade e no bom senso. 
Nicodemos ouviu o amigo e a seguir opinou: 

- Ele quer mesmo  garantir sua posio e legisla somente em causa prpria. 
As palavras de Nicodemos tocaram sensivelmente o corao de Jos. Ele 
considerou a situao de Pilatos e perguntou-se o que faria se estivesse no 
lugar dele. Passou longo tempo calado. Por fim, Nicodemos perguntou: 

- Vai mesmo acompanhar o julgamento? 
- Vou, Nicodemos, v descansar. Voc me parece exausto. Ento foi Nicodemos 
quem tocou levemente o ombro do amigo e disse: 
-Ficarei tambm. No conseguirei descansar enquanto no souber o 
que vai acontecer com o Mestre. 
Ambos se aproximaram e se embrenharam no meio do aglomerado que 
se formara nas escadarias da entrada principal do pretrio, construo anexa 
ao palcio e fortaleza de Pilatos. Os sacerdotes diziam: 

-Queremos julg-lo aqui mesmo, Pilatos. No nos  lcito entrar em um 
prdio de gentios durante a preparao da Pscoa. 
Depois de muita discusso, Pilatos acabou por aquiescer: 

-Pois bem, que seja. Que acusao pesa sobre este homem? 
192 


#
Os detratores de Jesus no queriam apresentar a concluso a que tinham 
chegado; apenas afirmaram que era um perigoso malfeitor, e por isso o haviam 
trazido at ele. 

Quando percebeu que os judeus estavam relutantes em formalizar as acusaes 
que tinham contra Jesus, mesmo depois de passarem toda a madrugada 
avaliando-lhe a conduta, Pilatos questionou: 

- Se no tm uma acusao determinada para me entregar, por que no o 
levam de volta e o julgam conforme as suas leis? 
Em resposta eles argumentaram: 

- No podemos conden-lo, mas ele  perigoso;  um agitador do povo. 
Ns o trouxemos at aqui para que voc, Pilatos, o condene  morte. 
Pilatos estava visivelmente contrariado pelo modo como o Sindrio o 
tratava. Sentia-se desrespeitado e manipulado. Alm do mais, sua esposa, 
Cludia, tinha grande interesse em Jesus e j lhe falara muito sobre ele. Ento, 
afirmou: 

-No vou condenar este homem sem um julgamento justo, tampouco 
vou interrog-lo at que me apresentem as acusaes formais, por escrito. 

Ao escutar isso, Caifs pediu ao escrivo do tribunal do Sindrio que entregasse 
a Pilatos as acusaes que j estavam lavradas. 

 medida que o calor do sol se fazia mais intenso, crescia o nmero de 
pessoas que se amontoavam aos ps das escadarias. Muitas, ao passarem, 
viam do que se tratava e paravam, curiosas. Jos estava bem prximo ao 
topo das escadas, atrs de alguns companheiros do tribunal mximo dos 
judeus. 

Ele notava a hesitao de Pilatos, sentindo na prpria pele o medo e a 
incerteza que deveriam assaltar o governador, especialmente por saber que 
ele era um homem fraco; ainda que fosse um bom administrador, era moralmente 
covarde, deixando-se dominar e manipular pelos lderes religiosos 
de Jerusalm. 

Quando terminou de ler as acusaes feitas contra Jesus, Pilatos disse: 

-Vou interrog-lo a ss. Levem-no a uma das salas anexas. Seguido de 
Joo, que nunca o deixava, Jesus foi levado para uma das salas no interior 
do pretrio. L chegando, Pilatos sentou-se ao lado dele, e, tentando compreend-
lo, questionou o Mestre a respeito das acusaes que lhe eram dirigidas, 
uma a uma. Ao final da conversa particular que entabularam, o gover


193 


#
nador estava profundamente impressionado com as respostas firmes, brandas 
e pacficas que Jesus lhe oferecera. 

Colocando-se outra vez diante do povo, Pilatos comunicou aos judeus: 

- No encontro neste homem mal algum. Acho que ele deve ser libertado 
agora mesmo. 
Jos prendeu a respirao, quase aliviado, ao escutar o parecer do representante 
de Roma. No entanto, os principais sacerdotes instigavam os demais 
membros do Sindrio e grande burburinho se formou ao redor do procurador. 
Todos falavam a um s tempo, contestando sua interpretao dos 
fatos e insistindo para que condenasse o nazareno. 

Depois de demorada discusso, em que buscava dissuadi-los de seus 
propsitos, Pilatos sentiu-se exaurido. Pressionado pela insistncia irreverente 
dos sacerdotes e ancios, ele j no sabia o que fazer. E como Jesus 
fosse galileu, decidiu mand-lo a Herodes, responsvel por toda a regio da 
Galilia, que naqueles dias se encontrava em Jerusalm para a celebrao da 
Pscoa judaica. 

Embora absolutamente desapontados, os sacerdotes no puderam contestar 
a ordem do governador e seguiram os guardas do templo que conduziam 
Jesus at Herodes. Enquanto eles se afastavam, na frente de uma multido, 
Jos de Arimatia pensou em aproveitar o momento e disse a Nicodemos: 


-Acho que vou ficar aqui e tentar falar com Pilatos. 

-  uma boa idia, Jos. Eu vou com Jesus. 
Quando o enorme cortejo enfim desapareceu, Jos se acercou de um dos 
guardas, para pedir que o levasse a Pilatos. Porm, assim que se viu sozinho, 
sentiu o corpo tremer e as mos suarem frio. Pensou: e se Pilatos resolver 
usar meu testemunho a favor de Jesus e, por medo e insegurana, o tornar 
pblico? O que farei? 

Deteve-se e ficou empacado, diante do soldado, que fitando-o pergunta


va: 
-Deseja alguma coisa? 
Como Jos no respondia, ele insistia: 

-  do Sindrio tambm, no ? Deseja algo? Sentindo um calafrio percorrer-
lhe todo o corpo, Jos apenas disse: 
- No, estou aqui aguardando os acontecimentos. Enquanto isso, Jesus 
foi posto diante de Herodes, que o interrogou sem sucesso, j que perante 
194 


#
ele o Mestre no disse uma nica palavra. Depois de ouvir dos sacerdotes as 
mesmas acusaes que haviam sido transmitidas  Pilatos, igualmente Herodes 
no encontrou motivos para conden-lo. Ainda assim, desejou humilh-
lo perante o povo; irnico, mandou trazerem um velho manto real, de 
cor prpura, e sarcasticamente colocou-o sobre os ombros de Jesus, dizendo: 


- V, rei dos judeus, volte a Pilatos, j que estamos na Judia e  ele o 
responsvel por consumar seu julgamento. 
Sem demora, Herodes retirou-se e ordenou que reconduzissem Jesus a 
Pncio Pilatos. Contrariados e ainda mais irritados, os principais de Jerusalm, 
acompanhados por pequeno bloco, retornaram ao pretrio. 

Antes mesmo que o acusado despontasse, trazido pelos guardas, nas vizinhanas 
da fortaleza de Pilatos grande multido se formara. Os guardas 
tiveram dificuldade para passar com Jesus, at que finalmente o deixaram 
no topo da escadaria, enquanto Pilatos era avisado. 

Pilatos saiu e ocupou uma cadeira que fora colocada no topo da escadaria 
para que ele desse sequncia ao julgamento romano. Ele, ento, declarou: 


-Trouxeram-me este homem com acusaes de que incita o povo  rebelio, 
orientando-o a no pagar impostos, e afirma ser rei dos judeus. Entretanto, 
eu o interroguei e declaro que no encontrei nele falta alguma que 
justifique a sentena que me exigem. Vou puni-lo e libert-lo. 

Nesse exato momento, novo bando de pessoas aproximou-se do prdio 
clamando pela libertao de um preso chamado Barrabs, visto que os governantes 
romanos costumavam conceder clemncia a um condenado durante 
a celebrao da Pscoa. 

Pilatos observou os recm-chegados e logo foi informado de que vinham 
pedir que se respeitasse o costume, libertando um sentenciado. Virou-se 
para o povo, certo de que apoiaria Jesus. Sabia que muitas daquelas pessoas 

o haviam seguido e que o nazareno havia curado boa parte delas; explicou-
lhes que Jesus estava diante dele como prisioneiro e que, embora os sacerdotes 
quisessem conden-lo, no via nenhuma culpa naquele homem. Convicto 
de que o ajudariam a libert-lo, solucionando sua difcil situao, perguntou 
ao povo: 
- Quem preferem que eu perdoe? Barrabs, um criminoso confesso, ou 
esse Jesus da Galilia? 
195 


#
Sem esperar que o povo se manifestasse, os sacerdotes, os ancios e os 
demais membros do Sindrio bradaram em unssono e bem alto: 

- Barrabs! Solte Barrabs! 
Quando o povo ouviu os seus lderes pedirem enfaticamente a libertao 
de Barrabs, formou-se um grande coral secundando-os no apelo. 
Pilatos estava certo de que Jesus era inocente e o teria libertado, se tivesse 
a coragem que a sua posio e o seu dever requeriam. Todavia, com 
medo de desafiar os judeus, ele indagou  multido: 

-E o que devo fazer com Jesus? 
Novamente, numa s voz, a multido gritava, liderada pelos sacerdotes: 


- Crucifique-o! Crucifique-o! 
Pilatos, ento, cogitou uma ltima tentativa de comover o corao daqueles 
homens endurecidos pelo orgulho: deu ordem para que os soldados 
judeus e romanos levassem Jesus ao ptio interior do pretrio e o aoitassem. 


Antes de prend-lo para o golpearem com seus chicotes, os soldados fizeram 
uma coroa de espinhos e a cravaram em sua cabea. Pegaram um talo 
de cana e o colocaram em suas mos, como se fosse um cetro. Depois lhe 
cuspiram na face e o esbofetearam. 

Quando puseram Jesus outra vez diante do povo, seu corpo estava dilacerado 
e ensangentado. Ao v-lo, Jos quase desmaiou. Sentiu fugir-lhe o 
ar e mal pde fit-lo. Seus olhos encheram-se de lgrimas, que comearam a 
escorrer-lhe pela face. O corao parecia que ia saltar-lhe do peito. Seu desespero 
foi tamanho que ele sentiu forte vertigem e prostrou-se de joelhos 
em meio aos companheiros ensandecidos. 

Pilatos tinha a esperana de que ao ver em tal estado aquele homem 
bom, que os havia ajudado, curado e alimentado fsica e espiritualmente, os 
assistentes se compadecessem e o escolhessem para ser libertado, ao invs 
de Barrabs. 

Dirigiu-se novamente ao povo: 

-Eis aqui Jesus. Eu insisto que o interroguei e no achei nele nenhum 
mal. J foi aoitado por ter causado distrbio religioso entre seu povo, e 
agora desejo libert-lo. 

Contudo, os gritos foram ainda mais altos, em unssono: 
-Crucifique-o! Crucifique-o! 


196 


#
Aturdido, sem saber o que fazer, Pilatos retirou Jesus de novo para uma 
das salas do pretrio e voltou a conversar a ss com ele. O governador estava 
atemorizado e desnorteado. Por um lado, sentia a fria dos judeus e no 
queria contrari-los. Por outro, recebera havia pouco um recado de sua esposa, 
pedindo-lhe que tivesse muito cuidado na conduo das questes ligadas 
a Jesus; explicava que tivera um sonho muito triste e doloroso com o 
nazareno, que era um homem justo e bom, um verdadeiro enviado de Deus. 

Mais uma vez Pilatos retornou com Jesus e insistiu com a multido: 

-Este homem  inocente e no merece que eu o condene  morte. Por 
que no o levam e o julgam conforme as suas leis? 

Pilatos estava prestes a soltar Jesus, quando Caifs aproximou-se e ameaou, 
revoltado, gritando para que todo o povo o escutasse: 

- Se libertar este inimigo de Csar, farei com que o Imperador saiba de 
sua conduta! 
A essa intimidao pblica Pilatos no conseguiu resistir. Olhou para Jesus 
e ordenou: 

- Soltem Barrabs! 
Jesus permaneceu mudo, de olhos baixos, sem alterar em nada sua postura, 
nem sua expresso de piedade e misericrdia, que tanto impressionara 
Pilatos, a ponto de convenc-lo de sua inocncia. 

Depois, Pilatos mandou vir uma bacia com gua e, lavando as mos, disse: 


-Sou inocente do sangue deste homem. Querem que morra, mas eu no 
encontrei nele nenhuma culpa. Vo e cuidem disso por sua conta. Os soldados 
o levaro. 

Diante daquela atitude de Pilatos, muitos dentre a multido gritaram, 
embrutecidos: 

- Se estivermos errados, que o sangue dele recaia sobre ns e sobre nossos 
filhos! 
197 


#
CAPTULO 38 

Jos de Arimatia, agora ao lado de Nicodemos, a tudo assistia atnito. 
Seu corao batia descompassado e suas mos tremiam muito. Ao ouvir a 
sentena proferida por Pilatos, autorizando a crucificao de Jesus, ele falou 
ao companheiro: 

- Preciso sair daqui um pouco, estou a ponto de desfalecer. Nicodemos 
fitou-o com o mesmo olhar de desespero e perguntou: 
-Vai sair agora? 
-O que mais h a ser feito, Nicodemos? Vo crucificar Jesus! Vo mat-
lo! 
- Ele disse algumas vezes que assim seria. 
-Eu sei, mas testemunhar esse julgamento injusto e leviano, e essa atitude 
de Pilatos? Ele sabe que Jesus  inocente! 

Nicodemos curvou a cabea ao admitir: 

-Ele sabe. Porm, como ns, tem medo... 

Jos fitou-o longamente e disse, tentando abrir espao na massa compac


ta que se juntara em redor do pretrio: 

- Preciso sair daqui, preciso de um pouco de ar fresco. Nicodemos, sem 
saber o que fazer, foi atrs do amigo. Ao se afastarem da turba, perguntou: 
- Para onde vai, Jos? No quero me afastar daqui. Quero estar perto do 
Mestre nessa hora to dura... 
- Vou at minha casa. Preciso de um pouco de silncio, tenho de pensar. 
-Eu vou acompanhar Jesus. 
- Ser um longo caminho at o Glgota. Ele vai demorar a chegar l carregando 
a trave da cruz sobre os ombros. Ser um trajeto humilhante e doloroso. 
Venha comigo e coma alguma coisa. 
Nicodemos refletiu por instantes, e ento disse: 

- Est bem, vou com voc; mas retorno logo em seguida. 
-Sabe onde esto os seus discpulos? 
- No. Somente Joo no o deixou desde que foi preso, de madrugada. 
Os outros desapareceram. 
- No me lembro de ter visto algum deles em meio  multido. 
-Eu tambm no, porm havia muita gente. 
198 


#
Jos silenciou, enquanto atingia o grande portal de entrada de sua luxuosa 
residncia. Subiu alguns degraus da escada que levava ao prtico e disse: 

-Venha, vamos descansar um pouco e comer algo. No nos alimentamos 
desde a madrugada. A viglia foi longa. 

Nicodemos hesitou um pouco, e Jos insistiu: 

- Venha, meu amigo, est bastante abatido. Repouse um pouco e seguiremos 
juntos ao encontro do Mestre. 
Ao dizer isso, Jos recordou os encontros maravilhosos que tivera com 
Jesus. Todos lhe vinham  mente, um aps outro. Sentiu doloroso aperto no 
peito e se sentou ali mesmo, nos degraus da escadaria. Chorou amargamente 
e lamentou: 

-No fizemos nada... 

De repente a imagem de Jesus ferido e coberto de sangue surgiu em sua 
lembrana. Ele ento dobrou o corpo sobre os joelhos e seu pranto foi convulsivo. 


Nicodemos tambm tinha os olhos molhados. Mesmo assim, tentou consolar 
o amigo: 

- Calma, Jos. 
- No posso me acalmar! Ns o abandonamos, Nicodemos. Podamos ao 
menos ter tentado alguma coisa, e no fizemos nada... 
Percebendo a conversa, Sara apareceu, assustada: 

- O que est acontecendo? O que houve, Jos? Escutamos seu pranto l 
de dentro... 
Com os olhos vermelhos e quase sem flego, Jos respondeu: 
-Eles vo crucific-lo, vo mat-lo! 

- Quem vai ser crucificado, Jos? -Ele! 
-O nazareno? 
- Sim, foi o julgamento mais injusto de que participei nesse conselho! 
Ela disse em tom spero e reprovador: 
- E voc chora? Deveria estar feliz! 
- Como pode pensar isso? 
- Ora, esse homem  um desordeiro, um agitador! Desrespeita nossas 
tradies e se confere poderes que no tem. Ele deve mesmo morrer! 
Jos se levantou exasperado e subiu as escadas, deixando a esposa e Nicodemos 
para trs; indignado, afirmou: 

-Voc no sabe o que fala! 
199 


#
Jos foi direto para a sua sala pessoal de despachos e l se fechou; alcanou 
a janela, abriu-a, respirou profundamente e depois sentou-se, enquanto 
as lgrimas teimavam em correr-lhe pela face. O semblante doce e 
amoroso de Jesus, desfigurado pela crueldade de seu povo, o magoava profundamente. 
Cerrando os olhos, ele dizia em voz alta: 

-Eu no fiz nada... Eu no fiz nada... 
Ainda com os olhos fechados, viu uma luz intensa vindo em sua direo. 
Assustado, abriu os olhos, mas a luz continuava a se aproximar e era cada 
vez mais brilhante. Ento, do interior da luz fez-se visvel uma imagem de 
mulher, vestindo longa tnica branca. Ela se aproximou e saudou: 

-Deus o abenoe, Jos. 
Ele, atemorizado, tinha os olhos arregalados e com esforo conseguiu 
balbuciar: 
-Quem  voc? Ela respondeu: 

-No tenha medo, fui enviada para ajud-lo. Jos, no se prenda ao que 
no fez. No se deixe imobilizar pela culpa! Levante-se e faa o que pode 
ser feito. H muito que voc ainda pode fazer por Jesus! 
-Como? Eles vo crucific-lo! E eu no pude impedir. 
-No poderia impedi-los, Jos. 


-Acha que no deveria me sentir responsvel pelo que aconteceu? 
- Pelo que aconteceu a Jesus? Claro que no. No entanto, no  isso que 
o est torturando, e sim aquilo que poderia ter feito. 
Como ele guardasse silncio, tentando entender, ela continuou: 
- Sua conscincia o cobra por aquilo que deveria ter feito e no conseguiu. 
Voc poderia ter assumido o seu apreo e defendido o Mestre, mesmo 
que isso no fosse suficiente para impedir a sentena que recaiu sobre ele. 
-Ento, de que adiantaria? 

- Adiantaria muito para voc, para a sua conscincia. Ele  seu Mestre, 
Jos. 

-V o que eu digo? Voc est certa. 

-Pois faa o que pode ser feito a partir de agora! Jesus ser crucificado, 

pela condio de barbrie da humanidade. Para isto ele veio  Terra: para 
salvar essa humanidade a que tanto ama. E precisa de servos fiis, que colaborem 
com ele na disseminao de seus ensinamentos. 

- Seus ensinamentos? 
-Sim, Jos, a Boa Nova de que Jesus tanto falou. 
200 


#
Jos a olhava, sem dizer nada. Ela, ento, ajoelhando-se diante dele e tocando-
lhe as mos com suavidade, disse: 

-Jos, meu querido amigo, no troque o que  eterno por alguns efmeros 
anos na Terra. Voc est diante do Messias prometido, e pode agir agora 
mesmo para tornar digna a sua atitude diante dele. 

-Como, se j foi condenado? 

- Mas no permanecer morto. 
-Ele disse que ressuscitaria... Ento  verdade... 
-No tema seguir a voz da sua conscincia. Aproveite a oportunidade, 
no a desperdice mais. No fique prostrado, assustado. O apego  sua posio 
social,  sua fortuna, ao seu bem-estar,  que o est impedindo de fazer 
o que deve ser feito. Todavia, no fundo voc sabe que no pode adiar mais a 
deciso. 
Depois de fit-la demoradamente, calado, Jos perguntou: 

- De onde a conheo? Quem  voc, afinal?  um anjo de Deus? Sei que 
a conheo de algum lugar, mas de onde? No consigo lembrar. 

Elvira levantou-se, tocou-lhe os cabelos com ternura e disse: 

-Fui enviada para ajud-lo nesta hora de testemunho. Para este momento 

voc renasceu. 
Olhou para Jos com infinito amor e aps alguns instantes voltou a falar: 

- V, Jos, o momento  grave. Jesus logo estar no Glgota. Querem 
lan-lo nas valas dos malfeitores, para que seja devorado pelos predadores. 
No permita que isso acontea. 
- tarde -Jos respondeu. 

-No, Jos, ainda no  tarde. Porm, se no tomar uma atitude enrgica 
imediatamente, no poder fazer mais nada. 

Foram suas ltimas palavras. A figura de Elvira foi desaparecendo devagar, 
diante do olhar atnito de Jos. Ele, ento, caminhou at a janela, 
buscando compreender o que acontecera, e de sbito sentiu nova fora brotar 
de seu corao. A despeito de no entender completamente aquele anjo 
que o visitara, ele sentia no ntimo cada palavra que ela dissera. Agora, quase 
sem pensar, apenas seguindo o que o seu corao mandava, ele abriu a 
porta e saiu, decidido. 

Na sala, encontrou Nicodemos em p, andando de um lado a outro, aflito. 
Assim que o viu, disse: 

201 


#
-Vamos, Jos, temos de voltar. No queria deix-lo sozinho; fiquei preo


cupado com seu estado. 
Jos sorriu ligeiramente e respondeu: -J estou bem, Nicodemos. 
-O que aconteceu? Vejo que seu rosto parece iluminado. 
-Recebi a visita de um anjo do Senhor. 

- Um anjo? 
-Sim, veio ajudar-me a decidir o que fazer. 
-E o que vai fazer? 
- No temos como impedir que o Mestre seja crucificado, mas podemos 
dar a seu corpo a dignidade que merece e, assim, agir corretamente a partir 
de agora. No vou mais me esconder. Sou seguidor de Jesus e vou contar 
isso a todos. 
Nicodemos fitou o amigo, confuso. Sara entrou na sala e, vendo Jos, 
disse: 

- At que enfim apareceu! Que vergonha, Jos! Um homem de sua posio 
mostrar-se simpatizante desse rebelde... 
Fitando a esposa, Jos a interrompeu: 

- Jesus no  um arruaceiro. Ele  o Messias, prometido pelas escrituras 
e esperado pelo nosso povo. E eu no sou um simples simpatizante: sou um 
seguidor de Jesus. 
Sara estava atnita. Ia responder, quando ele atalhou: 

- Vamos, Nicodemos, quero falar com Pilatos. Ao v-los sair, Sara tentou 
deter o marido: 
-Vai se arrepender, Jos. Volte ou falarei com meu pai sobre o que acabou 
de me dizer. Ele no ter piedade de voc. 
Sem se virar, Jos apenas retrucou: 

- Faa o que a sua conscincia mandar, Sara. Eu estou fazendo o que 
sinto que devo fazer. Se isso a ofende, lastimo, porm nada mais me deter. 
Enquanto desciam as escadas, Nicodemos, surpreso, indagou: 

- E o que vai falar com Pilatos? 
- Vou pedir que me autorize a enterrar o corpo de Jesus em uma tumba 
nova, de minha famlia. 
Nicodemos estacou e segurou o brao de Jos: 

- Est louco? Perdeu o juzo? Sabe que no pode fazer isso! 
-Eu vou fazer. Se no quiser vir comigo, entenderei. 
202 


#
-Mas, Jos, voc sabe que os romanos no permitem de forma alguma 
que os crucificados sejam enterrados.  termi-nantemente proibido! 

- Sim, eu sei disso, Nicodemos, e vou pedi-lo assim mesmo. Algo me 
diz que Pilatos dar a autorizao para cuidar do corpo do Mestre e enterr-
lo com dignidade. 
-Os sacerdotes no vo aceitar isso, Jos. Bem sabe que tampouco eles 
admitem que os crucificados sejam sepultados, para no ultrajar a terra. 

-Tambm sei disso, Nicodemos; por isso entenderei se no quiser vir 
comigo. O risco  grande, mas  algo que tenho de fazer. 
Nicodemos olhava para Jos sem compreend-lo inteiramente. No obstante, 
suspirou fundo e respondeu: 
-Eu vou com voc. 

CAPTULO 39 

Subiram com pressa a escadaria do pretrio e encontraram dois soldados 
 entrada. Jos se identificou, pedindo: 

- Preciso falar com Pilatos. Sisudo, um deles respondeu: 
- O governador no vai atender mais ningum hoje. Voltem outro dia. 
- Diga a ele que  Jos de Arimatia. -Jos insistiu - Somos amigos e sei 
que me receber. 
O soldado o olhou de alto a baixo e em seguida fez o mesmo com Nicodemos. 
No entanto, a atitude de Jos era to segura que ele acabou cedendo 
e entrou para falar com seu senhor. Em. alguns instantes retornou, dizendo: 

- Podem entrar. Ele os receber em instantes. 
Acompanhou-os at uma das amplas salas internas do prdio elegante e 
se retirou. Jos andava de um lado a outro, meditando, em busca da melhor 
forma de abordar o assunto com o responsvel pela administrao da Judia. 

Aps algum tempo de espera, finalmente Pilatos apareceu. Entrou na sala 
devagar, aparentando cansao, e, vendo os dois visitantes, cumprimentou 
Jos e tentou sorrir ao perguntar: 

-A que devo a honra da visita? 
Jos se aproximou de Pilatos e, tocando-lhe levemente o brao, comentou: 


203 


#
-Est abatido, meu amigo. Enfrentou um dia muito difcil. Pilatos, que 
tentava manter o autocontrole, sentou-se em 

uma das poltronas e desabafou: 

-Realmente, sinto-me exausto! No me lembro de ter vivido horas to 
difceis como essas ltimas. Eu, que j servi a Csar em campos de batalha, 
nunca passei por uma situao to constrangedora, desagradvel e cansativa. 
Definitivamente, meu bom Jos, sou incapaz de entender seu povo. 

Jos, srio, olhou fixamente o amigo por alguns instantes, depois disse: 

- Compartilho esse sentimento. Tampouco eu consigo compreender meu 
prprio povo. Presenciei sua dificuldade no julgamento de Jesus. Vi como 
os sacerdotes o trataram, bem como o povo, por eles insuflado. 
Pilatos se levantou, foi at a bandeja e serviu-se de vinho, que ofereceu 
tambm aos visitantes: 
-Somente uma boa especialidade local para me fazer tolerar seus conterrneos. 
Bebem comigo? 
Jos antecipou-se e respondeu: 

-Agradeo, mas o momento para ns  muito grave. Nosso Mestre est 
sendo crucificado e gostaramos de estar com ele o quanto antes. 
Pilatos fitou Jos, estranhando o que ouvira: 

- Escutei bem o que disse? Chamou o nazareno de mestre? 
-Sim, Pilatos, somos seguidores de Jesus. 
- Nunca me falou sobre isso! Ainda h alguns dias, quando estivemos 
juntos e comentamos a entrada dele em Jerusalm, como um verdadeiro rei, 
voc no me disse nada! 
Jos baixou os olhos, mas logo o encarou, resoluto, e admitiu: 

-At hoje, temi assumir que sou seguidor de Jesus. S que ao v-lo durante 
o julgamento, e ao observar o desvario de meu povo e os desmandos 
de nossos dirigentes, no pude mais esconder. 
Pilatos sentou-se novamente e, com o olhar perdido, ficou alguns instantes 
pensativo, at que se virou para Jos e disse: 

-Por mais que me esforce, no posso compreender por que o odeiam tanto. 
Interroguei Jesus e realmente no encontrei o menor motivo para dar-lhe 
a sentena que me pediram com tanta veemncia. 

Jos, inspirado pelo esprito de Elvira, que no se afastara do seu lado, 
voltou a tocar levemente o brao de Pilatos, dizendo: 

204 


#
- Sei que lhe foi penoso conduzir esse julgamento to injusto e ilegal; 
percebo sua posio e suas dificuldades. Contudo, venho pedir-lhe agora, a 
ss, que nos ajude a dar ao Mestre ao menos um sepultamento digno. 
- No estou entendendo - afirmou o governador, surpreso ante essas palavras. 
Nicodemos mantinha-se calado. Jos esclareceu: 

-Peo que nos autorize a cuidar do corpo de Jesus, to logo ele morra, e 
que nos permita enterr-lo em uma tumba de minha famlia. 
Incrdulo, Pilatos considerou: 

- Sabe que no se pode enterrar algum que  crucificado. O corpo fica 
por dias exposto, sendo devorado pelas aves e outros animais, para servir de 
exemplo ao povo. 
- Esse  o castigo imposto por Roma aos malfeitores. Mas Jesus  um 
homem justo, condenado injustamente pelo seu prprio povo. No lhe negue 
esse ato de respeito e considerao, por favor. 
-Est ciente do risco que ir correr, se eu lhe conceder o que me pede? 
Quando souberem que est responsvel pelo corpo de Jesus, que  simpatizante 
do nazareno, todos se voltaro contra voc. Alm do mais, sei que seu 
povo tambm no permite que se enterrem os crucificados. 
Jos, olhando firme para Pilatos, assegurou: 

- J no estou preocupado com o que meu povo far de mim. Entrego a 
Deus o cuidado pela minha vida. Quero que Jesus seja tratado com dignidade, 
ao menos depois de sua morte. No lhe negue isso, Pilatos. Voc mesmo 
afirmou que ele  inocente. 
Pilatos ficou muito tempo de olhos fechados, pensativo. Depois, olhando 
para Nicodemos e em seguida para Jos, concordou: 
-Pois bem, no tenho motivo algum para impedir. Se deseja arriscar-se 
por seu mestre morto,  um direito que tem. 
Jos sorriu ligeiramente, ao dizer: 

- Agradeo-lhe meu amigo. 
Pilatos, ento, chamou um de seus escriturrios e ordenou que lavrasse 
um documento atribuindo a Jos total responsabilidade pelo corpo de Jesus. 
Assim que o escriturrio voltou com os papis, Pilatos assinou-os e se-
lou-os, entregando-os a Jos. Este agradeceu mais uma vez e j ia saindo 
com Nicodemos, quando o romano ainda questionou: 

205 


#
- S no entendo por que no se manifestou antes, em defesa de seu 
mestre. 

Jos, com olhar triste, voltou-se e respondeu: 

-Porque no tive coragem suficiente para fazer o que devia ter feito. E 

por isso que, agora, no me deixarei vencer pelo medo ou por ameaas. 
E baixando a cabea, continuou: 

- No sou digno do privilgio que acaba de me conceder, mas assim 
mesmo, em honra ao meu Mestre, farei a nica coisa que me resta fazer por 
ele. E de hoje em diante serei testemunha viva de todos os seus atos. Contarei 
a todos o que fez, quem foi e o que ensinou. Embora ele tenha morrido, 
suas lies e seus exemplos vivero para sempre! 
Pilatos o olhou com respeito e disse: 

- V, Jos, que seu mestre o aguarda. 
Quando Nicodemos e Jos deixaram o prdio, depararam com uma cena 
assustadora: o cu escurecera por completo, forte e estranho vento soprava 
por todos os lados e sons que pareciam lamentos soavam pelo ar. Os dois se 
entreolharam e Jos falou: 

- Vamos logo, o Mestre est agonizando. 
Ambos foram depressa para o monte onde ocorrera a cru-cificao. 
Quando chegaram ao Glgota, surpreenderam-se ao ver que Jesus j havia 
morrido e que os soldados o desciam da cruz. Normalmente, os crucificados 
levavam muito tempo em martrio, at expirar. Encontraram tambm muitos 
representantes do Sindrio, que ali estavam para garantir que nenhum dos 
seguidores de Jesus tivesse acesso ao seu corpo, e que este fosse lanado na 
vala comum dos malfeitores. 

Jos adiantou-se, passando por entre os companheiros, foi at o centurio 
e disse: 

-Ele realmente j... 

O centurio apenas maneou a cabea, em sinal afirmativo. Jos, ento, 

apresentou ao chefe dos guardas a ordem assinada por Pilatos. O centurio 
leu atentamente os papis e comunicou aos soldados: 

- Este homem ir levar o corpo de Jesus. 
Os membros do tribunal se entreolharam, revoltados, e um deles reclamou: 


- O que significa isso? Esse corpo nos pertence! Viemos aqui para assegurar 
que a lei seja cumprida! 
206 


#
O centurio, que durante o tempo em que Jesus estivera na cruz pudera 
reconhecer o que ele era verdadeiramente -um homem justo, enviado por 
Deus -, respondeu: 

-  exatamente o que estou fazendo: cumprindo a lei. Os sacerdotes e 
ancios ameaaram arrancar o corpo de Jesus  fora, porm o centurio 
gritou, com a espada em punho: 
-Parem ou no hesitarei em usar minha espada! 

E imediatamente leu para eles a ordem de Pilatos autorizando Jos a levar 
o corpo de Jesus. Dirigiu-se aos soldados, enquanto devolvia o documento 
a Jos: 

- Estes homens tm a autorizao para levar o corpo e enterr-lo em um 
tmulo da famlia. Vamos ajud-los e proteg-los para que nada lhes acontea. 
Imediatamente os soldados romanos tomaram Jesus nos braos e seguiram 
Jos e Nicodemos. Ao passarem pelos sacerdotes, alguns cuspiram na 
face de Jos, em sinal de desprezo; outros diziam palavras agressivas, e um 
deles bradou: 

-Prepare-se para ser o prximo a enfrentar a cruz! Dissimulado, mentiroso 
e traidor! 
A medida que se afastavam ouviam muitas outras ameaas e o vozerio 
das lideranas indignadas. Jos,  frente, caminhava com passos firmes, tendo 
o pensamento fixo em Jesus e no que poderia fazer para redimir-se com 
seu Mestre. De vez em quando, olhava para trs para o corpo ensangentado 
e mutilado, carregado inerte pelos soldados. Limpava as lgrimas que lhe 
desciam pela face e dizia para si prprio que nunca mais teria medo de assumir 
a crena em Jesus, o enviado de Deus. 

CAPTULO 40 


207 


#
To logo se afastaram do alvoroo, distanciando-se dos sacerdotes, Jos 
estendeu sobre o cho alvo tecido de linho puro, que havia comprado com 
aquele propsito, e pediu aos soldados de Pilatos que ali colocassem o corpo 
de Jesus. Auxiliado por Nicodemos, envolveram-no firmemente no tecido e, 
ento, Jos disse aos soldados: 

- Ns o levaremos daqui por diante. 
Os soldados olharam para o centurio, que assentiu com a cabea. Jos e 
Nicodemos levantaram o corpo de Jesus, envolto pelo nobre tecido, e no 
tardou para que Joo -que de longe observava as ltimas ocorrncias - os 
alcanasse; achegando-se aos dois, ele os auxiliou no transporte do corpo. 

Chegaram ao tmulo adquirido por Jos, que nunca fora utilizado antes; 
era incrustado em uma rocha, com uma cmara quadrada em seu interior. 
Como fosse costume dos judeus embalsamar seus mortos, Jos e Nicodemos 
haviam trazido mirra e babosa e, embebendo grandes ataduras nesses lquidos, 
devagar as colocavam sobre o corpo de Jesus. Quando acabaram, envolveram 
tambm o rosto do Mestre e o depositaram em um dos patamares 
da tumba recm-aberta. 

Concludos esses procedimentos, saram todos e o centu-rio ordenou 
aos soldados que rolassem a enorme pedra que fecharia a entrada do tmulo. 

Ao sair do sepulcro, Jos notou que algumas mulheres os observavam a 
distncia. Sendo terminantemente proibido a elas participar desse tipo de 
cerimnia, ele se manteve calado at se afastarem dos romanos, que permaneceram 
guardando a entrada do tmulo. Quando se viu a ss com Nicodemos 
e Joo, disse: 

- Notei algumas mulheres logo que deixamos o sepulcro. Acredito que 
sejam seguidoras do Mestre. Gostaria de ajud-las. 
E voltando-se para Joo, perguntou: 

-Sabe quem so elas? 
Joo parou, fitou Jos por um instante e indagou: 
-Por que decidiu se expor, Jos? 
O companheiro o olhou com profundo respeito e respondeu: 
-No tive a sua coragem, Joo. Voc foi o nico que o seguiu at o fim. 
Como me arrependo de no ter feito o mesmo! 
- Mas se arriscou tambm, Jos, pedindo o corpo de Jesus s autoridades 
romanas. Est se colocando contra todos os sacerdotes, escribas e fariseus. 
208 


#
- Eu sei; foi o mnimo que pude fazer pelo Mestre, depois de ter sido um 
covarde. 
Calou-se por um breve instante, e insistiu: Joo, sabe quem so as 
mulheres? 

- Sim, eu as conheo. 
-Diga-lhes que venham  minha casa. E chame tambm os demais, Joo, 
para que nos encontremos todos. L, com meus servidores, ficaremos um 
pouco mais seguros. 

- Falarei com as mulheres. Quanto aos outros, esto espalhados por toda 
parte. No creio que consigamos reunir sequer a metade. 
- De qualquer modo, insisto que venham  minha casa. Poderemos celebrar 
a Pscoa l. Est tudo preparado. 
Nicodemos, que at ento apenas escutava, perguntou: 

-Mas, Jos, acha que Sara ir concordar? 
-Ela far o que eu lhe disser que faa. 
Nicodemos calou-se, preocupado. Joo foi at onde estavam as mulheres 
e, com muita discrio, transmitiu a elas o convite. 
Assim que chegaram, o dono da casa antecipou-se ao grupo, subindo as 
escadas  procura de Timteo. Quando o encontrou, Jos perguntou: 

- Como esto os preparativos para a celebrao? 
- Sua esposa o aguarda, com seus filhos. 
-E quem mais? 
- A senhora Sara me informou que sero somente os da famlia. 
-Pois bem, teremos mais... - virando-se para os convidados, contou-os e 
completou - Sero mais sete convidados. Prepare tudo. 
O servo olhou para os recm-chegados, depois para Jos, hesitante. Este 
lhe disse: 

- Vamos, rapaz, faa o que lhe pedi. No se preocupe com sua senhora; 
sou eu quem est mandando que prepare a ceia para mais alguns convidados. 
O rapaz foi para os fundos da manso, enquanto Jos entrava na sala 
principal, onde era esperado pela esposa e pelos filhos. Ao v-lo, Sara exclamou: 


- At que enfim aparece... - interrompeu-se to logo viu que atrs do marido 
vinham outras pessoas. 
- Sara, estes so meus convidados; celebraro a Pscoa conosco. 
209 


#
A esposa, tentando controlar-se, perguntou: 

- So seus amigos? 
- Sim. 
-Inclusive essas mulheres? 
- Sim. 
Levantando-se indignada, ela disse em alta voz: 
- Pois celebre a Pscoa com seus amigos. Voc no tem mesmo respeito 
algum pelas nossas tradies. Vou ter com meu pai. 
Saiu da mesa e os dois filhos a seguiram. Maria de Magdala, uma das 
convidadas de ltima hora, disse: 
-No deveramos ter vindo, senhor. Veja o que aconteceu! Depois de la-
var-se longamente, como era costume dos judeus, Jos sentou-se  mesa e 
afinal respondeu: 

-Sei que vieram da Galilia e devem estar cansadas. Quero que ceiem 
comigo e depois descansem. Quanto ao que acabaram de presenciar, peo 
que me perdoem. Isso nada tem a ver com vocs. Sara no compartilha minha 
devoo ao Mestre Jesus. 
Nicodemos, ento, despediu-se de Jos e do grupo: 

- Tambm preciso ir para casa; passarei o sbado com minha famlia. 
Assim que decidir o que fazer, avise-me, Jos. 
O amigo tocou-lhe o ombro com estima e disse: 

- V, meu bom Nicodemos. Obrigado por ter ficado ao meu lado. 
Enquanto tomavam seus lugares  mesa, Maria de Magdala afirmou: 
-Foi muito corajoso em proporcionar um descanso digno ao nosso Mestre. 
Jos apenas sorriu suavemente e falou: 

- Permitam-me perguntar s senhoras o que pretendiam s escondidas, 
prximo ao sepulcro de Jesus. Por acaso planejavam passar ali a noite? 

A outra, tambm chamada Maria, respondeu timidamente: 

-No tnhamos para onde ir, e agradecemos por nos ter oferecido um lu


gar para descansar. 
Jos permaneceu calado, para que ela prosseguisse, porm foi Maria de 
Magdala quem tomou a palavra: 
-Perdoe-nos a intromisso, senhor, mas fazemos isso porque amamos 
profundamente o Mestre de Nazar. 
Jos olhava-a com ateno. Ela continuou: 

210 


#
-Ns queramos completar a preparao do corpo de Jesus. Trouxemos 
especiarias e unes com que melhor prepar-lo para o descanso da morte. 
Jos olhou aquela mulher simples, com semblante sofrido, e perguntou: 

-Querem voltar no domingo pela manh, para terminar de arrum-lo? 
-Sim, senhor, isso mesmo. 
-Obedeam a seus coraes. Jesus merece o melhor de cada um de ns. 
Conseguirei a autorizao para que entrem novamente no tmulo. 
As mulheres sorriram, agradecidas. E todos entabularam longa conversao 
sobre os fatos de que haviam participado, em especial sobre os preciosos 
ensinamentos de Jesus. Ao final do jantar, Jos virou-se para Joo e perguntou: 


- E agora, Joo, o que faremos daqui para a frente? No devemos permitir 
que as lies do Mestre sejam esquecidas. Temos de lev-las ao maior 
nmero de pessoas possvel. 
Joo, envolvido pelas energias protetoras e inspiradoras de Elvira, Jone-
f e outros amigos espirituais de elevada condio, respondeu: 

-Aguardemos. Amanh  sbado e nada poderemos fazer. Os outros esto 
em suas casas ou escondidos. No domingo procuraremos por Pedro e por 
alguns outros, e conversaremos. Por ora, devemos descansar, refazer nossas 
energias, que se esvaram nos ltimos dias. 

Deixando escapar sentido suspiro, e limpando as lgrimas dos olhos, 
Maria de Magdala endossou: 

- Sim, foram muitas horas extremamente dolorosas. Tocando-lhe as 
mos com carinho fraternal, Joo disse: 
-Sobretudo voc, Maria, deve repousar. 
Durante todo o sbado, o grupo trocou experincias e lembranas sobre 
Jesus e os seus feitos e ensinos. Desfrutando a companhia amorosa de Joo, 
Jos sentiu crescer no corao profunda afeio por ele. Admirava-o pela 
dedicao a Jesus, a que aliava a suavidade e a perseverana. 

Ocupado em conseguir a autorizao para que suas convidadas entrassem 
outra vez no tmulo do Mestre, o dia passou depressa para Jos de Arimatia; 
Sara e os filhos no regressaram. 

No domingo, logo pela manh, Joo saiu  procura dos outros discpulos. 
Jos preparava-se para novamente acompanhar as mulheres da Galilia 
ao tmulo de Jesus, quando Timteo entrou na sala esbaforido: 

- Senhor... Soldados romanos... Procuram pelo senhor... 
211 


#
- Acalme-se, Timteo, respire. 
O jovem acalmou-se ligeiramente e emendou: 
-Esto subindo para prend-lo... 
Ele nem terminou a frase e vrios soldados romanos entraram na sala. 
Um deles antecipou-se com um papel nas mos, indagando: 

-  Jos de Arimatia? 
- Sim, sou eu -Jos respondeu de pronto. 
-Venha conosco. Est preso. 
-E por qual motivo? 
-O tribunal do Sindrio expediu ordem para sua priso. 
-E de que sou acusado? 
-De traio. Venha, acompanhe-nos. 
Sem oferecer resistncia, Jos deixou que o soldado o amarrasse, enquanto 
perguntava: 
-Meus amigos podem sair? 

- Por ora, nada temos contra eles. 
Virando-se para Maria de Magdala, que observava a cena com visvel 
agonia, Jos pediu: 

- Minhas irms, vo fazer o que  necessrio, eu ficarei bem. 
CAPTULO 41 


212 


#
Hesitantes, as mulheres deixaram a manso, quase ao mesmo tempo em 
que Jos era levado pelos soldados. Ao descer as escadarias, Jos encontrou-
se com Sara, que chegava em companhia do pai. Aproximou-se dela e, o-
lhando-a nos olhos, disse: 

- Deveria repensar os seus atos, Sara. Sei que seu pai tem parte nisto que 
acontece comigo. 
Ela respondeu-lhe ao olhar e ao comentrio: -No devia ter se envolvido 
com esse que chamavam de Jesus. Tinha o melhor que um homem pode 
desejar e, ainda assim, arriscou tudo por um malfeitor qualquer, que depois 
de vergonhosamente crucificado j az, como todos os outros, no sepulcro. 
Entregou a vida nas mos de um impostor e mentiroso. S que agora  tarde 
para arrependimentos. O que est feito, est feito. 

Jos sorriu serenamente, enquanto repetia para a esposa: 

- Sim, de fato: o que est feito, est feito. Que Deus a ampare e abenoe. 
- Voc ir necessitar de socorro e amparo, no eu -Sara respondeu, irritada. 
Jos baixou a cabea e, num sinal para o guarda, disse: 

-  hora de partirmos. 
Sem falar mais nada, ele seguiu junto dos guardas na direo do Sindrio. 
Sara ficou no topo da escada, at os homens desaparecerem. Seu pai 
tomou-a pelo brao e chamou: 

-Venha, Sara, vamos para dentro. No permitirei que seja ainda mais 
envergonhada diante dos transeuntes. 
Voltando-se para o pai, ela perguntou: 

- O que houve com ele? No compreendo. 
-Alguns homens so insatisfeitos por natureza. Nada lhes basta e esto 
sempre  procura do perigo. Parece que agora Jos encontrou um desafio 
difcil de ser superado. 

-E o que ser dele? 
-Depender do que ele disser no tribunal. 
Colocado no centro da grande sala, diante dos ex-companheiros em semicrculo, 
Jos estava exatamente onde, dois dias antes, Jesus fora julgado. 
Ele pensava na ironia dos fatos e procurava manter-se calmo. Ao seu lado, 
envolvendo-o em eflvios de paz e confiana, estavam Elvira e Jonef, alm 
de outros amigos que, em grande nmero, chegavam da espiritualidade para 

213 


#
dar apoio e amparo aos cristos em sua rdua tarefa de disseminar o Evangelho 
pelo mundo. 

Apesar de preocupado, Jos sentia o corao imerso em suave calma e 
profunda confiana; no obstante o momento ser de ameaa e dificuldade, 
sua alma estava tranqila e forte. 

Presente a maior parte dos membros do Sindrio, Caifs ocupou seu lugar 
e iniciou o julgamento: 

-Jos de Arimatia,  acusado de trair o povo judeu tornando-se um seguidor 
de Jesus, em segredo. Se, diante desta assemblia, negar seu envolvimento 
com esse rebelde, que j no traz qualquer ameaa ao nosso povo, e 
reconhecer que ele  apenas mais um traidor de nossa ptria e de nossas tradies, 
poder responder ao restante do julgamento em sua residncia. Do 
contrrio, ser encarcerado no pretrio. 

Caifs fez breve pausa e saiu do seu lugar, encaminhando-se para perto 
de Jos. Ento continuou: 

-Estou exausto. Nem bem tivemos um dia para o sagrado descanso, e 
aqui estamos novamente - e com um membro desta casa! Diga, Jos, admita 
logo que se enganou! 

Jos fitou-o sem rancor e afirmou: 

-Caro Caifs, no sabe o que me pede. No posso negar que segui Jesus, 
embora no tivesse a coragem de outros, de seguir-lhe os passos abertamente. 
E como me arrependo por isso... Jesus, a quem crucificaram, era um homem 
puro e santo, um homem enviado por Deus. Era verdadeiramente o 
Messias prometido ao nosso povo desde nosso pai Abrao. Era o cordeiro 
anunciado, e cumpriu tudo o que Elias, Isaas e os outros profetizaram. Por 
que, meus irmos, no querem ver que ele  o envidado de Deus? 

Um quase tumulto tomou conta da sala. Os lderes estavam enfurecidos. 
Caifs prosseguiu: 

- Se pensa tudo isso sobre ele, por que no o defendeu, diante de ns? 
Por que se calou? 

Sem titubear, Jos confessou: 

-Porque fui um covarde. Tive medo exatamente do que hoje est aconte


cendo. E, no entanto, vejo que estou preparado para o que quer que desejem 
fazer comigo. Se quiserem me crucificar, como ao meu Mestre, estou pronto! 


214 


#
O burburinho se intensificou. Caifs ia responder, mas Ans, seu sogro, 

o mais respeitado de todos os sacerdotes, que se man-tivera calado, fez sinal 
para que o genro lhe falasse a ss. Foram at uma sala anexa e conversaram 
rapidamente. Ans disse: 
- Caifs, seja astuto. Ainda que esse Jos, traidor, merea a morte, no 
devemos precipitar-nos. Se ele for condenado agora, outros adeptos de Jesus 
aparecero. Ele ser transformado em mrtir e seus seguidores podero inflamar-
se. 
-E o que devo fazer, ento? Solt-lo? 

-No, de modo algum. Prenda-o at que os nimos se acalmem, e o povo 
esquea esse tal Jesus. Logo que tudo estiver mais tranqilo, poder traz-
lo outra vez a julgamento e, a sim, conden-lo. No d mais ensejo a 
esses rebeldes de prosseguirem com sua insensatez. Temos de amornar os 
nimos, sem dar sinais de fraqueza,  claro. Seja duro, porm com astcia. 
Caifs pensou por instantes e concordou: 

- O senhor est certo, meu sogro. 
Dito isso, retornaram de imediato ao salo. Quando entraram, formara-
se um tumulto. Alguns membros estavam em p, outros andavam de um 
lado a outro, indignados. Assim que viram Caifs, aproximaram-se dele, 
apontando para Jos de Arimatia: 

-Ele sumiu com o corpo do nazareno! Faa que o devolva imediatamente! 


- O que me dizem? 
-Os soldados que guardavam a tumba acabaram de voltar de l afirmando 
que o corpo desapareceu. -um deles esclareceu. 

-Como, desapareceu? Eles no estavam tomando conta da entrada do 
sepulcro? 
- Sim, e por isso esto muito assustados; temem o que lhes suceder, 
mas juram que vigiaram a porta durante toda a noite de sexta, o sbado inteiro 
e tambm a noite de sbado. Fizeram turnos e no se afastaram da pedra 
que tampava a entrada do tmulo. Entretanto, o fato  que o corpo sumiu. 
S pode ter sido levado por seus seguidores, numa tentativa de provar 
que as palavras do mestre deles eram verdadeiras. Jos certamente  o responsvel, 
pois afinal o tmulo lhe pertence; deve ter alguma sada secreta. 
Caifs, enraivecido, aproximou-se de Jos e, batendo-lhe no rosto, ordenou: 


215 


#
- Diga j onde puseram o corpo! Jos no respondeu. Caifs insistiu: 
- Onde o puseram? Iremos descobrir, mais cedo ou mais tarde. Diga-nos 
j, Jos, onde ps o corpo do nazareno? 
Jos disse apenas: 

- Ns o depositamos na tumba na sexta-feira, e no voltamos mais l. Jesus 
ressurgiu, como havia prometido! 
Indignado, Caifs sentenciou, dirigindo-se aos guardas do Sindrio: 

- Prendam-no j para que no contamine mais ningum com suas idias. 
E voltando-se para Jos, alertou: 
-Vai ficar preso at que nos diga onde est o corpo do na2areno. Quando 
o disser, reveremos seu caso. At l, estar confinado na pior das prises. 
Arrepender-se- de nos ter enfrentado. 
Jos foi levado pelos guardas. A distncia, Nicodemos acompanhava os 
acontecimentos, calado. Ele matutava, buscando um jeito de ajudar o amigo. 
Assim que Jos foi retirado, saiu imediatamente  procura de outros seguidores 
de Jesus. Como no achou ningum, decidiu ir at o tmulo onde haviam 
depositado Jesus, na sexta-feira. No caminho, encontrou Maria de 
Magdala e as outras mulheres com quem estivera aps a crucificaco. Comentou: 


-Esto dizendo que o corpo de Jesus desapareceu. Maria de Magdala 
confirmou: 
-Sim, Jesus no est mais no tmulo. Ele ressurgiu! Nicodemos olhou-a, 
tentando compreender: 
-O que diz? 

- Ele ressurgiu e est vivo novamente. 
- Porque o corpo desapareceu, acha que ele voltou  vida? 
- No, mas porque ns o vimos e falamos com ele. Nicodemos empalideceu 
e quase sucumbiu ao ouvi-las. 

Maria ento prosseguiu: 

Jesus est vivo, e falou conosco. Disse que ir encontrar-se com seus 

discpulos e precisamos contar-lhes imediatamente. 

- O que diz, mulher? No pode ser verdade. 
-E por que no, senhor? Ele disse que iria ressurgir.  uma grande alegria! 
Ele est outra vez entre ns! No nos abandonou! Agora, precisamos 
ir; temos de avisar os outros. 

-Sim, claro. 

216 


#
Nicodemos ficou paralisado, observando as mulheres desaparecerem 
rumo  Galilia. Pensou em seu amigo e afligiu-se. O que seria de Jos? 

CAPTULO 42 

Os soldados abriram a pesada porta da cela onde Jos haveria de permanecer; 
empurraram-no com toda a fora, fazendo-o cair ao entrar. Em seguida 
trancaram a porta e a cela ficou na penumbra. 

Aos poucos, os olhos de Jos se acostumaram  escurido e ele pde 
perceber que o espao era pequeno, com uma cama de pedra e uma janela 
minscula no topo da alta parede da construo. Fora levado por muitos 
lanos de escadas at alcanar sua exgua acomodao. Levantou-se devagar, 
limpou as vestes e sentou-se na cama sem conforto. Olhou para o alto, 
vendo a nesga de luz que entrava pela janela. Ouviu poucas vozes, daqueles 
que se movimentavam nas ruas, em redor do prdio, e deitou-se, tentando 
repousar o corpo, na esperana de encontrar serenidade para o corao aflito. 
Embora sentisse que tomara as atitudes que deveria tomar, temia pelo 
futuro, pelo que viveria a partir daquele momento. 

Depois de muito tempo em absoluto silncio, revivendo mentalmente 
tudo o que vinha acontecendo desde que Jesus fora preso, Jos adormeceu. 
Assim que seu corpo fsico entregou-se ao sono, seu corpo espiritual desprendeu-
se, com a colaborao de Elvira e de Jonef. Ela ento sentou-se ao 
seu lado e, tomando-lhe as mos, beijou-as, dizendo: 

- Querido Jos, no tema pelo seu futuro. Confie em Deus e em Jesus, a 
quem de fato entregou sua vida, e espere. Ele haver de guiar os seus passos, 
de hoje em diante. 
Confuso, Jos procurava compreender o que aquela voz doce lhe dizia. 
Tomando-a novamente por um anjo, ele perguntou: 

- E o anjo enviado por Deus para ajudar-me, no  mesmo? 
-No, Jos, mas sou uma amiga que o ama muito e deseja o seu bem ela 
respondeu, sorrindo. 
-Seu rosto me  muito familiar e sei que no  a primeira vez que conversamos. 
Quem  voc, afinal?  meu anjo da guarda? 

217 


#
-Sou uma amiga e venho acompanhando seus passos, auxiliando-o no 
que me  possvel. 

Jonef acercou-se dele tambm e disse: 

- No se preocupe, por agora, em buscar entender tudo; apenas confie 
em seu corao. Voc sabe, bem no ntimo de sua alma, que somos amigos e 
aqui estamos para ajud-lo. 
Jos sorriu, feliz, e concordou: 

-De fato, sei que esto aqui para me ajudar e agradeo profundamente. 
Sei que no teria a fora para agir corretamente, se no fosse o apoio dos 
emissrios dos cus. 
Ele ficou calado alguns instantes, fitando o olhar amoroso e doce de Elvira; 
depois, continuou: 
-Mesmo assim, devo confessar que temo pelo futuro. No sei o que ser 
de mim agora. 
Elvira, tocando suavemente suas mos, insistiu com ternura: 

- No tenha medo, Jos. Do mesmo modo que conseguiu encontrar dentro 
de voc a fora para agir com coragem e determinao, saber o que 
fazer daqui para a frente. Embora no nos possa ver com os olhos materiais, 
estaremos sempre ao seu lado; voc jamais estar sozinho. 
Os olhos de Elvira encheram-se de lgrimas, enquanto ela olhava para 
Jonef, agradecida. Fitou Jos com carinho e prosseguiu: 

- Sua jornada tem sido longa, Jos; mas Deus, que  todo misericrdia e 
bondade, nunca desampara suas criaturas. No importa quo distante dele 
escolhemos caminhar, jamais nos abandona. E  pela misericrdia divina 
que voc est despertando, enfim. 
Ainda que sem compreender bem, ele continuou atento  figura angelical 
de Elvira e s suas palavras, que lhe traziam alento e paz. Por fim, ela 
disse: 

-Agora, descanse. No esquea que sempre, haja o que houver, estaremos 
ao seu lado. 
Ajudando Jos a acomodar o corpo fludico sobre o corpo fsico, Elvira 
beijou-lhe a face na despedida: 

-Que Deus o abenoe, Ernesto. 
Passados alguns dias, Jos foi chamado outra vez a comparecer perante 
os membros do Sindrio. Pressionado para dizer o que fizera com o corpo 

218 


#
de Jesus, Jos lhes deu a mesma resposta que dera antes, e novamente no a 
aceitaram. E Caifs ameaou: 

- Olhe bem, j perdeu tudo o que possua. Quer tambm perder a vida? 
Se no nos contar o que fez com o corpo de Jesus, ns o condenaremos por 
traio! Sabe qual  a sentena, no ? 
Jos estremeceu. Respirou fundo e respondeu: 

-No posso dizer o que no sei. Se querem o corpo de Jesus, definitivamente 
no sou eu quem pode entreg-lo. 

Mais uma vez, cheio de dio e desejo de vingana, Caifs mandou que 
trancassem Jos na cela. E repetidamente, durante algumas semanas, ele foi 
levado  presena das autoridades, interrogado e devolvido  cela. Jos emagrecera 
alguns quilos desde sua priso, pois a comida que recebia era em 
pouca quantidade e de pssima qualidade. 

Quando o retiraram do Sindrio, finda outra sesso de interrogatrio, os 
sacerdotes e ancios permaneceram no salo, determinados a pr termo quele 
julgamento. Caifs, sentado em sua ampla poltrona, ouvia os comentrios: 


- Temos de acabar de uma vez com esse julgamento. No podemos continuar 
com esse vaivm. 
- No temos provas contra ele. 
-E por isso iremos solt-lo? 
- No digo solt-lo, mas tambm no podemos conden-lo! 
-Ele aviltou nossa terra e rebelou-se contra nossa religio, ao enterrar 
um crucificado. Voltou-se contra ns! Logo um membro de nosso tribunal! 
Ans levantou-se e pediu: 

-Silncio, senhores. 
O salo, aos poucos, aquietou-se. Ans prosseguiu: 
- O sumo-sacerdote me permite falar?
- Como no?  o nosso mais ilustre membro! 
- Pois bem, senhores: no aconselho que condenemos Jos de Arimatia. 
Por muitos anos ele foi um respeitvel e reconhecido membro desta casa. Se 
o sentenciarmos e o executarmos, todos sabero que dentro do Sindrio existem 
simpatizantes do nazareno, e isso poder fortalecer seus seguidores e 
influenciar o povo. No, senhores, neste caso, o ostracismo  a melhor alternativa. 
Virando-se para o escrivo, ele perguntou: -Jos tem recebido visitas? 

219 


#
O homem vasculhou alguns pergaminhos, e por fim respondeu: 

- No, ningum. 
- Entendem o que estou dizendo? Ele ficar esquecido, para sempre. 
Deixemo-lo entregue  prpria sorte. Morrer desprezado e abandonado. 
Satisfeito, Ans constatou que os companheiros compreendiam seu raciocnio 
e concordavam com ele. Leve bur-burinho seguiu-se  sua colocao, 
mas depois o silncio retornou ao salo. Ans sentou-se, enquanto dizia, 
esboando malicioso sorriso: 

-Deixemo-lo apodrecer na priso. 

Quando os guardas levaram Jos de volta  cela, um deles disse: 

-Vai acabar seus dias nesta cela.  melhor que diga logo onde ps o traidor. 
No v que no recebe sequer uma visita? Ningum fala em sua defesa! 
Sua famlia o abandonou, e nenhum dos seguidores do tal nazareno se interessa 
por voc. Por que no o entrega logo? 

Jos fitou o guarda que o interpelava, sem foras para responder. Entrou 
cambaleante e sentou-se na cama, a ponto de desfalecer. Pesadas lgrimas 
corriam por seu rosto quando, minutos aps ser trancada a porta da cela, o 
espao acanhado comeou a encher-se de intensa claridade. Uma luz ofuscante 
invadiu o ambiente e Jos mal podia erguer a cabea, cobrindo os olhos 
com o brao. De sbito, infinita paz e intraduzvel alegria inundaram-
lhe o corao. Ouviu, ento, a voz doce e amiga do Mestre dos Mestres: 

- No tema, Jos, sou Jesus, e quero falar-lhe. Envolvido por sua energia 
divina, Jos ajoelhou-se e, encostando a testa no cho, clamou: 
- No sou digno de que fale comigo! Jesus, ento, ergueu-o delicadamente 
e disse: 
-Esquea o passado, Jos. Olhe para o futuro. Milhes de almas necessitam 
conhecer as verdades libertadoras que vim trazer ao mundo, e os trabalhadores 
so poucos. Se quiser, tenho muito trabalho para voc. Junte-se 
queles que vo disseminar o Evangelho sobre a Terra e no tema, que eu 
sempre estarei com voc. Leve a Boa Nova aos lugares mais distantes, que 
outros precisariam de muito mais tempo para alcanar. Voc conhece as 
regies longnquas; leve aos povos dessas terras meus ensinamentos. 
Do lado de fora, os guardas, assustados, percebiam a luz que brilhava na 
pequena cmara, e no conseguiam enxergar em seu interior. Um deles ficou 
vigiando, enquanto o outro foi  procura do chefe, que tinha a chave, 
para verem o que acontecia. 

220 


#
Quando o chefe da guarda chegou, a luz quase desaparecera por completo. 
Ele ento perguntou: 

-O que est havendo, afinal? 

- No sabemos -respondeu o que ficara vigiando. Entraram na cela e encontraram 
Jos sentado na cama, em estado de deslumbramento. Sorria, 
sereno, e seu rosto irradiava suave luminosidade. Assombrados, os guardas 
saram de imediato, trancaram a porta e se entreolharam sem atinar o que 
havia acontecido. O chefe dos guardas determinou: 
- No contem a ningum o que pensamos ter visto nesta cela.  mais 
prudente... 
Depois de ter recebido a mais importante das visitas que poderia desejar, 
Jos encheu-se de nimo e de esperana. Seu corao transbordava de alegria 
e ele aguardava, ansioso, o momento de comear o seu testemunho. 

Os dias se passaram. Jos foi posto mais algumas vezes diante do Sindrio, 
com intervalos de tempo cada vez mais espaados, e por fim ficou esquecido 
na priso, por longo tempo. Mesmo assim, ele esperava, confiante, 

o momento de atender ao chamado do seu Mestre. 
CAPTULO 43 

Logo que Jos foi preso, Nicodemos retirou-se do conselho, alegando 
questes de sade. Muitos dos colegas tentaram enred-lo em acusaes, 
mas imediatamente aps apresentar seu pedido formal de desligamento do 
Sindrio ele empreendeu longa viagem. Antes, porm, foi ter com Pilatos, 
na esperana de obter ajuda para a libertao de Jos. Encontrou o governador 
indiferente e aptico: 

- No poderei ajud-lo, infelizmente. Estou sendo transferido temporariamente 
para outra regio. Sinto muito, Nicodemos, mas ter de resolver o 
problema de Jos junto ao seu prprio povo. Alm do mais, estou farto das 
desagradveis e infindveis discusses com os sacerdotes; de todos os povos 
que j conheci, o seu  o mais difcil. 
Nicodemos encarou Pilatos com profunda tristeza e tentou uma vez 
mais: 

221 


#
-Temo pela vida de Jos. Caifs ainda est irritado com tudo o que aconteceu 
com Jesus, e o desaparecimento do corpo apenas agravou a situao. 

Pilatos, que estava sentado  mesa, assinando mandados e preparando 
suas ltimas ordens antes de desligar-se do governo da Judia, ergueu os 
olhos e respondeu: 

-O tempo esfriar os nimos de seus lderes religiosos. Por ora eu no 
quero saber de seus problemas. Deixe que se passe algum tempo e depois 
volte para conversarmos. Farei tudo para retornar em breve ao governo da 
Judia, e ento veremos o que  possvel fazer em favor de Jos. 
-Mas isso poder demorar muito. 

-  justamente o tempo que poder ajud-lo. Qualquer tentativa de demover 
o conselho do Sindrio neste exato momento ser intil e poder piorar 
ainda mais a situao.  preciso esperar at que esqueam o dio que 
alimentam contra Jesus e seus seguidores. 
Nicodemos suspirou e, fitando o governador da provncia, perguntou: 
-E ser que esse dio vai um dia desaparecer? 

- Por certo, Nicodemos. Aguarde, no tenha pressa. 
- doloroso pensar em Jos sozinho, preso... Levantando-se e indo em 
direo  porta que dava para o interior do pretrio, Pilatos concluiu: 

- Antes preso do que morto. Adeus, Nicodemos. 
Nicodemos despediu-se de Pilatos e saiu. Triste e desnorteado, foi at os 
limites da cidade e sentou-se. Observando o movimento constante de viajantes, 
meditava no que deveria fazer. Sentia-se desanimado e sem estmulo 
para retomar seus afazeres cotidianos e, depois de muito pensar, decidiu 
procurar os discpulos de Jesus. Voltou para casa e em alguns dias, feitos os 
preparativos, partiu para a Galilia. 

Procurou por Joo, que o recebeu alegre: 

- Nicodemos, como  bom v-lo... Que faz na Galilia? 
-Senti-me desnorteado e resolvi procurar os mais ntimos do Mestre, talvez 
para fortalecer-me. 

Joo continuou atento. Aps breve pausa, ele disse: 

-Jos de Arimatia est preso. 

Joo acomodou o visitante em cadeira confortvel, sentou-se ao seu lado 

e perguntou: 
-Sob que acusao o prenderam? 
-Traio. 

222 


#
- Foi por ter pedido o corpo de Jesus para ser sepultado, no ? 
- Sara e o pai o acusaram de ser seguidor de Jesus. Como o sepultamento 
j deixara os membros do Sindrio suficientemente irritados, no foi necessria 
mais nenhuma incriminao. 
- Eles o julgaram devidamente? 
- Ainda o esto interrogando, mas no tenho participado. Retirei-me em 
definitivo do conselho. 
Joo tocou fraternalmente o brao de Nicodemos: 

- Meu bom Nicodemos... 
- E sobre o corpo do Mestre, tm alguma notcia? 
-Ento ainda no sabe? 
-O qu? 
-Jesus no est mais entre os mortos. Ele ressurgiu! 
- O que me diz? 
- Temos estado com ele, Nicodemos. Ele nos tem orientado quanto ao 
futuro que nos espera, e as dificuldades que haveremos de enfrentar para 
difundir a Boa Nova pelo mundo. 
Nicodemos ouvia com ateno e,  primeira pausa, disse: 
-Ento as mulheres falaram a verdade... A morte no o deteve... 
Joo continuou: 


- Ele nos ensinou como viver em paz e como enfrentar os momentos difceis; 
acima de tudo, ensinou-nos o verdadeiro amor. 
-Gostaria muito de poder ver nosso Mestre. 

- Pois fique conosco. Jesus ainda estar entre ns por algum tempo, at 
voltar para seu lar espiritual, que tambm o aguarda. 
-No sei... 
-Fique, Nicodemos. Muitos ainda esto assustados e com muito medo; 
por isso estamos organizando pequenas reunies noturnas em que Jesus 
muitas vezes vem nos encontrar. Fique pelo menos um pouco. 

Nicodemos no respondeu. Encostou-se na cadeira, fechou os olhos e 
evocou a figura doce e meiga de Jesus. Depois, abrindo os olhos, disse: 

- Ficaria muito feliz em permanecer alguns dias com vocs. 
Joo abraou-o e disse: 
-  sempre bem-vindo. 
-E quanto aos outros, pensaro o mesmo? 
223 


#
- No se preocupe, Nicodemos. Devemos aprender que somos irmos e 
que Jesus precisa de todos ns para levar suas lies ao mundo. 
Nicodemos ficou com os discpulos mais do que pretendera. Ele esperava 
poder conversar com o Mestre, falar-lhe sobre Jos e pedir-lhe ajuda. 
Certa noite, perguntou a Joo: 

-J estou aqui h muitos dias, e ainda no pude ver Jesus... 

-Antes que ele volte ao lar, certamente falar conosco uma vez mais; ento 
voc ter oportunidade de v-lo. 

Nicodemos, apreensivo, foi mais uma vez at o local onde se reuniam. 
Queria pedir o auxilio de Jesus e entender muitas coisas. O encontro acontecia 
em meio a tumbas abandonadas, com poucas pessoas. Joo explicara a 
Nicodemos que tinham de ser muito cuidadosos com os prprios judeus, que 
espreitavam, procurando motivo para prender os seguidores do Mestre. Acomodaram-
se. Pedro conduziu a reunio, com perceptvel emoo na voz. 

Estavam juntos havia algum tempo, quando o lugar subitamente encheu-
se de luz. Jesus surgiu diante deles, resplandecente. Ao v-lo, Nicodemos 
ajoelhou-se, profundamente comovido. Lgrimas corriam-lhe pela sua face 
e ele no podia dizer palavra. Seu corao batia descompassado. Sentindo a 
energia pura e imensa que de Jesus emanava, Nicodemos deixou-se ficar, 
envolvido pela intraduzvel alegria de sua presena. 

O Mestre falou-lhes naquela noite e comunicou que seria seu ltimo encontro. 
Em breve, retornaria aos paramos espirituais de onde havia descido. 
Recomendou que seus seguidores se unissem mais, pois precisariam estar 
fortes para enfrentar os desafios que viriam. E reafirmou: 

- Nisto conhecero que so meus discpulos: se se amarem uns aos outros. 
Jesus despediu-se da assemblia e logo depois todos regressaram para 
seus lares com os coraes jubilosos. 
Nicodemos ainda estendeu a visita aos discpulos de Jesus. Encontrou-se 
com Maria de Magdala, que imediatamente lembrou-se dele e perguntou: 

- Como est Jos de Arimatia? 
-Infelizmente, est preso. 
Ele contou em detalhes a priso de Jos e sua situao no cativeiro. Por 
fim, visivelmente entristecido, disse: 
-Nem sequer pude v-lo. Temi que me prendessem tambm, o que seria 
intil. Mas no deixo de pensar nele e de pedir a Deus por sua vida. 

224 


#
Maria sorriu e respondeu: 

-Continuemos a orar por ele. Decerto, Jesus tem planos para Jos. Nicodemos 
sorriu ligeiramente, e calou-se. 

As reunies prosseguiam e se intensificavam. O nmero de cristos que 
delas participavam tambm aumentava dia a dia. 

Depois de uma estada prolongada, Nicodemos decidiu que era hora de 
voltar para casa. Despediu-se dos amigos: 

- Vou retornar a Jerusalm. No posso ausentar-me por mais tempo de 
minha casa e de minha famlia. Sabe se h cristos se encontrando em Jerusalm, 
Joo? 
-Tenho notcias de que um pequeno grupo comeou a se reunir. 

- Vou juntar-me a eles e auxili-los em tudo o que me for possvel. 
- Se acontecer de ver Jos, leve meu abrao e a certeza de que Jesus est 
com ele. -disse Joo ao abraar o amigo. 
Nicodemos regressou a Jerusalm e  sua famlia. Retomou seus negcios 
e procurou o pequeno grupo de que Joo lhe falara. Somando esforos, 

o grupo comeou a crescer. 
O tempo passava. Jos ficara esquecido, largado na priso. Recebia alimento 
dentro da cela e saa de l muito raramente. H largo tempo no via a 
luz do sol e sentia falta do mar. Quando a saudade crescia demais, ficava 
abatido e suas foras se esvaam. 

Nesses momentos, em particular, ele recebia a visita de Elvira, que o 
consolava e fortalecia. Muitas vezes, sentava-se ao seu lado na cama, punha-
lhe a cabea sobre o colo e acariciava-lhe a fronte com ternura, pedindo: 


-Tenha f, Jos, pois haver de vencer. Confie em Jesus, mantenha a esperana. 


Naquela noite, Jos deitou-se com o corao excessivamente dodo e o 
corpo cansado. Perdera a conta do tempo que j passara preso; tinha a impresso 
de que se haviam escoado muitos anos e sentia a esperana diminuir. 
Comeava a pensar que talvez fosse mesmo acabar morrendo ali. 

Quando se deitou, lembrou-se do anjo que sempre o visitava em sonho, 
e pediu: 

- Se puder vir ver-me hoje, anjo de Deus, eu agradecerei... Estou cansado. 
225 


#
Ainda tinha lgrimas nos olhos quando adormeceu. Assim que seu corpo 
espiritual desprendeu-se do corpo denso, ele notou que tinha muitas visitas. 
Elvira disse: 

-Trouxemos uma visita muito especial.  um amigo que lhe quer muito 
bem e que est muito preocupado com voc. 

Elvira afastou-se e Joo se aproximou; sentou-se ao lado do amigo e, tocando-
lhe o brao, disse: 

- No desanime, Jos, seu suplcio no durar para sempre. Com extrema 
alegria ele fitou Joo e disse: 
-Joo, que bom v-lo, meu amigo. Como esto os outros? 

- Estamos todos bem. A luta  rdua para todos, porm estamos felizes 
por poder trabalhar para a disseminao da Boa Nova. 
Joo falou sobre as reunies nas catacumbas e o nmero de cristos que 
no parava de crescer. Narrou os fenmenos espirituais que ocorriam durante 
os encontros e relatou como muitos doentes eram curados nessas ocasies. 
Deu notcia dos outros discpulos e tambm do perodo que estivera 
com Nicodemos. Por fim, abraou-o novamente, dizendo: 

-Muitos oram por voc todos os dias, meu irmo. Jos, emocionado, fitou 
o amigo e declarou: 

Joo, como fico feliz em v-lo! Sempre nutri por voc um afeto profundo, 
como se o conhecesse h muito tempo. 

Elvira aproximou-se do discpulo amado de Jesus, abraou-o com ternura 
e, virando-se para Jos, disse: 

Joo  um grande amigo e sua tarefa na Terra conta com o apoio de 
todos ns. 

Ela fez breve pausa, e ento concluiu: 

-H muitas coisas que ainda no podemos explicar-lhe, Jos, mas que 

um dia voc compreender perfeitamente. Por ora, s pedimos que mantenha 
acesa a chama da esperana. 

CAPTULO 44 

Os dias corriam cleres. Os cristos continuavam a se encontrar s escondidas 
para orar, e juntos meditar nos ensinamentos de Jesus. O nmero 

226 


#
de seguidores das lies do nazareno crescia rapidamente e perturbava cada 
vez mais os lderes religiosos judeus. 

Pilatos nunca mais retornou  Judia. Morreu depois de ter sido afastado 
de seu posto por Csar. Alguns administradores romanos enviados  regio 
no conseguiram adaptar-se. Por fim, Csar enviou Tibrio Alexandre, um 
governador que parecia entender as difceis questes judaicas. 

To logo soube da habilidade do novo dirigente em lidar com os costumes 
de seu povo, Nicodemos solicitou uma audincia com o intuito de melhor 
conhec-lo. Discutiram os intrincados problemas polticos e religiosos 
na Judia e os negcios e oportunidades da regio como um todo. Ao se 
apresentar a ocasio, Nicodemos falou-lhe de Jos e de sua influncia no 
comrcio internacional, bem como dos excelentes resultados que ele havia 
obtido em suas exportaes. O governador, interessado, opinou: 

-Gostaria de conhecer esse judeu! Por certo poderemos fazer muitos 
planos em conjunto. 

Os olhos de Nicodemos cintilaram de esperana. No entanto, ele se conteve, 
sem alterar o tom da conversao que vinha mantendo: 

- Infelizmente Jos est preso; por motivos religiosos,  claro. 
Pego de surpresa, o governador fez uma pausa, depois lamentou: 
-  pena; no podemos fazer nada quanto a isso. No devo interferir no 
campo religioso. 

Tibrio Alexandre se levantou e emendou: 

-Pelo menos por enquanto. 

Trocaram mais algumas impresses, e logo Nicodemos despediu-se e saiu. 


O governador ficou a pensar na conversa que tivera e, por mais que tentasse, 
no conseguia afastar o pensamento de Jos. Embora ocupado com as 
interminveis audincias em que buscava familiarizar-se com as questes 
locais, e conhecer bem os cidados mais influentes e poderosos, no deixava 
de pensar em Jos de Arimatia. 

Passados vrios meses, Tibrio procurou mais informaes sobre o comerciante 
judeu. No demorou a descobrir que se tratava de um dos homens 
mais ricos da regio, e que antes de sua priso fora tambm um dos mais 
respeitados em toda a Judia. Positivamente impressionado, pediu que o 
trouxessem para uma audincia. Queria conhecer aquele Jos de Arimatia. 

227 


#
Jos foi retirado de sua cela. Durante meses no sara do estreito cubculo 
em que havia sido colocado. Os cabelos crescidos e a longa barba no 
bastavam para encobrir os negros olhos brilhantes e vivos, que cintilavam 
como estrelas no firmamento. A companhia freqente de Elvira e especialmente 
a visita espiritual de Joo haviam fortalecido sua alma, elevando-lhe 
os sentimentos e a esperana. 

Quando Jos entrou, Tibrio Alexandre mirou-o de alto a baixo, admirado 
com o corpo magro e sujo daquele prisioneiro. Movido por estranha simpatia, 
pediu que os soldados se retirassem, deixando-o sozinho com o preso. 

Assim que todos saram, ele olhou longamente para Jos, depois apresentou-
se e disse: 

-Sente-se e acomode-se. Est com fome, eu presumo. 

- Agradeo seu interesse, mas estou bem - limitou-se a responder. 
- No deseja que lhe tragam algo para comer? 
-Estou bem Jos repetiu. 
Sentindo inexplicvel desconforto, Tibrio ajeitou-se na cadeira e disse: 
- Pois bem, que seja. Quero conhec-lo melhor. Tenho ouvido muitas 
coisas a seu respeito. Algumas boas, outras nem tanto. Fale-me um pouco de 
sua vida, seu trabalho, sua famlia, suas conquistas... 
Jos sorriu ligeiramente e indagou: 

- O que exatamente deseja saber a meu respeito, senhor? 
-Quero saber tudo o que ache relevante para que eu me convena a solt-
lo. 

- Sou um seguidor de Jesus. Creio ser esse o fato mais importante no caso. 
 por esse motivo que estou preso. 

Tibrio surpreendeu Jos ao dizer: 

-Isso eu j sei. E, embora seja absolutamente sigiloso, tambm simpatizo 
com alguns dos ensinamentos do seu Mestre. Minha esposa esteve com ele e 
o ouviu falar muitas vezes. Ela me contou alguns fatos muito interessantes 
com relao queles que so chamados cristos. Mas no se empolgue muito. 
Sou apenas um simpatizante. Agora, fale-me sobre sua vida. 

Jos fitou-o espantado e, abrindo sincero sorriso, disse: 

- Acho que vou aceitar o que me der para comer. 
O elegante e jovem governador saiu por um instante da sala e ordenou 
ao servo que providenciasse farta refeio. Depois voltou e entabularam 
animado colquio. Laos de simpatia uniram de imediato os dois homens. 

228 


#
Conversaram por horas e ao final, quando se despediam, Tibrio tocou o 
ombro de Jos e garantiu: 

- No permanecer por muito tempo na priso. Tenha um pouco mais de 
pacincia. 

Jos agradeceu e saiu, levado pelos soldados romanos. 

Poucos dias depois, foi chamado novamente por Tibrio Alexandre. Este 

ento lhe disse, mostrando-lhe um pergami-nho enrolado: 
-Aqui est sua liberdade. Obtive junto ao Sindrio e estou homologando. 
Jos olhava-o entre surpreso e intrigado. Ele prosseguiu: 

- Tive longo e persuasivo dilogo com o sumo-sacerdote, Caifs. Ele 
tem muitos interesses que podem ser atendidos por Roma. No me foi difcil 
dobrar-lhe as preocupaes espirituais: a ganncia falou mais alto. Agora 
tome, Jos: sua liberdade. 
Jos esticou o brao para pegar o decreto, mas Tibrio puxou o precioso 

documento, dizendo: 
-Tenho apenas uma condio. 
Jos ficou a fit-lo sem dizer nada. Ele prosseguiu: 

-Quero que retome seus negcios de exportao e que v at a Britnia 
e outras ilhas, onde o ouro  farto e nossos minrios alcanaro valor inestimvel. 
 mente de Jos assomou o momento inesquecvel em que Jesus o visitara, 
pedindo-lhe que levasse o Evangelho a terras distantes, e de pronto ele 
respondeu: 

- Nessas viagens, depois de efetuar os negcios para Roma, poderia dedicar-
me a divulgar e Evangelho de Jesus? 

Tibrio olhou-o com simpatia e respondeu: 

-Desde que os lucros no diminuam por causa disso, nada tenho em contrrio. 


Jos estirou o corpo e disse, resoluto: 

-Serei seu servidor. 

-Muito bom. Mandei preparar um navio com tudo de que necessita; as


sim, pode viajar em breve. A tripulao est completa, mas pode recrutar 
quem mais desejar. 
Jos, mostrando estranheza, questionou: 

- Por que me d um navio, se tenho uma frota completa? 
- Porque h muito no a tem mais, meu amigo. 
229 


#
-O que diz? 
-Seus companheiros do Sindrio so ambiciosos. Voc foi expulso de 
sua religio e confiscaram todos os seus bens. Como era prisioneiro e eles, 
astuciosamente, recolheram impostos generosos, nada poderei fazer quanto 
a isso. 
-E minha famlia, em que situao se encontra? 
-Se eu fosse voc, no me preocuparia com a famlia. 


- Mas eles esto bem? 
- Decerto que sim. Foram grandemente beneficiados na partilha de seus 
bens. 
Jos empalideceu. Lembrou-se do desprezo com que Sara o fitara na ltima 
vez que a vira e imediatamente compreendeu toda a situao. Suspirou 
fundo e disse: 

-Ento, nada me resta seno aceitar sua oferta e agradecer-lhe imensamente. 


-No quero seu agradecimento, Jos; em contrapartida, aceitarei prazerosamente 
os lucros de suas operaes comerciais.  claro que ter uma 
grande parte. Com o tempo, conseguir at recompor as riquezas que perdeu. 
Jos sorriu mais uma vez e perguntou: 

-Quando posso partir? 
-Quando quiser. 
- Assim que tiver conversado com alguns amigos, estarei pronto. Venho 
informar-lhe a data exata da partida. 
- No se preocupe, envie algum de sua confiana. J ser suficiente. 
Despediram-se. Jos foi imediatamente procurar Nico-demos, que ficou 
abismado ao avistar o amigo livre. Jos contou-lhe sobre a atraente proposta 
do governador, deixando Nicodemos absolutamente satisfeito e recompensado. 
Depois de tantos anos, seus esforos tinham sido coroados de xito. 

Os dois amigos compartilharam experincias e aprendizados por quase 
dois dias. Nicodemos descreveu em mincias o que se passara com a famlia 
do amigo; a interveno do sogro e o apoio de Sara para que o Sindrio confiscasse 
os bens que lhe pertenciam. Ela e o pai, bem como os filhos, haviam 
recebido mais da metade de tudo que lhe fora tirado. Jos ouviu a narrativa 
com tranqilidade e disse apenas: 

230 


#
-Pelo menos eles no passaram por nenhuma privao na minha ausncia. 


-Certamente por nenhuma, Jos. 

- Fico feliz com isso. 
Depois de prolongado silncio, que Nicodemos no ousava quebrar, Jos 
perguntou: 
-E como esto Joo, Pedro, Tiago e todos os outros? Nicodemos sorriu 
feliz e respondeu: 
-Esto todos bem. Jesus esteve conosco depois que ressurgiu e, antes de 
voltar para sua elevada morada espiritual, orientou-nos sobre muitas coisas. 

- Esteve com ele? 
-Sim, somente uma vez. 
Jos sorriu e continuou atento. Era noite e suave brisa entrava pela janela 
aberta. De onde estava, Jos podia ver o cu cintilante de estrelas. Respirou 
profundamente, satisfeito por estar, afinal, em liberdade. Nicodemos 
prosseguia: 

- Pedro mudou-se para uma casa mais ampla,  beira da estrada da Galilia. 
L, junto com outros seguidores do Mestre, atende muitos doentes e 
necessitados, saciando-lhes o corpo e tambm a alma. So muitos os que 
acorrem  singela moradia. Ela permanece dia e noite com as portas abertas 
a todos os que ali chegam. 
- E a famlia de Pedro? 
Nicodemos hesitou por instantes, depois respondeu, tocando de leve o 
brao do amigo: 

-Eles o apoiam, Jos. 

E confortadora conversa se estendeu noite adentro. Nicodemos discorreu 

em detalhes sobre os encontros secretos dos agora chamados cristos e as 
belas reunies que aconteciam durante as madrugadas. Esclareceu ainda que 

o dio de Caifs no havia cedido o mnimo; antes, pelo contrrio, ele estava 
sempre  procura de oportunidades para submeter seguidores de Jesus ao 
arbtrio do Sindrio. A perseguio era constante e acirrada. 
Era quase manh quando Jos e Nicodemos se recolheram para o descanso. 
Poucas horas depois, Jos j estava de p, preparando-se para se despedir 
do amigo. Ao v-lo pronto para sair, Nicodemos indagou: 

- Por que tanta pressa? Jos sorriu e respondeu: 
231 


#
- Jesus me pediu que levasse o Evangelho a terras distantes. Estou certo 
de que foi ele quem garantiu minha sada da priso, e no quero decepcion-
lo. Vou partir o mais depressa possvel e comear a executar minha tarefa. 
H muitos que precisam ouvir sobre Jesus e seus ensinos luminosos. 
Nicodemos comentou: 

- Poderia levar alguns cristos, para que o ajudem. Os sacerdotes esto 
no encalo de vrios de nossos irmos. O que acha? 
- Seria timo! Tenho autorizao para levar quem eu deseje. 
-Pois vou j procur-los e arranjar tudo. 
Aps acertarem os pormenores para o encontro com os amigos cristos, 
Jos saiu. Haviam sido mais de treze anos na priso e finalmente tomara um 
banho agradvel, cortara os cabelos e aparara a barba. Tal como Nicodemos, 
ele tinha os cabelos mais grisalhos do que na poca em que fora preso. 

Caminhou por algum tempo pelas ruas de Jerusalm e acabou por se aproximar 
de sua antiga residncia. Aos ps da escadaria, hesitou. Olhou para 
a esplndida manso e observou os admirveis detalhes da construo. Estava 
distrado, quando Timteo chegou sutilmente dizendo: 

- Senhor! Soube que havia sido libertado, mas tomei a notcia como um 
falso boato. Vejo que felizmente  verdade. 
- Como esto todos, Timteo? 
-Bem, senhor. 
-Gostaria muito de v-los antes de partir. 
- Sinto muito, mas a senhora Sara o probe de entrar. Ela o viu pela janela 
e ficou muito nervosa. Ameaa chamar os soldados do Sindrio, se o senhor 
insistir. Ofereci-me para falar-lhe. Por favor, eu sei que j sofreu muitas 
humilhaes. No necessita passar por mais esta. Ela no o compreende, 
senhor. Ser intil qualquer tentativa de entendimento. 
Jos baixou a cabea, limpando as lgrimas que lhe desciam pelo rosto. 
Seu corao estava profundamente dolorido, machucado pelo desprezo daqueles 
que eram os seus mais prximos na Terra. Olhou para Timteo e 
perguntou: 

- Como esto meus filhos? 
- Eles esto bem, senhor. 
Jos calou-se. Timteo o observava, igualmente em silncio, at que Jos 
concluiu: 

232 


#
- Muito bem, Timteo, leve um recado aos meus filhos. Diga-lhes que 
sinto muito por ter de me afastar deles e que, se um dia eles quiserem me 
ver e falar comigo, ficarei feliz, muito feliz em estar com eles. No guardo 
ressentimentos. Meu corao est aberto para eles a qualquer momento - 
inclusive para Sara. 
Timteo assentiu com a cabea e garantiu: 
-Fique tranqilo, transmitirei o recado. 


CAPTULO 45 

Na manh seguinte, antes que o sol raiasse, Jos de Arimatia partia em 
sua primeira viagem  regio da Britnia. Levava grande quantidade de estanho 
para comercializar com os povos daquelas terras distantes. Com ele 
partiram tambm Felipe, Maria de Magdala, Marta, Lzaro e alguns outros 
cristos que vinham sendo alvo da suspeita dos sacerdotes. 

Logo estavam no porto e mais tarde em alto mar. A viagem transcorreu 
calma. Jos, do convs do navio, sentia com prazer o vento a soprar-lhe os 
cabelos. Estava em paz. Comeava uma nova etapa em sua vida e seu corao 
transbordava de contentamento, por ver sua esperana recompensada 
com a to desejada liberdade e a possibilidade de trabalhar para Jesus. 

A empreitada comercial foi um grande sucesso, e outras se seguiram, igualmente 
lucrativas. Tibrio Alexandre estava muito satisfeito com os resultados 
que tais viagens proporcionavam. 

Entretanto, os maiores beneficiados no eram os cofres romanos. Jos e 
os companheiros se tornaram ativos missionrios do Evangelho, levando os 
ensinos de Jesus s regies mais longnquas. Com tamanha alegria compartilhavam 
a Boa Nova, e o fato de que o Messias to esperado por fim descera 
 Terra, que muitos aderiam aos princpios cristos. Logo fundaram o 
primeiro ncleo na Britnia. Depois de alguns anos dedicados ao trabalho 
missionrio em terras estrangeiras, Maria de Magdala e outros cristos voltaram 
 Palestina. 

Jos tornou-se um incansvel e eloqente pregador. Trabalhava arduamente 
para atender s expectativas que Tibrio depositava nele e, to logo 

233 


#
obtinha os seus objetivos, dedicava-se com alegria e intensidade quilo que 
realmente amava: falar de Jesus e levar conforto e ajuda aos coraes necessitados. 


Sempre que comparecia  presena do governador para os acertos de 
contas sobre os negcios, recebia polpudas comisses. Ele retirava o indispensvel 
para o prprio sustento e, do excedente, enviava uma parte para os 
amigos na Britnia e outra para Pedro e Joo utilizarem com os abrigados na 
casa do caminho. 

Quanto mais crescia o lucro obtido com seus negcios, mais aumentavam 
os recursos doados por Jos. Para si mesmo, quase nada tirava. Ele realmente 
entregara tudo o que possua nas mos de Jesus. 

O tempo seguia seu curso. Depois de Tibrio, outros ocuparam o cargo 
de procurador na Judia. Na tentativa de evitar maiores conflitos com os 
judeus, Csar procurava trocar com maior freqncia o titular do cargo administrativo 
na regio. No entanto, nenhum deles aventurou-se a retirar Jos 
de Arimatia da funo que exercia. Embora os detentores do poder do Sindrio 
sempre tentassem difamar e destruir Jos, os lucros que ele oferecia 
ao Imperador eram significativos demais para serem colocados em risco. 
Assim, Jos envelhecia feliz pela escolha que fizera, trazendo o corao 
sereno e em paz. Vez por outra ainda lhe doa a saudade de Sara e dos filhos, 
porm ele nunca mais tornara a v-los. 

Muitos anos se passaram. Naquela manh o mar estava mais agitado. 
Durante a noite fortes ventos tinham desviado o navio da rota e fora com 
dificuldade que Jos, ao lado do timoneiro, conseguira recoloc-lo no rumo 
pretendido. 

Amanhecia quando Jos finalmente desceu ao quarto, para descansar. 
Sentou-se na cama, sentindo-se exausto. Dedicava-se to intensamente aos 
compromissos com Jesus que mal descansava. Deitou-se e fechou os olhos, 
procurando dormir. De sbito, inexplicvel melancolia apossou-se dele, ao 
mesmo tempo em que forte dor no peito o acometeu. Ele gritou por ajuda e 
em alguns instantes o seu quarto estava cheio. Ajoelhado  beira da cama, 
um mdico o examinava. Depois, virando-se para os outros, disse: 

-Lamento muito, mas no creio que nosso amigo suportar at o fim da 
jornada. Parece que seu corao est fraco. 

- Quer que voltemos a Jerusalm, Jos? -perguntou o timoneiro. 
Mal conseguindo falar, ele sussurrou: 
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-No, prossigamos at o final da viagem. Se eu no suportar, lancem 
meu corpo ao mar. 

Alguns dos marinheiros eram judeus e um deles disse: 

-Se algo lhe acontecer, senhor, dever ser enterrado em sua terra, junto 
dos seus. 

Jos sorriu, segurou a mo de Nicodemos, que daquela vez os acompanhava, 
e afirmou: 

- Estou em casa. 
Depois arqueou o peito, voltando a gritar de dor, e ento silenciou. Suas 
mos se desprenderam das do amigo, que as colocou sobre seu peito e, fechando-
lhe os olhos, disse profundamente emocionado: 

-Descanse, valente servo de Jesus. 

CAPTULO 46 

Elvira, ao lado de Jos, acompanhava com igual emoo o esenrolar dos 
fatos. Assim que os olhos dele se fecharam para o mundo material, sua alma 
despertou, cheia de luz, no plano espiritual. Elvira o aguardava de braos 
abertos e o saudou com alegria: 

- Que o Deus da glria o abenoe! Bem-vindo ao lar, amor de minha alma. 
Jos de Arimatia fitou aquele rosto meigo, a mir-lo com ternura, e depois 
de algum tempo recordou-se da mulher to amada, que aparecia em 
todos os seus sonhos. Abraou-se a ela e ainda enfraquecido sorriu, dizendo: 

- Como  bom v-la! Como  bom estar de volta, sobretudo com a paz 
que sinto no corao.
- a paz abenoada que flui de todos os coraes que cumprem o seu 
dever. Que Deus o abenoe. 
Outros que tambm testemunhavam o sublime momento se juntaram a 
eles, abraando o amigo e celebrando a grande conquista de sua trajetria 
terrena. Reunidos, partiram para colnia prxima, que aguardava Jos para o 
refazimento aps o desencarne. 

235 


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Ali chegando, foram acolhidos com extrema alegria, expressa em cnticos 
de jbilo e gratido a Deus. O governador da colnia recebeu Jos pessoalmente: 


-Amado irmo, que Deus o abenoe! Que o seu infinito amor o envolva 
e recompense seus esforos no bem! 

Jos, que  medida que se recordava de sua realidade espiritual tinha o 
corpo etreo transmutado outra vez na antiga forma de Ernesto, sorriu e notou 
que pela primeira vez seu corpo espiritual emitia luz prpria. No a 
mesma luz que via em sua amada Elvira, cujo brilho tornava seu contorno 
to fulgurante que era difcil para ele fix-la sem ter a vista ofuscada. Mas 
ele adquirira luz. Ainda era tnue, mas estava presente, brilhando com suavidade. 


Depois do encontro efusivo, ele retirou-se para o repouso necessrio. 
Alguns dias foram suficientes para que Ernesto se recuperasse da pequena 
perturbao que o desenlace terreno lhe causara. Assim que o viu refeito, 
Elvira convidou-o a participar de importante reunio. 

Ocupando lugar na tribuna, Ernesto foi recebido carinhosamente pelos 
amigos da colnia, participando de cerimnia encantadora de boas-vindas a 
grande nmero de espritos que acabavam de regressar. Em determinado 
momento, o governador proferiu sentida prece e pediu a todos que focassem 
os pensamentos no Mestre Jesus, agradecendo seus esforos pelo bem da 
humanidade terrena. No centro da tribuna surgiu radiosa luz e, projetada a 
distncia, a imagem de Jesus se fez visvel, tal qual fora conhecida em sua 
passagem recente pelo planeta. Seu semblante amoroso comoveu a todos os 
presentes, que derramavam lgrimas de alegria e gratido por aquele ser 
luminoso, que ainda trazia as marcas da coroa de espinhos na testa resplandecente. 
Jesus, ento, disse: 

- Que Deus, nosso Pai, abenoe a todos. Que seu amor infinito os fortalea 
hoje e sempre. Meus queridos irmos, hoje  um dia de alegria. Muito 
embora os homens ainda sofram por manter-se afastados do Pai, o Evangelho 
se espalha por toda a Terra. No ser sem dor e sofrimento, porm a 
transformao acontecer. Testemunhamos essa conquista gloriosa nas almas 
de muitos irmos que aqui esto; que puderam, por fim, resgatar os 
dbitos com as justas leis divinas e hoje esto preparados para voltar ao verdadeiro 
lar. Nosso querido planeta Terra comear a despertar lentamente 
para sua destinao gloriosa, para sua realidade espiritual. O caminho a per236 


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correr ainda  ngreme. Muitos havero de sofrer, por causa do meu nome. 
Mas aqueles que perseverarem tero a vitria, como vocs nesta noite. A 
jornada  penosa e precisamos de todos aqueles que, com o corao cheio de 
amor, queiram prosseguir auxiliando os irmos que ainda esto distantes da 
luz de Deus. 

E dirigiu-se mais especialmente ao grupo de capelinos que, em p, o escutava 
atentamente: 

- Longa foi a sua trajetria, irmos, permeada pela dor e pelo sofrimento. 
Agora, com a beno do Pai, que  todo justia e todo bondade, esto 
livres para retornar ao seu verdadeiro lar. 
Os componentes do reduzido grupo se entreolharam cheios de contentamento. 
Finalmente, poderiam regressar ao lar, onde entes saudosos os aguardavam. 
Alguns choravam de alegria, outros apenas sorriam, cheios de 
gratido quele Mestre que os ajudara to amorosamente no resgate de suas 
almas. 

O Divino Amigo prosseguiu esclarecendo e orientando a grande audincia. 
Explicou mais uma vez que enviaria, no futuro, na plenitude dos tempos, 
quando a humanidade estivesse mais preparada, o Consolador, na pessoa 
de diversos amigos dedicados que iriam instruir a humanidade naquilo 
que ele mesmo no pudera transmitir at aquele momento, desvendando os 
mistrios do mundo espiritual. E uma vez mais convidou a todos para continuarem 
unidos, amando e servindo a Deus, dedicando-se ao progresso daquela 
humanidade que apenas iniciava o seu despertar. 

A inesquecvel reunio prolongou-se at o amanhecer terreno. O grupo 
de capelinos preparava-se para partir. Ernesto, entretanto, mantinha-se calado, 
profundamente compenetrado. Elvira, que h muito o observava, aproximou-
se e perguntou: 

- Quer mesmo permanecer no orbe da Terra? Erguendo os olhos lmpidos, 
ele respondeu: 
- Gostaria de voltar com os outros, sempre desejei regressar ao lar. Mas 
meu corao transborda de gratido a Jesus pelo seu infinito amor, e seu 
exemplo de renncia toca o fundo da minha alma. Como posso afastar-me 
agora deste planeta, to carente de luz, de auxlio e de amor? Como posso 
manifestar a Jesus minha gratido eterna, pela conquista de minha alma para 
Deus, seno ficando aqui e engrossando a fileira daqueles que cooperam 
com o Senhor? 
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Elvira o ouvia emocionada; ele prosseguiu: 

- No, amada Elvira, no posso regressar, ainda. Sei que voc compreende 
meus sentimentos. Vou me oferecer para ficar e colaborar com o advento 
do Consolador ao planeta. Alm do mais, nosso querido Henrique est 
na Terra, enfrentando pesados aguilhes, preso na ilha de Patmos; quero 
ajud-lo. Em alguma coisa, minha experincia poder auxiliar. Mas eu voltarei. 
Assim que o Consolador descer  Terra e lanar suas razes, eu irei 
encontr-la, minha amada. 
Lgrimas desciam pela face de Elvira, que, satisfeita, respondeu: 

- Vejo que a sua transformao  completa e compreendo o que deseja 
fazer. Estarei com voc sempre que me for possvel, auxiliando-o e colaborando 
com suas experincias. 
E abraando Ernesto com imenso carinho, ela disse: 

- Que Deus o abenoe e o ajude na tarefa sublime que se prope realizar 
com Jesus. Que seu corao experimente a paz perfeita, todos os dias. E 
sempre que quiser falar comigo,  s me chamar e estaremos juntos, em 
pensamento. 
Ernesto abraou Elvira demoradamente, despedindo-se mais uma vez 
daquele anjo em forma de mulher. Ela se afastou e juntou-se ao grupo que 
partia rumo ao sistema de Capela. Ele permaneceu em p, observando a caravana 
desaparecer. 

Leve melancolia apossou-se do corao de Ernesto, que logo procurou o 
grupo de trabalhadores da colnia e ofereceu-se para o servio que tivessem. 
Queria contribuir para a redeno da humanidade, para a conquista das almas 
rumo ao seu destino glorioso junto ao Criador. 

"Quando o homem gravar na prpria alma 
Os pargrafos luminosos da Divina Lei, 
O companheiro no repreender o companheiro, 
O irmo no denunciar outro irmo. 
O crcere cerrar suas portas, 
Os tribunais quedaro em silncio. 
Canhes sero convertidos em arados, 
Homens de armas volvero  sementeira do solo. 
O dio ser expulso do mundo, 
As baionetas repousaro, 


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As mquinas no vomitaro chamas para o 
incndio e para a morte, 
Mas cuidaro pacificamente do progresso planetrio. 
A justia ser ultrapassada pelo amor, 
Os filhos da f no somente sero justos, 
Mas bons, profundamente bons. 
Aprece constituir-se- de alegria e louvor 
E as casas de orao estaro consagradas ao trabalho sublime da 
fraternidade suprema. 
A pregao da Lei 
Viver nos atos e pensamentos de todos, 
Porque o Cordeiro de Deus 
Ter transformado o corao de cada homem 
Um tabernculo de luz eterna, 
Em que o seu Reino Divino 
Resplandecer para sempre." 


Do livro "Po Nosso"-Psicografado por Fransco Cndido Xavier Pelo 
Esprito Emmanuel-FEB. 

Para saber mais sobre a saga dos capelinos e o desenvolvimento espiritual 
da Terra, leia tambm: 

A CAMINHO DA LUZ Emmanuel -Francisco Cndido Xavier - FEB 

Este livro enfoca, desde a gnese planetria at as perspectivas para o 
futuro da humanidade. 

OS EXILADOS DA CAPELA EdgardArmond - Editora Aliana 

Obra que trata de forma abrangente a evoluo espiritual da humanidade 
terrestre, segundo tradies profticas e religiosas, apoiadas em consideraes 
de natureza histrica e cientfica. 

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Para conhecer melhor os princpios espritas, recomendamos a leitura 
dos seguintes livros: 

O QUE  O ESPIRITISMO (1859) Allan Kardec 
Esta obra refere-se s noes elementares do mundo invisvel e contm 

o resumo dos princpios da Doutrina Esprita. Allan Kardec esclarece de 
forma objetiva e sinttica, que o Espiritismo  uma cincia que trata da natureza, 
origem e destino dos espritos, bem como de suas relaes com o 
mundo corporal. 
O LIVRO DOS ESPRITOS (1857) Allan Kardec 

Lanado em 18 de abril de 1857, este livro  a pedra fundamental do espiritismo, 
sobre ele ergue-se toda a estrutura da Doutrina Esprita. 

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO (1863) Allan Kardec 

Este livro contm comentrios e explicaes dos ensinamentos de Jesus, 
sua concordncia com o Espiritismo e sua aplicao s diversas situaes 
cotidianas da vida.  o Cristianismo, em sua mais pura essncia. Alm disso, 
seus ensinos consolam e facultam paz a todos quantos lhe buscam as 
pginas iluminadas. 
